Coisas de uma contadora de histórias


31/01/2005


Salvador Dalí _ Vênus e Cupido.

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:38:32
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Oráculo.

 

Madame Lucrecia. Com certeza estou no lugar certo.Úmido e cheirando a mofo, tinha uma pintura verde claro. De um lado uma parede alta, que alcançava o segundo andar, do outro, pequenas janelas com vidros quebrados. O corredor comprido não parecia conduzir a um oráculo.

Depois de lutar contra isso, cedi. Precisava de resposta pra minha dúvida e resolvi apelar pro tarô. Afinal as cartas guardam mistérios. Nunca tinha ido num lugar como aquele. No entanto o importante era saber se a bendita da restituição do imposto de renda, do meu marido, sairia. Dois anos presa na malha fina. É certo que o imposto é dele e não meu. Não seria melhor ele ter vindo? Talvez! Mas como prometeu o dinheiro pra que eu faça aquela lipo... Agora é da minha conta. Vou me transformar numa Gisele Bündchen. Será que consigo? Bom, trocar a cor dos olhos é fácil, basta lentes coloridas. Só não sei como vou passar de 1.57 pra um 1.80. Que tal um alongamento dos ossos das pernas? Uau! Vinte e três cm a mais de altura...  Acho que vai ficar estranho.

Poucos passos me separavam da entrada. Uma pintura psicodélica decorava a porta, subia pelo batente e borrava parte das paredes. O que será que tem lá dentro? A sala era meio escura. Não tinha nada. Nada além de um banco velho e uns dizeres numa cartolina laranja pregada na parede. No banco... Três mulheres, até que bem vestidas, sentadas uma ao lado da outra e em silêncio. Ali ninguém queria conhecer ninguém. Todos buscavam uma resposta.

Como não tinha lugar pra sentar, fiquei lendo o cartaz:

_ Faça perguntas objetivas._ Tempo que valem as perguntas/respostas-Três meses._ Há limites pras respostas.

Caraca! Nem sabia que tinha prazo de validade. Será que ela vai me dar um certificado com selo do Inmetro e uma etiqueta com código de barra?  Na verdade, a pergunta seria uma só:

_ Quando vou receber a restituição do meu marido?

Hummm, melhor dizer:

_ Em que dia, mês e ano?

Não, devo ser mais educada:

_ A senhora, por favor, poderia me informar a data certinha do pagamento?

O que será que essas mulheres vieram perguntar? Aquela de azul marinho tem cara de traída. Coitada!Também com esse cabelinho! A outra, pelo modelito antigo do sapato, deve estar precisando de dinheiro. Nossa! E aquela? Tão pálida! Parece doente. Será que vai perguntar sobre morte?

Sem graça essa recepção. Nem um cafezinho. Esta cortina de conchinhas deve dar pra sala da cartomante. Toda forrada... No teto _ estrelas e luas florescentes. A toalha da mesa deve ter os signos do zodíaco, bordados em dourado. E a bola de cristal? Os castiçais devem estar espalhados. Luz? Só de velas.

Será que usa turbante e roupas coloridas?  Com certeza tem unhas grandes e pintadas de vermelho. Muitos brincos e anéis, um em cada dedo. Bruxas usam anéis?

Já foi a doente...  A do sapatinho...  Agora falta a do cabelinho.

Enquanto isso o tempo fechou. A tarde escureceu de chuva e os trovões rosnavam lá fora. E agora? Deixei o carro tão longe... Seria um aviso?  Não trouxe o guarda-chuva. Paciência!

A do cabelinho não se demorou e pela cara... Nossa! O marido deve ter dez amantes. E ainda sustenta todas.

Minha vez. A cortina de conchinhas escondia a porta que estava entreaberta. Uma sala simples, duas cadeiras e uma mesa quadrada com toalha branca e nada sobre ela. Nas paredes _ um tom encardido de rosa bebê. O teto totalmente liso e uma luz forte.

Nada de turbante e usava roupas brancas. Mas acertei nos anéis e na cor das unhas. De cabelos compridos, presos na nuca, meio loiro e por tingir. Tinha cara de charlatona. Queria saber onde escondeu as velas e a bola de cristal.

