Podem os quilômetros separar-nos?
Se você quer estar com alguém a quem ama, já não está lá?
Mas deve-se lembrar sempre que não saber não impede a verdade de ser verdade.
Richard Bach
Podem os quilômetros separar-nos?
Se você quer estar com alguém a quem ama, já não está lá?
Mas deve-se lembrar sempre que não saber não impede a verdade de ser verdade.
Richard Bach




Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

A Origem do Mênstruo
De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.
Stava Vênus gentil junto da fonte fazendo o seu pentelho, com todo o jeito, pra que não ferisse das cricas o aparelho. Tinha que dar o cu naquela noite ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama, passou dias felizes... Rapava bem o cu, pois resolvia na mente altas idéias:
— ia gerar naquela heróica foda o grande e pio Enéias. Mas a navalha tinha o fio rombo,
e a deusa, que gemia, arrancava os pentelhos e, peidando, caretas mil fazia!
Nesse, entretanto, a ninfa Galatéia, acaso ali passava, e vendo a deusa assim tão agachada, julgou que ela cagava...
Essa ninfeta travessa e petulante era de gênio mau, e por pregar um susto à mãe do Amor
atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A Branca mão mimosa se agita alvoroçada, e no cono lhe prega (oh! Caso horrendo!) tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio, corre pupúrea veia, e nobre sangue do divino cono as águas purpureia. (É fama que quem bebe dessas águas jamais perde a tensão e é capaz de foder noites e dias, até no cu de um cão!)
• “Ora porra” — gritou a deusa irada, e nisso o rosto volta... E a ninfa, que conter-se não podia, uma risada solta. A travessa menina mal pensa que, com tal brincadeira, ia ferir a mais mimosa parte da deusa regateira...
• “Estou perdida!” - trêmula murmura a pobre Galatéia, vendo o sangue correr do rósco cono da poderosa déia... Mas era tarde! A Cípria, furibunda, por um momento a encara, e, após instantes, com severo acento, nesse clamor dispara:
“Vê! Que fizeste, desastrada ninfa, que crime cometeste! Que castigo há no céu, que punir possa um crime como este?!
Assim, por mais de um mês inutilizas o vaso das delícias... E em que hei de gastar das longas noites as horas tão propícias? Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono, que é que há de fazer, por tanto tempo, este faminto cono?...
Ó Adonis! Ó Júpiter potentes! E tu, mavorte invito! E tu, Aquiles! Acudi de pronto da minha dor ao grito! Este vaso gentil que eu tencionava tornar bem fresco e limpo para recreio e divinal regalo dos deuses do Alto Olimpo.
Vede seu triste estado, ó! Que esta vida em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o teu cono sempre atormente perpétuas comichões, e não aches quem jamais nele queira vazar os seus colhões...
Em negra podridão imundos vermes roam-te sempre a crica e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada, verta fétidos jorros, que causem tédio e nojo a todo mundo, “até mesmo aos cachorros!”.Ouviu-lhe estas palavras piedosas do Olimpo o Grão-Tonante, que em pívia ao sacana do Cupido comia nesse instante... Comovido no íntimo do peito, das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda à puta que o pariu...Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro de concha alabastrina, que quatro aladas porras vão tirando na esfera cristalina.
Cupido que as conhece e as rédeas bate da rápida quadriga, co’a voz ora as alenta, ora co’a ponta das setas as fustiga. Já desce aos bosques onde a mãe, aflita, em mísera agonia, com seu sangue divino o verde musgo de púrpura tingia... No carro a toma e num momento chega à olímpica morada, onde a turba dos deuses, reunida, a espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se a aparelha para a venérea chaga, feliz porque naquele curativo espera certa a paga... Vulcano, vendo o estado da consorte, mil pragas vomitou... Marte arranca um suspiro que as abóbadas celestes abalou... Sorriu o furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito, e Palas, orgulhosa lá consigo, resmoneou: — “Bem-feito!”
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios o sangue que escorria, e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia! Mas, enquanto se faz o curativo, em seus divinos braços, Jove sustém a filha, acalentando-a com beijos e com abraços. Depois, subindo ao trono luminoso, com carrancudo aspeto, e erguendo a voz troante, fundamenta e lavra este DECRETO:
• “Suspende, ó filha, os lamentos justos por tão atroz delito que no tremendo Livro do Destino de há muito estava escrito. Desse ultraje feroz será vingado o teu divino cono, e as imprecações que fulminaste agora sanciono.
