Coisas de uma contadora de histórias


27/07/2004


ONTEM  A NOITE
 
Ontem — sozinhos — eu e tu, sentados,
Nos contemplamos quando a noite veio:
Queixosa e mansa a viração dos prados
Beijava o rosto e te afagava o seio,
Que palpitava como ao longe o mar...
E lá no céu esses rubis pregados
Brilhavam menos que teu vivo olhar!
 
Co´a mão nas minhas, no silêncio augusto,
Tu me falavas sem mentido susto,
E nunca a virgem que a paixão revela,
Passou-me em sonhos tão formosa assim!
Vendo essa noite pura, e a ti tão bela,
Eu disse aos astros: — dai o céu a ela!
Disse a teus olhos: — dai amor p´ra mim!

 

                                                                    Victor Hugo

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:35:17
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Victor Hugo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E
que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:22:57
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Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:22:16
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25/07/2004


Saudade dolorida...

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
                         (Castro Alves)

Escrito por Márcia Rodrigues às 19:56:51
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20/07/2004


O que posso te oferecer são os versos de Cecília Meireles. Bom dia!

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:04:16
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Reinvenção
 

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:02:04
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Vontade de me sentir Cecília...

 

Retrato
 

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:59:16
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19/07/2004


Dia escuro, chuva clara.

 

Castro Alves

Anjos da meia-noite/ Oitava sombra/ Último fantasma

 

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso ...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso! ...

Onde nos vimos nós? És doutra esfera ?
És o ser que eu busquei do sul ao norte. . .
Por quem meu peito em sonhos desespera?

Quem és tu? Quem és tu? - És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:19:01
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18/07/2004


 

Sinto o perfume fino da vela de rosas e os meus pensamentos correm na tua direção.

 

Camille Claudel – Rosto

 

Esta carne de cristal, úmida de viver ainda,

Sai da sombra, aos olhos declarados do sol.

Todo brilho dos meandros desta máscara é igual

Aos raios prisioneiros das geleiras da Aurora.

 

A eternidade se inclina, na alvorada que se ignora.

E o unânime grito de neve, na fonte vermelha,

É o desenho do verão dos cimos, despertos

Em sua estrutura irmanada, dos contornos de sua flora.

 

Lá, as altas Esfinges dos olhos Olímpios – passa-se

O lago Divino, perturbado pela torrente do espaço –

Esgotam seu sorriso, frêmitos claros, de ouro puro.

 

E o mármore comovente das pálpebras semicerradas

Se cumula de orvalho em longo relâmpago obscuro

No grande olhar morno onde se animam as rosas.

 

Antoine Bourdelle, 1926

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:16:48
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16/07/2004


Os versos que te fiz
 
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
 
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
 
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
 
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
 

                                    Florbela Espanca

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:08:53
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13/07/2004


Coisas da vida...

 

Prisão domiciliar

 

As tulipas cor-de-rosa pintadas na fina organza misturavam-se as rendas da colcha que decorava a minha cama. Os presentes espalhados pelo chão enchiam os meus olhos de alegria. Cartões desejando felicidades perdiam-se entre nos vãos das caixas de papelão.

De um lado sete bandejas de aço inox, do outro lado quatro panelas de pressão, ao meio cinco ferros de passar roupas, secos. Conjuntos de panelas, três, todos eles de alumínio. Pratos, muitos pratos e copos de vidro. De cristal só um jogo solitário de taças pro champanhe. No corredor estreito entre a cama e a janela, organizavam-se as travessas de vidro e de louça, nenhuma de porcelana. Aquele faqueiro no estojo de madeira não veio. Dois liquidificadores e uma batedeira.

Dos trezentos convites, pouco menos de oitenta presentes. Também, casamento sem festa!

Mas espalhados pela casa pequena estavam os presentes mais valiosos. Na sala o móvel imponente de imbuia sustentava a televisão vinte polegadas sem controle remoto, presente de meus pais. Atrás de uma das portas escondia-se um rádio de carro que fazia às vezes do aparelho de som, só as caixas ficavam a mostra.

A cozinha tinha armários embutidos ao lado de uma pequena geladeira, promessa do meu tio desde menina. Ele cumpriu. O fogão de quatro bocas, presente do cunhado, era branco, com tampo de vidro e acendimento automático, novidade pra época.

Lá na área de serviço, ao lado do tanque, a máquina de lavar roupas, presente de meu irmão. De minha irmã ganhei o aspirador.