_ Bom dia.

_ Bom dia. Estou aqui pra saber do meu marido... Sobre...

Ela começou a colocar as cartas sobre a mesa e eu me calei. Será que ela sabia a resposta? Nem terminei de perguntar!... Deve estar me enganando. Vou jogar meu dinheiro fora.

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:37:23
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_ Seu marido, um homem que só pensa no trabalho. Cercado de muitas...

Meu marido? Cachorro! Bem que eu desconfiava. Ela deitou mais algumas cartas, mas não consegui ouvir nada _ travei!

_ Tendências financeiras...

Vou matar aquele desgraçado!

_ Sua saúde navega por mares pouco tranqüilos.

Que saúde? Não queria ouvir mais nada, agora só queria sair dali. Depois de uns minutos ela me olhou e disse:

_ Consulta encerrada!

Ao me levantar paguei e saí. Nem perguntei sobre a restituição. O corredor parecia o caminho do infinito. Não tinha fim e a chuva caía forte.A enxurrada quase cobria as lajotas da calçada. Enquanto esperava o temporal passar, interpretei as profecias:

. Só trabalha _ pra gastar com outras.

. Cercado de muitas... _ mulheres, um monte delas.

. Tendências financeiras _ não me lembro, o que ela falou mesmo?  A restituição deve ter saído e ele me enrolou.

. Mares pouco tranqüilos _ devo ter uma doença grave. Agora vou morrer gorda e feia deste jeito.

Essa mulher é uma farsa, além de não falar nada com nada, ainda colocou minhocas na minha cabeça. Nunca mais volto aqui.

Ao entrar no carro minhas lágrimas se misturavam com a água da chuva. E só pensava qual o melhor jeito de matá-lo. Uma boa alternativa era esperar ele dormir e jogar água fervendo no ouvido. Talvez possa amarrá-lo ao pé da mesa, morte lenta.

Quando cheguei em casa liguei o computador. Precisava confirmar se a restituição tinha sido paga ou não. Dependendo do resultado, eu escolheria a melhor forma pra ele morrer.

“Sua restituição estará disponível a partir do dia 15 no banco...”

Com certeza as cartas guardam mistérios. Meu marido só pensava em trabalho, e em mim claro. Sempre cercado de muitas preocupações. Quanto às tendências financeiras... Não poderiam ser melhores. Mares _ chuva! Ah! Devo estar com uma leve gripe. Nunca mais darei um passo sem consultar a santa madame Lucrecia. Será que ela poderia me dizer como aumentar 23 cm?

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:36:41
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29/01/2005


Portinari _ Angustia

Álvaro de Campos

 

Às Vezes
 
    Às vezes tenho idéias felizes, 
    Idéias subitamente felizes, em idéias 
    E nas palavras em que naturalmente se despegam... 
 
    Depois de escrever, leio... 
    Por que escrevi isto? 
    Onde fui buscar isto? 
    De onde me veio isto?  Isto é melhor do que eu... 
    Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta 
    Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:59:01
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28/01/2005


Peter Brueghel _ La Torre de Babel

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:28:43
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A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
                                                   Vinicius de Morais

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:23:13
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27/01/2005


Pablo Picasso _ A mulher que chora

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:49:05
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Alegria inesperada

 

Quando o telefone tocou, olhei no relógio, cinco horas da manhã.

Quem ligaria tão cedo? Carlos estava na praia com clientes. As crianças, de férias da escola, ainda dormiam.

_ Alô!

_ Por favor, gostaria de falar com a esposa do Sr. Carlos de Amoedo.

_ Pois não, sou eu mesma!

_ É que aconteceu um acidente nesta manhã e infelizmente seu marido teve ferimentos graves e solicitamos o seu comparecimento no IML de SP.

_ Como? Meu marido?

_ Sim, Sr. Carlos de Amoedo.

Sem perceber, desliguei. Ferimentos graves?  IML? O que estaria fazendo em SP? Só voltaria no final de semana...

Sob a água fria do chuveiro mal conseguia pensar. Precisava ligar pra alguém, mas pra quem?