Mas, inda é pouco: — a todas as mulheres estenda-se o castigo para expiar o crime que esta infame ousou para contigo... Para punir tão bárbaro atentado, toda humana crica, de hoje em diante, lá de tempo em tempo, escorra sangue em bica... E por memória eterna chore sempre o cono da mulher, com lágrimas de sangue, o caso infando, enquanto mundo houver...”.
Amém! Amém! Com voz atroadora os deuses todos urram! E os ecos das olímpicas abóbadas, Amém! Amém! Sussurram...Algumas pessoas nascem com bom gosto. A que me mostrou essa música é uma delas.
Pena! Não consegui o som. Eis a letra.
Composição: Rodrigo Amarante
Eu encontrei-a quando não quis
mais procurar o meu amor
e quanto levou foi pra eu merecer
antes de um mês eu já não sei
e até quem me vê, lendo jornal
na fila do pão sabe que eu te encontrei
E ninguem dirá
que é tarde demais
que é tao diferente assim
o nosso amor
a gente é quem sabe pequena
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
a fim de te acompanhar
e se o caso for vira pra eu
levo essa casa numa sacola
Eu encontrei-a e quis duvidar
tanto clichê
deve não ser
voce me falou
pra eu não me preocupar
ter fé e ver coragem no amor
e só de te ver
eu penso em trocar
a minha tv num jeito de te levar
a qualquer lugar
que você queira
E ir onde o vento for
e pra nós dois
sair de casa ja é
se aventurar
Me diz o que o sossego que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar
e se o tempo for te levar eu sigo essa hora
eu pego carona
pra te acompanhar
Véspera de feriado.
Naquela tarde, que antecedia um feriado, o sol cobria o vento frio que entrava pela porta balcão. Perto dos meus olhos Da Vinci num pequeno livro. Na casa _ silêncio. Os santos repousavam sob travesseiros e uma vela de mel, queimava no altar solitário. Na cozinha o inox do fogão refletia a mansidão em que me encontrava _ espelho turvo. Assim como o mármore da pia eu sentia frio.
Com tudo em seu lugar, resolvi fazer uma torta de queijo pro jantar: Santa ceia,
12 colheres de farinha de trigo, quatro ovos, uma xícara de óleo, cinco batatas cozidas e espremidas, sal a gosto e uma colher, das de sopa, de fermento.
Numa seqüência de misturas, surgia uma massa fina, minhas mãos deslizavam no óleo e acariciavam o fundo da assadeira, depois acomodaram a massa e o queijo, que seria derretido pelo calor do forno. Assim, senti minhas pernas aquecidas pelo fogão.
Enquanto assava dei ouvidos ao barulho lá debaixo. Da sacada via crianças, soltas pelo condomínio. Animadas... E longe da escola. Distante dos sons escutava gritos que não expressavam nada. Lembrei-me de quando vigiava meus filhos do alto, mas são adultos agora, senti saudade daquelas falas retorcidas.
Uma pipa solitária se misturava às nuvens.
Em vôos rasantes, bem-te-vis mergulhavam na piscina e se escondiam pelo jardim. Só um beija-flor se mantinha distante, parado num vôo frenético. Talvez estivesse atrasado. As flores imploravam beijos, mas fugiu entre as árvores de folhas secas. Ou teria fugido com medo das azálias que coloriam os caminhos e gritavam o tom do inverno?
O vento misturava o meu perfume ao cheiro empoeirado da rede, que balançava na varanda.
Com olhar frouxo seguia a bola judiada pelos pés das crianças. Escravizada, batia e voltava. Parecia gostar do vôo livre e curto do pontapé. No piso áspero, arranhava o rosto. Alegra-se até murchar. Depois se recolhe num canto qualquer.
Em total harmonia, o sobe e desce da gangorra. Do céu pra terra e da terra pro céu. Equilíbrio pros dois lados.
Agora a balança louca era empurrada pelos pezinhos na areia. Teimosos... No vai e vem, avistavam o mundo em 180 graus. Vista infantil! Totalmente disforme.
Ao lado o escorregador, onde pequenos seres esfregavam as roupas sujas e caiam na areia úmida. Mergulhavam no nada.
Um estalo do fogão lembrou o forno, a luz mostrava a torta ainda crua.
De volta pra sacada meus olhos pararam no gira –gira, parecia com a terra, girava em torno do eixo conduzindo as mãozinhas pequenas. Talvez anéis de saturno, brilhavam.
