
Quem me acode à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
Amor.

Fazer da areia, terra e água uma canção
Depois, moldar de vento a flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais que puro som
envolverá o sonho da canção
por todo o sempre, neste mundo
(Dezembro de 1981)
Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção.
(Dezembro de 1968)
Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança.

Impressionista
Uma ocasião
Meu pai pintou a casa toda
De alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
Como ele mesmo dizia,
Constantemente amanhecendo.
Adélia Prado

Hino à Beleza
Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino mas daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-se por isso comparar-te ao vinho.
Em teus olhos refletes toda a luz diuturna;
Lanças perfumes como a noite tempestuosa;
Teus beijos são como um filtro e tua boca uma urna
que torna o herói covarde e a criança corajosa.
Provéns do negro abismo ou da esfera infinita?
Como um cão te acompanha a Fortuna encantada;
Semeias ao acaso a alegria e a desdita
E altiva segues sem jamais responder nada.
Calcando mortos vais, Beleza, a escarnecê-los;
Em teu escrínio o Horror é jóia que cintila,
E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos,
Sobre teu ventre em amorosa dança oscila.
A mariposa voa ao teu encontro, ó vela,
Freme, inflama-se e diz: "Ó clarão abençoado!"
O arfante namorado aos pés de sua bela
Recorda um moribundo ao túmulo abraçado.
Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo!
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
De um infinito que amo e que jamais desvendo?
De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Que importa, se és quem fazes -- fadas de olhos suaves,
Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! --
Mais humano o universo e as horas menos graves?
(C. Baudelaire - Les Fleurs Du Mal - "Flores do Mal")
Marchand]
Camille, veja só o que descobri sobre aquele quadro. Se não gostou muito, tenho certeza que agora vai passar a gostar pelo que ele representa! :"O espaçoso estúdio que Frédéric Bazille tinha em Batignolles, Paris, era ponto de encontro de pintores impressionistas e amigos. Bazille, que desempenhou um papel importante no apoio dado a Monet e Renoir no início das suas carreiras, fixou neste quadro (1870) um desses encontros podendo ver-se, da esquerda para a direita, Renoir, o jornalista e crítico Émile Zola (nas escadas), Monet, Édouard Manet, Bazille, e Edmond Maitre (este ao piano)". Não estou em casa, mas descobri agora e fiquei ansioso para te passar imediatamente e usei teu blog como "veículo".
[Marchand]
Em tempo: Faltou dizer que a figura do Bazille, no quadro, foi pintada por Manet.
25/12/2004 14:45


Botticelli _ Anunciação


(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
(Resíduo)

