Coisas de uma contadora de histórias


31/05/2004


Olimpíadas da vida.

 

Desde criança cresci pensando em casar, ter filhos, constituir uma família, essas coisas que mães ensinam pra gente. Fui criada assim!

Aos vinte anos conheci o tal príncipe encantado, meu colega de faculdade: alto, bonitão, bem falante e tinha um bom emprego. Minha mãe sempre dizia que marido bom tinha que ganhar bem. Achei o meu.

Aos 24 anos resolvi dar inicio aos jogos da minha vida, correr atrás do podium. O casamento foi àquela coisa. Medalha de ouro! Vestido branco, convidados, casa novinha, briga de madrinhas pra resolver qual a cor do vestido, mãe que reclama, sogra que não deixa tirar a roupa do príncipe do armário. Tudo normal. Desistimos da festa e com o dinheiro compramos um velho carro que seria o passaporte para a lua de mel, que não poderia ser diferente, seria no “ginásio” do meu irmão na Praia Grande.

Eu achava que lua de mel fosse feita de uma olimpíada de transas, a exemplo do primeiro dia: treino no café da manhã, no almoço, no jantar e claro na hora de dormir, pra dar aquele soninho! Mas estava enganada: no segundo e terceiro dia treino só antes de dormir; no quarto dia ficou no aquecimento; no quinto nem aquecimento; no sexto, bandeiras tremularam e o pré-olímpico foi encerrado.

Voltamos animados. Os treinos continuavam, mas raramente durante o dia, só mesmo antes de dormir. Como adulta entendia o duro do dia, do transito e a vida ia seguindo, digo os treinos.

Depois de um tempo resolvemos ter filhos. Ah! Como me animei, agora seria diário. Sabe aquela coisa rápida de dever cumprido? Então!...

Veio o primeiro filho. E aprendi a multiplicar o amor e não dividir, assim o bebê chorava de dia e dormia a noite e eu, dispensada do treino.

Já quase enferrujava quando veio a vontade do segundo filho. Oba! Treino!

Meio fora de forma eu me dedicava profundamente aos alongamentos e maratonas, mas não corríamos nem dois quilômetros... Que dirá 42,195 m! Nadava cem metros livres, e chegava sempre em segundo lugar ou às vezes morria na praia. Manobras sobre o cavalo?  Nem pensar. A ginástica era olímpica mesmo, de solo, rápido e cheio de pulos. E o segundo bebê chegou. Agora o salto mortal era duplo. De longe o treinador assistia as evoluções.

Fazer gol só se fosse a partir da marca do pênalti. Nunca havia prorrogação: o juiz apitava e o chute era único e certeiro. A vitória sempre dele, nunca dava empate.

Nas lutas da vida, quando subíamos ao ringue, os golpes estavam mais pra boxe do que pra jiu-jitsu. Assim comecei a treinar levantamento de peso e me senti a maior competidora de fitness.

Com o podium cada mais distante, os filhos cresceram, os treinos passaram a ser bimestrais e os sonhos foram arremessados como discos.

Desolada resolvi participar do mundialito, agora queria treinar salto com vara. Ser boa de corrida e impulso. Como não contei pra ninguém, treinava sempre às escondidas. Os treinos nunca eram satisfatórios, as varas quebravam com facilidade e os treinos não eram constantes. Não demorou muito pra que eu desistisse.

Voltei aos treinos bimestrais na esperança de ser convocada para os jogos abertos, mas por intuição, melhor mesmo seria praticar Yoga.

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:18:16
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28/05/2004


"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

Clarice Lispector

Escrito por Márcia Rodrigues às 18:28:38
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26/05/2004


O frio chegou! Gelado! Minha alma está gelada!

Nem parecia o mesmo carro. Todos os ralados haviam desaparecido. O funileiro havia caprichado mesmo. Agora não havia mais nenhuma prova dos seus rachas, a não ser as multas por excesso de velocidade, mas isso era um outro problema. Sempre foi atrevida no transito, batia e fugia. Só que estava decidida a se comportar. Durante o tempo que ficou sem o carro é que percebeu como lhe fez falta. Com o rádio no último volume saiu da oficina e pegou o caminho de casa. Numa avenida larga, parada num semáforo tirou o pé do freio, parecia plaino, mas o carro deslizou e se encaixou embaixo do carro de trás, enroscando pára-choque com pára-choque. Ouvia os gritos histéricos da mulher, mas não conseguia descer, o cinto de segurança estava travado. _ Olha o que você fez? Você vai pagar. Não é possível, não presta atenção? Quando se livrou do cinto, um guarda já estava ao lado dos carros. Ora, tinha entrado mesmo no carro de trás. Respirou fundo e disse: _ O estrago foi feio, mas como quem bate atrás sempre é o culpado, você terá que pagar o estrago do meu e do seu carro. _ Você é maluca. Eu não vou pagar nada. _ Sr. Guarda tome uma providência, não tem meia hora que saí do funileiro e olha o que ela fez? Depois de ter entrado na traseira do meu carro não quer pagar, acho que ela não viu quando o semáforo fechou! Agora, a mulher sapateava, quase esperneando continuava afirmando que não pagaria nada. Assim, transtornada e enfurecida partiu para cima do guarda aos gritos e pontapés. Depois disso, não teve como escapar e foi presa por desacato a autoridade. A moça do carro da frente, que fumava em total sossego, aumentou o volume do rádio e continuou o seu caminho.

