Viúvo é quem morre...
Dezenove horas e vinte minutos, da garagem ouvi o telefone tocando, enquanto meu marido estacionava, eu abria a porta da sala.
_ Alô!
_ Márcia , é o Papai, sua mãe não agüentou. Por favor, passe em casa e traga uma roupa pra ela.
Parei olhando pro teto sem saber o que fazer, desliguei o telefone sem falar uma palavra. No escuro da sala o bebê que eu ainda não sentia, parecia estar sambando na minha barriga. Grávida de três meses eu não poderia ficar nervosa, era preciso me controlar e pensei: Não é tão grave, ela estava tão doente, já esperava por isso, estou preparada.
As lágrimas que desciam pelo meu rosto demonstravam a minha dor, quando meu marido entrou:
_ Precisamos voltar para o hospital. Minha mãe morreu!
Em silêncio tomamos banho e nos trocamos, fazia muito frio e a noite seria longa.
Depois de escolher uma roupa pra ela, chegamos ao hospital. No quarto minha irmã fazia um escândalo, ela dependia financeiramente de minha mãe. Meu pai chorava e pulava, literalmente pulava, talvez fosse remorso, minha Mãe havia descoberto a amante de vinte e cinco anos mais nova e depois disso ficou mais doente do que já era. Do outro lado, meu irmão, calado e de cabeça baixa. Eu de olhos secos e parados. A cena era patética. A enfermeira recebeu as roupas e disse:
_ Preciso de alguém pra me ajudar trocá-la.
Olhando pro meu marido ele entendeu que eu não faria aquilo. Mas almas boas sempre aparecem, Célia Maria , uma amiga de minha cunhada, chegou e se prontificou. Ela é dona de um coração enorme, alta, loira tingida, dona do leva e traz mais confiável da rua em que mora, tem olhos estranhos, foi vítima de uma plástica mal feita. Célia Maria e meu marido cuidaram de tudo. Quando a defunta ficou pronta, seguimos pro velório frio do cemitério.
Os bichinhos caminhavam pelas flores no caixão como se nada estivesse acontecendo.
As coroas coloriam as paredes ocres. Poucas pessoas, algumas eu nem conhecia. De onde apareceu aquela gente? Será que a amante do meu Pai viria? Seria um escândalo. Com certeza ela estava aliviada, ou feliz, vai saber... Afinal, meu Pai jurava de pé junto que havia largado dela pra sempre. E ali diante da defunta jurou eterna fidelidade. Que besteira!
No meio da noite aquela gente sumiu, estranho como desaparecem, saem sem falar nada, notei que algumas disfarçavam, outros fingiam ir ao banheiro. Haja, passar a noite toda naquele frio, só os parentes mais próximos mesmo.
De madrugada volta Célia Maria trazendo sopa e uma garrafa de café.
Por que será que sopa de velório tem gosto de defunto? E o café é sempre fraco? Eu estava com tanta fome e aquilo parecia uma água tingida. Por que será que as pessoas acham que quando morre alguém da família você não vai ter fome? Bom, comigo era o contrário quanto mais eu sentia aquele cheiro de defunto, mais fome me dava. Nos pequenos cochilos sonhei com um misto quente.
Duas horas antes do enterro, o povo que havia sumido, surgia pela porta e enchia o velório. Entre eles eu procurava a amante do meu pai. Deveria ter um olhar frio, seria fácil identificar, e se não reconhecesse o olhar a perna denunciaria, mancava de uma delas. Era é do tipo deixa que eu chuto.