Coisas de uma contadora de histórias


23/06/2004


Ouvir Estrelas

"Ora direis ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:01:27
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Olavo Bilac...

Maldição


Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
_ Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha alma se abrirá como um vulcão.

E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão...

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:00:58
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22/06/2004


Classificados...

 

No meu primeiro emprego fui kardexista (alguém aqui lembra o que é um kardex?) por dois anos , depois passei a ser secretária de vendas e o meu salário dobrou.

Agora eu iria secretariar um alemão recém chegado ao Brasil. Nada falava de português e eu nunca falei o alemão. Às vezes era uma questão de mímica. Com o tempo passamos a nos entender muito bem.

Secretária naquela época cuidava do trabalho do escritório e da casa do chefe. A responsabilidade era toda minha, eu cuidava da faxineira, da lavanderia, da revisão do carro, do supermercado e todas essas coisas chatas de uma casa. Por treze anos trabalhamos juntos.

Acompanhei algumas fases da vida dele, foi noivo por um tempo com uma inglesa. O que me deu muito trabalho. Safado, bonito e rico, mulher não lhe faltava. O telefone tocava o dia todo pra ele e eu é que cuidava de dar as desculpas quando não queria atender.

O noivado não resistiu, depois de desmanchar, não queria nada e resolveu vender a lembrança mais forte, uma cama king size de estilo inglês e mogno. (acho que esse mogno era brasileiríssimo). Noivado moderno pra época.

Coloquei o anuncio no jornal com algumas especificações, o colchão iria de brinde e deveriam procurar por mim para maiores detalhes.

As pessoas compram de tudo nesse mundo. Até mesmo uma cama, não importa se a pobre sofreu uso contínuo ou não. Quem poderia garantir um colchão sem manchas?

Passei o dia dando informações sobre a tal cama. Nenhum interessado.

No final da tarde, toca o telefone:

_ Boa Tarde! Por favor, a Sra. Márcia.

_ Boa tarde, sou eu mesma...

_ Gostaria de algumas informações sobre uma cama que foi anunciada!

_ Pois não!

_ A cama é sem uso?

_ É sim. (menti)

_ Que pena!

_ Onde posso ver a cama?

_ Na Vila Mariana.

_ É que eu queria pra casa do Guarujá.

_ Não tem problema, entregaremos no destino.

_ Certo... Vou pensar e volto a telefonar amanhã para a senhora. Antes só uma coisa. Poderia saber a tua idade?

_ Claro. Vinte e cinco anos.

_ Você é casada?

_ Sou sim.

_ Muito obrigado, ligo amanhã.

_ Às ordens. Até logo.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:01:10
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Estranho, muito estranho. Ele não perguntou o preço e me lembro que era exorbitante.

O que ele quis dizer com “que pena” quando disse que a cama era nova? Por que perguntou a minha idade e se era casada? Passei a noite com isso na cabeça.

No outro dia bem cedo ele ligou. Ouvi a voz dele de maneira diferente. Tinha uma maciez estranha e misteriosa. Algo que eu gostava.

Bom dia, bom dia, e começamos a conversar. Ele levou a conversa de maneira brilhante, parecíamos velhos amigos. Disse que eu parecia ser uma jovem educada, articulada e que me expressava muito bem. Um monte de elogios. Aí veio a pergunta:

_ Sabe, na verdade, gostei mesmo foi de você. Costumo praticar swing, e gostaria muito de conhecê-la. Quem sabe poderíamos nos encontrar?  Se você não gostar de mim e nem da minha namorada...  Tudo bem... Seria um encontro para um papo. Só isso. Que você acha?

Quase morri. Havia acabado de casar, estava casada há três meses.

Foram alguns segundos, não sabia o que responder. O convite era... Digamos... Era... Poderia ser uma experiência nova... O que responder? Malditos conceitos e valores, recusei.

Na verdade eu nem sabia direito o que era swing, soava traição e não curtição. Uma cama pra quatro, bacanal, pecado, o proibido. Meu marido poderia até concordar, mas amedrontada com o novo, não tive coragem de comentar.

