

Epitáfio
Naquela manhã, como em todas as outras, trabalhávamos árdua e silenciosamente quando um choro gritante e compulsivo chamou a atenção de todos. Num surto de histerismo e entre lágrimas um rapaz gritava ao telefone:
_ Minha mãe morreu, minha mãe morreu!
Após 4 meses sem trabalho, finalmente consegui a concretização do meu sonho de consumo empregatício, arrumei emprego e fui atuar numa agência de publicidade localizada num dos pontos comercialmente mais badalados da cidade. Logo no primeiro dia me chamou atenção aquelas cores vibrantes que davam um tom alegre à decoração, tudo era muito moderno. Mesas longas e dispostas em paralelo eram ocupadas por cada equipe de criação e seus respectivos produtos. Mesmo trabalhando em contas diferentes, elas concorriam entre si. Vinda de uma empresa que distribuía produtos automotivos na qual predominava o barulho das televendas, agora eu “ouvia”, dentro daquele ambiente elegante, um também requintado silêncio, enfim, havia capricho desde o uniforme da copeira até a beleza informal das vestimentas dos funcionários, todos bonitos, esguios e alinhados. Como contraste apenas o antipático aviso de não permissão para uso do forno de microondas para aquecer líquidos ou alimentos que pudessem provocar odor forte, mas até isso se justificava.
Imediatamente todos os rostos se voltaram para o pobre moço que acabara de ficar órfão. Enquanto ele era levado para a sala da chefia, as pessoas tentavam dominar a emoção (muito triste a perda de mãe). De cabeça baixa e tentando conter as lágrimas que me escorriam, continuei meu trabalho. Pensei até em ligar pra minha mãe, mas que mãe, se também não mais a tinha? Olhei à minha volta e percebi que todos eram solidários, a choradeira foi geral.
Antes só silêncio, agora só tristeza. Até a secretária da diretoria, normalmente muito sóbria, correu para a copa aos prantos. Naquela altura o sentimento de perda já tomava conta de todos e o mocinho continuava gritando e chorando. Então a lembrança do velório da minha mãe me veio à mente, onde meu pai demonstrava um desespero total, porém logo amenizado, naquela mesma noite, quando foi se consolar dormindo nos braços da amante. Sobreveio outra pergunta: será que o rapazinho tem pai? Se tiver, agiria de outra forma ou se confirmaria a velha tese sempre recorrente de que, nesse aspecto, todos os homens são iguais?
Com o fim dos soluços, alguém comentou que a mulher estava hospitalizada há dias e em estado grave, mas o rapaz não esperava a morte da mãe. Acho até que ninguém espera a morte de um ente querido, como se isso só acontecesse na família dos outros. Já aparentemente um pouco mais calmo, o moço foi conduzido pelo próprio gerente ao hospital.
Situação normalizada, paulatinamente todos foram voltando ao trabalho e o expediente seguiu como se nada tivesse acontecido até que o silêncio foi novamente entrecortado, desta vez pela voz estridente da chefe do Departamento de RH - Que tal se encomendássemos uma coroa de flores? - ninguém respondeu, até porque só ela tinha poderes para efetuar a compra, mas acho que entendeu aquilo como concordância e logo pegou o telefone. Antes de digitar, ainda perguntou para que endereço e com que mensagem deveria ser enviada a coroa. Alguém sugeriu uma frase que nem lembro, mas bem criativa e que fugia ao lugar comum, ainda porque criatividade era o que menos podia faltar num meio onde predominavam marqueteiros.
Algum tempo depois e o gerente retornou, tendo em seu rosto uma expressão no mínimo curiosa, parecia uma “tristeza engraçada”, realmente estranha. Ao colocar sua pasta na mesa, falou em voz baixa:
_ Alarme falso!
Alarme falso? Como? A mulher não havia morrido? O que poderia ter acontecido?
Interveio a do RH :
_ Como é gente? Morreu ou não morreu? A coroa já está pronta.
Houve então o esclarecimento de que o pai do “ex-órfão” havia recebido uma ligação do hospital pedindo a sua presença urgente, ele subentendeu que a esposa havia morrido, ligou para o filho e deu a notícia. Só que a presença tinha sido solicitada tão somente para autorizar uma cirurgia de emergência. Diante daquela tragicomédia, novas perguntas emergiram em meus pensamentos:
Será que ela escapa dessa? O que a chefe do RH vai fazer com a coroa? Para quem seria guardado aquele epitáfio tão criativo?...