Quase o dobro.
Em pé no altar minhas pernas tremiam. Os sapatos novos apertavam todos os dedos. Ali eu deixava de ser a primeira mulher da vida dele. Agora _ segunda e sogra. Depois que chegassem os filhos _ terceira e avó.
Pelo tapete coberto de folhas verdes a cintura fina se insinuava no branco do vestido solto. Não era preciso demarcá-la, o corredor cercado por velas, sombreava as formas delicadas. Assim as alças finas de seda mostravam o colo magro e valorizavam os seios. Como uma garça elegante deslizava sobre os saltos finos das sandálias. Mãos lisas esperavam a aliança do eterno enquanto dure. Um buquê, de ramos verdes, contrastava com seu sorriso. Na boca de tom rosa um brilho suave respeitava o dos olhos, parecia uma donzela livre do perigo.
Ainda guardava em mim a tranqüilidade daquele momento mágico quando mostrei ao meu menino o mundo pela primeira vez. Nos meus seios, seus gritos cessaram. A marcha nupcial ensurdecedora, atropelava meus pensamentos. Aquele menino havia se transformado em homem. Ao som da música, seu corpo tremia tal qual quando o abandonei pela primeira vez na porta da escola e passei a tarde toda empurrando os ponteiros do relógio. Meus olhos, testemunha de todas as passagens, choraram. Agora não poderia borrar a maquiagem.
Não esperava que ele ficasse tão bonito de terno! (tão terno)
Enfim herói! Tomava do sogro a donzela disfarçada. Com suavidade e de braços dados, caminhavam pela nave até o altar.
“Em nome do pai, do filho e do espírito santo”.
Que barulho rouco?... As vozes dos convidados atrapalhavam a do Padre. E as lembranças se deslocavam na minha cabeça. De um lado minha família e meus amigos, do outro, gente estranha. Confusão de cores. Roupas novas amalgamavam o marrom dos bancos. Dos arranjos de flores, mulheres curiosas espiavam a cauda da noiva. Ninguém prestava atenção.
Por que o avesso áspero incomodava o meu corpo? A velha costureira da família me disse que, naquele momento, a mãe do noivo era a mulher mais importante. Talvez por isso escolhi tal tecido. Tinha que ser a mais bonita! Na agonia de casar o primeiro filho, ela me consolava. Afinal a moça era como eu: loira, de olhos desbotados, tinha ares de boa dona de casa e gosto por leituras. Até nos vícios se parecia comigo! Enquanto costurava me fez acreditar que era esse o motivo que o levou a se casar. No entanto eu sabia. Dali pra frente, outras mãos cuidariam dele.
Como ser a mais importante? Entrei pela lateral. Meu vestido era preto. Tinha o dobro da idade e da cintura e metade dos cabelos. Ainda perdia na altura! Contra seu rosto liso, minhas rugas, Nas minhas mãos uma bolsa de pedraria. E na dela? Pureza de flores e beleza de juventude.
“Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...”.
Duvido que ela cumpra o juramento! Que pensamento antigo, coisa de velha! Mas quero vê-la resistir às crises financeiras!
Tudo como ela queria, do local da festa ao jantar. Com certeza não se importou com os custos duplicados diante das estimativas. E pensar que passei dias e dias enrolando os doces, fritando os salgadinhos e arrumando as lembrancinhas do primeiro aniversário. As forminhas não eram como as de hoje, transparentes e de diferentes formatos! Nem o bolo tinha massa lisa e o casal de noivinhos. Com medo de estragar a cobertura, suei ao colocar o super-herói. Quanto aos presentes... Poucos, no entanto todos etiquetados e colocados numa caixa colorida na entrada do salão. Os deles?... Muitos! Deixados na minha casa, mal chegavam, partiam. A ela cabia a tarefa de abrir. A mim? Só receber e acomodar num canto da sala. De perto vibrei com cada caminhãzinho, de longe pelas pratarias e porcelanas.
“Eu vos declaro marido e mulher” _ “Pode beijar a noiva”

Estrela da manhã
Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã ?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte
Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã
Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos
Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois pecai comigo
Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma
ternura tão simples
que tu desfalecerás
Procurem por toda a parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.
Manuel Bandeira
"Viva" a liberdade. "Viva" sempre em liberdade.

As orelhas de Van Gogh
A luz de Provence inventa pintores
e depois os devora, sem piedade.
Na arena de Arles,
turistas fotografam um leão-luz
que mastiga uma orelha;
uma orelha amarela e absurda
como um girassol.
Rosemberg Cariry

NA MEDIDA DO IMPOSSÍVEL
Queria arrombar com versos pesados
as portas do Paraíso.
Escritos com o sangue dos expulsos
e a revolta das gerações infindas.
Queria voltar ao que nos pertence
com um poema
na medida
do impossível. Fábio Rocha.
Delírio
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....
Olavo Bilac
Suavíssima
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .
Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .
Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,
De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . . No fim da tarde . . . além da bruma . . .
E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .
Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Cecília Meireles