Com tanto frio, voltei meu olhar pra piscina vazia, o azul da água confundia-se com o do céu. Um mar sem ondas. Represado! Mar de azulejos, o efeito do filtro nas marolas paradas.
Num céu de brigadeiro, aros de bicicletas refletiam a lua tímida, quase transparente e com medo do sol. Ela apontava o fim da tarde.
E o aroma suave do queijo no forno... A louça suja implorava um fio de água da torneira. Água fria! Tanta louça!
Mesmo geladas, minhas mãos afagaram a sujeira. E o branco do pano de prato bebeu cada gota d’água.
Na sala a natureza morta da fruteira e o colorido das flores no vaso novo. Perfume de folhas. Tangerinas misturadas aos eucaliptos. Uma música mansa tocava no rádio.
Novamente o quente do forno nas minhas pernas _ quase dourada!
Minhas mãos ásperas do sabão correram pro perfume do sabonete. Era a vez da toalha felpuda! Agora as carícias do creme.
Sobre o aparador da sala: meus brincos e anéis. Orelhas e dedos sem adornos. Totalmente nua! As pontas brancas das unhas mostravam as falhas do esmalte. Sem batom, a boca denunciava a cor da carne. Cabelos murchos. De olhos limpos, transparecia a visão.
Ao fechar a porta vi a pipa dando lugar às estrelas, a noite chegava mansa, assim como o avental azul marinho cobriu o bege do meu conjunto, o escuro roubou dos meus olhos as crianças. Finalmente a torta me chamou. O jantar estava pronto.
O grito
Um dos meus quadros preferidos é O Grito de Edvard Munch! Estudei na Rua do Grito, e como moro no Ipiranga, vivo ao lado do grito da independência. Sempre odiei gritos, mas sei gritar como ninguém!
Quando era uma senhora de trinta e dois anos, tinha dois filhos pra criar, o menino com cinco e a menina com três anos.
Como sou do tipo que deixa tudo, a casa vivia em bagunça. Em nome da minha paz: permitia subir no sofá, transformar a mesa em cabana, cadeiras num belo trem, bolinhas de sabão, comidinha e até pintar paredes, da área de serviço é claro. Tudo uma grande brincadeira!
De fato, realizamos nos filhos os nossos sonhos frustrados e o meu amor por um refrigerante realizou um deles. Minha grande vontade era, e ainda é, tomar banho de coca-cola. Já pensou abrir o chuveiro e sair coca-cola? Ou uma banheira transbordando o líquido precioso? Seria o máximo e dane-se a celulite! Coca-cola é Coca-cola!
Logo, eles herdaram, de mãe viva, o mesmo desejo. Não tínhamos banheira na época, nem agora. Então no verão os banhos eram no tanque. Sempre achei que criança precisava de pé na terra, mas queria meus filhos urbanos, fiz questão de que nascessem em São Paulo e como sempre morei em apartamento... Talvez por me sentir culpada, cometi todos os pecados infantis. Banho no tanque era algo saudável e divertido e com coca-cola, melhor ainda.
Nunca gostei das fases de bebê: mamadeira, fraldas, comida na boca, e ainda ter que achar graça nas gracinhas sem graça. Além de passar dias e noites tentando adivinhar porque eles choram. Filhos deveriam nascer com dois anos de idade: falando, andando, com todos os dentes e claro, limpando a bunda. Dizem que cocô de filho tem cheiro de azeitona, gostaria de saber quem foi o maluco que atestou isso.
Tal qual um zumbi, eu andava cansada, tomava seis banhos ao dia, escovava os dentes nove vezes, no mínimo. E quando comiam chocolate? O número triplicava. Como é duro ser mãe...
No entanto a noite chegava... Hora do sossego! Hora das histórias... Mas...
_ Por que mãe? Por que? Por que?
Os por quês eram intermináveis. Ouvi essa frase muitas vezes. E quando eu dizia “não sei”, eles riam e:
_ Como não sabe? Você é adulta.
Numa manhã acordei com os dois berrando. Ao entrar na sala vi que brigavam e gritavam por um brinquedo.
_ Bom dia!
Ninguém me respondeu. Os gritos eram tantos que eles não conseguiam perceber nada ao redor. Como mãe sempre tem muita paciência, insisti várias vezes com o meu tímido _ Bom dia! Nada! Não me viam e nem me ouviam.
Aí eu gritei:
_ Calem a boca! Agora é a minha vez de falar!