Márcia Rodrigues
15.05.2010

Poesia
Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Carlos Drummond de Andrade

Epístola
Quando vi, pela primeira vez, aquela dupla de pares de olhos, senti a emoção da continuidade. Gêmeas, elas eram gêmeas, não idênticas, mas duplamente belas. Mesmo pequenas e indefesas, representavam o maior significado de vida que nossa família já havia alcançado. Naquele instante fui tomada por uma sensação renovadora. Netas do meu irmão, só me restava ser tia-avó mais uma vez.
Como faço parte de uma família onde os filhos nasceram em anos alternados, tive tempo certo para me dedicar a cada sobrinho e filhos. Agora o sentimento era outro, eu já era tia-avó de um menino, no entanto a minha alma feminina se acendia diante daquele par de pequenas mulheres. Com elas aprimorei a multiplicação, dois seres minúsculos que necessitavam das mesmas coisas, tudo dobrado, tudo dito duas vezes e de formas diferentes para que notassem que cada uma era uma, um ser único.
Desde então pensava em como me instalar no coração delas, que herança poderia deixar para que pudessem entender o tamanho desse sentimento? Se bem que isso não se mede. Naquele momento meus cabelos brancos pesavam diante de tanta vida, estaria com medo? Minha mãe dizia que, para cair no esquecimento, basta morrer. Não queria o esquecimento, então tinha que achar alguma forma para ser lembrada, lembrada duplamente.
Na medida em que elas cresciam, meu amor se intensificava. Depois das palavras substituírem as gracinhas, se tornaram pequenas mocinhas. Agora eu me preocupava mais e mais com o que deixar para elas, uma jóia seria pouco, quem sabe os meus livros?
Em nossos passeios pensei ter descoberto a receita, talvez mostrando os lugares que eu mais gostava pudesse finalmente deixar uma herança para as minhas meninas. Mas eram tantas coisas que eu queria que elas soubessem e para isso os passeios não seriam suficientes. Como dizer a elas que gosto de arte, de literatura, que minha cor predileta é o azul, azul do mar, que amo blues e músicas francesas, mas que gostaria de ser lembrada com uma música de Chaplin? Será que elas vão gostar de cinema mudo?
Depois vieram as fotos registrando cada momento nosso, mas a modernidade fazia com que eu as arquivasse em uma pasta de computador, assim, resolvi imprimir, mas ainda era pouco, muito pouco para tanto significado. As fotos mostram o que está escondido... e se elas não entendessem? era preciso “escancarar”.
Das mulheres da nossa família herdei a responsabilidade de ser boa cozinheira, boa mesmo pois não me deixaram sequer um livro de receitas. A única coisa que tenho da minha mãe são as cartas que ela escreveu pro meu pai. Ah! A primeira aliança de casamento também, mas essa anda esquecida num porta-jóias qualquer das minhas gavetas.
Cada vez que leio essas cartas conheço um pouco mais dos nossos “ais e porquês”. Talvez essa seja a solução, cartas. Vou jogar com a sorte, numa época em que as crianças nascem com e-mails... cartas.
Assim:
São Paulo, tanto de tanto de dois mil e tanto.
Minha amada Valentina...
Minha querida Olívia...
Márcia Rodrigues
15.02.2010
Da minha janela vejo muitas janelas, mas com aquele quê de monotonia... Idênticas! E meu olhar escolheu a mais distante. Talvez pensando nos sons, que nunca ouvi, do sino de vento que por ela transparecia. Diferente de todos os que já tinha visto, o sino possuía só um pêndulo. Na ponta, o que empurrava o som era um leque em formato de folha... quem sabe coração? Atrás do vidro, parecia não ter pés. Flutuava! No entanto estava preso por alguma coisa que meus olhos não alcançavam. Mesmo com o vidro abaixado podia vê-lo entre a cortina e a janela. Se bem que parado, estagnado pela falta de ar.
Na mesma direção, outras janelas. Não queria outras, só aquela. Quem se esconderia atrás dela? Que tipo de alma?Nenhuma. A cortina é a alma da janela? Alma feita de organza? Tão fina e delicada!... Quando um pequeno vão se abre ela escapa, enroscada no pêndulo, acena! Longe, muito longe de mim. Só conseguia sentir nos olhos a sua maciez. Impossível tocar. Não sei dizer se gosto mais da janela ou do sino protegido pela alma de pano.