Escrito por Márcia Rodrigues às 18:16:29
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25/05/2004


Com a alma pequena...

O Tamanho das Pessoas

 

Uma pessoa é enorme para você, quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado.

É pequena para você quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor.

Uma pessoa é gigante para você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto com você. E pequena quando desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.

Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas.

Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.

Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande... É a sua sensibilidade, sem tamanho...

Willian Shakespeare

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:56:59
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24/05/2004


Estúpida Musa
 
Sem rumo na rua
De fundo a lua
Tortura a volúpia
No turvo da gruta
 
Estúpida Musa
 
Estupro diurno
Vulto noturno
Cúmplice do escuro
Murmúrio do número
 
Estúpida Musa
 
Truque de luz
Adúltera soltura
Rascunho de súplica
Ternura e sepultura
 
Estúpida Musa
 
Viúva sem túmulo
Vaga-lume sem lume
Nuvem de atadura
Chuva de incúria
 
Estúpida Musa
 
Rude fortuna
Coluna sem postura
Na luta sem queixume
Música sem volume
 
Estúpida Musa
 
Impune luxúria
Insulto à cultura
Censura a conduta
E a luta da puta

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:54:42
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22/05/2004


Frio! Boa noite! Vinho... Vinho...

Embriagai-vos!

É necessário estar sempre bêbedo.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas - de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:

- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Charles Baudelaire

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:34:14
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21/05/2004


A promessa.

O convite chegou sem que eu esperasse, conhecer a Suíça em companhia de minha irmã.

Alguns dias comendo todos os chocolates possíveis. Ah! Chocolates!  Mas minha sogra estava em coma diabética, por conta de uma lata de goiabada. Era sempre assim. Como poderia viajar e deixar a pobre senhora quase morrendo? Mais uma vez não fui.

Desde que comecei a namorar, ela era muito doente. Dois anos de namoro, dois anos com a sogra quase morrendo, quase...  Mas sempre sobrevivendo, ela tinha todas as doenças, algumas eu nunca tinha ouvido falar.

Assim, ele, que era o filho mais velho, pagava um plano médico caro e eficiente, mas não tinha médico capaz de dar conta de tantas doenças. A velha era manhosa e fazia de tudo para chamar a atenção, tanto que no dia do meu casamento fez questão de chegar na cadeira de rodas chorando tudo que era possível e denunciando que ela morria de pena do filho querido, talvez visse em mim todos os defeitos do mundo.

Chocólotra desde menina era o que me consolava das contrariedades e meu marido sabia como me dobrar. Enquanto ela recebia as atenções eu ganhava peso. Ela cada vez mais doente, eu cada vez mais gorda.

Nunca vimos uma peça inteira de teatro ou cinema, ela passava mal e sempre voltávamos correndo. Mas se tínhamos uma festa, ou qualquer que fosse o evento, que ela tivesse sido convidada: Ah! Lá estava a velha firme e forte.

Justo no meu aniversário de 40 anos ela foi para o hospital, estragou a minha festa e não morreu. Pois bem, naquele dia resolvi apelar para o supremo e fiz a promessa de não comer chocolates por um mês se ela mantivesse a saúde estável. Com certeza meu sofrimento seria grande, mas era a única forma de ter o marido só pra mim.

Para ajudar minha irmã chegou trazendo mil relógios e uma caixa de bombons recheados com morangos. Que provação! Como suportar aqueles bombons durante um mês? Mas valeria a pena!...

Não é que a promessa fez efeito?  A velha começou a melhorar como mágica.  Abandonou a cadeira de rodas, mas...  Continuou não dando sossego. Com a desculpa que logo morreria, pois parecia a melhora da morte, fazia com que ele a levasse para todos os lugares. Claro que se sentia mal andando no banco de trás do carro, nunca conseguia se levantar e nem subir escadas sem o apoio de alguém, daí que: perdi o marido de vez!

Sem fim era aquela tortura, eu contava nos dedos os dias para acabar, quase um mês de inferno e 27 dias em que Deus vigiou a mim e a caixa de bombons.

Sempre tentando me agradar, o bom moço resolveu que passaríamos um fim de semana em Campos do Jordão, mas ao amanhecer o dia da viagem, adivinha?  Minha sogra passou muito mal. Desta vez parecia verdadeiro, era mesmo um derrame.

Depois de chorar todas as minhas lágrimas e ensopar as almofadas do sofá, imaginei-a largada numa cama, de um lado uma pilha de fraldas geriátricas, do outro a bandeja de remédios, ela com a boca torta e o lado direito paralisado, agora eu dava o banho, com o prato na mão alimentava vagarosamente a velhinha, nunca mais eu sairia de casa. Aquela cena me consumia e sem perceber a caixa de bombons esvaziou.