Ele deixou o telefone, caso eu mudasse de idéia. Nunca voltei o telefonema.

Durante dias não parei de pensar. Talvez ele tivesse gostado da minha voz ou conseguido ler nela o que eu realmente era.

Por vários dias ele ligou e insistiu. Resisti bravamente sem contar nada pra ninguém. A cama nunca foi vendida, meu patrão não se casou e eu nunca vou me perdoar...

Trabalhei no CVV (centro de valorização da vida), mas como o índice de suicídios baixou consideravelmente, fui transferida para o Tele-Sexo. Bela voz a minha!

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:59:36
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18/06/2004


São Paulo, 09 de Dezembro de 2002.

Oi. Como você está? Eu? Não sei bem ao certo, sinto-me viva.

Hoje o dia acordou ventando, o céu não tem cor e choram as nuvens.

Li um pouco pela manhã e andei pela casa pensando na vida, nos motivos que nos levam a viver.

Nascemos pras canções de roda, pras estórinhas infantis, pros contos de fadas, pro sol amarelinho, pra chuva mansa e pra brisa suave.

Andando pela casa vejo cada gaveta, cada caneta. Gavetas guardam segredos, não quero enxergar os meus, cresci.

Richard Bach disse: “Você não é pequena porque já é crescida, você não tem aniversário porque sempre viveu; nunca nasceu, jamais haverá de morrer”.

Agora espero a morte, com anjos, com música barroca e flores. Ela não me amedronta mais, nem os demônios da vida e os anjos da morte.

Sei que pareço não ter vida, estou seca.

É bom fazer aniversário, comemorar os anos da minha vida, depois os anos da minha morte. Não mais ganharei presente, e caixa de presente é sempre tão bonita., mas presente bom é aquele que não quebra, os que são invisíveis aos olhos.

Meu sangue parece água, transparece as células da vida que estão mortas. Não esboço nenhuma reação, agora pulso de maneira compassada. Tenho a tranqüilidade dos tempos e da idade.

Meus pés caminham por caminhos já traçados. Pareço trolebus comandado por fios elétricos, sinto o choque das esquinas, as faíscas das ruas, as paradas obrigatórias e as arrancadas bruscas. Ponto final.Ponto.

Minhas mãos cansadas escrevem palavras mortas. Tenho o corpo dolorido de viver, os seios secos que não amamentam mais e o rosto marcado pelos amores vividos, talvez sofridos.

Quantos amores por vir? Quantos por acabar? Vida.?

Todas as mortes e todas as flores.

O sol brilha pouco e não esquenta a minha pele. Estou fria e a chuva não pára de cair na minha vida.

Novamente percebo que não existem humanos. Vivi sozinha no mundo das flores e das chuvas mansas. Entre a paz e o inferno, entre alegrias e tristezas.

Nunca fui pequena mesmo, acho que já morri.

O piso range como os meus dentes em noites mal dormidas, meus olhos teimam em brilhar e me resta um pouco de vida ainda.

Carta longa, a letra fica feia.

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:43:14
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Se essa rua...Se essa rua fosse minha...Eu mandava, eu mandava ladrilhar...

Com pedrinhas, com pedrinhas...

Não lembro o todo da canção, ficou na minha infância. Doce lembrança, a de brincar, brincar de pular corda, amarelinha, brincar de roda. Sonhos giratórios.

Roda, roda, roda...Caranguejo peixe é...

Agora sinto frio.Onde estão minhas chinelas? Quanto andei?

Meus pés já foram aquecidos um dia e hoje estão cansados.

Na janela o beija-flor voa livre e desinteressado pela vida. Simplesmente voa e vive.

Não sou beija-flor, mas minhas narinas ainda sentem o perfume da manhã.

É primavera e todas as flores nasceram hoje. As cores foram inventadas ontem, gostei do azul. Mas a vida parece incolor.

Que silêncio dolorido, este silêncio não tem cor.

Quero fazer amor agora, delirar e amar em azul.

Que besteira! Amor não se faz, amor acontece, amor esquenta.