Não conseguia chorar, sentia uma alegria contida dentro do peito. Depois do banho escolhi uma roupa, queria um vestido, mas ele sempre disse que vestidos não caiam bem em mim. Melhor calça. Um batom desbotado disfarçava o branco da minha boca.

Sem nada explicar, liguei pro meu pai pedindo pra que ficasse com as crianças.

Dentro do carro, minhas mãos me guiavam automaticamente. O barulho do transito ensurdecia os sentidos.

De quanto era o seguro de vida? Como providenciar o enterro? Aonde ir pra receber meus direitos?

Vinte anos de casamento e agora... Sempre fui viúva. Do que estou reclamando? Aliás, reclamei a vida toda. A culpa daquela monotonia era minha. Também ele só viveu pra trabalhar, pouco se incomodou comigo.

Não tinha como aquecer o nosso relacionamento.

Nas poucas viagens _ se mantinha distante, nunca me aproximei. Até fazia questão que eu viajasse sozinha! Talvez uma forma de me compensar. Um modo pra que esquecesse as viagens que não fiz: Paris, por exemplo. Isso não! Nunca vou aceitar. Agora não tinha o que perdoar. Só restava lamentar.

Pelo caminho perdi a lembrança dos faróis. Será que passei algum vermelho? Tão raro ele passear com as crianças. Não tenho recordações deles brincando no mar. Sempre viajando. Coube a mim a responsabilidade.

Desde o inicio foi difícil. E a mãe dele? Sem a minha, contava com ela pra me ajudar.

Ainda bem que quitamos o apartamento. Não temos dívidas. Apesar dele reclamar que gasto todo o dinheiro. Como vou fazer pra estudar as crianças? Quem procurar no IML? Posso reconhecê-lo pela unha do pé. Ou pelos dentes, tão grandes! Como me localizaram? Talvez pela placa do carro.

Por que disse que iria pra praia e não foi? Impossível saber. O celular toca em qualquer lugar. Desgraçado! Por que mentiu? Aquela amante que desconfiei da existência... É real. Existe mesmo. Maldito! Por isso me evitava. Agora entendo o tal cansaço. Sempre me fez de boba, mas aceitei. Pudera! A vida boa que ele me dava! Tudo pra calar a minha boca. E me calei no silêncio de uma vida a dois.

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:48:06
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Como ele me abandonava assim? Do nada! Não era justo! O que seria de mim? Como viver sozinha? Sempre vivi uma solidão acompanhada...

No espelho retrovisor meu reflexo era murcho, os cabelos pareciam mais brancos. Nunca notou o corte ou a cor!  Jamais reclamou do meu esmalte. Minhas unhas eram transparentes na visão dele. Tudo foi falta de dançar, do pouco cinema e quase nada de teatro. Nunca saímos pra noite. Só acompanhados por clientes. Lembro-me quando cochilou na ópera. Sequer discutiu um filme comigo. E livros?...  Ele sempre odiou tudo o que me agradava.

No casamento existem coisas inesperadas. Como os encargos idiotas que tanto valorizei.

Mas tive dois filhos maravilhosos. O eterno leva e traz da escola, judô, balé, natação, inglês... Como vou terminar de educá-los? Nunca trabalhei!...  Em nome da família me enfiei na cozinha, lavei e passei. Ao ganhar as formas de dona de casa, perdi as femininas. Culpa minha!

Que rosto incolor!... Quem havia morrido? Eu ou ele?

Agora seria livre e poderia fazer tudo que me desse na telha. Qual seria o valor da aposentadoria? É... Antes de fazer tudo, teria que trabalhar. Como arrumar emprego e no que? Tantas perguntas e nenhuma resposta.

Ao estacionar o carro, o som do celular me assustou. Era o toque pessoal do meu marido. Impossível ele estava morto e eu livre. O número piscava no visor insistentemente. Devo atender? Ah! Era só alguém que tinha achado o meu número na memória...

_ Alô!