Assim ficaram quietos. Pacientemente sentei-me entre os dois. Nessa época eu sabia contar até mil, e comecei a falar. Quando me surgiu a idéia de articular as palavras e não emitir sons.
Então eu disse:
_ Sabe, quando gritamos muito, ficamos surdos. Gritos impedem as outras pessoas de falarem.
Algumas palavras eu articulava, mas não emitia som. O desespero foi tomando conta dos dois. Com as mãozinhas nos ouvidos, tentando desfazer a surdez, começaram a chorar.
_ Viu? Eu avisei! Gritem e vão ficar surdos pra sempre. Começa assim. No inicio são só algumas palavras, depois ficarão totalmente surdos.
Pra acalmá-los, disse ainda que se ficassem três dias sem gritar, nunca mais aconteceria.
Durante o dia, que foi muito tranqüilo, eu fiz a mesma coisa, só emitia parte dos sons.
Mesmo sentindo pena deles, foi divertimento certo pra mim. Sentia-me vingada! De fato, mãe é um ser poderoso!
Porém, acho que não aprenderam muito, mas posso garantir que foi um dos dias mais silenciosos na minha longa tarefa de matriarca, mesmo morando no Ipiranga.

Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
Vinicius de Moraes
A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
"Homem, ó desherdado amigo, eu te compús,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!
Bem sei quanto custa, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,
Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À guela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.
Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio, febrís?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:
Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.
Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"

O GUARDADOR DE REBANHOS (IX)
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Lasar Segall
Noturno
Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?
Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?
Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?
Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?
O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.
E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.
Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.
Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.
Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.
Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!
Clarice Lispector
Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens." Fernando Pessoa
Como nuvens pelo céu
Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transforma?
Que coisa inútil me dói? Fernando Pessoa

Rosa e azul.
Sobre a cama dois conjuntos:
- O rosa comportado e discreto,
- O azul transparente e decotado.
Encontros marcados e a total indecisão. Aliás, não sabia em qual dos dois iria. Andava pelo quarto, com o perfume ainda por escolher, sapatos, bolsa...
Com o rosa encontraria o rapaz de 25 anos, afinal é a sua cor predileta. Assim demonstraria ingenuidade, me sentiria menina e ele, dono da situação.
De azul, seria pro coroa, beirando os 55. Ele tem mania de azul. Fácil agradá-lo!
Homens mais velhos preferem mulheres inteligentes. Como odeiam ensinar é certo que permitiria que eu dominasse a situação.
No entanto não sou mais uma menina, aos 46 anos deveria saber bem o que quero. Talvez por pensar que não chamava mais a atenção dos homens como antes, pendia pro lado do coroa. Essa sabedoria só vem com o tempo!
Claro que sei que eles procuram a “gostosa”, que pode não ser o meu caso. Poderia usar a minha inteligência, mas não precisa ler Balzac pra se deitar com alguém. Mesmo assim... Se eu pudesse substituir o cérebro pela bunda... Não conseguia decidir. Com qual sair? Suava...
Hoje é moda mulher mais velha com homens mais novos. Uma amiga viúva passou por essa experiência. Ao me descrever o episódio disse que foi um espetáculo vê-lo se despir, e um fiasco dividir a cama com ele. Ela reclamou da finalização. Que diabos ela quis dizer com isso? Qual escolher? O que cada um poderia me oferecer?
Como serão os bolsos? Do menino certamente raso, o coroa deve estar estabilizado, com os bolsos fundos. Muitos fundos! Estabilidade financeira. Isso me atraia.
E o olhar? Olhos são tão importantes! Finalizar olhando, é perfeito. O do moço deve ver longe, inquieto. Mas o coroa vê de perto, bem de perto. Encosta pra ver, tranqüilo, decidido. Deve saber finalizar. Ponto pra ele.
Bom, o jovem no vigor da idade, deve ser do tipo que não dá sossego, afoito e latente, além da beleza e dos músculos, um tanque no lugar da barriga, toras ao invés de pernas. E os cabelos? Vastos... Plástica perfeita. Um show! Até encarar o ato, vá lá! Mas e a alcova como seria? Com certeza falaria das baladas, do equipamento de som, do carrão esportivo, só espero que não fale das gatinhas. Reclamaria da qualidade do preservativo?
E o coroa? Quase careca, o pouco restante _ grisalho, uma gangorra no lugar do tanque, rugas, pernas ex-torneadas. Ah! Mas o ato! Seria longo, demorado mesmo, próprio da idade, carinhos detalhados. Com certeza seria só uma vez, mas como seguiria os versos de Bilac e teria lido Balzac, o final seria além de feliz, enquanto que, com o menino...
