Coisas de uma contadora de histórias


30/09/2004


Algumas coisas não mudam, a primavera chega sempre sem ser chamada. Outras coisas, como o frio, me remete a lugares dos quais não consigo retornar. A busca incessante do amor manso e cheio de coisas boas continua. Meio cansada e quase por desistir. Talvez eu renasça entre as flores das minhas primaveras, talvez eu morra.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:27:23
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São Paulo, 09 de Dezembro de 2002.

Oi,

Como você está? Eu? Não sei bem ao certo... Sinto-me viva.

Hoje o dia acordou ventando. O céu não tem cor e choram as nuvens.

Li um pouco pela manhã e andei pela casa pensando na vida. Pensando nos motivos que nos levam a viver.

Nascemos pras canções de rodas, pras historinhas infantis, pros contos de fadas.

Nascemos pro sol amarelinho, pra chuva de mansinho, pra brisa suave.

Andando pela casa, enxergo cada gaveta, cada caneta. Todos os segredos guardados, gavetas que guardam segredos. Não quero enxergar os meus segredos. Cresci!

Richard Bach disse: “Você não é pequena porque já é crescida, você não tem aniversário porque sempre viveu; nunca nasceu, jamais haverá de morrer”.

Eu espero a morte agora. A morte com anjos, com música mansa, com flores. Ela não me amedronta mais. Os demônios da vida e os anjos da morte.

Ando pela casa...

Pareço não ter vida, estou seca.

Adoro fazer aniversário. Os anos da minha vida. Depois virão os anos da minha morte.

Não mais ganharei presente. Caixa de presente é sempre tão bonita...

Mas presente bom é aquele que não quebra. Os que são invisíveis aos olhos.

Meu sangue parece água, transparente, as células da vida. Células mortas. Não esboço mais nenhuma reação. Meu sangue deixou de ferver. Pulso de maneira compassada.Tenho a tranqüilidade dos tempos, da idade.

Meus pés caminham por caminhos já traçados. Pareço troleibus, comandado por fios elétricos. Sinto o choque das esquinas, as faíscas das ruas. Paradas obrigatórias, arrancadas bruscas. Ponto final. Ponto... Ponto...

Minhas mãos cansadas escrevem palavras mortas. Meu corpo dolorido de viver. Meus seios já não amamentam mais. Meu rosto marcado pelos amores vividos, talvez sofridos.

Ando pela casa...

O som dos meus pés no assoalho frio. Caminho até a janela. O mundo está lá fora.

Quantos amores por vir? Quantos amores por acabar? Quanta vida?

Todas as mortes. Todas as flores.

O sol brilha pouco. Não esquenta a minha pele. Estou fria e a chuva não pára de cair na minha vida.

Novamente percebo que não existem humanos. Vivi sozinha no mundo das flores e das chuvas mansas. Entre a paz e o inferno, alegrias e tristezas. Nunca fui pequena mesmo, mas acho que já morri.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:14:40
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Caminhando pela casa...

O piso range como os meus dentes em noites mal dormidas e meus olhos teimam em brilhar. Resta um pouco de vida ainda.

E lá vem o beija-flor...Voa livre...Desinteressado pela vida.

Simplesmente voa e vive. Eu ando pela casa e vivo.

Não sou beija-flor, mas minhas narinas ainda sentem o perfume da manhã.

Carta longa e a letra feia.

Se essa rua... Se essa rua fosse minha...Eu mandava, eu mandava ladrilhar...

Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante...

Só pro meu...Só pro meu amor passar...

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:14:13
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Não lembro o todo da canção, ficou na minha infância, doce lembrança...

Brincar. Sinto falta de brincar. De pular corda, amarelinha, com casca de banana, brincar de roda, sonhos giratórios... Roda, roda, roda...Caranguejo peixe é...

Andando pela casa...

Sinto frio. Onde foram parar as minhas chinelas?

Quantos pares de chinelas eu já tive?

Quanto couro eu já gastei? Quanto eu já andei?

Meus pés já foram aquecidos um dia. Hoje estão cansados. Quero uma blusa. Estou com frio.

É primavera. Todas as flores nasceram hoje. As cores foram inventadas ontem. Eu gostei do azul, mas a vida parece incolor.

Que silêncio dolorido, silêncio não tem cor.

Bem que o telefone poderia tocar, mas eu não vou atender. Não quero falar com ninguém.