Assim que o dia amanhecia “seu som” me chamava, mesmo distante. Cada um em sua janela... conversávamos. Às vezes o vidro parecia sujo. Escondia o que realmente existia por detrás dele. Eu estava cheia de verdades... Ele?... Aos poucos fomos nos conhecendo e nossos desejos e segredos afloraram. E os sonhos... ainda que sonhos, com um fio de realidade. No começo tudo ia devagar, era preciso estabelecer confiança. E nunca exigimos nada um do outro, contamos com a naturalidade. Cobranças? Ali não cabiam.
Agora o meu dia não era mais o mesmo. Juntos cumpríamos a tarefa de viver, cada um na sua realidade, cada um na sua janela. Tal qual pintores desenhávamos, nos vidros, palavras em branco e preto e depois acrescentávamos as cores que mais gostávamos. Sempre somando! Sempre sonhando! A “conversa” começava com tons pastéis e às vezes eu exagerava nas matizes. Culpa da minha ansiedade. Louca! Queria contar tudo, atropelava as palavras. Pacientemente, ele ouvia e eu percebia seus sorrisos. Assim, entre cores e formas harmoniosas, ele me conduzia a um grande mosaico.
Em alguns dias as pinceladas eram impressionistas, curtas e feitas à luz. Em outros, nevoeiros quase românticos. Também gostava das barrocas, cheias de significados. Mas as expressionistas eram as mais freqüentes. Juntos, montamos galerias. Embora as molduras fossem frias, cada obra tinha um pouco das cores quentes de nós dois.
Por vezes esquecíamos dos pincéis, o relógio parava e entrávamos noite adentro ouvindo músicas antigas. Com isso fui aceitando o que não conhecia, sofri pequenas modificações e me moldei aos sons.
No entanto a distância era inevitável. Haveria um modo de encurtá-la? Provável... Com medo de “quem sabe um dia”... sequer arrisquei perguntar.
Nas manhãs em que a janela teimava em ficar fechada, uma saudade dolorida encostava-se às minhas cortinas. Então, passava o dia refazendo as conversas acontecidas. Analisando cada cor. Talvez estivéssemos na fase azul, eu queria cor-de-rosa. Sabia que cada uma delas significava alguma coisa. Não só para mim, para ele também, pois toda vez que voltava, chegava “retocando” palavras já escritas.
E se resolvessem tirá-lo? Jogariam fora ou deixariam na porta para que alguém o levasse? Será que nunca pensou em fugir? Improvável!...
Ah! Se tivesse a sorte de encontrá-lo... Com certeza ele vai me reconhecer e concordar que eu o traga para minha janela. Mas está tão acostumado lá, pode sentir saudade da suavidade das cortinas de organza... as minhas são rústicas. Porém ele conhece cada fio dos meus desenhos, mesmo quando são abstratos. Será que vai se dar bem com as minhas ventanias? E se ao tentarmos nos misturar o mosaico ficar disforme? Pior se eu for só mais um desses esboços banais esquecidos em uma parede qualquer. Tantas janelas por aí...
Nada disso vai acontecer. Melhor aproveitar. Com sorte nossa obra poderá ser concluída em algum lugar do mundo.
Bom mesmo seria se um dia eu pudesse tocar no leque que arrasta os meus ventos.