Ai que dúvida! Rosa ou azul? Motel ou flat? Cerveja ou champanhe? E a música? Rock ou romântica? Sou clássica...
_ Azul flat e champanhe _
Talvez me encaixe melhor com o coroa, eu não teria coragem de encarar um rapaz de 25 anos. Mas quero ouvir rock durante e depois. O coroa pode ser roqueiro! E se não for? E se for do tipo romântico? Detesto! Tenho que arriscar, quem sabe consigo ouvir sinos...
Não posso esquecer a pílula azul. Além de agradar o coroa, vai combinar com minha roupa e com certeza vai ajudar no encaixe e na finalização.
22.09.2004
Urbanóide.
Dia 10 de Outubro de 2004. E o silêncio do apartamento 114 me empurrava pra fora. A pinacoteca na estação da Luz seria uma boa saída. Já que o museu se integrava com um jardim e um bom café. Além de respirar ar puro, almoçar, visitar exposições e assistir a um concerto. Sem esquecer da livraria.
É claro que existe uma diferença entre estar sozinha e ser sozinha. Se alguém longe nos espera, não somos sozinhos. Mas...
No carro o banco vazio me fazia companhia, o som alto espantava os meus pensamentos. A cada quilometro vencido sentia a solidão longe de mim, pois era Domingo e muitas pessoas deveriam estar pelas ruas.
Quando cheguei ao jardim, casais e famílias inteiras se misturavam às flores e as árvores. Aparentemente acompanhadas, as mulheres da vida, se reuniam em grupos.
Num dos chafarizes a escultura de uma garça dava as costas a um tronco esquecido, agora cerrado, separado. No lago o peixe de pedra, sustentado por um homem, vomitava água e empurrava o barquinho do menino. Do outro lado, o índio espantava os pássaros com sua flecha imóvel e certeira. Sobre os gramados pedaços de madeiras e aços retorcidos, tudo em forma de arte. Protegido pela sombra da figueira o coreto abandonado pela música refletia o amarelo da Luz.
Na livraria um De Bret e as modernistas esperavam pra fazer companhia aos meus livros esquecidos na prateleira.
Agora eu era a Rainha daquele castelo de tijolos à vista, nas escadarias, cobertas por tapetes vermelhos, deslizavam os meus pés. Ninguém se incomodava com o que eu fazia. Pés, pernas, mãos e braços são pares, andam sempre juntos. Mas sou rainha de um só corpo. Meu par de olhos procurava alguém sozinho, de óculos escuros disfarçava, no entanto não encontrei ninguém.
Sempre sozinha!
As pessoas passavam por mim e não me viam. Todo mundo acompanhado e de mãos dadas, as minhas seguravam a sacola vermelha. Só as folhas de papel me faziam companhia, encostavam na minha perna como se quisessem dizer :
_ Estamos aqui! Somos os teus companheiros.
Além de De Bret: Tarsila e Anita. Companheiros mortos ? De que me servem?
_ Hora do almoço _ Enquanto eu lavava as mãos , meu reflexo sorria no espelho, feliz em me ver ali. Agora era um par de mim, mas era só pro retoque do batom.
Almoçando ao som de música brasileira, com um sax que parecia tocar um jazz morto, o carpaccio não dissolvia na minha boca e a carne crua preenchia a solidão do meu estomago. Ao lado velhos intelectuais discutiam filosofia e não me fizeram companhia. Penso logo existo! Se eu penso, existo _ sozinha!
Talvez na fila da senha pro concerto encontrasse alguém. Na minha frente uma velha com a neta, mas criança é bom mesmo no colo dos outros, desisti. Atrás um casal.Tão completo! Melhor não interferir.
De senha na mão, outros mortos me esperavam: Bethoven , Piazzola e Gardel. Enquanto aguardava a hora caminhei pelas esculturas: Moema sem Caramuru, São João sem Salomé, Ugolino sem filhos, uma ao lado da outra e a solidão preenchida. Mas Eva mulata, abandonada num corredor vazio, provava que Deus é brasileiro e também solitário.
Diante do velho piano: a flauta e o violoncelo. Por instantes a música me fez companhia. Na surdez de Beethoven dancei com Piazzola. No tango analfabeto de Gardel , lembrei-me de “perfume de mulher” e da solidão da cegueira. Pelo menos eu enxergava!
