Coisas de uma contadora de histórias


31/08/2004


Bonito _ Eupetomena macroura simone

 

Hoje Bonito chegou tarde, dançou no ar só pra me agradar.

Em tom verde escuro, quase preto, brilha no claro da manhã.

Sempre traz palavras que sopram de longe.

Em suaves balanços corta o vento com sua cauda de tesoura.

Num balé agitado, beija as poucas flores que tenho na sacada.

Toda manhã repete os mesmos recados, passiva, ouço como novidades.

Seus vôos rasantes demonstram liberdade.

Liberdade ! Liberdade!

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:50:16
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30/08/2004


O cavaleiro da triste figura.

Vive dando cabeçada.
Navegou mares errados,
perdeu tudo que não tinha,
amou a mulher difícil,
ama torto cada vez
e ama sempre, desfalcado,
com o punhal atravessado
na garganta ensandecida.
Este, o triste cavaleiro
de tristíssima figura
que nem mesmo teve a graça
de estar ao lado de Alonso
e poder narrar eventos
nos quais entrou de mau jeito
mas com sabor de epopéia.
Nada a fazer com este tipo
avesso a qualquer romança
ou ode, apenas terráqueo,
ou nem isso, extraterráqueo,
de quem não se ouve um grito
mais além do que um gemido,
nem uma palavra lúcida
varando o cerne das coisas
que esperam ser reveladas
e nós todos pressentimos.
Inútil corpo, alma inútil
se não transfunde alegria
e esperança de renovo
no universo fatigado
em que repousa e não ousa.
Sua ficha — foi rasgada,
por ausência de sinais.
Seu nome — por que sabê-lo?
E sua vida completa
já nem é vida, é jamais. (ANDRADE, 1996, p. 74-75)

Escrito por Márcia Rodrigues às 00:50:36
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29/08/2004


O dia em que festejo os teus anos, eu te agradeço pelos cuidados ao meu sangue e pelos presentes que me deu ao longo da nossa amizade. Presentes que andam, falam e me chamam de tia. Poucos são os versos que posso te oferecer, seja feliz _ sempre.

 

    ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, 15-10-1929

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:29:09
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27/08/2004


O moço de branco da minha rua.

 

Todo mundo deveria ter um moço de branco na sua rua. Eu tenho o meu, embora ele não saiba. Um moço bonito, que é alto, magro, pele clara, rosto quadrado, de barba cerrada e cabelos desalinhados. Gentil e educado!

Sempre abro a janela antes das oito da manhã, só pra vê-lo passar. Corro com o café e empurro todo mundo pra fora, não posso perder a hora. Alguns segundos... E ele some no fim da rua...

Dizem que tem olhos claros, da cor das beiradas do mar. Nunca vi. Será que aqueles olhos têm dona? Ninguém sabe. Agora fiquei curiosa!

Quando ele passa, sisudo, dentro do carro, só consigo ver o claro da camisa! De longe noto o colarinho engomado. Quem sabe é médico ou dentista. Não sei. Com certeza tem mãos bonitas, no volante vejo que são grandes. Durante o dia guardo o ar que ele respirou e o perfil marcante do seu nariz.

Cada vez que ele passa, sinto uma coisa estranha. A janela range nos meus dedos quando se abre, como se chorasse. Talvez meu coração esteja cruzado, acho que é essa a sensação que sinto, a angustia de vê-lo indo embora pelos trilhos da minha rua. Só fecho a minha janela quando a luz da sua sala se apaga lá no alto.

Mesmo assim a vizinha de apartamento, quase não o vê. Diz que entra e sai em silêncio. Único som que se ouve, durante o dia, é da cadela. Coitada! O dia todo presa. Dela só sei a raça – labrador e o nome _ Mel. Raramente recebe visitas, além da filhinha e do irmão, só um amigo. Que disse ser bonito também. E quando se reúnem, deixou escapar ainda que, riem, cantam e tocam _ violão e bateria.

Qual dos instrumentos ele toca? Pelas mãos tem cara de baterista. Sei lá.

O que será que cantam? Quem sabe canções de amor! Rock. Se tivesse coragem procuraria na lista o telefone. Até poderia ligar, ouvir a sua voz e imaginar. Mas ligar e falar o que? Melhor nem pensar nisso e continuar vivendo o calado da sua voz. Assim não consigo sentir as outras vibrações, só as do silêncio.

E comida? Deve comer tralhas, moço sozinho vive de geladeira vazia. Não deve ter toalhas de linho, aposto que come sentado na frente da tv.

Aos sábados e domingos, posso servir o café mais tarde, seu andar ligeiro, acompanhado da cadela, só acontece depois das nove. E é este andar que sustenta os meus caminhos nas folgas. Na indecisão de correr na trilha do suor, corro atrás do almoço.

Outro dia quando passava na porta do prédio, o vi conversando com outro rapaz. Seria o irmão ou o amigo? Por certo é o amigo, falaram que o irmão mora longe. Tão raro encontrá-lo assim solto pela rua, só nos fins de semana mesmo.