Eu queria fazer amor agora, delirar, amar em azul.

Que besteira! Amor não se faz. Amor acontece. Amor esquenta.

As paredes parecem frias também, desbotadas pelo tempo.  Os santos estão sem mantos. Deus está dormindo.

É uma casa sem teto, vou fechar as janelas, mas não quero me esconder.

Vou decorar o nome das cores. Vou dar cores à minha vida.

Preciso continuar andando, quero viver.

Estou melancólica hoje, mas registrar essas frações de segundos de melancolia é mais fácil do que registrar os momentos de felicidade plena.

As frações de segundos vividas com felicidade devem ser, simplesmente, vividas. Eu não perderia tempo transformando-as em palavras. Prefiro vivê-las.

Dê notícias...

Um beijo.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:12:57
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29/09/2004


Vontade de ser ridícula.

Álvaro de Campos
 
Todas as Cartas de Amor são Ridículas
 
       Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.

       Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
       Como as outras,
       Ridículas.

       As cartas de amor, se há amor, 
       Têm de ser
       Ridículas.

       Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram 
       Cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       Quem me dera no tempo em que escrevia 
       Sem dar por isso
       Cartas de amor
       Ridículas.

       A verdade é que hoje 
       As minhas memórias 
       Dessas cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       (Todas as palavras esdrúxulas,
       Como os sentimentos esdrúxulos,
       São naturalmente
       Ridículas.)

Escrito por Márcia Rodrigues às 22:35:05
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Eu amo cartas. Elas são raras na minha vida. Gostaria que fossem constantes.

Nelson Rodrigues a Elza



Campos do Jordão, 12 de junho de 1939.


Elzinha, meu divino amor:


[...] Ah, querida! eu sofro ainda, ou sofro mais do que nunca, o doce mal da saudade. Só existe na terra um remédio – e que maravilhoso remédio! – para essa nostalgia que me acompanha, que me ronda, e que está impregnando todos os instantes de minha vida: é a tua presença...

[...] Conversei muito com uma pessoa (uma velha senhora, diretora de um sanatório daqui) sobre o amor, ou antes: sobre o amor na vida de quem já foi doente do pulmão. Eu contei-lhe que amava uma menina carioca, com um desses sentimentos vivos, palpitantes, irresistíveis, que só florescem uma única vez num destino humano. Então ela me disse que, na sua opinião, um doente curado só deveria casar-se com uma mulher que tivesse amargado a mesma doença. Porque – argumentava essa senhora – os esposos se uniriam melhor pela experiência de martírio comum.

Diante dessa reflexão, eu estive pensando, Elza, muitos dias, se não seria melhor para tua felicidade que eu me afastasse de ti e encerrasse, de modo implacável e definitivo, esse nosso romance, que é tão doce e tão triste. Amar-te sempre e aceitar o teu amor não seria o mesmo que te condenar a um destino incerto, a um futuro cheio de presságio e de angústia? Depois pensei melhor: lembrei-me do que tens sofrido e chorado; já possuis a experiência da lágrima; se a saúde do teu corpo está intacta, tua alma conheceu a dor, a dor que ilumina a consciência, que purifica o sentimento e faz a mulher digna de ser amada. Pensei também que não me cabia o direito de duvidar de ti; com o sofrimento, tua alma se redimira de toda frivolidade. Tu serias para mim uma fonte docemente imortal de amor, de consolo, de carícia. Sim, Elzinha: eu te amarei sempre, e só te deixarei de amar se te revelares, um dia, indigna do meu amor.

Querida: sinto que há, nesta carta, uma certa tristeza, que não pude evitar. Não importa. Hoje a minha ternura está triste. Acho que terás de me mandar outros retratos, porque os que me enviaste parecem perdidos. Gostei que tivesses vencido o medo tão pouco amoroso da dedicatória. Era chocante receber fotografias sem uma palavra de saudade e de amor. Não podes imaginar como te amo mais quando, num gesto próprio de mulher, te abandonas mais um pouco, e confias mais em mim, e pões nas minhas mãos alguma coisa de tua vida, de tua alma, de tua profunda e sagrada intimidade. Quero te ver frágil diante da vida, para que eu te defenda, te ampare contra o mundo e contra a própria fatalidade...

[...] Dois beijos intermináveis do meu amor imortal.


Nelson.