Agora no carro o banco não estava vazio, as tintas do império e as cores vivas da ditadura se apertavam pra ver as ruas.
A diferença entre ser sozinha e estar sozinha é...
De volta ao apartamento 114 só o silêncio me esperava.
13.10.2004
Poema à Boca Fechada
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
Mulher Remota
“Esta mulher cabe em minhas mãos. É branca e ruiva, e em minhas mãos a levaria como uma cesta de magnólias.
Esta mulher cabe em meus olhos. Envolvem-na os meus olhares, meus olhares que nada vêem quando a envolvem.
Esta mulher cabe em meus desejos. Desnuda está sob a anelante labareda de minha vida e o meu desejo queima-a como uma brasa.
Porém, mulher remota, minhas mãos, meus olhos e meus desejos guardam inteira para ti a sua carícia porque só tu, mulher remota, só tu cabes em meu coração”. Pablo Neruda
| Verdade, mentira, certeza, incerteza... Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras. Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas Sobre o mais alto dos joelhos cruzados. Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são? O cego pára na estrada, Desliguei as mãos de cima do joelho Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas? Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos e as minhas mãos. Qual é a ciência que tem conhecimento para isto? O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos. Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual. Ser real é isto. |
| Não sei se é amor que tens, ou amor que finges, O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta. Já que o não sou por tempo, Seja eu jovem por erro. Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso. Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva É verdadeira. Aceito, Cerro olhos: é bastante. Que mais quero? |
Olimpíadas da vida.
Márcia
Desde criança, cresci pensando em casar, ter filhos, constituir uma família, essas coisas que mães ensinam pra gente. Assim, fui criada!O tal príncipe encantado apareceu na faculdade: alto, bonitão, bem falante e tinha um bom emprego. Logo lembrei-me de minha mãe dizendo que marido bom tinha que ganhar bem. Ah! Achei o meu!...E com vinte e quatro anos resolvi dar início aos jogos da minha vida, correr atrás do podium. O casamento foi aquela coisa: medalha de ouro! Vestido branco, convidados, casa novinha, briga de madrinhas pra resolver qual a cor do vestido, mãe que reclama, sogra que não deixa tirar a roupa do príncipe do armário. Tudo normal, mas nada de festa. Sem este gasto, que é o maior, compramos um velho carro, o passaporte para a lua de mel. Evidente que seria no “ginásio” do meu irmão na Praia Grande.Como sempre achei que lua de mel fosse feita de uma olimpíada de transas, a exemplo do primeiro dia: treino no café da manhã, no almoço, no jantar e, claro, na hora de dormir, pra dar aquele soninho! Mas estava enganada: no segundo e terceiro dia, treino só antes de dormir; no quarto dia, ficou no aquecimento; no quinto nem aquecimento; no sexto, bandeiras tremularam e o pré-olímpico foi encerrado.
Quando voltamos, até nos sentíamos animados. Os treinos continuavam, mas raramente durante o dia, só mesmo antes de dormir. Como adulta, entendia o duro do dia, do trânsito e a vida ia seguindo; digo, os treinos.Até que um dia resolvemos ter filhos. Ah! Como me animei, agora seria diário. Sabe aquela coisa rápida de dever cumprido? Então!...Veio o primeiro filho. Ali aprendi a multiplicar o amor e não dividir, assim o bebê chorava de noite e dormia de dia e eu, dispensada do treino...
Já quase enferrujava quando deu a vontade do segundo filho. _ Oba! Treino!Meio fora de forma, eu me dedicava profundamente aos alongamentos e maratonas, mas não corríamos nem dois quilômetros... Que dirá
E o segundo bebê chegou. Agora o salto mortal era duplo. De longe o treinador assistia às evoluções. Gol? Só se fosse a partir da marca do pênalti. Nunca havia prorrogação: o juiz apitava e o chute era único e certeiro. A vitória só dele, nunca dava empate.Sempre que subíamos ao ringue, os golpes estavam mais pra boxe do que pra jiu-jitsu. E assim, comecei a treinar levantamento de peso e me senti a maior competidora de fitness.
Com o podium cada vez mais distante, os filhos cresceram, os treinos passaram a ser bimestrais e os sonhos foram arremessados como discos.Mesmo desolada resolvi participar do mundialito, agora queria treinar salto com vara, ser boa de corrida e impulso. Claro que não contei pra ninguém, treinava sempre às escondidas. Os treinos nunca eram satisfatórios: as varas quebravam com facilidade e os treinos não eram constantes. Não demorou muito pra que eu desistisse.