E se eu esbarrasse pra sentir o perfume? Sem dúvida iria me borrar, o perfume continha tons azuis. Mas só pude ouvir que estava feliz, ria animado.

De camisa vermelha e calça jeans surrada, tinha sustenidos de elegância. Com vergonha de encará-lo, perdi a chance de ouvir a sua voz, abaixei a cabeça e nem olhei pros lados. Ai! Senti uma vontade louca de explorar os tais olhos desbotados. Daria uns anos da minha vida por isso.

Às vezes sai à noite, mas pelo tempo que demora, não deve ir muito longe. Da minha janela acompanho cada passo dele.

Toda noite dou uma desculpa em casa _ ler ou escrever _ e corro pro quarto, da cama vejo o céu misturado ao fio de luz da sua sala.  Luz mansa, trêmula, luz de vela. Alecrim! Treme um verde na claridade. Qual seria o aroma de quem nasceu no campo sem ser semeado?

Entre as palavras do meu livro, que mal consigo ler, aparecem os sorrisos e os olhos que jamais vi. No texto embaralhado leio somente as palavras que nunca foram escritas. Dispersa cuido de cada sombra que imagino na vidraça.

Agora apagou a luz, já posso fechar a janela. Será que vai dormir? Talvez ouça música ou leia. Nunca vou saber. As prateleiras mudas do quarto repousam numa parede que não vejo.

Com os olhos castigados pelo escuro da luz, não divido com ele as dobras dos lençóis, resta-me somente velar pelo seu sono e esperar que o dia amanheça. Boa Noite!

Escrito por Márcia Rodrigues às 16:14:10
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Nando Reis - Hoje Mesmo

O jeito que você arruma seu cabelo procurando aquele efeito que o
mundo não quer reparar: 
- revela tanto. 
E o tempo que demora para decidir se aquilo que está ouvindo é
convincente para poder 
Concordar 
- e me deixa esperando. 
Eu posso esperar 

Assim que eu entro já no cumprimento eu reconheço as múltiplas
perguntas que na ausência entram em meu lugar 
Seus olhos fitam com medo. 
A única certeza que eu tenho é absurda pois a dúvida sustento
por que não me mudar 
Pro seu apartamento 
Hoje mesmo 

Hoje eu vou sair por aí anunciando que o Sol não vai mais se
deitar 
As plantas gostam de chuva mas por você nem mesmo as nuvens
teriam razão de haver em nenhum lugar 
Não… 
Não… 
Não tenha medo! 
O nosso amor é essencial 
Nenhum amor é imortal 
Eu gosto de você! 

Se um gênio perguntasse quais seriam os meus três desejos o
primeiro: pediria ao tempo voltar pra trás 
- pra te ver aos dezesseis anos 
Não há idéia que alcance ou seja parecida com a imagem da menina
esguia, a bolsa a tiracolo 
- e as pedras só pesando 
Pois ela nunca irá jogá-las! 

O seguinte, segundo desejo, emoldurar no céu o seu sorriso que
eu pensei que nunca mais pudesse reencontrar 
O filho é que cria a mãe 

E o último, complexo, honesto e genuíno, amar sem precisar da
dor, querer também sem magoar 
Tocar seu corpo 
Hoje mesmo. 

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:28:41
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Eu amo ganhar presentes, este ganhei ontem:

"Porque a doença de ler, uma vez tendo tomado conta do organismo, enfraquece-o a ponto de torná-lo fácil presa desse outro flagelo que habita na pena e supura no tinteiro"

Conhece esta frase?

É de Virgínia Woolf.

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:07:39
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26/08/2004


" Dizem que poetas nascem poetas"

Bateu-me à porta a solidão esta tarde...

Em corpo de velha senhora...

Deixei-a entrar...

Sem dizer ou ouvir palavra alguma...

E ainda de pé na porta...

Observei seu estado...

Tinha nas pupilas a expressão dos que não choram...

E assim como na música...

Sorria seus dentes de chumbo...

Em desalinho, sentou-se no canto da sala...

No chão mesmo...

E lá permanece até agora...

Enquanto escrevo nossos olhos se cruzam...       

E por segundos posso ouvi-la...

                                                   

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:12:05
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25/08/2004


Aniquilamento.

Sabe, conto histórias num centro de convivência aqui em sp, cujo teto é um viaduto, o Minhocão. Todas as quartas nos reunimos com, em média, 300 moradores de rua, 90% são homens, alguns com famílias: esposa e filhos. Sempre tive o carinho e o respeito de todos. Lá eles fazem parte de frentes de trabalho, cursam oficinas profissionalizantes, temos escultores, esculturas que são vendidas, até exportadas e o lucro se transforma em matéria prima.  Alguns possuem carteira assinada, trabalham, marcam cartões e usam o centro como endereço fixo. Outros falam três línguas, temos moradores que estudaram na USP e que trabalharam fora do Brasil. Com vida quase dentro da normalidade: namoram, transam, lêem, discutem política, reivindicam, se correspondem com parentes e possuem objetivos. Ali eles possuem um estacionamento de carroças, usado pelos catadores de papelão. Ainda temos, além da alimentação, tanques, onde lavam as roupas, varais, serviço de costura, cabeleireiro, barbeiro, duchas (água quente, shampoo e sabonete), bazar com roupas doadas, enfermaria, biblioteca, encaminhamento pra médicos e dentistas.