As paredes da casa parecem frias, desbotadas pelo tempo. Os santos estão sem mantos e Deus está dormindo.É uma casa sem teto, melhor fechar as janelas, mas não vou me esconder. Vou decorar o nome das cores e colorir a minha vida, continuar andando e vivendo.

As frações de segundos vividas com felicidade devem ser, simplesmente, vividas.Eu não perderia tempo transformando-as em palavras, melhor vivê-las.

Dê notícias...

Um beijo.

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:42:37
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13/06/2004


Essa Cigana entende o querer de um beijo...

Beijo

O melhor beijo é o beijo desejado,
o beijo que me completa,
o beijo da minha forma adequada,
o beijo com o sabor do desejo
na flor da minha pele,
o beijo da minha vontade,
o beijo que faz o meu pensamento,
o beijo que faz a minha boca e
meu corpo querer um novo beijo
outra vez e mais outra vez.
O melhor beijo é o beijo sem tempo,
o beijo de longa duração ou de pouca duração,
um beijo de vinte segundos
ou de vinte minutos, isto não importa.
O tempo não conta,
enquanto se beija o tempo para, o tempo freia.
E nesta inércia do tempo
só sinto a louca vontade do outro.
Sinto a outra língua que de encontro
com a minha faz um passeio suave e
excitante umedecendo minha alma.
Sinto a língua que viaja dos
dentes ao céu da boca.
Sinto a língua que acarinha os
meus lábios. A língua e a língua...
A língua que me roça, que me percorre,
que me navega e que me lambe...
O melhor beijo é o beijo em que a língua
faz o beijo e o beijo faz o sexo.
Autora: Cigana

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:56:32
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O meu Bocage...

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:
 
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:
 
Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hipócritas, e frades:
 
Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:39:30
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12/06/2004


Dia dos namorados...

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21-10-1935

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:28:52
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11/06/2004


Neruda, mais uma vez...

Querer

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:26:34
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Clarice Lispector, eternamente...

Não te amo mais.

Estarei mentindo dizendo que

Ainda te quero como sempre quis.

Tenho certeza que

Nada foi em vão.

Sinto dentro de mim que

Tu não significas nada.

Não poderia dizer jamais que

Alimento um grande amor.

Sinto cada vez mais que

Já te esqueci!

E jamais usarei a frase

EU TE AMO!

Sinto, mas tenho que dizer a verdade.

É tarde demais...

 

Agora leia de baixo para cima.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:20:13
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Neruda. Dois errantes...

Dois...

Apenas dois.

Dois seres...

Dois objetos patéticos.

Cursos paralelos frente a frente...

Sempre...  ...A se olharem...

Pensar talvez:

“Paralelos que se encontram no infinito...”

No entanto sós por enquanto.

Eternamente dois apenas.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:10:47
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Drummond,

    As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:49:46
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09/06/2004


Drummond, mais...

    Além da Terra, além do Céu

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:15:30
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Um pouco mais de Drummond...

    No mármore de tua bunda

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:05:21
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Drummond... sempre Drummond

Ainda Que Mal Pergunte.

Ainda que mal te pergunte, Ainda que mal respondas; Ainda que mal te entenda, Ainda que mal repitas; Ainda que mal insistas, Ainda que mal desculpes; Ainda que mal me exprima, Ainda que mal me julgues; Ainda que mal me mostre, Ainda que mal te encare, Ainda que mal te furtes; Ainda que mal te siga, Ainda que mal te voltes; Ainda que mal te ame, Ainda que mal o saibas; Ainda que mal te agarre, Ainda que mal te mates; Ainda assim, pergunto: Me amas? E me queimando em teu peito Me salvo e me dano... ...De AMOR

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:21:42
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08/06/2004


Ele terremoto

Ela turbulência

Ela uma avalanche

Ele divergência

    Ela acordando

    Ele não

Ele galinha

Ela pavão

Ela perua

Ele um falcão

    Ela acordando

    Ele não

Ele o ocaso

Ela uma nascente

Ela uma onça

Ele dormente

    Ela acordando

    Ele não

Ele uma ostra

Ela um vulcão

Ela nas nuvens

Ele no chão

Ela com outro

Ele na mão

    Ela acordou

    Ele não.