Em cada presente tinha um pouco da minha liberdade, agora eu lavaria e passaria as minhas roupas, faria a comida, só as que eu mais gostava. Vida própria, liberdade. Mas esqueci do marido e dos filhos que viriam.

Ao longo dos anos as bandejas de aço inox, duráveis e eternas, me mostraram o quanto eu teria que servir.

Aquela colcha branca com tulipas cobria a minha insônia contida no ti ti ti da panela de pressão.

Nas panelas, que tanto lustrei, cozinhei todos os meus sonhos. Segui pelo tempo quebrando as travessas e os pratos.

Bati tantas massas tentando desfazer aquele bolo... . Misturei os meus desejos aos sucos de cenoura, pensando em me bronzear.

O fogão? Com tantas bocas, nunca falou comigo. No forno assei os meus dedos e queimei os meus cabelos. São curtos agora. Envelheci.

A máquina de lavar roupas reavivava as cores da minha vida e o ferro aquecia a minha esperança.

Diante da televisão aprisionei a minha liberdade sem nunca ouvir o som das músicas do rádio. Parei de dançar.

O móvel de imbuia ainda resiste e na cristaleira da sala de jantar, somente duas das taças de cristal não se quebraram, as outras se partiram nos brindes da vida. Os copos de vidro racharam e voltaram a ser grãos de areia. Impregnaram o carpete de sisal que cobriam o piso frio da minha casa. O aspirador só conseguiu evitar os calos duros das vassouras e rodos que eu não ganhei. Teimosa eu os comprei.

De todos os presentes, acho que gostei mais da geladeira, ela conservou parte de mim. Mas abrindo o congelador achei todos os cartões que eu havia perdido entre os vãos das caixas de papelão.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:13:41
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Hoje eu acordei feliz. Bom dia!

 

José Saramago

Espaço curvo e finito


Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

Escrito por Márcia Rodrigues às 06:51:47
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12/07/2004


Neruda...

Quem morre?

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:10:14
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07/07/2004


Ai! Saudade de você...

Viúvo é quem morre...

 

Dezenove horas e vinte minutos, da garagem ouvi o telefone tocando, enquanto meu marido estacionava, eu abria a porta da sala.

_ Alô!

_ Márcia , é o Papai, sua mãe não agüentou. Por favor, passe em casa e traga uma roupa pra ela.

Parei olhando pro teto sem saber o que fazer, desliguei o telefone sem falar uma palavra. No escuro da sala o bebê que eu ainda não sentia, parecia estar sambando na minha barriga. Grávida de três meses eu não poderia ficar nervosa, era preciso me controlar e pensei: Não é tão grave, ela estava tão doente, já esperava por isso, estou preparada.

As lágrimas que desciam pelo meu rosto demonstravam a minha dor, quando meu marido entrou:

_ Precisamos voltar para o hospital. Minha mãe morreu!

Em silêncio tomamos banho e nos trocamos, fazia muito frio e a noite seria longa.

Depois de escolher uma roupa pra ela, chegamos ao hospital. No quarto minha irmã fazia um escândalo, ela dependia financeiramente de minha mãe. Meu pai chorava e pulava, literalmente pulava, talvez fosse remorso, minha Mãe havia descoberto a amante de vinte e cinco anos mais nova e depois disso ficou mais doente do que já era. Do outro lado, meu irmão, calado e de cabeça baixa. Eu de olhos secos e parados. A cena era patética. A enfermeira recebeu as roupas e disse:

_ Preciso de alguém pra me ajudar trocá-la.

Olhando pro meu marido ele entendeu que eu não faria aquilo. Mas almas boas sempre aparecem, Célia Maria , uma amiga de minha cunhada, chegou e se prontificou. Ela é dona de um coração enorme, alta, loira tingida, dona do leva e traz mais confiável da rua em que mora, tem olhos estranhos, foi vítima de uma plástica mal feita. Célia Maria e meu marido cuidaram de tudo. Quando a defunta ficou pronta, seguimos pro velório frio do cemitério.

Os bichinhos caminhavam pelas flores no caixão como se nada estivesse acontecendo.

As coroas coloriam as paredes ocres. Poucas pessoas, algumas eu nem conhecia. De onde apareceu aquela gente? Será que a amante do meu Pai viria? Seria um escândalo. Com certeza ela estava aliviada, ou feliz, vai saber... Afinal, meu Pai jurava de pé junto que havia largado dela pra sempre. E ali diante da defunta jurou eterna fidelidade. Que besteira!