Escrito por Márcia Rodrigues às 22:28:19
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28/09/2004


Casimiro de Abreu

A Valsa

Tu, ontem, Na dança Que cansa, Voavas Co'as faces Em rosas Formosas De vivo, Lascivo Carmim; Na valsa Tão falsa, Corrias, Fugias, Ardente, Contente, Tranqüila, Serena, Sem pena De mim! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Valsavas: — Teus belos Cabelos, Já soltos, Revoltos, Saltavam, Voavam, Brincavam No colo Que é meu; E os olhos Escuros Tão puros, Os olhos Perjuros Volvias, Tremias, Sorrias, P'ra outro Não eu! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Meu Deus! Eras bela Donzela, Valsando, Sorrindo, Fugindo, Qual silfo Risonho Que em sonho Nos vem! Mas esse Sorriso Tão liso Que tinhas Nos lábios De rosa, Formosa, Tu davas, Mandavas A quem ?! Quem dera Que sintas As dores De arnores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas,.. — Eu vi!... Calado, Sózinho, Mesquinho, Em zelos Ardendo, Eu vi-te Correndo Tão falsa Na valsa Veloz! Eu triste Vi tudo! Mas mudo Não tive Nas galas Das salas, Nem falas, Nem cantos, Nem prantos, Nem voz! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues Não mintas... — Eu vi! Na valsa Cansaste; Ficaste Prostrada, Turbada! Pensavas, Cismavas, E estavas Tão pálida Então; Qual pálida Rosa Mimosa No vale Do vento Cruento Batida, Caída Sem vida. No chão! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... Eu vi!

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:51:27
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27/09/2004


Ser escolhida entre tantas, um privilégio de poucas.

Um poema de pedra, 300 anos do Taj Mahal.

Taj Mahal

Um comprido espelho d'água no centro de um pátio reflete a imagem dos visitantes que se aproximam. Quatro torres laterais protegem a construção. Ao centro, o grande palácio de mármore branco. O Taj Mahal, uma das construções mais belas do mundo, é um palácio de estilo oriental.

Sua maior cúpula, no centro do palácio, é arredondada e tem a forma de um balão, como se alguém tivesse assoprado seu interior. Duas cúpulas pequenas ficam ao lado dessa principal. As duas pequenas lembram grandes turbantes árabes.

O enorme Taj Mahal, na cidade de Agra, na Índia, parece que vai se desprender da terra e sair voando como um tapete mágico.

A construção do palácio começou no fim de uma linda história de amor. O príncipe persa Shah Jahan era muito poderoso e namoradeiro. Ele tinha um harém: eram mais de trezentas moças à disposição do príncipe! A cada noite ele escolhia uma mulher diferente para namorar.

Certo dia, quando estava com 21 anos, Shah Jahan se apaixonou por uma dessas namoradas, chamada Arjumand Begum. De uma hora para outra, nenhuma de suas trezentas namoradas o fazia feliz. O príncipe não queria saber de mais ninguém. Shah Jahan e a bela Arjumand casaram-se e tiveram 13 filhos!

 

Quando o 14º filho de Shah Jahan e Arjumand estava nascendo, ela não suportou as dores do parto e morreu. O príncipe se desesperou e quase morreu também, de tristeza e desgosto. Para abrigar o corpo de sua amada, ele decidiu construir um palácio. Shah Jahan convidou os maiores artistas e arquitetos dos impérios persa e mongol, mandou comprar os melhores mármores, encomendou rubis e jades para decorar o mais belo túmulo que alguém poderia ter.

O Taj Mahal demorou 22 anos para ser construído e ficou pronto em 1653. Shah Jahan resolveu então construir um novo palácio, onde ele próprio seria enterrado. Mas seus filhos não deixaram o príncipe cometer mais essa loucura e o prenderam em uma fortaleza. Quando ele morreu, também foi enterrado no Taj Mahal, ao lado do seu amor. Shah Jahan e Arjumand Begum dormem juntos para sempre no mais lindo palácio do mundo

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:48:00
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26/09/2004


Bom dia. O sol brilha com mais intensidade aqui. Acho que estou feliz!

Soneto da Separação

Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silêncioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:49:56
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25/09/2004


Este menino tem apenas dezenove anos e sabe como dizer "Eu te amo" , tão raro...

Crônica de samba, amor e saudade

 

    A Flora

 

   Cada cronista com sua época: cada qual no seu pedaço, cada lápis no seu tempo. No entanto, para sentimentos não existe muito essa de tempo; mas não existe também repetição. Afirmo apenas que há semelhança certa entre sentimentos e que o amor do passado não vira anacronismo porque sempre continuamos amando.