 Ah! Quebrei a promessa!  Se algo acontecesse a ela eu não me perdoaria. Será?  Duas horas depois o telefone tocou:

_ Querida, eu fiz tudo o que podia, mas minha mãe não resistiu!

Quanta tristeza!

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:44:12
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20/05/2004


Frio, frio! Sinto a alma tremer!

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:32:08
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19/05/2004


Os dentes do amor

 

No cemitério Nice não desgrudava do braço da amiga. O dia era quente e ela suava. Durante cinco anos esperou por aquele momento, presenciar a exumação do seu grande amor. Chegaram cedo, era preciso ganhar a confiança do coveiro, caso contrário Nice não realizaria seu desejo.

Aos trinta e dois anos Tutu morreu, deixando Nice com uma filha pequena. Um casamento curto, envolvente, carinhoso e de desejos incontroláveis. Um amor denso. Nice ao ver o marido morto, desejou que parte dele ficasse com ela, quem sabe uma das mãos, as pernas, ou aquilo lá. Era impossível, então, jurou ali diante do corpo inerte que na exumação tiraria, pelo menos, um de seus dentes.

Para ela os dentes representavam muito, o sorriso do amado, a porta que fechava a boca e escondia a língua, os dentes que em noites ardentes percorriam-lhe o corpo todo, marcando de roxo o amor que ele sentia por ela.

Aos dezesseis anos, Nice tocava acordeão na radio de Mauá, tinha até fã clube, mas levava a vida de maneira simples e recatada. Desconhecia a mulher poderosa que existia dentro dela.

Um dia ganhou de presente um delicado porta-jóia de cristal, no cartão uma mensagem manchada de graxa. Não sabia de quem era. Quando conheceu o dono do presente, a vida tomou novos rumos. Ele era o mais novo mecânico de automóveis da cidade. Encantada pelo macacão e fascinada pelo cheiro da graxa, ficou perdidamente apaixonada. Com o amor retribuído, começou ali um grande romance. Os desejos de Tutu eram insaciáveis, não sabia namorar, era um ataque, um ataque faminto, carnívoro, e Nice nunca se defendeu. Entregava-se de corpo e alma àquele amor.

O ciúme era parte integrante daquela relação, assim deixou de tocar, o amor louco não permitia os acordes da harmônica.

Em pouco tempo casaram-se. Foram morar no fundo da oficina, pois só assim Tutu poderia controlar os passos da esposa, mas Nice não se incomodava, ao contrário, se sentia lisonjeada, fazia questão de dar satisfação. Para provocá-lo sempre arrumava um jeito de sair, mesmo que fosse para ir ao açougue, pois bastava colocar o pé no portão e Tutu dava uma desculpa e entrava com ela. Pelo corredor comprido iam se beijando e se esfregando e nem sempre dava tempo de usarem a cama. Era realmente uma paixão desenfreada.

Logo ficou grávida e a vida seguia, nada mudara entre os dois, continuavam apaixonados mesmo ela tendo ganhado as formas da maternidade.

Quando o tempo fechava de chuva a alegria tomava conta de Nice, pois sempre que chovia Tutu fechava a oficina e corria para os braços dela. Gostava de amar sob os acordes molhados, esses eram permitidos.

Alguns anos depois Tutu ficou doente, um reumatismo poderoso e o coração inchado o levaram em pouco tempo.

Corajosa e decidida, Nice arregaçou as mangas e virou sacoleira, trabalhou muito e prosperou mais. Comprou duas casas e um carro, criava a filha com todos os mimos e não tinha olhos para ninguém.

Durante os cinco anos que Nice esperou pela exumação, não faltou nenhum dia ao cemitério, se chegasse lá e encontrasse flores no túmulo, chorava desesperadamente, morria de ciúmes até mesmo das flores, conhecia a fama dele e sabia que aquilo significava a saudade de outras mulheres.

Nice no cemitério, a filha crescendo e a promessa em sua cabeça _ os dentes de Tutu.

No grande dia, Nice só contava com a amiga para tirar os dentes, ela não teria coragem de tocá-lo, seria morte na certa. A cada pá de terra chorava um rio de lágrimas, quase desmaiou quando retiraram o caixão e entrou em pânico quando viu os ossos do amado. Com mãos tremulas a amiga tirou, entre o medo e a sujeira do desenterrado, quatro dentes e deu a Nice. Logo depois os ossos foram empilhados e colocados em uma caixa. Acompanharam até o ossuário. Nice chorou e se despediu do seu grande amor.

Ao chegar em casa Nice guardou os dentes no porta-jóia de cristal, aquele primeiro presente de Tutu, de quando solteira. Era o elo de ligação agora.

Nos dias que se seguiram Nice foi tomada por uma imensa dor nas costas, nem conseguia andar, perdeu o apetite e sonhava todas as noites com Tutu.