Ainda existe um projeto de domicílio temporário, de adaptação com a sociedade (lenta e dolorida), serviço oferecido pra quem tem trabalho garantido.

São vários centros como este pela cidade e são mantidos pela prefeitura de São Paulo. Como exemplo cito o Boracéia, o maior centro de convivência.

Tenho certeza que é pouco e não resolve todos estes problemas, mas sou voluntária, contadora de histórias, e eu como tantas outras pessoas estamos preocupadas com essa gente, tentamos tirá-los das ruas, levar os sonhos e a esperança de uma vida melhor.

Minha tarja é preta pelos que se foram, mas branca pelos que ficaram e pelos quais eu continuo lutando.

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:55:42
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23/08/2004


Pessoal!

Coisas legais acontecem sem a gente esperar: O blogger foi recomendado pela Uol. Agradeço a eles a indicação, pois o sonho do escritor é ser lido por muitos.

Ah! A Camille, que é Márcia, vai ser parte de livro também. Livro de iniciante, fruto de seus estudos para escrever e se expressar melhor. É o livro "Crônicas literárias", organizado pelo Professor Gilson Rampazzo.  Conto com vocês sempre.

Obrigada.

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:13:58
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22/08/2004


O vaso das delícias.

A Origem do Mênstruo

De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.


Stava Vênus gentil junto da fonte fazendo o seu pentelho, com todo o jeito, pra que não ferisse das cricas o aparelho. Tinha que dar o cu naquela noite ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama, passou dias felizes... Rapava bem o cu, pois resolvia na mente altas idéias:

— ia gerar naquela heróica foda o grande e pio Enéias. Mas a navalha tinha o fio rombo,
e a deusa, que gemia, arrancava os pentelhos e, peidando, caretas mil fazia!

Nesse, entretanto, a ninfa Galatéia, acaso ali passava, e vendo a deusa assim tão agachada, julgou que ela cagava...

Essa ninfeta travessa e petulante era de gênio mau, e por pregar um susto à mãe do Amor
atira-lhe um calhau...

Vênus se assusta. A Branca mão mimosa se agita alvoroçada, e no cono lhe prega (oh! Caso horrendo!) tremenda navalhada.

Da nacarada cona, em sutil fio, corre pupúrea veia, e nobre sangue do divino cono as águas purpureia. (É fama que quem bebe dessas águas jamais perde a tensão e é capaz de foder noites e dias, até no cu de um cão!)

          “Ora porra” — gritou a deusa irada, e nisso o rosto volta... E a ninfa, que conter-se não podia, uma risada solta. A travessa menina mal pensa que, com tal brincadeira, ia ferir a mais mimosa parte da deusa regateira...

          “Estou perdida!” - trêmula murmura a pobre Galatéia, vendo o sangue correr do rósco cono da poderosa déia... Mas era tarde! A Cípria, furibunda, por um momento a encara, e, após instantes, com severo acento, nesse clamor dispara:

 “Vê! Que fizeste, desastrada ninfa, que crime cometeste! Que castigo há no céu, que punir possa um crime como este?!

Assim, por mais de um mês inutilizas o vaso das delícias... E em que hei de gastar das longas noites as horas tão propícias?  Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...

Em mísero abandono, que é que há de fazer, por tanto tempo, este faminto cono?...

Ó Adonis! Ó Júpiter potentes! E tu, mavorte invito! E tu, Aquiles! Acudi de pronto da minha dor ao grito! Este vaso gentil que eu tencionava tornar bem fresco e limpo para recreio e divinal regalo dos deuses do Alto Olimpo.

Vede seu triste estado, ó! Que esta vida em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa vingai-vos e vingai-me!

Ó ninfa, o teu cono sempre atormente perpétuas comichões, e não aches quem jamais nele queira vazar os seus colhões...

Em negra podridão imundos vermes roam-te sempre a crica e à vista dela sinta-se banzeira

a mais valente pica!

De eterno esquentamento flagelada, verta fétidos jorros, que causem tédio e nojo a todo mundo, “até mesmo aos cachorros!”.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:00:10
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O fim da história.

Ouviu-lhe estas palavras piedosas do Olimpo o Grão-Tonante, que em pívia ao sacana do Cupido comia nesse instante... Comovido no íntimo do peito, das lástimas que ouviu,

manda ao menino que, de pronto, acuda à puta que o pariu...Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro de concha alabastrina, que quatro aladas porras vão tirando na esfera cristalina.