  Digo isso por causa de uma música do compositor Herivelto Martins, cronista de sua época, que me tocou fundo pelo falante de um som digital. "Pensando em Ti" narra o desespero de um homem que vive preso às lembranças do amor - pois a amada se encontra distante. É acompanhada de melodia tranqüila, só quebrada pelo refrão de sensibilidade elevada.

   Sempre nos identificamos com músicas românticas: no primeiro amor, no mais doído, na primeira das decepções... E as músicas se fazem presentes. No meu caso, ouço essa, de Herivelto Martins, samba muito gostoso dos anos 40.

   "Te amo, tanto...", ela me disse um dia, mantendo reticências, com ar inacabado - que é diferente de "Te amo tanto", sem vírgula e reticências. Brincamos com nossos e-mails. Neles constantemente jogamos com a expressão "Te amo". Cada vez colocamos um advérbio, adjetivo ou substantivo, ou até mudamos o ritmo da frase. Só para "não cair na mesmice". Se tento um "Te amo, e pronto", direto, decidido, ela retruca um "Te amo, viu?", um "Te amo docemente", e me deixa mais doce... Para não ficar atrás, no meu último e-mail lancei-lhe um "Te amo sofregamente", para esquentar a competição. Mas concordo que por enquanto o "Te amo, tanto...", inacabado, como realmente amamos, é a expressão mais afetiva e, para ela, admirado, me rendo.

   E embora façamos de tudo, em nossos e-mails, para renovar a expressão sagrada, creio, lá no fundo, que nela não há "mesmice", que no amor não há chavão. Não há, no amor, lugar-comum. Digo "Te amo", sem ponto, e a mim basta, e sou comum.

   Certa vez me perguntaram qual foi o maior de todos os meus sentimentos: respondi que para eles não há régua. Ora, não há centímetros onde não tem matemática. Simplesmente amo, por mim, pela Flor, nossos beijos e mordidas. Não há mesmice nem chavão no amor.

   O homem do samba de Herivelto Martins vive o dia pensando na amada: ele amanhece pensando nela, ele anoitece pensando nela e vê a vida pela luz dos próprios olhos dela. Porque fuma, pode vê-la, e pode vê-la porque fuma. Assim também não pode ler, porque a amada está presente em todas as linhas de todas as páginas do livro. Enfim, nem rezar pode mais, coitado, porque ao invés de Deus é ela quem habita suas orações.

   E o homem sofre, tem saudade. A minha saudade é mais gostosa, creio eu, não me perturba tanto como na música. Cada cronista com a sua época fingindo arte as indecisões.

   E mando um beijo para cruzar a Via Dutra.

 

 São Paulo, 13 de setembro de 2004.                 Carlos.

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:42:05
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23/09/2004


Viva a liberdade !

Liberdade

Fernando Pessoa

 

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

 

16-03-1935

 

Para ser grande, sê inteiro: nada
         Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
         No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
         Brilha, porque alta vive.
                    Ricardo Reis

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:32:21
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Integrações
(Pablo Neruda)

Depois de tudo te amarei
Como se fosses sempre antes
Como se de tanto esperar
Sem que te visses nem chegasses
Estivesses eternamente
Respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos,
Teu colorido e tua guitarra
Como estão juntos os paises
Nas lições escolares
E duas comarcas se confundem
E há um rio perto de um rio
E crescem juntos dois vulcões.

Perto de ti é perto de mim
E longe de tudo é tua ausência
E é cor de argila a lua
Na noite do terremoto
Quando no terror da terra
Juntam-se todas as raízes
E ouve-se o silencio
Coma musica do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
Pode marchar com quatro pés
O quatro lábios, a ternura.

Porque sem sair do presente
Que é um anel delicado
Tocamos a areia do ontem
E no mar ensina o amor
Um arrebatamento repetido.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:10:42
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22/09/2004


Não quero
Mário Quintana

Não quero alguém que morra de amor por mim... Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando. Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível...Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre... E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor. Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho... Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... e não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim...e que valeu a pena!!!

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:39:03
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Hoje estou com saudade de um tempo bom!

Pra você Dora!
 