_ Oi amor, só estou ligando pra te contar que roubaram meu carro do estacionamento. Acabei de ser informado que o assaltante foi pra SP, depois de realizar vários assaltos, sofreu uma perseguição, o que causou um acidente e acabou morrendo. Agora estou indo pra casa, pois tenho que acionar o seguro, passar na delegacia e também preciso providenciar um carro reserva. Devo voltar ainda hoje pra praia, como sabe, o discurso de encerramento é meu.

Quando manobrei o carro chorei aliviada, ele estava vivo e eu...

O sol subia indiferente e coloria a manhã. Ao passar pelo parque parei diante da fonte, estava desligada. Mas mesmo de dia poderia imaginar suas cores se misturando ao som da música. Afinal devo continuar fazendo de conta que estou viva.

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:47:32
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26/01/2005


Ismael Nery _ Moça

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:17:21
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Vinicius de Morais _ O desespero da piedade

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:15:51
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25/01/2005


Tarsila do Amaral _ São Paulo

Essa é a cidade que amo! São Paulo, São Paulo!

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:38:16
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Tarsila do Amaral _ Operários

Grande São Paulo! Parabéns querida! _ Cidade de muitas raças.

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:36:51
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24/01/2005


William Blake _ Pietá

Escrito por Márcia Rodrigues às 06:17:03
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Que dor de cabeça!

 

Já tinha sinais de que a noite não seria das melhores. Ao abaixar, pra abrir a gaveta de pijamas, senti. Mas não dei confiança. Os lençóis haviam sido trocados e o cheiro de roupa limpa tomava conta do quarto. Depois de arrumar os travesseiros, me acomodei. Como era bom sentir a cama me abraçando. Agora o corpo cansado encontrava a tranqüilidade. Muito mais do que dormir. Repousar!

Na tv um filme antigo, legendado. Mal conseguia ler, o sono vinha lento e tentava derrubar meus olhos, mas uma leve dor de cabeça não deixava. Ao me cobrir fiquei imóvel. Quietinha! Um cochilo gostoso invadia o meu corpo, quase levitava. Melhor não tomar remédios, teria que acordar cedo no outro dia.

Assim fui enganando parte da noite. Já era de madrugada e o sono completo não vinha. E a dor cada vez mais forte, atingia a nuca, subia pelos cabelos e secava a minha boca. Totalmente tonta.

Não tinha jeito. Será que consigo? Um esforço enorme tentava me levar até a cozinha.

Quando passei pelo banheiro, abri o armário e levei comigo o estojo de remédios.

Enquanto a torneira do filtro enchia o copo, remexia a caixinha. Não é possível! Queria um comprimido, só um! Tinha tudo ali, menos o que precisava. Quantas pomadas! Pra que tudo isso? Bem que uma delas poderia servir pro meu mal. Um gole e dou uma busca pela casa. Nem que seja uma cibalena vou achar. Pode até estar com o prazo de validade vencido. Depois de olhar na cozinha, banheiros e sala; tentei nas minhas bolsas... Nem um melhoral!

Que dor horrível! A cada passo sentia um peso batendo na cabeça. Latejava!

E nos quartos das crianças? Provavelmente não.

Só restava as minhas gavetas. Talvez achasse um perdido. No entanto... Batons, canetas velhas, agenda de dez anos atrás. Quanta porcaria! Está na hora de fazer uma limpeza nesta casa!

Ai que sono! Que vontade de dormir! Enquanto vasculhava, pedia a Deus um comprimidinho. Que fosse meio! Não agüentava mais. Remédio que era bom... Nada! O que é isso? Um monte de papéis. Juntei tudo e fui pra sala. Melhor ler deitada, nem conseguia ficar em pé. A dor _ muita!

Nossa! Eram cartões. Teoricamente de amor. Cartões que acompanharam cestas de cafés da manhã, flores ou bombons. Essas besteiras que aceitamos pra esquecer do que não gostamos.

“Realmente não pensei antes de te magoar, flores pra perdoar _ beijo. Maio de 87”.  Lembro-me, um monte de rosas vermelhas. Magoar, perdoar. Ainda fez rima!