Márcia Rodrigues
15.06.05
Uma cadela de família. Sempre alegando que as crianças me davam muito trabalho, consegui resistir a idéia de termos um cachorro em casa, mas com os filhos criados... foi inevitável. Depois de uma reunião familiar, quando decidimos a compra do tal bichinho, deixei claro que só teríamos um se todos aceitassem minhas condições, afinal eu sabia que os cuidados ficariam por minha conta: - o cachorro seria meu, só meu. - na verdade não seria um cachorro e sim uma cadela, por ser bem mais fácil de educar, pois não é deselegante a ponto de erguer a perna na hora do xixi, além do que, sendo do sexo feminino, a meu ver seria muito mais doce. - deveria ser de raça pequena, mas não muito pequena porque, “delicada” como sou, esmagaria a pobre no primeiro dia , mas só decidiríamos depois de fazermos uma pesquisa sobre o tamanho dos cocos. - a ração seria a melhor (dessas que fazem o cachorro não ter cheiro de cachorro e ainda melhoram o odor das “necessidades”) - o banho seria no pet shop, uma vez por semana (toda vida achei chique aquelas madames preocupadas com a higiene dos bichinhos) - os passeios matinais seriam por conta das crianças, um dia de cada um e mais, a “porcaria” deveria ser recolhida por eles também. - e o mais importante, quando entrasse no cio, nada de “cruzar”, ela nunca seria mãe. Um bando de filhotes sem poder tomar banho por três meses andando pela casa e sujando tudo? nem pensar... Depois de todas as condições aceitas, fomos ao canil. Logo de cara eu me apaixonei por uma cadela da “marca” poodle, branquinha e nanica. Mesmo o canil me garantido de que não cresceria, só o tempo confirmaria isso. Agora era contar com a sorte, pois conheço vários poodles que mais parecem pôneis. Com aquele pequeno ser, peludo e indefeso, no meu colo, pensei no dia em que saí da maternidade e na minha missão de mãe. Igualmente como fiz com os meus filhos, primeira coisa era batizá-la, tinha que criá-la como uma cachorra de família, educada e comportada. E o enxoval? Fomos direto ao pet shop. Como meu marido também era fascinado pela novidade, nem reclamou do valor das compras. Tão logo chegamos em casa, improvisei numa bacia a pia batismal e na presença de todos e de São Francisco de Assis, ela recebeu o nome de Mel. Com um jornal dobrado e a voz firme, logo comecei os primeiros ensinamentos, o xixi, sempre no mesmo local e sobre um jornal. Os anos correram e Mel, a minha cadela, nos seus Até que suportei bastante, foram sete anos e Mel não cruzou nenhuma vez, a não ser com as pernas das visitas, cobertorzinho ou onde conseguisse encostar. E mais uma vez, minha família conseguiu me convencer argumentando que ela era uma “mulher” e, no auge da sua beleza canina, estava nos últimos cios recomendados para emprenhar, tinha que cruzar. Dizem que a idade de um cachorro deve ser multiplicada por três, 3x7, 21, já era hora mesmo. Meu filho fez o papel de cúpido (ou alcoviteiro), arrumando o macho. Seria na casa dele, do futuro namorado, que ela passaria os dias mais “calientes” do seu cio. Peter era o nome do pretendente, pelo menos me pareceu educado, assim que o “acordo nupcial” foi estabelecido e, pensando em cortejar a minha menina, mandou de presente uma bolinha. Astuto! Mas não deixava de ser cachorro, sabe que uma mulher faz tudo por um mimo. Mas eu não me conformava. Que situação desagradável! A minha menina perderia a virgindade sob os olhos de uma pessoa desconhecida e ainda voltaria prenha. Pelo telefone falei com a provável “sogra”. Assim como o “filho”, ela me inspirou confiança e disse que eu poderia ligar todos os dias para saber da minha garotinha e que não me preocupasse, seriam alguns dias somente. Antes de entregá-la resolvi dar-lhe alguns conselhos, pedi que não se esquecesse dos meus ensinamentos, uma mulher que se preza tem que se dar o valor, nunca cacareje e nem muja, honre sua “cadelisse”, nada de ser fácil: dê minha filha, dê mesmo... com classe, mas não esqueça, nunca permita que seu ato seja testemunhado por terceiros, entre quatro paredes você pode tudo. Mais uma coisa, obedeça a dona da casa e seja educada. Com o coração aos pedaços, nem quis vê-la partindo. Não sei por que eu estava tão chocada, pensei nas vantagens, jamais teria que ensiná-la como usar um preservativo, além de economizar em pílulas e ginecologista. A cada ligação eu ficava mais feliz, Mel rosnava e não permitia que Peter se aproximasse dela, até dormiam juntos, mas... nada, nada de nada. Na manhã do quarto dia a quase sogra me ligou pedindo para que fossemos buscar a nossa mocinha, mocinha mesmo, pois na noite anterior, numa tentativa extrema, ela deixou os dois presos na lavanderia e ficou espiando. Mel não consentiu que o ato fosse consumado e fez do Peter um ser apavorado. Será que ela reclamou da bolinha e reivindicou outros presentes? Garota esperta essa. Quando a vi nos braços do meu filho, mais virgem do que nunca, senti que minha missão de mãe estava cumprida. Mel, além de seguir meus conselhos, provou a todos que era realmente uma cachorra de família. Mas... para me garantir, antes que aparecesse outro pretendente, mandei castrar a minha menina. Márcia Rodrigues 02.09.2007

Sufoco
Assim que entramos no boteco percebi a simplicidade do lugar. Com mesas rústicas e quase limpas não havia muito o que pedir, só que... cerveja, desde que gelada, é sempre a mesma, seja o ambiente simples ou sofisticado. Da cadeira eu via o grande freezer de porta transparente esnobando garrafas e latas suadas. Era o suficiente.
