Caminhos que não voltam
Quando o barco aportou, senti nos pés o balanço. Meio atordoada previ enjôos.
O passeio é daqueles como ir a Roma, Paris e boa parte do mundo. É obrigatório conhecer em Manaus o encontro das águas.
Agora poderia sentir o que tinha visto nos livros de geografia. Não sabia o que me esperava. Com certeza era grande, duas horas pra descer, correr pelos caminhos que não voltam, mas não passava de rio, apenas água. Muita água!
Nas margens, palafitas coloridas mostravam as pernas pra baixa da estação. Como moças tímidas flertavam, aceitando as carícias molhadas do moreno imponente.
E a cidade... Cada vez mais distante.
Tal qual uma rede, os telhados, art noveaux entre o denso das árvores, cobriam os peixes frescos.
Logo abaixo_ gaiolas. Num balanço sobre balanços, por dias e noites, pessoas vindas de longe, apinhavam-se em redes. Por perto, ribeirinhas trocavam peixes por pão.
Sem sair do lugar, barcaças flutuantes alimentavam o ir e vir daquelas estradas inundadas.
De um lado da margem _ cidade, do outro _ mata fechada, a poder da floresta: grãos de guaraná, curandeiros sem remédios, seringueiros que brigavam com posseiros, garimpeiros e índios _ muitos índios. Certo que não vi nenhum.
Um sol, de linha imaginária, queimava a pele e espreitava de longe.
Quase reverenciando o seu poder, o barco flutuava cuidadoso a caminho do mar. Às vezes cruzava com outras embarcações, que ressoavam marolas lentas. Ninguém dava notícias. Discreto, nos conduzia em silêncio. Em alguns momentos senti medo, pois cabia respeito pela grandiosidade.
Em contraste com o negro do rio, o branco dos iates repousava em marinas poderosas. De igual maneira, no porto, containeres avermelhados _ lotados das atuais especiarias.
Tudo ia se perdendo pelas margens. E eu? Cada vez mais próxima do encontro e longe de mim. Naquele mundo de águas a espuma clara batia no casco. Talvez o Amazonas, sem pressa, nascesse novamente diante dos meus olhos. E se estivesse cansado de tanto parir? É que vim de longe! Só mais uma vez! Ainda que fosse a última, mas que fosse pra mim.
Ao subir pros camarotes avistei uma praia. Praia? O rio acabou? A não ser que o barqueiro estivesse no rumo errado. Cada vez mais perto! Que areia era aquela?
Sobre a proa, o grito:
_ Encontro das águas! Encontro das águas!
Até que enfim! Mas não via nada! Quando nos aproximamos do que achei que era areia vi. Vi o rio, majestoso na sua plenitude barrenta. Parecia calmo, caminhava devagar. Pronto pro embate, tentava de todas as maneiras se misturar.
O Negro, lento, frio, sedimentado na sabedoria da idade, resiste. Briga e se defende. Quente e jovem, o outro mais rápido, avança lentamente. Os golpes são inteligentes. Qual deles tem mais sabedoria? O rapazinho cerca. O velho se debate.
Vitórias-régias e botos apartados nadam sem consciência da luta. Respeitam os limites. Até os troncos e folhas parecem temer as águas limpas.
Somente os barulhos do confronto batendo no casco. Em marcha lenta, o barco dança tentando apartar os dois. Em vão! Sem tréguas, braços escuros empurram o barro.
Quem sabe pelas minhas costas um deles deixe de ser tão orgulhoso e se entregue. Mas que isso aconteça longe dos meus olhos. Não saberia qual acalentar.
Com manobras lentas nos afastamos voltando pelos caminhos que não voltam.
Sensibilizada, mareei. De olhos baixos o sol me fez entender que depois de muita resistência e vencidos pela exaustão, juntos vão parir o grande rio. Impossível resistir à natureza. Chorar não é enjoar.
22.11.2004