No meio da noite aquela gente sumiu, estranho como desaparecem, saem sem falar nada, notei que algumas disfarçavam, outros fingiam ir ao banheiro. Haja, passar a noite toda naquele frio, só os parentes mais próximos mesmo.

De madrugada volta Célia Maria trazendo sopa e uma garrafa de café.

Por que será que sopa de velório tem gosto de defunto? E o café é sempre fraco? Eu estava com tanta fome e aquilo parecia uma água tingida. Por que será que as pessoas acham que quando morre alguém da família você não vai ter fome? Bom, comigo era o contrário quanto mais eu sentia aquele cheiro de defunto, mais fome me dava. Nos pequenos cochilos sonhei com um misto quente.

Duas horas antes do enterro, o povo que havia sumido, surgia pela porta e enchia o velório. Entre eles eu procurava a amante do meu pai. Deveria ter um olhar frio, seria fácil identificar, e se não reconhecesse o olhar a perna denunciaria, mancava de uma delas. Era é do tipo deixa que eu chuto.

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:00:48
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O padre começou a encomendar o corpo e eu a chorar, essas coisas de fim de velório, e nem percebi se a talzinha veio ou não. Os lamentos doloridos de minha irmã quebravam o silêncio do caminho até o túmulo. Gavetas de cor cinza no lugar da terra. Acabou.

Saindo do cemitério não sabia bem o que faria, era preciso dormir, pois a noite nos reuniríamos na casa do meu pai pra jantarmos juntos.

Sobre a mesa uma toalha de linho branca toda amassada, os pratos de porcelana e os talheres de prata, tudo que minha Mãe só usava em dias especiais. O cardápio era sopa, Célia Maria cuidou de tudo, e novamente senti o gosto forte de defunto. Jantamos em silêncio, meu pai só chorava e minha irmã não parava de falar. Agora meu pai e as coisas de minha Mãe ficariam com ela. Acho que ela estava de olho na máquina de lavar novinha. Ficou ali abrindo e fechando os armários e perguntava o que eu e minha cunhada queríamos. A impressão que eu tinha era que tudo seria dividido naquela noite.

Com a desculpa de querer pensar, meu Pai saiu pra dar uma volta de carro. Pensar no que? Todos sabiam que ele estava feliz. Agora era livre pra poder casar. Depois de esperá-lo por mais de hora, resolvi ir embora. Só anos mais tarde é que fiquei sabendo que ele havia dormido naquela noite com a talzinha.

Ao me despedir de Célia Maria fiquei sabendo que ela havia marcado a missa, seria no dia vinte e oito às dezenove horas na Igreja N.Sra. Aparecida. Ai meu Deus, missa de sétimo dia parece continuação de velório. Mas seria a última etapa. Célia Maria não iria, tinha marcado outra missa na igreja do seu santo protetor, São Judas.

No dia marcado nos sentamos na primeira fila, quase ninguém conhecido. Uma missa longa e chata dizendo como conduzir a vida pra ganharmos o reino dos céus. Não sei por que, mas tive a impressão que o nome do padre era Creonte, o barqueiro. E vi meu pai sendo recebido por Cérbero. Senti o fio de vida acabar e caminhar entre o bem e o mal.

Quando a missa acabou, novamente meu pai saiu pra pensar. Saímos dali e fomos tomar café na minha casa, seria o último com gosto de defunto.

A conversa até foi animada, concordamos que tudo de minha mãe ficaria com minha irmã, até o meu Pai. O telefone tocou, era Célia Maria.

_ Oi Márcia.

_ Oi Célia Maria.

_ Estou ligando por que achei tão bonito o que o seu pai fez, até me emocionei.

_ É mesmo? E o que ele fez pra te comover tanto?

_ Ele estava na missa da igreja de São Judas. Ouvi o nome se sua mãe ser abençoado e vi o quanto seu pai chorava, ele estava tão emocionado... A emoção foi tanta que ele saiu amparado por uma moça que mancava.

_ Que bom,Célia Maria. Quero aproveitar pra agradecer tudo o que fez por nós.

_ Que isso, foi um prazer.

_ Tchau Célia Maria.

_ Tchau Márcia.

Desliguei o telefone e entendi o recado de Célia Maria, bondade apimentada a dela. Mas viúvo é quem morre.  A talzinha não foi ao velório e encontrou outra maneira de rezar pela alma de minha mãe, claro que ao lado do meu pai.

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:59:16
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