Em 87... Uma mulher bonita e jovem, 29 anos. Naquela época quase não tinha dores de cabeça. Era crédula. Ainda sou, mas com uma diferença, sou burra agora. Ou sempre fui? Talvez insensata. Acho que é a dor.

“Bombons pra adoçar seu dia, não quero você chorando mais. Agosto de 88”.

Que dor infernal! Minha cabeça vai explodir. Nem adianta ligar pra farmácia. E se eu for até lá? Não, dá pra esperar amanhecer.

.“Brincos pra te enfeitar e fazer de você a mulher que sempre irá me ouvir. Junho de 89”. Meu ouvido era penico? Que coisa!

E se eu rezar? Já pedi a Deus e ele não me ouviu. Pra quem agora? Quem poderia me atender? Não, vou tentar a bolsa de água quente. Mas fria. Agora meu estomago embrulhava. Pra certas dores não existem comprimidos. Fui obrigada a passar por elas sem tomar nada, nem decisões que me pareciam tão simples. Há quanto tempo sinto isso? Por que mexi naquela gaveta? Uma noite sem dormir e sentindo dor não é nada. Nada mesmo.

_ Cadê a bendita bolsa? Onde foi parar?

Desisto! Melhor fazer uma oração! Como é mesmo? Não sei. Que falta me faz ter fé. Só se eu enrolar estes bilhetes em forma de canudos e fazer como o frei _ pílulas. Será que vai funcionar? Com ele dava certo... Estes papéis só servem pra isso mesmo. Engolir a seco! Não custa tentar.

Pronto! Enrolados e cortados. Que monte! Pílulas de papel. Acreditar? Vou tomar cinco.

No sofá tentava repousar, mas estava amanhecendo. Passei a noite procurando um consolo pra minha dor e acabei embrulhada pra presente. Pelo jeito o dia também não seria dos melhores.

Escrito por Márcia Rodrigues às 06:16:05
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23/01/2005


Alma Tadema _ Cleópatra e Antonio

VI (3)

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo puta.
                                                                         Bocage

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:05:48
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22/01/2005


Kandinski

Um dia baço mas não frio... (18-3-1935)

Um dia baço mas não frio...
Um dia como
Se não tivesse paciência pra ser dia,
E só num assomo,
Num ímpeto vazio
De dever, mas com ironia,
Se desse luz a um dia enfim
Igual a mim,
Ou então
Ao meu coração,
Um coração vazio,
Não de emoção
Mas de buscar, enfim -
Um coração baço mas não frio.

                                                         Fernando Pessoa

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:22:04
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21/01/2005


Eduardo, ler você faz bem pra minha alma, obrigada por suas palavras.

Renoir _ mulher lendo

Entendo que é possível olhar nos olhos de alguém e de súbito saber que a vida seria impossível sem eles. Saber que a voz da pessoa pode fazer seu coração falhar, e que a companhia dessa pessoa é tudo que sua felicidade pode desejar, e que sua ausência deixará sua alma solitária, desolada e perdida...Um beijo!

Escrito por Márcia Rodrigues às 05:58:02
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20/01/2005


Egon Schiele

Duas Jovens Deitadas em Sentidos Contrários

(1915)

Gauche e grafite

32,8 cm x 49,7 cm

Graphische Sammlung Albertina,

Viena ( Áustria)

 

A partir de 1914, Egon Schiele volta-se para representações cada vez mais plásticas em suas telas.

Os corpos, com as suas saliências e reentrâncias, tornam-se cada vez mais explícitos, com sombreados e contornos, como na obra Duas Jovens Deitadas em Sentidos Contrários. Sem abandonar os tabus e os temas picantes, como mulheres nuas, a homossexualidade feminina e masculina, a masturbação e até mesmo a perversidade, Schiele mostra o contraste da cor da pele com a cor das roupas e dos lábios.

