São Paulo, 09 de Dezembro de 2002.
Oi. Como você está? Eu? Não sei bem ao certo, sinto-me viva.
Hoje o dia acordou ventando, o céu não tem cor e choram as nuvens.
Li um pouco pela manhã e andei pela casa pensando na vida, nos motivos que nos levam a viver.
Nascemos pras canções de roda, pras estórinhas infantis, pros contos de fadas, pro sol amarelinho, pra chuva mansa e pra brisa suave.
Andando pela casa vejo cada gaveta, cada caneta. Gavetas guardam segredos, não quero enxergar os meus, cresci.
Richard Bach disse: “Você não é pequena porque já é crescida, você não tem aniversário porque sempre viveu; nunca nasceu, jamais haverá de morrer”.
Agora espero a morte, com anjos, com música barroca e flores. Ela não me amedronta mais, nem os demônios da vida e os anjos da morte.
Sei que pareço não ter vida, estou seca.
É bom fazer aniversário, comemorar os anos da minha vida, depois os anos da minha morte. Não mais ganharei presente, e caixa de presente é sempre tão bonita., mas presente bom é aquele que não quebra, os que são invisíveis aos olhos.
Meu sangue parece água, transparece as células da vida que estão mortas. Não esboço nenhuma reação, agora pulso de maneira compassada. Tenho a tranqüilidade dos tempos e da idade.
Meus pés caminham por caminhos já traçados. Pareço trolebus comandado por fios elétricos, sinto o choque das esquinas, as faíscas das ruas, as paradas obrigatórias e as arrancadas bruscas. Ponto final.Ponto.
Minhas mãos cansadas escrevem palavras mortas. Tenho o corpo dolorido de viver, os seios secos que não amamentam mais e o rosto marcado pelos amores vividos, talvez sofridos.
Quantos amores por vir? Quantos por acabar? Vida.?
Todas as mortes e todas as flores.
O sol brilha pouco e não esquenta a minha pele. Estou fria e a chuva não pára de cair na minha vida.
Novamente percebo que não existem humanos. Vivi sozinha no mundo das flores e das chuvas mansas. Entre a paz e o inferno, entre alegrias e tristezas.
Nunca fui pequena mesmo, acho que já morri.
O piso range como os meus dentes em noites mal dormidas, meus olhos teimam em brilhar e me resta um pouco de vida ainda.
Carta longa, a letra fica feia.