Cupido que as conhece e as rédeas bate da rápida quadriga, co’a voz ora as alenta, ora co’a ponta das setas as fustiga. Já desce aos bosques onde a mãe, aflita, em mísera agonia, com seu sangue divino o verde musgo de púrpura tingia... No carro a toma e num momento chega à olímpica morada, onde a turba dos deuses, reunida, a espera consternada!

Já Mercúrio de emplastros se a aparelha para a venérea chaga, feliz porque naquele curativo espera certa a paga... Vulcano, vendo o estado da consorte, mil pragas vomitou... Marte arranca um suspiro que as abóbadas celestes abalou... Sorriu o furto a ciumenta Juno,

lembrando o antigo pleito, e Palas, orgulhosa lá consigo, resmoneou: — “Bem-feito!”

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios o sangue que escorria, e de tesão terrível assaltado,

conter-se mal podia! Mas, enquanto se faz o curativo, em seus divinos braços, Jove sustém a filha, acalentando-a com beijos e com abraços. Depois, subindo ao trono luminoso, com carrancudo aspeto, e erguendo a voz troante, fundamenta e lavra este DECRETO:

          “Suspende, ó filha, os lamentos justos por tão atroz delito que no tremendo Livro do Destino de há muito estava escrito. Desse ultraje feroz será vingado o teu divino cono, e as imprecações que fulminaste agora sanciono.

Mas, inda é pouco: — a todas as mulheres estenda-se o castigo para expiar o crime que esta infame ousou para contigo... Para punir tão bárbaro atentado, toda humana crica, de hoje em diante, lá de tempo em tempo, escorra sangue em bica... E por memória eterna chore sempre o cono da mulher, com lágrimas de sangue, o caso infando, enquanto mundo houver...”.

 Amém! Amém! Com voz atroadora os deuses todos urram! E os ecos das olímpicas abóbadas, Amém! Amém! Sussurram...

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:58:59
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21/08/2004


Cecília Meireles, talvez assim eu consiga agradar os olhos de todos e agradecer tantas visitas.

Motivo
 

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Escrito por Márcia Rodrigues às 17:18:38
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20/08/2004


Quem tem sogra?

A toalha.

 

Desde o início o relacionamento foi difícil, sogra e nora eram como água e óleo, jamais se misturariam e como duas paralelas, nunca se cruzariam. Enfim nora e sogra.

A moça era a mãe dos dois únicos netos. Mas a velha era silenciosa e retraída.

Por mais que a nora se esforçasse não dava certo, fazia de tudo para agradar. Cozinheira de mão cheia convidava a sogra para experimentar as novas receitas, na esperança que o convite fosse retribuído. Em vão, a sogra nunca a convidava, nas poucas vezes que lá comeu foi por que levou o prato principal. Dia de feijoada, a nora ficava com a feijoada e a sogra com o arroz e a couve, dia de macarronada, o molho e a carne eram da nora, o macarrão da sogra, e olha que ela nunca se atreveu a fazer uma massa, o pacote de macarrão era sempre dos mais baratos.

Pra ajudar tinha uma cunhada solteirona, muito religiosa e dona de olhos muito curiosos.

No último reveillon, sabendo que a sogra queria comer churrasco, a nora providenciou a carne, bebida e o sorvete, pra sogra ficou a salada e a farofa.

Quase perfeito. Durante o almoço a sogra falou dos pêssegos que havia comprado, estavam todos azedos e reclamava por perder todas aquelas frutas. Sempre disposta, a nora se ofereceu pra fazer um doce em caldas. Sentada na mesa, retirou o prato e imediatamente descascou tudo e em alguns minutos o doce estava pronto.

Feliz por ter agradado a sogra, a nora terminou o dia feliz e aliviada.

No outro dia, como sempre fazia, ligou pra sogra agradecendo o almoço. Ao se despedir a sogra disse:

_ Só uma coisa, sua cunhada está perguntando como se tira nódoa de fruta?

_ Sinto muito, mas nódoa de fruta não sai nunca mais. A roupa está perdida.

_ Que pena, já tentamos de tudo, deixamos de molho, esfregamos com escova, quaramos e a mancha não sai, era uma toalha de mesa que eu gostava tanto e era a mais nova.

Já havia entendido o recado, talvez tivesse deixado cair as cascas dos pêssegos sobre a toalha, mas a sogra emendou:

_ Foi você quem manchou a toalha quando descascou os pêssegos sobre ela. Mas tudo bem está perdida agora. Tchau. Manda um beijo para todos.

Agora vocês decidem:

A _ Ligo de volta, falo tudo o que tenho engasgado e mato a velha de vez.

B _ Compro uma nova toalha e entrego a ela com as minhas desculpas. (E morro de ódio)

C _ Não compro a toalha e finjo que nada aconteceu.

D _ Nunca mais volto lá para comer.

E _ NDA (aceito sugestões)

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:03:14
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Oi.

Se você tem uma história interessante e

gostaria de transformá-la num texto, fale comigo.