Agora era ao médico que a amiga a acompanhava, foram meses de luta e Nice minguando a cada dia. Nenhuma explicação, ninguém descobria a doença.

Até que em um dos sonhos de Nice, Tutu pediu pra que ela quebrasse o porta-jóia. Demorou dias pra que ela conseguisse interpretar o desejo do amado.

Com o porta-jóia nas mãos entendeu que era hora de desfazer o elo. Assim começaram os primeiros sinais de melhora, então Nice juntou forças e decidiu voltar ao cemitério e colocar no lugar o que não mais lhe pertencia, embrulhou os dentes em papel de seda, jogou ao chão o porta-jóia e saiu sem perceber os cacos de cristal na sola dos sapatos.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:35:00
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18/05/2004


Com olhos totalmente verdes, ouvindo Carmina Burana, sinto a felicidade total!

Coríntios 13:1

 

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.

I Coríntios 13:2

 

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

I Coríntios 13:3

 

E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:27:57
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17/05/2004


Dia frio! Olhos verdes sentindo o reflexo do cinza de hoje.

Senhor dos meus pensamentos...

 

 

Senhor dos mistérios

Quando tu chegas, a terra treme.

Trazes a assombração

As conjunções fatais

E as vozes negras da noite

 

Senhor do meu espanto e do meu medo

Há uma lua do avesso quando chegas

Há um poema escrito em página nenhuma

 

Senhor dos instantes

Tudo em ti é partida

Tudo em ti é distância

Tudo em ti é retorno

 

Senhor do vento (bem sabes como eu amo o vento)

Com teu cavalo cor de acaso

Teu chicote, tua ternura,

Sobre a tristeza e a agonia,

Galopas no meu sangue com teu cateter chamado Pégasus

 

Senhor da minha morte

Quando tu chegas começa a música

Trazes a festa e a despedida

 

Senhor dos teoremas e dos líquidos caminhos

Quando tu chegas, dançam as divindades.

E tudo é uma alquimia

Tudo em ti é milagre

Senhor da energia.

 

Adaptação do poema "Senhora das tempestades" de Manuel Alegre p/ Márcia Rodrigues

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:30:46
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14/05/2004


Bom dia! A cor do dia é cinza. Nas maresias e nas curvas o mar parece agitado.

Porto solidão

 

Navego em ti como numa caravela!

Desconhecendo a latitude e longitude do teu olhar.

 

Navego em ti como num mar revolto!

Sem astrolábio, sem bússola, desconhecendo a direção.

 

Navego em ti como num mar escuro!

Desconhecendo a balestilha e sentindo o quanto estou perto das estrelas.

 

Navego em ti como num mar claro!

Cartografando os mistérios das tuas águas.

 

Navego em ti, só em ti!

Quero traçar portulanos, e se teu porto eu achar, nele vou ancorar.

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:12:48
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13/05/2004


Nesta noite fria um fio de luz entrou pela janela, só depois de minhas vontades cruzarem com o quente da claridade é que os meus olhos se fecharam pro mundo dos sonhos.

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:56:09
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12/05/2004


Não sou ferro, enferrujo, não sou plástico, derreto. Sou um papel amassado. Reciclo-me.

Bons tempos.

 

Sempre gostei de restaurantes. Em especial aqueles que servem pratos magníficos e que o atendimento é digno de um lord. Mas os tempos mudaram e o dinheiro encurtou. Os preços subiram e os juros não colaboram.

Logo, adeqüei o meu paladar à nova vida, pelo menos eu tentei.

Num sábado frio, senti que o dia era bom pra uma feijoada.

Com uma preguiça absurda de ir para o fogão saí sem rumo em busca de um restaurantezinho.

Depois de rodar pouco, pois a gasolina também era fator de economia vi um lugar movimentado: Manobrista indicando lugar pra estacionar, um vendedor de bexigas rodeado por crianças e uma placa onde se lia:

Serviço la carte/churrascaria/pizzaria. Pizza ao meio-dia? Placa? Na verdade era uma lousa. Sei não... Sei não...

Que dúvida! No entanto estava disposta a mudar e o lugar me parecia simpático.

Seria ali mesmo, estacionei ao lado de uma Kombi e li a inscrição: “Nóis capota mais num breca”.

Aquilo me pareceu um aviso, mas...

Bem, era razoável, na entrada um biombo separava o serviço.

Ai! Meu Deus! Para que lado ir?

Decidi pelo lado que não tinha balança eletrônica. É detestável ter que pesar o que se vai comer, fico me sentindo culpada e morro de vergonha de enfrentar aquela fila.

Numa mesa espremida entre a parede e um senhor vistoso de careca brilhante, foi que me acomodaram, ele palitava tranqüilamente os dentes, enquanto crianças abençoadas brincavam de pega-pega. Uma bagunça! Um barulho!

Depois de optar pelo churrasco, pedi uma caipirinha de vodka, nacional claro, e uma cerveja. Que saudade do meu proseco!

Até que estava divertido, bebi a caipirinha e quando começaram a servir, chamei o garçom e pedi pimenta. Logo ele trouxe um pequeno pote e eu perguntei:

_ É boa essa pimenta?