 
Alma minha gentil, que te partiste
 
 
 
Alma minha gentil, que te partiste 
tão cedo desta vida descontente, 
repousa lá no Céu eternamente, 
e viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento etéreo, onde subiste, 
memória desta vida se consente, 
não te esqueças daquele amor ardente 
que já nos olhos meus tão puro viste. 

E se vires que pode merecer-te 
alguma cousa a dor que me ficou 
da mágoa, sem remédio, de perder-te, 
  
roga a Deus, que teus anos encurtou, 
que tão cedo de cá me leve a ver-te, 
quão cedo de meus olhos te levou. 

                                                                                                  Luiz Vaz de Camões

Escrito por Márcia Rodrigues às 05:59:21
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09/09/2004


Poema


    (Cazuza/Frejat)

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo, mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo,
era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás

Escrito por Márcia Rodrigues às 06:12:38
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Por Você


    (Barão Vermelho)

Por você eu dançaria tango no teto
Eu limparia os trilhos do metrô
Eu iria a pé do Rio a Salvador
Eu aceitaria a vida como ela é
Viajaria à prazo pro inferno
Eu tomaria banho gelado no inverno
Por você eu deixaria de beber
Por você eu ficaria rico num mês
Eu dormiria de meia pra virar burguês
Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher
Por você, por você
Por você, por você
Por você eu conseguiria até ficar alegre
Pintaria todo o céu de vermelho
Eu teria mais herdeiros que um coelho
Eu aceitaria a vida como ela é
Viajaria à prazo pro inferno
Eu tomaria banho gelado no inverno
Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher
Por você, por você
Por você, por você
Nananana....
Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher
Por você, por você
Por você, por você

Escrito por Márcia Rodrigues às 06:11:49
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08/09/2004


Tarde quente de inverno.

Hoje o por-do-sol estava azul. Talvez verde. Não sei.

Escrito por Márcia Rodrigues às 18:59:40
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07/09/2004


Sozinha dei ordens pra noite, pra que durasse mais.

Não me atendeu!

E os ponteiros dos minutos correram em direção as horas.

Então pedi que fosse mais devagar.

Mas obediente trouxe a luz da manhã.

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 16:57:40
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Casamento

 

Há mulheres que dizem:

Meu marido se quiser pescar, pesque,

Mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

Ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

De vez em quando os cotovelos se esbarram,

Ele fala coisas como “este foi difícil”

“Prateou no ar dando rabanadas”

E faz gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

Atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

Vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

Somos noivo e noiva.                                    Adélia Prado

Escrito por Márcia Rodrigues às 16:55:11
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06/09/2004


Imagem

Uma coisa branca,

Eis o meu desejo.

Uma coisa branca

De carne, de luz,

Talvez uma pedra,

Talvez uma testa,

Uma coisa branca,

Doce e profunda,

Nessa noite funda,

Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,

Eis o meu desejo,

Que eu quero beijar,

Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca

Para me encostar

E afundar o rosto.

Talvez um seio,

Talvez um ventre.

Talvez um braço,

Onde repousar,

Eis o meu desejo,

Uma coisa branca

Bem junto de mim,

Para me sumir,

Para me esquecer,

Nesta noite funda

Fria e sem Deus.           Dante Milano

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:01:57
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Objeto de arte

Corpo de ancas opulentas,
Mulher de Angkor,
Coxas e tetas pedrentas
De árduo lavor.
Pedra, lição de escultura,
Da verdadeira
Carnadura, carne dura
Mais que a madeira
Ou o bronze que posto ao forno
Se liquefaz.
A pedra não; seu contorno
Mantém-se em paz
À maneira do medonho
Ser que no Egito
Contém o esfíngico sonho
Do granito.
Já no mármore a figura
Parece menos
Tosca; é mais branca, mais pura,
Mais lisa; é Vênus
Que, mesmo nua, ao expor
Sua vaidade,
Tem do mármore o pudor,
A castidade.
Ou então pedra-sabão,
Pedra-profeta,
Que da fêmea a carnação
Não interpreta.
Mas és da beleza o exemplo,
Pedra qualquer,
Se a figura em ti contemplo
De uma mulher,
Aparição singular,
Sem que me farte
Jamais o prazer de a olhar,
Objeto de arte.                           Dante Milano

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:01:26
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05/09/2004


Neste Domingo _ desprovida de toda e qualquer razão:

A razão é insuficiente pra dominar o poder do Amor,

pois ela ordena que não ame. Mas ardo, sofro e morro de Amor.