Então voltei aos treinos bimestrais na esperança de ser convocada para os jogos abertos, mas por intuição, melhor mesmo seria praticar Yoga.
Presentes e presentes...
Presentes de lata e vidro amassam, quebram num dia. Somem pra sempre.
Quem não gosta de ganhar presentes? Mesmo os que desaparecem com o tempo.
No meu último aniversário percebi a diferença. Talvez hoje esteja madura o bastante pra poder compreender. Ao abrir, fui separando e classificando:
Os que eu gosto, os que eu desejo, os originais, os inesperados, inoportunos, engraçados, os jamais imaginados. E claro: os que eu odeio.
No canto da sala _ flores. Muitas flores. Até gosto. Mas flores são pra aqueles que não sabem o que dar. Arre! Precisava tantas pessoas na dúvida?
Do outro lado o mais famoso dos livros, um D. Quixote do século XVIII e uma porção de marcadores de páginas. Adorável! Este foi inesperado. Também um porta-retrato rústico. Na foto o pessoal da literatura. Adorei essa idéia! Tanto quanto eu desejava, um dos perfumes femininos mais vendidos no mundo. E aquele sabonete em formato fálico, enorme, como usar? Engraçado, teria que cortá-lo
Mas existem os que a gente odeia, aqueles que não servem pra nada. Estes nem abri.
Agora é chegado o momento de abrir o maior! O melhor de todos! Minha amiga não veio. Mas o presente...
Nossa! Uma caixa quadrada enorme! Papel bonito e com laço de fita. O que poderia ser?
Dias antes ela me fez uma visita. De olhos inquietos percorreu a casa toda e me disse:
_ Agora eu sei o que a sua casa está precisando!
Talvez tenha notado que faltava um vaso ao lado da mesa da sacada, aquele de alumínio, caro pra cacara! Ou a champanheira que sempre desejei. Quem sabe um Aldemir Martins na parede da sala? Um galo, um gato, ela sabe o quanto gosto de arte. Pelo tamanho da caixa, era algo pra casa. Não poderia ser uma tela. E se fosse um vaso de cristal acompanhado de copos e uma baita jarra? A jarra com tampa de prata. Vamos ver! Vamos ver!
Quando tirei a fita e o papel nada identificava o presente, o papelão pardo escondia a surpresa e mais eu ficava ansiosa.
Ao abrir _ muita palha. Bom, era algo frágil. Ah! Com certeza o tal vaso de cristal. No primeiro punhado que retirei... Estranho! Uma tampa de panela? De cerâmica? Sim, decorada com frutas, cachos de uvas caindo pelas beiradas, bem pintadas e coloridas. Uma banana amarelinha fazia o lugar do puxador.
Ai! Ai! Ai! Ai! Que será isso? Seria a tampa da jarra? Não. Poderia ser a de um pote de cristal. Com o tempo ela se quebraria e ficaria só o pote.
Ao retirar toda a palha _ surgiu o presente _ Um bule de café! Não acreditei, de cerâmica, uns oitenta centímetros de altura, com a mesma decoração da tampa, só que no corpo. Na asa _ grãos de café. É certo que adoro café, mas pra que um bico tão grande? Que exagero! O que eu faria com aquilo?
Dentro um cartão: “Tenho certeza que ficará lindo ao lado da mesa de jantar”.
Pensei em desmaiar, cair sobre o bule. Assim estaria livre dele. Como? E se eu tropeçasse ao levá-lo pra sala? Não tinha jeito. Agora ele fazia parte da decoração da casa.
Como Deus é pai e anjo da guarda existe, não demorou muito pra que eu derrubasse uma cadeira sobre ele.
Na verdade o bom mesmo é ganhar presentes de lata e vidro, aqueles que desaparecem com o tempo. Pelo menos, se você não gostar, poderá amassar ou quebrar.
04.10.2004
Amor - não importa se um dos parceiros não chegou ao orgasmo.
Tesão - a relação acaba se um dos dois não chegou ao orgasmo.
Casamento - o que quer dizer orgasmo?
Conversando com os anjos.
Antes de adormecer, ando dormindo pouco e demorando pra pegar no sono, resolvi chamar meu anjo pra uma conversa séria. O meu vizinho do andar de cima tem os horários mais loucos que alguém possa imaginar. Às vezes acordo de madrugada ainda, o homem pisa no chão com aquelas botas como se fosse alçar vôo.