Ele deu dois tapinhas no meu ombro, abriu um sorriso maroto e disse:

_ A senhora vai ver amanhã!

Saí desolada e resolvi continuar minha aventura num shopping da cidade, agora só pra relembrar os tempos de compras gordas e tentar esquecer a profecia do garçom.

Da escada rolante avistei um sapato cor-de-rosa e amarelo.

Será que combina comigo?

Arrisquei o olhar, nossa! Além de rosa e amarelo, tinha uma faixa lateral azul turquesa. Esnobe, chique e diferente. Sem pensar entrei e experimentei.

_ Vou levar.

_ O pagamento pode ser em três vezes?

Depois de fazer todas as consultas possíveis, a vendedora imprimiu os cheques e me ofereceu uma caneta “Bic” para que eu assinasse, recusei, fiz questão de usar a minha “Mont Blanc”, era a única coisa que me restava.

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:57:03
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11/05/2004


Saudades
(Florbela Espanca)
 
 
Saudades! Sim... Talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!
 
 
Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!
 
 
Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!
 
 
E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:37:55
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Bom dia, hoje acordei bonita, isso é uma dádiva!

Missa das dez.

 

Já era nove e vinte quando consegui ficar pronta. Agora teria que correr pra chegar na missa das dez.

Como é de costume assisto a missa em pé e sempre no mesmo lugar.

É uma missa conservadora, cheia de rituais e cantos gregorianos. Quando cheguei os sinos chamavam pelos fiéis e a igreja estava lotada.

Mal parei diante da porta da clausura e uma brisa fria invadiu a igreja, vi o corredor comprido ao lado do jardim, à frente o turíbulo enchendo o mosteiro de névoa, logo atrás vinham os castiçais que conduziam as luzes das velas, depois vinham os monges, de olhos baixos e livros nas mãos cantavam e com os passos firmes seguiam em direção ao altar, um canto lento tomava conta de tudo.

O sermão manso acompanhava a brisa e o monge falava de Gênesis, da criação e que Adão deu nome aos bichos.

De costas para o altar eu admirava o jardim tentando entender o porque de uma porta de madeira e ferro tão pesada com a inscrição “CLAUSURA” escondia um jardim tão bonito com árvores, flores e um chafariz.

Só aos domingos aquela porta se abre, é quando temos a chance de vê-lo, mas um cordão isola a igreja do jardim, com certeza foi feito só para os olhos dos monges, no entanto as janelas estreitas e compridas é que têm o privilégio de olhar o tempo todo pra ele, por certo é rodeado de paredes santas, fazendo lembrar que ali mora toda a sapiência e todo conhecimento adquirido com o tempo. Gosto tanto dele que mal consigo ouvir a missa.

Com os pensamentos soltos eu me sentia compenetrada, quando notei uma tartaruga que vinha do jardim. Lenta, caminhava tartarugamente, vinha na direção da porta.

Assim perdi o rumo da missa, agora existia eu e a tartaruga.

Ao longe o sermão:

_ O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele”.

Agora eu torcia para que ela entrasse na igreja, tal qual a palavra de Deus, ela era nosso semelhante.

_ Então o Senhor Deus formou da terra todos os animais selvagens e todas as aves do céu, e trouxe-os a Adão para ver como os chamaria; todo o ser vivo teria o nome que Adão lhe desse. E Adão deu o nome a todos os animais domésticos, a todas as aves do céu e a todos os animais selvagens.

Será que ela vinha ao encontro de Adão?

Talvez viesse protestar sobre o seu nome, era a oportunidade de ter um nome mais rápido.

_ Então o Senhor Deus fez cair um sono profundo sobre Adão. Quando este adormeceu...

A tartaruga entrou, em silêncio desviava calmamente das pessoas e sabia aonde ia.

Ninguém tinha notado, mas a beata que recolhe o dízimo viu e disse baixinho:

_ Olha! Que bicho é aquele?

Nada respondi, caminhei entre as pessoas e peguei a tartaruga. Quando me voltei para a beata, disse:

_ Tira o cordão pra eu passar.

Mas a beata soltou um grito de horror e a missa parou.

Um coro de risos tomou a vez das rezas. Todos olhavam para o canto da igreja. Senti vontade de esconde-la, mas como? A tartaruga era enorme. Talvez pudesse leva-la ao altar e entrega-la a Adão. Mas Adão estava adormecido. Agora eu era Eva do lado de fora do paraíso, estava sendo tratada como serpente pelo grito da beata e parecia nua diante dos olhares curiosos.

O monge retomou a missa, a beata assustada disfarçou com o cesto e eu fiquei ali parada com a tartaruga na mão.

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:33:59
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10/05/2004


Rua cinco

 

Logo cedo quando abria a janela ouvia água escorrendo pelo meio fio, ao longe uma voz estranha cantarolava. Era meu melhor amigo lavando o quintal. Pulava a janela e corria pra frente da casa dele, entre um desafino e outro a conversa era espaçada, mas me alegrava poder falar e brincar logo pela manhã, só voltava pro café quando a barra do pijama estava molhada, a minha e a dele.