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:23:09
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Tira a mão daí menino.

 

A mesa acontece depois da aula de literatura, todas as terças, em qualquer ponto da cidade.

Enquanto eu, Bel e Elizete acomodávamos os casacos e as bolsas numa cadeira da cervejaria, Odila, a nossa comicóloga, já estava sentada e decidia o cardápio. Como estava muito frio, de cara pediu a carta de vinhos.

_ Porra! Sempre escolhe o mais caro.

Entre nós duas o garçom presenciava a discussão. Gato Preto Merlot ou Periquita?

Um chileno e outro português. Nem olhou o preço, aposto! Toda vez reclamo, mas finge não ouvir, pede e ponto.

Já que não tinha o merlot, que era mais barato, ficamos mesmo com Periquita.

_ Anota aí, dizia ao garçom: - Uma salada, polenta, tábua de frios, pão, manteiga e calabresa acebolada.

Sabia! Como ela adora polenta e a Bel_ salada, isso é certo estar na mesa.  Fiz sinal pro garçom:

_ Vem aqui perto, vem!

_ Pois não senhora.

_ Quero ver a carta de vinhos.

_ Aqui está!

Olhando a carta:

_ Ah! Não é dos mais caros. Pode trazer.

Cada vez que ele passava pela mesa eu reclamava:

_ E a manteiga? O pão...

_ A senhora parece ser a mais brava, tenha calma, já vou trazer.

Quase bonito o moço! Uns 30 anos, sorriso tímido e cara de nordestino. Não sei porque, mas tenho uma quedinha por eles. Sempre me pareceram tão arretados! Ao colocar na mesa o pão e a manteiga, que a nossa personal comilança reclamou ser margarina, ele se ajoelhou ao meu lado e colocando a mão no meu joelho disse baixinho:

_ Senhora!

Putz!  Quanto tempo ser sentir mãos tão quentes e jovens! Claro que tremi. Melhor seria resistir...  Como? Não sei! Sem querer ele descobriu o meu ponto G, H, I, J, K... 

_ Tira a mão.

Ao olhar pra mesa: Bel abaixou a cabeça, ria e comia timidamente, Odila disfarçava saboreando o vinho. Elizete? A minha maezona? Já me olhou torto e me repreendendo ao mesmo tempo.

Meu Deus! Um menino com a mão no meu joelho. Ajoelhou tem que rezar:

_ Ave Maria.  Como é cheio de graça!

_ Senhor é convosco. Naquela hora desejei que me abandonasse!

_Bendita sois vós... Que mãos! 

_Bendito é o fruto do vosso ventre... Ai Jesus!

_Santa Maria Mãe de Deus rogue por nós pecadores. Não me livra deste pecado!

_Agora e na hora de nossa morte _ amém.

Logo veio a lembrança de minha mãe quando dizia:

_ Filha, frango novo dá caldo grosso.

Naquela noite fria depois do vinho abençoado, até seria bom um caldinho.

Agora apertava mais o meu joelho. O que fazer?  Não sabia se comia, se bebia ou...

_ Senhora!

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:20:03
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_ Ti    -   ra        a        mão!

Pena que era obediente. Na verdade gostaria que fosse atrevido, mas não teria coragem de rezar longe do altar e diante daquelas beatas. Como tomar caldo numa cuia novinha? Não era pra mim.

Todas olhavam e riam, sem graça, o menino ficou em pé e se afastou. Assim fiquei sem saber o que queria comigo. 

Meio de longe li o crachá: Claudiomício. Agora eu tinha certeza, era nordestino mesmo. Por certo a mãe deveria se chamar Claudiomira e o pai Maurício. Ou talvez tivesse sido concebido num comício. Mas ele não explicou a origem do nome.

_ Volta aqui. Onde você nasceu?

Dando-me as costas disse.

_ Surubim , Pernambuco, entre Recife e Caruaru, terra da vaquejada.

Diante do balcão pegou algumas bandejas e voltou. Agora parecia um vaqueiro montado num cavalo. Tal qual um malabarista segurava as bandejas como se estivesse agarrando a vaca pelo rabo.  A vaquejada foi servida: vinho e comida.

O tempo todo ele rondava a mesa como se fossemos os animais a serem protegidos dos arranhões. Rebanho de Deus!

Na mesa farta, comemos como rainhas, no entanto pensava na vaca solta na caatinga sendo perseguida pelo vaqueiro. Qual seria o gosto do tombo? Como se sentiria depois de ser arrebatada entre os espinhos vigorosos daquela mata?  De novo, sem respostas.

Noite boa, boa noite. A conta foi cara pra variar. Mas valeu pela vaquejada paulistana e pela reza.

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:19:30
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18/08/2004


Hoje quando os meus pés viraram a esquina, senti uma vontade imensa de ser frágil,

mas minhas botas me fizeram forte mais uma vez.

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:28:38
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Eu ganhei de presente.