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:07:49
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Poema de Valderez Luvizotto, minha amiga e companheira.

Ele geleira

Ela solidão

Ele domínio

Ela depressão

    Ela acordando

    Ele não

Ela sem rumo

Ele um penhasco

Ela o céu

Ele um astro

    Ela acordando

    Ele não

Ele um traste

Ela só arte

Ela turmalina

Ele carvão

    Ela acordando

    Ele não

Ele uma esponja

Ela um cristal

Ela um diamante

Ele um metal

    Ela acordando

    Ele não

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:07:22
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06/06/2004


E eis que surge Neruda...

O insecto

Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.

Sou mais pequeno que um insecto.

Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.

Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo umedecido!

Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.

Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:17:14
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Quando o assunto é quente...

Isabel Machado

Contrações

Abre e fecha
flechas de desejos
flashs instantâneos
quando penso em ti...
Pulsa o pulso
pulsa a flor que arde
curtas contrações
longos arrepios...
Abre e fecha
sangue bombeando
vida latejando
rega esse navio...
Pulsam bicos
seios bolinados
duros, retesados
querendo implodir...
Flor-de-cheiro
doce à la pom-pom
molha tua boca
sente quanto é bom...
Abre e fecha
pulsa e repuxa
flor-da-contração
arde de tesão
abre minhas coxas
rompe tuas forças
seca minhas poças
e deglutes
todas as flores roxas
que um dia
desabrochaste...

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:11:52
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Já que o assunto de domingo é quente e ardido, eis Drummond.

A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:05:38
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Domingo é um dia morno, embora em Sampa esteja muito frio.  Agora aos domingos um pouco de Bocage, o meu poeta quente e ardido.

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)

II
 
Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:
 
Não quero funeral comunidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
 
Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
 
"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;

                                    Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:50:38
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04/06/2004


Continuando...

Em um dos cantos do salão, um homem miúdo de nariz longo e fino, arrumava os poucos cabelos entre receber e entregar um ticket, um vale puta, ao mísero custo de R$5,00 por 10 minutos. No outro canto duas pias encardidas perdiam-se entre uma pilha de papel higiênico cor-de-rosa.

Senti pena daqueles homens, excluídos e escolhidos. Saíam do elevador, e antes de ganharem a rua, passavam pela água da pia como se tivessem subido ao céu.

E se alguém me confundisse com uma delas? Ser ou não ser, eis a questão. Bom, não seria tão ruim, não precisaria seguir o conselho do meu professor de literatura e ainda teria dinheiro pra voltar pra casa. E voltaria com cara de idiota, como quem subiu ao céu.

Fui me esgueirando tentando passar desapercebida, mas como esconder aquela roupa esvoaçante? Nunca senti tantas mãos juntas na bunda e nos seios, quando ouvi uma das belas ninfas gritando:

_ Você aí loira, vem, vamos subir!

Ó caminho de vida nunca certo! Com passos lentos segui para o elevador, talvez eu pudesse explicar, tentaria, mas com certeza depois de entrar, no segundo andar seria colocada pra fora com um daqueles homens. Seria puxada pra dentro de um quarto e jogada na cama:

_ Vamos, temos 10 minutos!

Em segundos estaria nua. Pensei em correr, gritar, mas ninguém me daria a mínima. Não tinha jeito eu ia pisar o cristalino céu formoso.

_ Polícia! Polícia!

Parei na porta do elevador e a correria foi geral. Nem me mexia. Fugir ou me entregar? Agora Inês é morta, seria algemada, presa, colocada no camburão e jogada numa cela. Como explicaria isso pra minha família? Presa num puteiro. Continuei parada esperando a polícia se aproximar.

_ A senhora é a dona do carro vermelho?

_ Sim.

_ Nós vimos o assalto, corremos atrás da senhora, mas nos desviamos atrás dos bandidos e recuperamos seu carro. A senhora terá que nos acompanhar até a delegacia.

_ Claro, sem dúvida.