Ele fazia parte da família mais estranha daquela rua. Morava no ponto mais alto e da sua varanda avistava-se tudo.

A mãe enlutada pela morte de um dos filhos, sempre de preto. Orgulhosa de sua família D. Nena tinha um marido “banana” e quatro filhos. Um filho morto, Anselmo, afogado, Joana a mais velha casada com um caixa de banco e em casa os outros dois, Jorge o segundo mais velho e Romualdo o caçula, que era o meu amigo.

Mulher ligeira mantinha tudo limpo e brilhando. A casa era impecável, dos caquinhos lustrosos do quintal às paredes caiadas de amarelinho.

Tinha olhos vivos e amargurados. Um luto estranho envolvia aquela mulher, mas era o alerta máximo da rua, sabia da vida de todo mundo.

No final da tarde costumava ficar no portão, cuidava do jardim e com a desculpa de esperar o marido, cuidava também do movimento da rua.

Menina ainda, me impressionava aquela figura gorda e altiva. Lembro-me dela engrossando a voz e dizendo:

_ Hoje vou fazer uma bela salada de almeirão, bolinhos de carne moída, arroz e feijão!...

Pela entonação parecia um banquete. Minha boca enchia de água, mas eu nunca comi na casa dela. Que pena!...

Cuidava com zelo dos filhos solteiros, Jorge era o mais paquerado da rua, moço bonito e torneiro mecânico, o marido que a minha mãe pediu a Deus pra minha irmã, sempre encalhada. Só uma pequena mancha, Jorge que amava balões e vivia correndo atrás deles, foi esfaqueado uma vez disputando uma tocha. Mas isso foi totalmente esquecido pela matriarca orgulhosa.

D.Nena não faltava à missa das sete, a maior colaboradora, tinha sido filha de Maria e ostentava com orgulho a posição de faxineira mor. Sob sua guarda ficava a sacristia e os paramentos religiosos. A família era um exemplo de virtudes!

Romualdo era menino, alto, bonzinho e veado. Delicadamente veado. Não combinava aquele corpo de treze anos com tanta delicadeza. Mas, D. Nena não enxergava isso.

A ele cabia a responsabilidade de cuidar do piso lustroso do quintal, das janelas e das pastilhas da varanda. Enfim o serviço pesado. Era motivo de gozação, sempre limpando a casa. Raramente brincava com a molecada. Foi com ele que aprendi a andar sobre duas rodas.

O menino tinha o olho derramado de tristeza, era conhecido como a mulherzinha da rua. Muito calado, só se ouvia a voz de Romualdo quando ele lavava o quintal. Não me lembro de vê-lo indo à escola. Acho mesmo que ele viveu sempre escondido.

Num domingo acordei com o barulho da água escorrendo pelo meio fio, como sempre pulei a janela, a rua estava lotada, não era dia de festa, estranho aquilo, uma multidão se aglomerava na porta de casa de Romualdo, passava das oito e D. Nena dobrava a esquina, voltando da missa. Quando cheguei na porta da casa, vi meu amigo todo molhado, a mangueira agora estava pendura numas das vigas da varanda. A água que sempre serviu de brincadeira tinha levado o meu amigo embora. Agora Romualdo escorria pelo meio fio das minhas lembranças e meu pijama estava seco.

Voltei pra casa com a certeza de que nunca mais abriria a janela.

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:00:44
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Praga de família.

 

Depois de uma semana intensa vou pra praia ao encontro da família. Ainda bem que só falta passar em casa e pegar algumas coisas. Nem vou me incomodar com o transito na estrada, talvez sozinha eu consiga colocar as idéias no lugar e relaxar ao som daquele cd novo, que ainda não ouvi. Algumas horas comigo mesma, há tempos eu esperava por isso.

Logo que dobro a esquina dou de cara com uma figura pálida parada na porta da minha casa.

Se cunhada fosse bom, a sílaba inicial seria outra!

Que família não tem uma Tia Bete? A minha tem. Com um sorriso amarelo, pronto e de mala na mão, era ela ali. Assim, ganhei uma companheira de viagem.

Prestativa, Bete é arroz de festa, só ela sabe ser chata, muito chata. Mesmo assim é bonita, tem dentes alvos e um sorriso largo, mas a voz...

Desde que a conheço sua fama é de boa cozinheira, talvez tenha desempenhado melhor o papel de babá, pois cuidou e benzeu todas as crianças da família, além do que é uma ótima doméstica e solteira, orgulhosamente solteira. Só teve um namorado na vida.

Quando entrei em casa peguei o que precisava e decidi que faria o planejado. Depois de acomodar as coisas no porta-malas deu-se o inicio da ladainha:

_ O fim de semana vai ser de sol!

Em silêncio balancei a cabeça concordando e coloquei o cd.