Mulheres de 40.
Não tenho estatísticas em mãos e nem sei se existe alguma coisa a respeito das mulheres dos 40 aos 50 ou mais, sobre seu estado civil.
Mas, se eu for pensar em minhas amigas que estão por aí, posso afirmar que a grande maioria está separada. E com filhos. E achando que nunca mais vão conseguir outro homem.
E se acham horrorosas. Como eu sou de uma faixa um pouquinho acima, vou meter meu bedelho.
Eu dizia que elas se acham acabadas. Por que elas não se consideram achadas?
As mulheres de 40/50 ou mais têm várias vantagens. A primeira é que já tiveram os filhos que tinham de ter e a gente não precisa se preocupar com a possibilidade de elas quererem mais um, justamente com a gente, que não está mais a fim de trocar fralda, ir à reunião de pais e filhos e vigiar a maconha na adolescência. Esta parte elas já resolveram.
Outra vantagem é que elas sabem que Cinema Novo não é aquele cineminha que inauguraram outro dia no shopping. Cantam as músicas dos Beatles com a gente e também não sabem muito bem quem são Oasis. Lembram até da Copa de 1970, no México, e algumas delas chegaram a ver o Pelé jogar.Sabem até a medida da Marta Rocha.
Sexualmente sabem tudo. E como. Tiveram mais homens que possa imaginar nossa filosofia. Aquele negócio de ter orgasmo assim ou assado (assado é péssimo) elas já resolveram há mais de uma década. E já viveram o suficiente para se dar ao luxo de filosofar sobre a vida, sem aquelas bobagens que as meninas de 20 pensam e dizem e, às vezes, até escrevem em diários (ou flogs).
Neste momento, o computador acaba de me avisar que chegou uma mensagem nova.
Fui olhar e era mais uma daquelas perguntando se eu quero aumentar o tamanho de meu pênis. Tem até a foto de um aparelho que "infla". Você já pensou, na hora de fazer sexo, vc abrir o guarda-roupa, tirar aquela geringonça (a máquina, não a sua) e dizer: um momentinho que você vai ver o que é bom pra tosse?
Não, as mulheres de 40/50 ou mais há muito tempo deixaram de se
preocupar com o tamanho da geringonça. Com elas é "menas" preliminar
e mais ação. A mulher de 40/50 ou mais vai direto ao assunto.
Elas já perceberam que podem comer, e não apenas dar. As mulheres de 40/50 ou mais comem como gente grande, comem como homem. E a gente dá, com prazer.
A mulher de 40/50 ou mais já tomou aqueles porres memoráveis de quando tinha trintinha. Ela sabe beber. Ah, a mulher de 40/50 ou mais no verão chega a seu esplendor debaixo do sol. Sabe a medida certa de sua cor e de seu suor.
Sai da água como se saísse de um aquário, como se desfilasse em cima da água. Não acampa mais, nem fica em pousada sem internet.

A última crônica.
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico,
torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu queria o meu último poema". Não sou um poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica. Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome. Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa.O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim. São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a coca-cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando baixinho: "parabéns pra você, parabéns pra você..."e com os pais acompanhando. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos desesperadas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça baixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre um sorriso. Assim que queria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
Fernando Sabino.
Ausência
Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinicius de Morais
Não dá pra esquecer Tom Jobim. Eis...
Ah! Meu professor de literatura corrigiu, o certo é: Uma costela pra dois Adãos.

A água da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.
Há muito que contar a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também o não tenho, o que canto
É uma coisa qualquer.
Fernando Pessoa