Anjos são como irmãos gêmeos, se parecem com a gente. No entanto são seres de luz e se colocam como mensageiros e filhos de Deus. Distintos da raça humana! Um deles, Lúcifer, se rebelou, pois negou servir aos seres que nada sabiam... E assim deu origem ao inferno. O que ele não podia prever é que esta era a razão da sua existência. Castigo!
Desde o dia em que nascemos nosso anjo da guarda nos acompanha. Ele é quem vai orientar a nossa vida e o nosso aprendizado, junto aos grandes mestres divinos. Mas existem os do bem e os do mal. Deus enviou pra terra um anjo bom pra cada anjo mau, dando assim o equilíbrio das forças. Anjos caídos. Caídos do andar de cima!
Ainda existem os da noite _ vampiros, os do céu _ esquadrilha da fumaça, e ainda Augusto dos Anjos _ dos poemas. Tem também um anjo pra cada dia da semana e um pra cada signo do zodíaco. Sem esquecer dos anjos abandonados que suados esbarram na gente com o gosto amargo da saudade. São muitos os anjos!
Sem dúvida que anjo da guarda é aquele com quem você pode conversar, se aconselhar e reclamar da vida. Dono de duas asas ele pode voar pra onde desejar. O meu deve ter nascido sem asas, vive longe de mim. Nós humanos fomos feitos com uma só asa, precisamos aprender dar a mão a alguém pra que possamos voar. Se a tal metade da laranja é quase impossível encontrar, imagina com asa?
Vinte minutos! Este é o tempo que eles ficam com a gente e ainda com hora marcada. O meu, por exemplo, fica comigo das 22:40 às 23:00 horas. O resto do tempo? Fica velando de longe. No verão, acho que vaga numa praia de nudismo e no inverno foge pra onde tem lareira. Vivo gritando por ele.
- Ô anjo preguiçoso!
Então resolvi reclamar, além do barulho que o amiguinho dele faz, acho pouco o tempo que me dispensa, mas me disse que é um horário padrão, imposto pelo Divino. Não dá pra mudar! Ainda critiquei o atendimento: demora demais pra realizar os pedidos. Só que explicou que as coisas não são assim, para alcançar a graça, antes testam a nossa paciência. Sempre nos levam aos limites. Quando sentem a nossa capacidade de espera é que nos atendem. Questão de fé! Agora o jogo virou e o discurso era dele: disse que toda vez que acendo uma vela, não coloco o copo de água ao lado. Pois enquanto queima, todas as impurezas da nossa alma são levadas pra água, quando acaba, basta esvaziar o copo e estamos limpos. Da maneira que estou fazendo é
Depois de tudo isso protestou abertamente sobre os castigos que imponho a ele _ Claro ele não me atende!
Pudera! Disse que se aborrece quando fica de ponta cabeça no altar, lhe causa náuseas. E detesta quando eu o prendo na caixinha de amostras de perfumes, é alérgico! Mas a maior tortura é quando o coloco na janela. Ai que anjo vagabundo! Por certo tem medo de altura. Como adoro dormir abraçada, pediu mais espaço na cama _ folgado demais este cara. Não está contente com nada. Pra tornar o meu caminho mais doce e suave, exigiu velas com aroma de mel – é muita cara de pau!
Assim coagida me fez prometer que nunca mais vou judiar dele, prometi fazendo figas, ele que fique esperto comigo. E pra que ele esteja ao meu lado o tempo todo, devo seguir alguns conselhos:
. Devo pensar que ele existe por mim _ e o tanto de preocupação que tenho?
. Rezar em voz alta e diariamente _ ele acha que eu faço nada o dia todo.
. Falar sempre em Deus _ Como? O tempo todo?
. Pedir ajuda – Eu peço, ele não me ouve!
. Endereçar a oração pro lugar certo e ser especifica _ Por onde anda o meu livro de cep?
. Visualizar o que quero que aconteça – Haja imaginação!
. E esperar ser surpreendida – Não tenho paciência pra isso!
Realmente ele não me dá ouvidos, se continuar desta forma, melhor mesmo é deixá-lo de lado. Talvez tente o prozac, ou contrate uma seguradora, com certeza será mais rápido e eficaz.
Não sei não! Pensando bem acho que vou pedir a guarda ao vizinho do andar de cima, formaremos um belo par de asas, por que apesar de humano, é um tremendo anjo do asfalto.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela unica grande razão -
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraido.


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