Sem pensar aumentei o volume e quando cheguei ao pedágio... Tudo parado, a viagem seria longa e Bete não parava de falar:

_ Você contratou o pintor que te indiquei? Ele é muito bom. Só tem um defeito... Falando em defeito... Ficou sabendo que Tio Zito morreu?...  Coitado, com tantas dívidas, só mesmo um tiro na cabeça para resolver. Ah! Depositei o dinheiro na tua conta. Ai meu Deus, lasquei a unha. Você tem uma lixa? Droga! Que transito!...  Deve ser acidente! Será que morreu alguém?

Nem um minuto de folga. De onde ela tirava tanto assunto?

_ Dá pra parar no próximo posto? Quero um lanche e aproveitar para um xixi.

Claro que parei no primeiro posto. Afinal alguns momentos de sossego.

Após vinte minutos, seguimos viagem.

Já que ela não parava de falar, melhor mesmo era repetir o cd, talvez a música sufocasse aquela voz de gralha. Agora com tantos sons eu nem conseguia pensar de como seriam aqueles dias. Com certeza ela não conhece o silêncio. O pior é que quando fingimos não ouvir, ela grita.

_ Você viu como está morrendo gente nos USA?

_ Não, não vi... Bete, por que?

_ Por causa do iceberg.

_ Iceberg?...  (Imaginei um imenso iceberg engolindo a estátua da Liberdade)

_ Tem certeza que é um iceberg? (eu perguntei)

_ Tenho sim! Ai como você é? É aquele negócio que inflama dentro do carro.

_ Inflama Bete? Não é inflama é infla. Tem certeza que você sabe o que é um iceberg?...

Por alguns segundos ela pensou e viveu um dos poucos momentos lúcidos de sua vida:

_ Ah! Eu me enganei...

Mas não demorou ela completou:

_ Iceberg é onde mora o pingüim.

_ Bete... É air bag... Entendeu? AIR BAG!

Bete reagiu nervosa:

_ Não, “ERBEGUE” é o lugar onde mora o mendigo. Você é que não sabe nada!

Agora eu tinha certeza sobre a primeira sílaba do nosso parentesco e também de como seria o meu fim de semana.

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:56:58
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Como dizer não.

 

Otávio era meu amigo de muito tempo, um homem fino e educado, fazendeiro fluminense e solteiríssimo. É o que podemos chamar de bom partido.

Todo e qualquer assunto ele desenvolvia, dava gosto de conversar.

Como sempre morei em São Paulo, nos víamos raramente, os encontros aconteciam aproveitando as viagens de negócios, mas eram marcados por grandes reuniões. Sempre tive o maior orgulho dele, fazia questão de que todos meus amigos o conhecessem.

Mas desta vez ele viria acompanhado da namorada, uma mulher mais velha do que ele, mas encantadoramente culta e inteligente, assim ele me disse. Nos dias que se seguiriam ele cuidaria dos negócios e eu ficaria com ela.

A festa seria a maior de todas, cardápio e música do agrado dele, listei alguns dos meus melhores amigos e decorei a casa com flores do campo. Tudo pra agradá-lo.

Bem lá no fundo eu sentia uma pontinha de ciúmes, na verdade uma pontona, mas eu havia me casado e só me restava agora receber de braços abertos à nova namorada.

Naquela noite coloquei o meu melhor vestido e ansiava pela chegada dos dois. Como sempre ele chegou tarde, acompanhado de Claudia que era uma estrela mesmo, um misto de beleza e velhice.

Os grandes olhos verdes de Otávio deslizavam entre os convidados e a mim coube a tarefa de me sentar com Claudia. Com a fala mansa comentou:

_ Bem escolhidas as músicas. Sou estudiosa dos clássicos e você me surpreendeu.

Não poderia ser melhor tinha conseguido agradar a moça. No entanto ela não me deu folga, talvez tivesse percebido o meu olhar sobre Otávio. Enquanto falava de como ele havia me descrito, dos livros que nos ligavam, das músicas, dos passeios, segurava a minha mão.

Mãos poderosamente quentes, suaves, aqueles olhos penetrantes ganhavam do verde dos de Otávio. Sem nada entender terminei a noite longe de Otávio e colada em Claudia.

No outro dia na porta do hotel é que percebi como ela era esplendida. Ao entrar no carro beijou o canto de minha boca e senti a mais cruel das dúvidas.

Por que? Teria Otávio trazido essa mulher pra me seduzir? Otávio sabia deste comportamento? Meu Deus, ela ali demonstrando interesse por mim. Como dizer não? Que tipo de conversa teria? Seriam três dias juntas. De que maneira me comportar? Pensei em ligar pra Otávio, mas falar o que? O que mais me assustava é que eu estava gostando. Sem conseguir fugir daqueles olhares percebi que ela aflorou em mim um lado que eu sempre fiz questão de esconder ou de ignorar, não sei.

Os dias se seguiram tensos, os sinais eram evidentes e eu tentava de todas as maneiras dizer não e querendo dizer sim, uma tal felicidade pairava no ar quando ela se aproximava de mim. Maldito tabu. Eu uma jovem senhora, casada, mãe e interessada numa mulher. Eu tinha que resistir!