Uma costela pra dois Adões.
Na chapa de ferro a costela dourava diante dos nossos olhos. Sobre a mesa farta cumbucas de barro protegiam toda guarnição. Eu não estava cercada somente por dois homens e sim por muitas gentilezas. De um lado Dimitri _ russo, forte, pele clara e olhos azuis. Do outro, Gregório, nordestino, de cor encardida e olhar invocado. Casos de amores antigos e passageiros. Com certeza seria perigoso sentar-me ao lado deles. Fosse o que fosse, resolvi arriscar.
Não esqueço de nada, tenho deles um pouco do melhor. Durante anos a vida nos separou, no entanto ainda sou apaixonada pelos dois, talvez menos hoje. Mas na liberdade do amor... Amo tudo e todos.
Quando Gregório me avisou que chegaria em alguns dias, imediatamente falei com Dimitri. E como moramos na mesma cidade, resolvemos recebê-lo almoçando numa costelaria. Logo poderíamos relembrar tudo. Claro que, a cada olhar meus olhos confessariam as passagens em separado. Impossível esconder.
Dimitri é um galanteador, em nossos encontros me cerca de paparicos, um verdadeiro cavalheiro, o que me seduz. Sempre na eminência de um convite horizontal, nunca desperdiça uma chance, tenta de todas as maneiras. Quem sabe um dia eu não resista e... Hoje nosso caso não passa de amizade. Por outro lado, Gregório com seu estilo regional, não perde em cavalheirismo. Baixinho e sedutor, tem um olhar que me incomoda, parece procurar alguma coisa dentro dos meus olhos. Uma busca tão insistente que me perco. Minha relação com eles sempre ficou no quase. Pior, o que nunca havia acontecido, dava a impressão que aconteceria ali.
Ainda parecíamos jovens, embora os tivesse conhecido já na maturidade. Com eles cometi os “quase” pecados. Muito mais de sete. Agora na mesa _ simples amigos. Tanto que ríamos e brincávamos. Pouco me mexia, pois estava espremida entre os dois e servida por ambos. A cada movimento sentia o quente da perna de cada um.
Por mais que eu procurasse, não achava o buraco por onde Deus tirou a costela. A pouca carne queimava no ferro quente. Toda vez que acabava era reposta. Não era o bastante pros dois. Aquele almoço parecia não ter fim.Um Adão de cada lado. Afoitos devoravam a costela pelas laterais, tanto que suavam tal qual as pequenas gotas que escorriam pelo copo da cerveja gelada. A salada de beterraba refletia o meu rosto.
Não sabia como me comportar. O linho branco da toalha esbarrava no meu colo e escondia o pecado sob a mesa. Vez ou outra o calafrio de uma mão indiscreta. Dividida entre o ariano e o encardido a comida enroscava na garganta. Deveria escolher? Ou tudo deveria continuar no quase? Quem sabe? Talvez eles quisessem somente competir. Nada de empate, nem vitória. E a prorrogação?... Meus ossos sentiam os dentes dos dois, ultrapassavam minhas carnes.
Diante da indecisão... Melhor seria comandar a situação. Aos poucos minhas mãos, escondidas sob a toalha, responderam a cada toque que recebi. E fui além, era a minha vez de destroçar as carnes até chegar aos ossos.
Agora eles suavam como o balde de gelo. O comando era meu! Depois de alguns minutos vi a chapa de ferro vazia e a recusa constante de cada um pra reposição. Por que só eles tinham o direito de me constranger? O ariano parecia inquieto e Gregório visivelmente nervoso.
Desta maneira, com uma costela em cada mão, recusei a sobremesa. Dimitri sorria sem graça e me oferecia uma fruta _ abacaxi, Gregório tentava disfarçar e insistia pra que eu comesse um doce. Nem dei resposta, e só voltei as mãos sobre a mesa, depois da conta paga.
Na saída eu teria que deixar Dimitri no ponto de táxi e Gregório no hotel. Poderia levar o ariano pra um ponto melhor. Ou conferir se o serviço do hotel de Gregório funcionava. Mas... Abandonei os dois e fui embora com o sabor de duas costelas pra uma Eva.
06.12.2004
Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.
*
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.
Especial Hilda Hilst

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VERDADE
A porta da verdade estava aberta, |

Picasso
Foram eles que pintaram Guernica
eles
com baionetas, facas,granadas, revólveres,
metralhadoras, tanques,
eles
com a capacidade de fazer do vermelho
do sangue apenas
cinza
eles com as máquinas
que fabricam cidades cinzas,
e depois lhe
culparam
e lhe indagaram
por quê?
Foram eles, apenas eles.
Luiz Sergio dos Santos

