Olimpíadas da vida.
Desde criança cresci pensando em casar, ter filhos, constituir uma família, essas coisas que mães ensinam pra gente. Fui criada assim!
Aos vinte anos conheci o tal príncipe encantado, meu colega de faculdade: alto, bonitão, bem falante e tinha um bom emprego. Minha mãe sempre dizia que marido bom tinha que ganhar bem. Achei o meu.
Aos 24 anos resolvi dar inicio aos jogos da minha vida, correr atrás do podium. O casamento foi àquela coisa. Medalha de ouro! Vestido branco, convidados, casa novinha, briga de madrinhas pra resolver qual a cor do vestido, mãe que reclama, sogra que não deixa tirar a roupa do príncipe do armário. Tudo normal. Desistimos da festa e com o dinheiro compramos um velho carro que seria o passaporte para a lua de mel, que não poderia ser diferente, seria no “ginásio” do meu irmão na Praia Grande.
Eu achava que lua de mel fosse feita de uma olimpíada de transas, a exemplo do primeiro dia: treino no café da manhã, no almoço, no jantar e claro na hora de dormir, pra dar aquele soninho! Mas estava enganada: no segundo e terceiro dia treino só antes de dormir; no quarto dia ficou no aquecimento; no quinto nem aquecimento; no sexto, bandeiras tremularam e o pré-olímpico foi encerrado.
Voltamos animados. Os treinos continuavam, mas raramente durante o dia, só mesmo antes de dormir. Como adulta entendia o duro do dia, do transito e a vida ia seguindo, digo os treinos.
Depois de um tempo resolvemos ter filhos. Ah! Como me animei, agora seria diário. Sabe aquela coisa rápida de dever cumprido? Então!...
Veio o primeiro filho. E aprendi a multiplicar o amor e não dividir, assim o bebê chorava de dia e dormia a noite e eu, dispensada do treino.
Já quase enferrujava quando veio a vontade do segundo filho. Oba! Treino!
Meio fora de forma eu me dedicava profundamente aos alongamentos e maratonas, mas não corríamos nem dois quilômetros... Que dirá 42,195 m! Nadava cem metros livres, e chegava sempre em segundo lugar ou às vezes morria na praia. Manobras sobre o cavalo? Nem pensar. A ginástica era olímpica mesmo, de solo, rápido e cheio de pulos. E o segundo bebê chegou. Agora o salto mortal era duplo. De longe o treinador assistia as evoluções.
Fazer gol só se fosse a partir da marca do pênalti. Nunca havia prorrogação: o juiz apitava e o chute era único e certeiro. A vitória sempre dele, nunca dava empate.
Nas lutas da vida, quando subíamos ao ringue, os golpes estavam mais pra boxe do que pra jiu-jitsu. Assim comecei a treinar levantamento de peso e me senti a maior competidora de fitness.
Com o podium cada mais distante, os filhos cresceram, os treinos passaram a ser bimestrais e os sonhos foram arremessados como discos.
Desolada resolvi participar do mundialito, agora queria treinar salto com vara. Ser boa de corrida e impulso. Como não contei pra ninguém, treinava sempre às escondidas. Os treinos nunca eram satisfatórios, as varas quebravam com facilidade e os treinos não eram constantes. Não demorou muito pra que eu desistisse.




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