Seguimos pra delegacia, no banco de trás da viatura, sentia o aperto entre os braços dos policiais e as putas sentiam os braços da gaiola. Não reconheci nenhum dos bandidos. Registrei a queixa e uma hora depois saí de lá com minha bolsa e em meu carro.

               Nas horas perdidas do relógio, o único espetáculo que vi, foi o daquelas mulheres sendo presas, a visita à Sala São Paulo ficaria pra outro dia. Mas no caminho para casa lembrei do poeta que cantava POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS! E me perguntei, será que teria gostado de navegar por aqueles mares?

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:36:49
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Há mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar a nossa vã filosofia.

As armas e os barões assinalados...

 

O livro que mais ouvi falar. Li e estudei tantas vezes...Os Lusíadas! Não poderia perder a peca.

Com o marido viajando seria ideal. Ele detesta peças loooongas e antigas. Afinal depois de vê-lo roncando em Hamlet, o melhor seria ir sozinha.

A noite estava quente e convidativa. Era a oportunidade de conhecer um dos mais novos teatros da cidade, a Sala São Paulo.

Diante do armário escolhi uma roupa preta pra combinar com Camões, mas sempre escolho a roupa errada.

Subindo a senador Queiroz, entrei em direção a aurora pra cortar caminho. Cracolandia, lugar sujo e feio.

São Paulo é contrastante, meninos se drogando, puteiros baratos e uma sala de espetáculo tão poderosa junto de tudo isso.

Parei no farol e fiquei congelada. Dois homens vinham em minha direção, uma visão que aterrorizava.

_ Desce, desce! Anda! Corre e não olhe pra trás!

Desci sem olhar pro bandido. E agora? O que fazer? Pra onde ir? Correr! Eu tinha que correr.

Pensei no Dops, mas tinha virado museu. Na Estação da Luz, como sem dinheiro? Ah! Um telefone, eu tinha que ligar pra alguém, pedir ajuda, meus olhos procuravam um orelhão.

Nas ruas mal iluminadas e com calçadas de piso irregular, mal conseguia correr e nem me atrevia a olhar pros lados, e o pior, agora sentia alguém me seguindo, não bastava o carro? Atravessei a rua e ouvi os passos que também atravessaram, no meio do quarteirão avistei o orelhão, bem na frente de uma porta que estava semi-aberta, um facho de luz estranho iluminava a calçada. O medo era tanto que não ouvia mais os passos atrás de mim, na confusão de estar ou não sendo seguida, resolvi entrar.

Quando entrei senti a luz morna de um velho lustre que refletia o amarelo das paredes de um salão enorme, o piso todo arrebentado era cinza e frio, no fundo homens afoitos se aglomeravam diante de dois elevadores. Tentei me refugiar entre aquelas pessoas, mas não sabia o que era pior: ter entrando ou encarado os passos lá fora.

Os elevadores chegavam lotados, mulheres seminuas com as bocas tingidas de vermelho fumegante e de saltos altos, faziam o papel de ascensoristas, traziam homens, uns com cara de satisfeitos, outros com cara de quero mais. Sem sair do elevador escolhiam a dedo, entre os aglomerados, os que pareciam querer mais e mais. Cantavam as belas ninfas. Eu estava num puteiro!

(continua amanhã)

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:59:32
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02/06/2004


Eis o que minha insônia oferece.

Vinte Poemas de Amor – XX

tradução de Fernando Assis Pacheco

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

Escrito por Márcia Rodrigues às 00:11:14
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01/06/2004


Luís Vaz de Camões
Busque Amor novas artes, novo engenho
 
Busque Amor novas artes, novo engenho, 
para matar-me, e novas esquivanças; 
que não pode tirar-me as esperanças, 
que mal me tirará o que eu não tenho. 

Olhai de que esperanças me mantenho! 
Vede que perigosas seguranças! 
Que não temo contrastes nem mudanças, 
andando em bravo mar, perdido o lenho. 

Mas, conquanto não pode haver desgosto 
onde esperança falta, lá me esconde 
Amor um mal, que mata e não se vê. 

Que dias há que n'alma me tem posto 
um não sei quê, que nasce não sei onde, 
vem não sei como, e dói não sei porquê

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:38:53
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