Amor por correspondência.
São Paulo, 11 de Novembro de 1947.
Querido Paulo,
Desde ontem quando saí do cinema, pulsava em mim uma vontade louca de lhe escrever. Fui assistir a um filme muito “afamado” _ Gilda. Ousado! Tudo sobre um amor reacendido. Isso me fez pensar em você e do quanto preciso do teu amor...
Poucos bens ela me deixou: 1/3 da metade de uma casa velha, aliança de casamento (de bodas pra minha irmã), fotos e receitas _ um monte, quatro cadernos (onde resumiu sua vida) e cartas. Herdei todas as cartas de amor da minha mãe.
Envelope, papel perfumado, dia, mês e ano. Pula uma linha _ saudação, pequenas flores decorando as laterais, linhas retas, caneta tinteiro, capricho na letra, desenho nas iniciais maiúsculas e palavras de amor. Nada abreviado. Retratos soltos. Beijos gravados com batom. Notícias _ Lembranças _ Até logo.
Hoje recebo e-mails, não recebo cartas. Cartas? Somente as do banco, sempre de débito. Onde foram parar as cartas das lembranças? Ao receber um e-mail:
_ Nossa, há quanto tempo ele não me escrevia!
_ Ah! Que pena, só mais um daqueles textos copiados e lotados de anexos.
Os encaminhados, dificilmente abro, costumo deletar. Arquivos desconhecidos, nem pensar! Duvido que alguém ficaria escrevendo textos e textos, revelando fotos e fotos pra enviar pra cada amigo! Onde fica a preguiça de escrever e o preço da postagem? E o da revelação então? Hoje, com alguns cliques, envio o que quiser, pra dezenas de pessoas.
Por que vibramos ao abrir um e-mail? Tão impessoal! Sempre atrás de uma tela fria.
Ah! Que falta me faz abrir o envelope, sentir o perfume, a textura, formato e cor. Sem falar da tarja do aéreo, denunciando notícias de longe. E mais, reconhecer o emitente pela letra, sem olhar o verso. E-mail não tem envelope, a senha protege os escritos.
Cola? Será que é goma-arábica? Antigamente as cartas eram fechadas com lacre de cera. Melhor colar na pasta destinada aos preferidos.
Dia, mês e ano. Nem me preocupo com isso, vem até hora! Que pena, sem data falsificada do carimbo disfarçando o dia em que escreveu e culpando o correio pelo atraso. Pelo menos sei a hora em que alguém pensou em mim e resolveu me escrever.
Selo? O selo é o provedor.
Nada no papel. Palavras virtuais. Mas posso imprimir! Se houver erros, basta um delete ou backspace. Azul ou preta? Nunca a cor da caneta. Sem esferográfica, como saberia se o outro estava nervoso ou calmo? Será que escrevia rápido ou nem tinha vontade de escrever? Não dá pra entender, as letras são sempre do tipo “Arial”, tamanho _ 12, formatada. Quando a tinta falha é por que acabou. Às vezes a folha sai em branco, lisa, sem dobras e sem orelhas e ainda sem perfume. Ou toda borrada do resto do cartucho. Mata-borrão? Pra que?
Nos anexos... Fotos soltas: recortadas, remontadas ou copiadas de sites e abertas depois de passar pelo antivírus.
Pior é esperar no portão. Não adianta. Agora o correio está dentro da sua casa. O computador virou carteiro, sem falar na caixa postal transformada em mega bytes.
O que vou deixar de herança? Provavelmente pastas protegidas por senhas e muitas imagens digitais. Isso se o meu computador não foi infectado pelo “loveletter” e precisar ser formatado.
“Paulo, avise a Alex, comprei as passamanarias que ela me pediu. Esperando notícias suas, saudosa, deixo aqui todos os meus beijos”. Dalva
Um instante
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente Ferreira Goulart
Ouvindo apenas
e gato e passarinho
e gato
e passarinho (na manhã
veloz
e azul
de ventania e ar
vores
voando)
e cão
latindo e gato e passarinho (só
rumores
de cão
de gato
e passarinho
ouço
deitado
no quarto
às dez da manhã
de um novembro
no Brasil) Ferreira Goulart