 

Sobre estas duras, cavernosas fragas,

Que o marinho furor vai carcomendo,

Estão-me negras paixões n’alma fervendo

Como fervem no pego as crespas vagas:

 

Razão feroz, o coração, me indaga,

De meus erros a sombra esclarecendo,

E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo

De agudas ânsias venenosas chagas:

 

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,

Mil objetos de horror co’a idéia eu corro,

Solto gemidos, lágrimas derramo:

 

RAZÃO, DE QUE ME SERVE O TEU SOCORRO?

MANDAS-ME NÃO AMAR, EU ARDO, EU AMO;

DIZES-ME QUE SOSSEGUE, EU PENO, EU MORRO.           Bocage ( hoje comportado)

 

Solilóquio sem fim e rio revolto

 

Solilóquio sem fim e rio revolto_

Mas em voz alta, e sempre os lábios duros

Ruminando as palavras, e escutando

O que é consciência, lógica ou absurdo.

 

A memória em vigília alcança o solto

Perpassar de episódios, uns futuros

E outros passados, vagos, ondulando

Num implacável estribilho surdo.

 

E tudo num refrão atormentado;

Memória, raciocínio, descalabro...

Há também a janela da amplidão;

 

E depois da janela esse esperado

Postigo, esse último porão que eu abro

Para a fuga completa da razão.                      Jorge de Lima

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:06:17
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04/09/2004


DOCE CERTEZA

Por essa vida fora hás-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!
Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer...
Hás de tecer uns sonhos delicados...
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!...
Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que são meus versos!...  Florbela Espanca

EU...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!                Florbela Espanca

Escrito por Márcia Rodrigues às 16:48:24
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03/09/2004


Escolham

Ah! Esqueci o modelo high end, com piercing e tal!

Ainda temos o modelo playboy, todo Mauricinho ( só usa preservativo de marca).

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:02:44
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Um comentário que vale a publicação. Grande menina beija-flor.

Superstar!!!!][www.dessapramelhor.zip.net]
KKKKKKKKKKKKKK!!! Agora que o PA já ta identificado, podemos começar a classificá-los! rsrs! 1- modelo standard 2- modelo "to nem ae"! kkkkkk! Adorei esse texto! Poder, as vezes o PA tá mais perto do que imaginamos! Adorei sua postura e sua perspicácia de detecção!! kkkk! Te adoro! Bjoca da Super com gostinho de praiaaa!!!!

03/09/2004 10:05

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:09:54
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Excesso _  ex.ces.so   sm   (lat excessu)
1 Diferença para mais entre duas quantidades; excedente, sobra. 2 Grau elevado; exagero, cúmulo. 3 Abuso. 4 Falta de moderação; desregramento. 5 Esforço desmedido. Antôn (acepção 1): falta; (acepção 2): deficiência. sm pl 1 Atenções, finezas. 2 Desregramentos. 3 Dir Crueldades, violências. 4 Dir Injúrias graves. Em excesso: excessivamente

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:46:11
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Na medida certa.

De olhos baixos via o esmalte rosa que dava cor as minhas unhas e a manicure zelosa limpava o excesso. Um perfume colorido exalava pela ponta dos meus dedos.

Por que tantas diferenças entre os machos e as fêmeas?

Homens cortam os cabelos e as unhas e estão prontos. Claro que existem exceções. Alguns se cuidam tanto quanto as mulheres.

Como mulher, tento me fazer bela todas as semanas: unhas, cabelo, depilação, limpeza de pele e bronzeamento artificial. Sem falar nas lipoaspirações, plásticas, todos os silicones e muita malhação. Até chegando ao exagero, tudo pra se sentir atraente, e agradar o macho.

No entanto ouvi falar que somos escolhidas pelo tamanho das ancas, são elas que definem a qualidade “parideira” da mulher. Ser escolhida pelo tamanho da sua bunda!

E saber que um bom traseiro garante a continuidade do nome, com dentes fortes e aparência saudável!

Não sei qual parte do corpo, na época, que atraiu o meu macho. Talvez o meu rosto, os seios fartos, quem sabe os olhos de cor mel, caindo pro verde! Ou ainda, as minhas boas notas na faculdade. Realmente não sei.

Na verdade o que eu sabia era que Jurema, a minha manicure, apesar de ser avó e ainda uma mulher mirrada, de olhos estranhos e sempre com unhas por fazer, tinha um PA. Mas tinha também Matilde, minha amiga, bonita, rica, inteligente, com boa formação acadêmica e aparentemente bem casada. Ela também tinha um PA.