JG de Araújo Jorge

Os Versos Que te Dou
Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos...e serei feliz...
E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...
Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:35:00
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Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez...
E ao lê-los...com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez...
Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...
Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.

JG de Araújo Jorge
(do livro "Meu Céu Interior" - 1934)        UM BEIJO!

14.08.2004

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:31:16
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12/08/2004


Resenhas dos pecados femininos.
 
Enquanto esperava o carro, na saída da ópera, que é cantata, tentei separar os pensamentos. 
_ Carmina Burana!
Estes poemas foram escritos por um grupo de profanos que viviam do pecado da carne. Onde o bem não existe sem o mal e o sacro sem o profano. Com certeza é a ligação entre os sete pecados capitais que conduzem a outros. 
- Os nossos pecados!
Pecado é uma palavra, uma ação ou um desejo contrário à lei divina. Sempre expostos à roda da fortuna estamos em evolução, será?
Como mulher queria entender os sete pecados capitais. Mas antes de confessá-los, pensei nas penitências.
Mas lembrei de Célia Maria, minha vizinha. Moça bonita, morena, olhos grandes, corpo escultural. Talvez tenha este corpo por ter medo de elevador, mora no décimo andar e só usa as escadas. Sem medo das penitências, entrega-se a luxúria. A gula faz parte dela, permite-se a todos os homens e mulheres. É livre da avareza, compartilha seu corpo com quem o desejar.
Totalmente desprovida de orgulho vende cosméticos, leva uma vida difícil e sem inveja de ninguém é dona da sua liberdade, mas morre de preguiça de cuidar da casa.
Não comete todos os pecados, é conduzida por eles. Simplesmente Maria ou Maria Madalena? Não sei!
Quando ouvi os aplausos, encaixada na poltrona do camarote, mal consegui unir as mãos.  Não me preocupei com as fantasias que, empoeiradas, se acomodaram no porão do teatro. O cenário é a minha história, desce e sobe manipulado por cordas nas mãos dos outros. Um pano de fundo frio e sem brilho.
Com minha vida abençoada e sacramentada, o que era proibido, adormeceu de vez. Nunca me permitiram pecar. Desta maneira fui condenada a seguir os bons costumes. Fugi pra me prender na construção de uma nova prisão. Na união eterna e morna dos corpos, jamais havia pensado em despertar.
Ao som de Carl Orff , na Marginal vazia, senti inveja de Célia Maria e raiva de mim. Meu marido dirigia em silêncio, mas os pecados gritavam no meu ouvido. A caminho do restaurante, eu me negava à gula, melhor seria saborear a luxúria. Senti que poderia fazer amor ali, dentro do carro, numa daquelas travessas escuras, beirando as luzes da Marginal. 
_ Olha pra mim moço, deixa eu te agradar!  Salve, mundo tão rico de prazeres!
Quem sabe teria sorte, tudo escuro, talvez Deus não visse. Poderia estar distraído com tantos pecados no mundo. Afinal eu tinha o aval dele e dos homens, por escrito. Mas ele estava com os olhos bem abertos em cima de mim. Novamente não pequei.  Que vida detestável, ora frustra, ora satisfaz com zombaria os desejos da mente. 
Só agora entendi por que fui criada num padrão moral onde tudo era taxado como pecado e mortal. Hoje considero falso, mas acreditei.
­­­- Mortal é viver morrendo assim, sem consideração nenhuma com os meus desejos. 
Além de amar a gula e invejar a luxúria, sempre me orgulhei em odiar os diálogos não falados, episódios incompletos, que nunca se unem pelo tema do pecado. Talvez eu seja preguiçosa comigo mesma, nunca alcanço a liberdade. Ou melhor, sou avarenta!  Não permito uma porção de coisas. Assim como Célia Maria gostaria de sentir a dor das pedras.
Quando cheguei ao restaurante, sentada à mesa, senti que me fartaria pra esquecer aqueles desejos. Naquela hora não pensei nem quando nem como vou morrer. Ouvindo melodias distintas, bebi e comi. Um pecado suprimindo o outro e continuando a vida.
Em casa removendo a maquiagem diante do espelho, retirei a máscara teatral e vi uma imagem clara, não era o meu reflexo e sim o de Célia Maria.
_ MALDITA!
Sempre dizendo sim e prestando atenção na vida. Eu? Ando distraída. Normalmente digo não.  
Durante anos me comportei respeitando todos os pecados capitais, uma verdadeira Madame Butterfly, sem falar dos dez mandamentos. Até o dia em que resolver me purificar, renovar a alma e libertar o espírito. Fugir do espelho e deixar pelos caminhos alguns pedaços de mim mesma. Sair Márcia e voltar Dama das Camélias – flores. Quem sabe Norma?
Com certeza o forasteiro de Wagner ronda a minha mente, mas não quero morrer como Carmen, tenho que viver pra escrever uma ópera com o nome de Célia Maria.

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:41:12
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08/08/2004


A velocidade da vida.