Marc Chagall _ David
Conversando com os anjos.
Antes de adormecer, pois ando dormindo pouco e demorando pra pegar no sono, resolvi chamar meu anjo pra uma conversa séria. O vizinho do andar de cima tem os horários mais loucos que alguém possa imaginar. Às vezes acordo de madrugada. De botas, o homem pisa no chão como se fosse alçar vôo.
Anjos deveriam ser como irmãos gêmeos, parecidos com a gente. No entanto são seres de luz e se colocam como mensageiros e filhos do senhor. Distintos da raça humana!
Desde o dia em que nascemos um nos acompanha. Ele é que vai orientar a nossa vida e o aprendizado junto aos grandes mestres divinos. Mas existem os do bem e os do mal. Deus enviou pra terra um anjo bom pra cada anjo mau, dando assim o equilíbrio das forças. Anjos caídos. Caídos do andar de cima!
Ainda existem os da noite _ vampiros, os do céu _ esquadrilha da fumaça, e Augusto dos Anjos _ dos poemas. Tem também um pra cada dia da semana e pra cada signo do zodíaco. Sem esquecer dos abandonados que suados esbarram na gente o gosto amargo da saudade. São tantos!...
Sem dúvida, anjo da guarda é aquele com quem você pode conversar se aconselhar e reclamar da vida. Dono de duas asas vai pra onde desejar. O meu deve ter nascido sem, vive longe de mim. Quanto a nós humanos, fomos feitos com uma só asa, precisamos aprender dar a mão pra que possamos voar. Se a tal metade da laranja é quase impossível encontrar, imagina com asa?
Vinte minutos! Este é o tempo que eles ficam com a gente e ainda com hora marcada. O meu, por exemplo, fica das 22:40 às 23:00 horas. O resto do tempo? Vela de longe. No verão, acho que vaga numa praia de nudismo e no inverno foge pra onde tem lareira.
Sempre chamo por ele:
_ Ô anjo preguiçoso!
Assim resolvi reclamar do barulho que o amiguinho dele faz e do pouco tempo que me dispensa. Do vizinho não tive resposta, mas do horário... Alegou que é padrão, imposto pelo Divino. Não dá pra mudar! Também critiquei o atendimento: demora demais pra realizar meus pedidos. Não, mas as coisas não são assim, pra tudo tem um por que: para alcançar a graça, antes testam a nossa paciência. Sempre nos levam aos limites. Quando sentem a nossa capacidade de espera é que atendem. Questão de fé!
Agora o jogo virou e o discurso, dele: disse que toda vez que acendo uma vela, não coloco um copo com água ao lado. Vou corrigir. Além do que, não me lembrei dele no dia dois de outubro. Dia da festa dos anjos. Que espere pelo ano que vêm!
Depois de tudo isso protestou abertamente sobre os castigos que imponho a ele. Disse que se aborrece quando fica de ponta cabeça no altar, lhe causa náuseas. E detesta quando eu o prendo na caixinha de perfumes, é alérgico! Mas a maior tortura é quando o coloco na janela. Por certo tem medo de altura ou não gosta de voar. Muito manhoso!
Como adoro dormir abraçada, pediu mais espaço na cama _ folgado demais este cara. Não está contente com nada! Pra tornar o meu caminho mais doce e suave, exigiu velas com aroma de mel – é muita cara de pau! E ainda, pra que esteja ao meu lado o tempo todo, devo seguir alguns conselhos como: pensar que ele existe; rezar em voz alta, pedir ajuda e esperar ser surpreendida. Assim coagida me fez prometer que nunca mais vou judiar dele. Prometi fazendo figas. Que fique esperto comigo!Não tenho paciência!
Realmente ele não me dá ouvidos, se continuar desta forma, melhor deixá-lo de lado. Talvez tente o prozac, ou contrate uma seguradora, com certeza será mais rápido e eficaz. Não sei não! Pensando bem acho que vou pedir guarda ao vizinho do andar de cima, formaremos um belo par de asas, por que apesar de humano, é um tremendo anjo do asfalto.


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