No terceiro dia acordei aliviada, pois só mais algumas horas e estaria livre daquele impasse. Otávio voltaria no final da tarde e a despedida seria no jantar. Todos juntos. Como encarar Otávio? E se ele percebesse? E se fosse tudo invenção da minha cabeça?

Passamos o dia num museu da cidade, entre as obras de arte eu sofria sentindo os olhares dela. Mas a pergunta inevitável aconteceu:

_ Vamos pro meu hotel?

E eu não sabia o que responder. Aquela era a chance de me despir dos pudores e das vergonhas. Onde estava aquela mulher livre que eu sempre disse existir dentro de mim? Por mais dúvidas que eu tivesse tentei recusar, mas emudeci diante daqueles olhos. E as horas que se seguiram foram de gestos desenhados no escuro do dia e no claro dos lençóis. Vivi a mais suave das sensações, as mais proibidas, tudo estava distorcido agora.  Silêncio, silêncio, silêncio! Que banho limparia aquilo?

A água que escorreu do chuveiro não foi capaz de tirar os desenhos tatuados no meu corpo. Minhas roupas não cobririam aquelas marcas, eu as levaria para sempre, eram líquidos de cristais coloridos.

No jantar eu estava solta e sorridente, não me entristecia ver Claudia beijando Otávio. Nem me preocupei se ela contaria ou não, se voltaria, se me esqueceria, dela eu tinha algo mais importante, afinal foi com ela que aprendi que nem sempre sei dizer não.

 

 

 

 

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:54:43
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Bom dia, hoje começa o meu blogger.

Sistema digital.

A grande moda era ter um celular, já que demonstrava status, eu ansiava pelo dia em que teria um, só assim eu completaria a minha espécie grã-fina.  Sempre me imaginava ligando de dentro do supermercado para a empregada, ou do açougue, até mesmo do cabeleireiro, queria porque queria um celular. Puxa! Seria o máximo! Mas meu marido não decidia. Com a desculpa de que esperava pelo sistema digital, adiava a compra. Depois de ouvir tantas reclamações prometeu que seria o meu presente de natal. Ainda estávamos em novembro, mais de um mês, talvez eu sucumbisse a este desejo, mas teria que resistir.

Agora a tecnologia corria em paralelo, tanto que os modelos eram arrojados e cada vez menores, a cada dia um lançamento, mas eu queria o modelo maior, quanto maior, melhor, um daqueles que mais parecia um tijolo do que um celular, este era o meu sonho de consumo.

Como eu não tinha saída, só me restava esperar, então resolvi moldar em papelão um aparelho e ensaiava mil poses na frente do espelho de como atenderia.

Que tal pendurar na cintura? Não, não parecia muito elegante. E do lado de fora da bolsa? Nem pensar!  Melhor seria carregá-lo na mão. Assim eu perdia horas ensaiando e ria de mim mesma.

O tão esperado dia chegou, nem liguei para os outros presentes de natal, claro que fiquei decepcionada, era pequeno e ninguém iria ver. Até que valeu à pena esperar, ele havia comprado o último lançamento em dez pagamentos e deixou bem claro para que eu tomasse todos os cuidados pelos próximos meses.

Depois de longa indecisão resolvi pendurar do lado de fora da bolsa, pois eu tinha encontrado um modo dele ser notado, comprei roupinhas para ele, ou melhor, capinhas coloridas, como não ver?

Quase não dormi naquela noite, assim que amanheceu corri para o supermercado e de lá liguei para a empregada e disfarçava anotando uma lista de compras, claro que imaginária, para completar marquei cabeleireiro, de onde fiquei o tempo todo falando ao celular. Mas ninguém percebia, que sem graça! Já era tão natural assim? Será que ter um celular tinha deixado de ser novidade?  De fato, ele já tinha dois dias de vida e ninguém notava, ninguém falava nada, nem olhavam para mim. Assim mesmo esnobei o quanto podia e não tirava o pequeno do lado de fora da bolsa.

No terceiro dia, ao descer do carro de meu marido, não percebi quando enrosquei a bolsa na porta. Só ouvi o barulho do pequeno batendo no chão, toda esticada travei uma luta feroz, era preciso salvar o meu bem mais precioso, mas não consegui, ele rolou e foi parar dentro de um bueiro. Quase chorando e em total desespero ouvia o meu marido resmungar:

_ Se perder este, eu não compro outro!

Como uma barata tonta eu rodopiava em volta do bueiro. E ele continuava:

_ Pode esquecer, se caiu dentro d’água, já era, nunca mais.

Cada pessoa que passava, parava e a minha aflição era tamanha que todos comovidos resolveram ajudar. Quando retiraram a tampa eu estava ajoelhada ao lado do buraco, mal podia acreditar, ele estava ali, imóvel e sobre um amontoado de lixos. Assim, um fio de esperança encheu meu coração, com as mãos erguidas agradeci a Deus, talvez ele estivesse machucado, mas ainda estava vivo, piscava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:53:19
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