 

O cheiro da comida invadia a casa toda. Na sala, sentado no sofá, esperava o almoço ser servido. Preocupada em apressar o fogo que não me obedecia via que ele não se incomodava com a correria. Com o controle na mão, parecia brincar. O meu mundo era a cozinha e o dele a sala. 

No forno lento o frango dourava  e o barulho dos pratos tirava a atenção da tv.

Logo que come quer ir embora pra fazer a sesta e descansar. Sempre achei que era afobado, mas olhando pra ele agora, percebi que não.

_ Vem Pai, está na mesa!

Quando nos sentamos ainda mantinha aquela tranqüilidade. Caminhou devagar e demorou pra se ajeitar na cadeira. Com os olhos namorou a mesa e me pediu pra servi-lo. Durante o almoço a conversa foi animada.

Até pra comer tem calma. Tanto que, curte e  saboreia. Com certeza perdeu a pressa da vida.  Comecei a imitá-lo, ele mastigava tantas vezes...

Entre uma palavra e outra comeu tudo feito menino bonzinho. Depois de beber  o suco, ganhou a sobremesa.

Enquanto eu tirava a louça, vi que se arrumava pra ir embora.

_ Eu te levo Pai.

_ Não precisa, vou de ônibus.

_ Senta aí Pai, que pressa e essa? Dez minutos e te levo.

Agora a pressa tomava conta da tranqüilidade.

No carro perguntei

_ Onde quer ir?

_ Pra casa , claro.

_ Não Pai, vamos sair, hoje tirei à tarde pra ficar com você. Que acha de irmos ao Jardim Botânico?

_ Você que sabe.

Novamente a tranqüilidade. Tudo estava bom, tanto faz ir pra casa ou passear.

Pelo caminho dizia que não sabia onde ficava e que nunca tinha ido lá. Deve ter esquecido, tantas vezes passamos as tardes juntos naquele lugar. Talvez quando chegássemos despertaria no fundo da memória as recordações.

Na entrada cercada por palmeiras, caminhava devagar e prestava atenção em cada detalhe. Com calma me dizia  o nome de todas as plantas e árvores. Ainda me explicou a diferença entre as palmeiras imperiais e barrigudas.

Não é que ele sabe mesmo? As placas confirmavam.

Entre os canteiros das azaléias e camélias, o lago com ninféias trouxe um sorriso manso no seu rosto.  Eram pequenas demais pra serem vitórias-régias!

Diante de um pé de café ficou emocionado, lembrando de sua juventude na roça. Na estufa surpreendeu-se com a variedade de espécies, riu de uma tartaruga que nadava entre as carpas.e me mostrou como é feita a oxigenação da água. Eu me sentia menina ouvindo aquilo tudo.

Aos poucos fui entendendo aqueles passos miúdos, diminui a velocidade da minha ansiedade e andei ao lado dele. Ele percebe coisas pequenas. Como ficar um tempão vendo um pássaro andar e não voar. Andar ligeiro!

Em frente ao portal que guarda as escadarias de pedras, sem animo pra subir, ficou imaginando o que haveria lá em cima. Talvez árvores em extinção, protegidas pela dificuldade da subida. Com as mãos nos quadris, disfarçava a preguiça de encarar o íngreme da escadaria

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:23:35
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Ao lado dos chafarizes interditados, concluiu que não era época de muita água. Pra tudo ele tem uma resposta.

De braços dados ganhamos a praça das esculturas,  homenagem a paz mundial. Agora a tranqüilidade era minha também.

Em silêncio analisamos cada uma. Um dreno cortava a terra ligando duas delas.

_  De onde vem essa água?

Não respondeu, quebrou o silêncio me fazendo prometer que voltaria pra um piquenique. Mesmo sem lembrar que havia estado ali,  escolheu o lugar onde estenderemos a toalha e me mostrou onde quer tirar um soninho. Agora parecia ter pressa de viver. Prometi voltar!

Quando resolvemos ir embora, seus passos lentos me diziam que queria ficar, cada pessoa que passava ele cumprimentava e sorria. De quando em quando parava e me dizia que aquilo era o paraíso e que anjos e Deus moravam ali.

É... Ele gostou do passeio!

Na volta, dentro do carro, seus sorrisos soltos brilhavam, foi a forma que achou pra me agradecer.

Com certeza o sol frio do inverno aqueceu as águas daqueles lagos e umedeceu o olhar seco do meu Pai. Todos os erros foram esquecidos e só ficaram as coisas boas. A sabedoria da idade me ensinou muito mais do que nomes de plantas e árvores . Aprendi a perdoar e respeitar a velocidade da vida.

28.07.2004

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:22:44
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02/08/2004


Bodas de prata

 

Eu tinha vinte e um anos e naquela época não existia metrô na Paulista. Na Estação Paraíso pegava o ônibus e seguia até a Rua Augusta, onde trabalhava.

Avenida Paulista, a mais bela Rua de São Paulo. Tão imponente! Meu olhar de menina se assustava diante dos prédios poderosos. 