O artista pinta olhos fixos como pontos nos rostos estilizados, formados como que por um instrumento de escultura. Mesmo com os dois corpos encostados, a mão da jovem nua que enlaça a outra e o olhar desprovido de malícia deixam dúvida quanto ao caráter provocante da obra. O que vale é a representação, de um modo expressivo, da solidão melancólica dos dois corpos, apesar da aproximação física. Schiele conseguiu o mesmo efeito em Duas Raparigas enlaçadas, de 1915.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:42:29
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19/01/2005


Camille Pissarro

A Camponesa com Vara (1881)

81 cm x 64 cm Óleo sobre tela

Museu d’Orsay,

Paris (França)

 

A Camponesa com Vara foi o marco de uma nova era para Camille Pissarro, cheia de glórias longe das constantes crises de quando mendigava para conseguir verder seus telas. Nessa obra, pela primeira vez o pintor destacou um ser humano como objeto central e não mais a natureza das suas pinturas anteriores.

Com a intenção de explorar o máximo possível o efeito da penetração e do reflexo da luz na folhagem, Pissarro usou a camponesa contra um fundo verde campestre, artifício usual entre os impressionistas. Resultado: um equilíbrio harmônico, ressaltando detalhes da trabalhadora, que é ovacionado pelos críticos de arte e é responsável pela ascensão do pintor na sociedade contemporânea. A partir de A Camponesa com Vara, Pissarro passou a se inspirar em Degas, retratando as mulheres, quase sempre trabalhando no campo ou então dançando. Esse período foi promissor não só para Pissarro, mas também para todos os seus amigos impressionistas que saíram dos tempos de vacas magras para uma temporada feliz nas artes.

Fonte: Revista Caras (que às vezes é cultura)

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:51:48
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18/01/2005


Tarsila do Amaral _ A negra

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:20:12
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Escrava do desejo

 

Ao estacionar podíamos ver as vitrines coloridas. Roupas cheias de flores. Na porta uma tribo esquisita. A pele daquela garotada parecia um filme de terror. Pelos braços e pernas: palhaços, cobras, dragões... Alguns de cabelos compridos. Outros totalmente carecas e ainda mais, um menino tipo moicano, com o centro da cabeça tingido de azul e laranja. Os alargadores rasgavam as orelhas, combinando mil brincos.  Piercings derrubavam os lábios, escondiam parte das sobrancelhas e multiplicavam os rasgos. Além dos que atravessavam as narinas, quando não os umbigos que as meninas exibiam orgulhosas. Todos de roupas largas, muito largas. Fiquei imaginando os mamilos e genitálias. Será que estavam trancados pelas tais “jóias”?  Que lugar é esse? O que estou fazendo aqui?  Ah! Era só um estúdio de tatoo. Na verdade, um misto de loja e clinica. Muito estranho!

Um amontoado de pranchas com suas quilhas pontiagudas quase impediam a passagem. Do outro lado, tênis de formas largas repousavam sobre skates.

Numa arara mal fixada, bermudas se misturavam a biquínis baratos.

Meu marido? Com ar dissimulado passeava os olhos por tudo e nitidamente demonstrava sua contrariedade. Depois de insistir muito, consegui convencê-lo de que era normal fazer uma tatuagem.

_ Pois não senhora...

_ Por favor, queria falar com o Johnny.

_ Do que se trata?

_ De tatuagem.

_ Só um momento. Vou chamá-lo.

O rapaz abriu uma porta no fundo da loja e entrou numa sala toda azul. Pela fresta fiquei imaginando o que me esperava. Impossível saber! Como seria o tal Johnny? Talvez fosse alto, bonito! De olhos grandes e belas mãos. Com certeza um cara malhado, bem forte. Os meninos e meninas me olhavam como se eu fosse um bicho. Deveria ter colocado brincos exagerados, uma camiseta velha e jeans rasgado, nos pés _ chinelos. Assim ninguém me notaria. Minhas roupas não eram a cara daquele lugar. No entanto combinavam comigo. Com o livro na mão, analisava o desenho que queria tatuar na perna.

_ Entre! Ele está acabando uma tatuagem e não demora.

Realmente tudo azul, chão, paredes e sofás.

_ Pode olhar os catálogos.

Pra que? Eu sabia o que queria. Havia trazido de casa. Assim mesmo resolvi dar uma olhada. De capas negras estavam lotados de desenhos, dos mais loucos castelos, passando por todos os bichos até chegar em anjos barrocos com cara de fumeiros. Demônios de asas! Sem falar nos monstrinhos que pareciam fetos...

