Resenhas dos pecados femininos.
Enquanto esperava o carro, na saída da ópera, que é cantata, tentei separar os pensamentos.
_ Carmina Burana!
Estes poemas foram escritos por um grupo de profanos que viviam do pecado da carne. Onde o bem não existe sem o mal e o sacro sem o profano. Com certeza é a ligação entre os sete pecados capitais que conduzem a outros.
- Os nossos pecados!
Pecado é uma palavra, uma ação ou um desejo contrário à lei divina. Sempre expostos à roda da fortuna estamos em evolução, será?
Como mulher queria entender os sete pecados capitais. Mas antes de confessá-los, pensei nas penitências.
Mas lembrei de Célia Maria, minha vizinha. Moça bonita, morena, olhos grandes, corpo escultural. Talvez tenha este corpo por ter medo de elevador, mora no décimo andar e só usa as escadas. Sem medo das penitências, entrega-se a luxúria. A gula faz parte dela, permite-se a todos os homens e mulheres. É livre da avareza, compartilha seu corpo com quem o desejar.
Totalmente desprovida de orgulho vende cosméticos, leva uma vida difícil e sem inveja de ninguém é dona da sua liberdade, mas morre de preguiça de cuidar da casa.
Não comete todos os pecados, é conduzida por eles. Simplesmente Maria ou Maria Madalena? Não sei!
Quando ouvi os aplausos, encaixada na poltrona do camarote, mal consegui unir as mãos. Não me preocupei com as fantasias que, empoeiradas, se acomodaram no porão do teatro. O cenário é a minha história, desce e sobe manipulado por cordas nas mãos dos outros. Um pano de fundo frio e sem brilho.
Com minha vida abençoada e sacramentada, o que era proibido, adormeceu de vez. Nunca me permitiram pecar. Desta maneira fui condenada a seguir os bons costumes. Fugi pra me prender na construção de uma nova prisão. Na união eterna e morna dos corpos, jamais havia pensado em despertar.
Ao som de Carl Orff , na Marginal vazia, senti inveja de Célia Maria e raiva de mim. Meu marido dirigia em silêncio, mas os pecados gritavam no meu ouvido. A caminho do restaurante, eu me negava à gula, melhor seria saborear a luxúria. Senti que poderia fazer amor ali, dentro do carro, numa daquelas travessas escuras, beirando as luzes da Marginal.
_ Olha pra mim moço, deixa eu te agradar! Salve, mundo tão rico de prazeres!
Quem sabe teria sorte, tudo escuro, talvez Deus não visse. Poderia estar distraído com tantos pecados no mundo. Afinal eu tinha o aval dele e dos homens, por escrito. Mas ele estava com os olhos bem abertos em cima de mim. Novamente não pequei. Que vida detestável, ora frustra, ora satisfaz com zombaria os desejos da mente.
Só agora entendi por que fui criada num padrão moral onde tudo era taxado como pecado e mortal. Hoje considero falso, mas acreditei.
- Mortal é viver morrendo assim, sem consideração nenhuma com os meus desejos.
Além de amar a gula e invejar a luxúria, sempre me orgulhei em odiar os diálogos não falados, episódios incompletos, que nunca se unem pelo tema do pecado. Talvez eu seja preguiçosa comigo mesma, nunca alcanço a liberdade. Ou melhor, sou avarenta! Não permito uma porção de coisas. Assim como Célia Maria gostaria de sentir a dor das pedras.
Quando cheguei ao restaurante, sentada à mesa, senti que me fartaria pra esquecer aqueles desejos. Naquela hora não pensei nem quando nem como vou morrer. Ouvindo melodias distintas, bebi e comi. Um pecado suprimindo o outro e continuando a vida.
Em casa removendo a maquiagem diante do espelho, retirei a máscara teatral e vi uma imagem clara, não era o meu reflexo e sim o de Célia Maria.
_ MALDITA!
Sempre dizendo sim e prestando atenção na vida. Eu? Ando distraída. Normalmente digo não.
Durante anos me comportei respeitando todos os pecados capitais, uma verdadeira Madame Butterfly, sem falar dos dez mandamentos. Até o dia em que resolver me purificar, renovar a alma e libertar o espírito. Fugir do espelho e deixar pelos caminhos alguns pedaços de mim mesma. Sair Márcia e voltar Dama das Camélias – flores. Quem sabe Norma?
Com certeza o forasteiro de Wagner ronda a minha mente, mas não quero morrer como Carmen, tenho que viver pra escrever uma ópera com o nome de Célia Maria.