PA _ Em linguagem vulgar _ PINTO AMIGO.

Pelo que me disseram as duas, e coincidem as explicações. PA é uma espécie de homem definida, às vezes pelo tamanho do bolso, uma boa conversa, pode ser também por bom desempenho, beleza ou pelo mais importante: O TAMANHO DO PINTO!

Não existe compromisso entre as partes. A liberdade, dos dois, é fundamental.

Como os encontros sempre acontecem às escondidas, podem ser marcados no orelhão da esquina (nunca esquecer que existem identificadores de chamadas), ou ainda pelo e-mail, caso seja virtual. Porém é preciso ter algum respaldo financeiro, pois são responsabilidades de ambos as despesas com locomoção, caso morem distante, e claro os custos do motel.

Nem precisa se dar ao trabalho de saber como foi o dia dele. O que interessa é aproveitar, ao máximo, o pouco espaço de tempo que possuem.

Sem dúvida você estará cercada de todos os cuidados e gentilezas. Sabe por quê?

Porque jamais será vista como uma nota promissória a vencer no final do mês.

Dormir uma noite toda juntos? Nunca.  Que pena? Isso significa que você estará livre dos roncos, do bafo da manhã, sem falar em outros odores barulhentos.

E mais, as conversas são dotadas de boa dose de palavras apimentadas, tudo o que o seu marido nunca te falou, um bom PA fala. Além do que não terá que se preocupar com o mau humor profissional e financeiro.

Brigas? Esqueçam. Agora somente versos sussurrados aos ouvidos. E o mais admirável: ele sempre estará disposto a te ouvir e ajudar, mesmo de longe e com todas as dificuldades.

Discutir relação? Sempre! Ele ouve e vai embora!

Não trocam presentes. Ninguém é obrigado a lembrar de datas como: o primeiro beijo, a primeira transa, a primeira vez que fomos ao cinema, aniversário, casamento, natal, noivado e todas essas datas inúteis. Bem econômico isso!

Só tem vantagens! Pense! Sentir-se dona de uma espécie para o qual não precisa cozinhar, lavar e passar. Sempre estará com roupas limpas, de barba aparada, banho tomado e muito, muito cheiroso.

Nos banhos, festa de espuma e sais! Não vai precisar erguer os braços pra que os seios pareçam estar olhando pro céu. Ele te aceita crua e nua!

Entre os dois vale tudo, até luta livre. Sem pudores, sem perguntas como: “Onde aprendeu isso?”. Quanto mais você souber, melhor. Assim, poderá realizar todos os pequenos sonhos, tais como ter o dedão do pé sugado e mordido. Ai!

Quanto mais dele exigir, mais vai se dedicar. Afinal o macho é ele e com certeza vai querer voltar.

Assim, será sempre notada e elogiada. Lembra aquela blusa proibida de decote avantajado de cor vermelha que você sempre achou que combinava com o sapato cor-de-rosa?  Aquela?... Então! Agora pode tirar do armário. Você estará sempre linda aos olhos dele!

Nossa! Mas nunca poderemos ir a um restaurante ou cinema. Há o lado bom: jamais terá que dividir o prato só porque é caro. E ainda poderá assistir a todos os romances, chorar até inundar o cinema e ficará livre pra sempre de todas as carnificinas cinematográficas, tão desejadas pelos homens.

Bom demais este tal de PA!

É, verdade, não consigo ver desvantagens. Acho que vou pra casa, tomar um banho, colocar aquela sandália branca, com detalhes rosa e saltos enormes, para combinar com o esmalte e aquela minha blusa vermelha. Vou sair. Quem sabe esbarro num PA de qualidade atestada!

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:45:40
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02/09/2004


Noite. Boa noite.

Tinha uma lua dourada pendurada na minha janela.

Com certeza invejava o sol.

De manso sumiu entre as estrelas.

Agora escondida é prata.

Invejosa!

Da cor do escapulário.

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:45:40
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Calar-me-ei.

E o resto é silêncio...

E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...
.
Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...

Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...

JG de Araújo Jorge

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:18:06
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01/09/2004


Poesia viva!

Eu conheço um menino,
um velho menino jovem
lá do sul do meu país,
mágico artista, poeta,
construtor de emoções.

 

O auto- retrato

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

                          Mario Quintana.                    

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:26:48
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