No canto um balcão, cheio das tais jóias cirúrgicas, nem olhei, por enquanto piercings não me interessavam. Do outro lado uma porta. Ali deve ser a sala de cirurgia. Vou sentir dor? Disseram-me que o lugar que escolhi é o que mais dói.

Um frio estranho percorria o meu corpo. Medo? Por que? Meu filho tinha se tatuado ali.  Treze formigas... Eu? Só dois beija-flores. É, mas parados no ar. Melhor colocá-los num poleiro.

Tudo bem... Tudo bem... O Lugar era seguro. Não podia dar bandeira. Folhava tentando disfarçar, a cada página um horror tomava conta de mim.

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:18:43
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Melhor desistir. Não! Tanto tempo pra me decidir. Não seria aquilo que me faria voltar atrás. Eram apenas figuras. Mas aqueles monstrinhos...

Com olhar baixo meu marido olhava os desenhos sem expressar nada.

No sofá duas mocinhas. Aparentemente normais como eu.

_ A senhora vai fazer tatuagem?

Senhora? Aquilo me quebrou.

_ Vou sim. Você também?

_ Uma estrela.

_ Ah!...

_ E a senhora?

_ Um casal de passarinhos.

Não tinha o que falar. Sentia muito medo. Ridículo aquilo! Como tive coragem de pensar em me tatuar! Que ousadia! Beirando os cinqüenta anos. Toma vergonha na cara! Some daqui enquanto é tempo. Mas o que falar pro meu marido? Como explicar? A mulher tão decidida, dona do próprio nariz ia amarelar agora? Tarde demais! Não poderia desistir.

Depois de trinta minutos o porta da “UTI” se abre e sai de lá um menino. Pela seriedade parecia um doutor, mas não tinha 20 anos. De bermuda no meio da canela e regata, mas com tantas tatuagens que a camiseta parecia ter mangas. Um pouco diferente do que imaginei: meio baixinho, de cabelos batidos e nas orelhas _ alargadores transparentes. Bem bonito e com belos olhos, luvas escondiam as suas mãos. Mas na minha visão _ horrível!

_ Pois não. Sou o Johnny.

_ Sou a mãe do Marcel...  Das treze formigas. E vim fazer uma tatuagem.

_ Ah! Sim...  A senhora já sabe o que quer?

_ Sei sim!

Estiquei o livro e mostrei.

_Quero este aqui. Acima do tornozelo esquerdo.

 Depois de analisar, fixou o olhar no meu.

_ É muito tarde. Além de medir o local, terei que saber exatamente o tamanho que a senhora quer pra ampliar o desenho no papel. E só poderei tatuar na segunda-feira às treze horas. Pode ser?

_ Claro. Volto na segunda.

Ali mesmo levantei a calça, depois de medir, nos despedimos.

Nem lembrei de perguntar o preço. Ao passar pela loja senti os olhares metálicos em minha direção. Mas saí sem demonstrar nervosismo.

Quando cheguei na rua, um sorriso enorme tomou conta da minha boca. Agora tinha a chance de desistir. Quase setenta e duas horas pra pensar. Até lá terei tempo pra quebrar o pé esquerdo ou matar alguém da família. Vou resolver o que é melhor.

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:18:05
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17/01/2005


Van Gogh _ O Quarto

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:48:31
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LUZ DO SOL

Olhe para a luz
entre as luzes

à noite com as luzes a-
cesas no quarto você está

sentado só de novo com
a luz acesa tentando ainda

dormir mas o tédio
e o cansaço de esperar até tarde

da noite pensando em alguma
estúpida simples luz do sol.

                                        Robert creeley

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:42:39
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16/01/2005


Camille Claudel _ sacoutala

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:20:17
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15/01/2005


Rodin _ la belle

“Aquela que foi a bela Heaulmière”

Constitui, sem dúvida, a única representação de uma mulher velha na obra de Rodin, que preferia, de longe, representar criaturas belas e jovens. Conta-se que essa italiana veio a pé pra abraçar uma última vez o seu filho, que posava pra Rodin. Este, fascinado, teria então executado esta espantosa representação da velhice.