Ainda estávamos com a língua travada quando chegaram as primeiras garrafas. Ao redor da mesa, amigos de trabalho. Logo logo as línguas destravariam e todos os assuntos passariam a existir: futebol, mulher, homem, cinema, filosofia e até receitas. Sem falar naqueles que, inspirados por uma dose a mais, sempre relembram e até cantam velhos sambas.
Depois de namorar o colarinho branquinho e cremoso massageando o copo, vem o primeiro gole... A cada outro sinto, na garganta, o carinho do líquido fermentado. Ah!é como estar no deserto e encontrar um oásis. Um gole, dois, três, o copo mal seca e o garçom, sem trégua, renova a pedida. Mais uma, outra e mais uma e mais outra.
No rústico da mesa, várias garrafas amontoavam-se. Das cheias, a transpiração escorria pelo quase limpo. As vazias contrastavam com os copos que suavam gotas geladas.
Após o quinto copo não havia mais papo desinteressante, porém, a bexiga apertada guardava o líquido que não demorou a ser transformado. Meu olhar passeava pelo boteco e não achava indicação nenhuma de banheiro. Agora o trago no cigarro, sempre tão prazeroso entre um gole e outro, provocava enjôos. Tudo por um toalete, aquele xixi de alívio, de paz.
Com o bar cada vez mais lotado, nem sinal do garçom e nenhum de nós sabia onde era o banheiro. Já achando que não mais suportaria, levantei-me e deduzi que só poderia ficar no fim do balcão. Ai, que delícia, achei! Só de pensar que ficaria livre daquele aperto eu me sentia feliz, quase aliviada. Mas, ao entrar no corredor estreito... cinco mulheres e um só box. Se cada uma demorasse 5 minutos, seriam 25 no total, eu não dispunha de tanto tempo. Fora o que ainda gastaria retirando a calcinha e me agachando sem encostar em nada naquele ambiente de total desconforto. Pensava nisso quando vislumbrei, ao lado, a possível solução: o banheiro dos homens, sem fila, porta entreaberta, vazio. Não havia espaço para a timidez. Assim, seguindo meu impulso, entrei determinada.
Enquanto desabotoava a calça ouvia os risos das outras mulheres, elas que me perdoassem, mas não havia outra alternativa. O lugar era tão pequeno que eu não conseguia agachar sem bater a cabeça na porta. Sentar nem pensar, muito sujo. Nem tão sujo, respingado demais eu diria. Homens!
Num esforço extra-racional coloquei os pés quase no limite do vão que separava a porta do chão e fui descendo o corpo devagar. Sem perceber senti o alívio da bexiga esvaziando. A paz já reinava em mim quando uma batida forte na porta estancou o meu alívio.
_ E aí meu irmão, vai demorar muito?
Só faltava essa, um apressadinho. E ele insistia.
_ Como é “meu”?
Naquele instante eu tinha vontade de mandá-lo calar a boca, mas eu estava no lugar errado, embora na hora certa. Quanto mais ele falava, mais piorava a situação. Pensei em engrossar a voz, mas falar o quê? Melhor seria ficar calada e me concentrar. Aos poucos a calma voltou e terminei minha “tarefa”. Graças a Deus! Mas foi quase uma odisséia.
Novamente a batida na porta:
_ Ô meu! Como é que é?
Os risos não eram só femininos, percebi que mais homens esperavam para entrar. E agora? Que situação! Não sabia se segurava a calça, se me enxugava ou chorava.
E pra sair dali? Não tinha outro jeito, eu tinha que sair. Depois de me recompor, ajeitei os cabelos e com um sorriso largo abri a porta e saí imponente, resoluta, vitoriosa.
Um aplauso caloroso e um ÔOOOOOOO, era o que me esperava. Senti que um rubro fosco tomou conta do meu rosto, mas depois do primeiro passo ganhei um abraço e os parabéns de um deles, que num olhar rápido notei ser o mais velho de todos. Agradeci, desta vez com um sorriso meio amarelo e voltei para a mesa, onde mais um copo cheio me aguardava.
Márcia Rodrigues
23.01.2008


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