O MASP, com o elevador de vidro e aquele vão sem fim, era o fantasma mais temido. Com certeza nunca entraria lá. Aquele lugar não tinha sido feito pra mim.

Naquela manhã, como em todos os dias, passei os olhos no jornal. Seria inaugurada em São Paulo, na Avenida Paulista, a segunda loja de uma rede de lanchonetes americana. A primeira tinha sido no Rio.

Lanchonete, lugar de comer lanches, assim chamava naquele tempo. Mas aquela era diferente, a grande novidade no Brasil. No balcão você fazia o pedido, pagava e retirava o lanche, tudo numa bandeja. Depois de comer você mesmo jogava o lixo. As embalagens todas descartáveis. Até poderia compartilhar a mesa com alguém que nunca tivesse visto! Nossa! Hambúrgueres, catchup, mostarda e refrigerante. Parecia bom. Acostumada com misto quente e garçons, senti vontade de experimentar.

Logo os tapumes daquela esquina da Paulista foram retirados. Ali era a loja da rede americana.

Esperei ansiosa pelo dia do pagamento, pois resolvi gastar um pouco dele na nova lanchonete.

Quando saí do trabalho no final da tarde nem tomei o ônibus, fui a pé. Precisava economizar, diziam que era caro, mas eu queria o tal do hambúrguer americano.

Na porta fiquei parada olhando o movimento. Não tinha como errar! As pessoas chegavam, pediam e se sentavam. Tinha até um café. Tão Bonito!  Colorido. Tudo limpo e organizado. As cadeiras giratórias e fixadas no chão, os atendentes uniformizados e sorridentes. Eu me senti num filme americano. Talvez eles falassem em inglês.

Mais uma vez a Paulista me intimidou. Minha roupa não era adequada, depois eu tinha trabalhado o dia todo e as pessoas pareciam bem vestidas lá dentro...

Com muito medo resolvi voltar outra hora, o novo me assustava.

Todas as manhãs minha boca se enchia de água quando o ônibus passava por ali.

Será que aquele prédio também não havia sido construído pra mim? Procurando afastar mais um fantasma me enchi de coragem e resolvi que viria no fim de semana.

No sábado fiquei o dia todo pensando na roupa que usaria. Um jeans, um sapato baixo e uma camiseta. Dentro do ônibus eu tremia como se fosse encontrar o meu primeiro namorado. Sem me sentir animada, desci dois pontos antes e fui andando.

De novo espiei, famílias inteiras lotavam a pequena loja de hambúrgueres, os boyzinhos, que hoje chamamos de mauricinhos tomavam conta da porta. Eu me senti ridícula de jeans e camiseta. Era preciso uma camisa de seda, sei lá. Sabia que era desculpa. Voltei pra casa com fome e chateada.

Durante meses passei na porta e não entrava.

Numa tarde quando fazia um trabalho na Paulista, passei em frente a pé, e vi a loja vazia. Era a minha chance. Novamente senti medo, não consegui entrar. Andando sem perceber a distância que fui tomando cheguei ao MASP. Agora o meu medo era maior, estava diante do outro fantasma.

Por que voltar? Eram medos que eu tinha que enfrentar. Quem sabe, andando pelo museu eu sentiria fome? Assim poderia voltar e comer. Entro ou não entro? A bilheteria cada vez mais perto:

_ Uma inteira. Por favor!

Depois de comprar o ingresso e achar caro demais, não tinha como fugir! Diante do elevador de vidro eu sentia medo. Parecia um monstro de boca aberta pronto pra me engolir. Ao meu lado, mulheres elegantes também esperavam por ele, por pouco não me intimidaram.

Não sei bem o que vi, segui as mulheres e fiz exatamente os que elas fizeram. Entre os quadros e suas cores, até me senti à vontade, mas não pensei em comida. Não tinha sido fácil, mas aquele fantasma não mais me assustava.

Quando saí pensei:

_ Por que não tomar um lanche? Que tal um hambúrguer?

Agora eu tremia mesmo. Sem fome fui andando, o hambúrguer me chamava, precisava experimentar. Queria vencer mais aquele medo. Quando cheguei em frente não olhei pra dentro da loja, abaixei a cabeça e empurrei a porta, no balcão fiz o pedido. Que alívio, eu havia conseguido.

Hoje não me lembro o nome do lanche, nem sei se ele tinha número naquela época. Comi tão gostoso! Eu me senti uma verdadeira garota americana num filme de Hollywood. Fiz tudo direitinho, não dei nenhum fora e disse bye bye ao sair.

Agora eu me sentia feliz, tinha afastado de vez aqueles fantasmas.

Hoje sei que o MASP e tantos outros prédios desta cidade foram feitos pra mim. Comemoro a minha primeira ida ao museu com os 25 anos do meu lanche predileto.

Uma conquista é assim, demorada, sedutora, assustadora. Pra se casar com alguém e durar tantos anos, só mesmo sendo o número um. Tim, Tim!

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 06:02:36
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