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:10:31
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13/01/2005


Giovanni Benedetto Castiglione _ Deucalion e Pirra

Escrito por Márcia Rodrigues às 16:04:39
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Rio dos meninos.

 

 

Amanheceu. Um dia comum. Hoje não poderia ficar na sacada, pois a chuva vinha de frente. Lentamente molhava os vidros da porta, as gotas batiam e explodiam sem cor. Em minhas mãos a xícara de café fumegava e se misturava à névoa da manhã chuvosa. O menino parou de brincar!

Quando mansa é perigosa! Devagar escorre do céu e a terra não vence.

Mas o rio parece suportar. Na avenida os carros deslizam sobre as pequenas poças que espirram longe. A mesa de ferro enferruja sentindo a falta do café da manhã. Chora!  Aos poucos a água que nela batia escorria nas plantas, verdinhas exibiam as flores _ felizes.

Do outro lado da avenida as casas empoeiradas agora tinham suas cores avivadas. Tudo parecia limpo.

Os afazeres da casa tomam conta da manhã. Pela área de serviço outro ângulo do rio. Subiu um pouco, agora a chuva apertava.

Tão pequeno! Sempre esperamos que engula tudo: a sujeira e a água da chuva. Sofás rodeados por garrafas plásticas giram na correnteza apertada. Esbarram nas margens, alguns se acomodam, deitam nos barrancos escorregadios, outros fogem.

Agora no quarto, os travesseiros meio úmidos se acomodam na cama e assistem pela janela. E ela teima! Não pára de cair! O menino começa a perder o humor. Reage!

Atrás da camada fina e incessante a serra do mar guarda mais chuva e o pouco da mata enfrenta à frente fria. Chove! Chove!

Pela avenida a enxurrada, o pequeno rio regurgita. Se vomitar vai inundar tudo.

Os sons barulhentos dos helicópteros interrompem o almoço. São quatro deles.

Onde foi parar a avenida? Em pouco tempo o rio abraça suas laterais asfaltadas, tudo vira um mar barrento e sem ondas. Totalmente descontrolado age em silêncio, atropela o que vê pela frente, nervoso invade o colorido das casas sujando tudo. Perdeu a delicadeza de menino, tem a fúria de um homem. Ao arrastar os carros e os ônibus, afoga os motores e prende as pessoas, que acenam pras câmeras suspensas. Outras encurraladas nos alto de suas casas nem se desesperam. Nesta hora respeitam o rio. Não há o que fazer. As comportas não vencem, a lama invade e desorganiza as donas de casa, empurra camas e geladeiras.

Nos botes vermelhos, homens treinados pra socorrer resgatam o que podem.

Num balé desengonçado os automóveis dançam pela avenida, alguns se abraçam aos postes e ali permanecem num dois pra lá dois pra cá. Outros convidam os muros, como damas vulneráveis _ desmoronam.

Durante horas a cena não muda. Até que uma árvore, que em dias de sol parece forte, racha seu tronco e mergulha. A copa de tão grande enrosca na ponte e forma uma cascata. Seus galhos frágeis vão se quebrando e as pequenas folhinhas verdes desaparecem no marrom.

Não sou a única espectadora. Nos pontos mais altos, uma fileira de carros aguarda o rio se recolher ao leito. A demora traz um arrastão de urubus humanos, roubam. Ninguém reage, nem pra frente nem pra trás. Entregam o que têm. Só resta esperar!

Novamente escurece, mas agora é a noite que vem chegando. A chuva diminui. Marte chama seus filhos e o silencio começa a se estabelecer.

Agora o barulho das mangueiras, água limpa empurrando a sujeira. Perdem o respeito e jogam na correnteza fraca os móveis estragados. Sem força o rio acompanha o asfalto sujo de barro marcado pelos pneus dos carros que voltaram a circular. Entristecido e cansado, o menino deita ao longo das margens e dorme.

11.01.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 16:01:19
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12/01/2005


Dante Gabriel Rossetti _ Perséfone

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:50:02
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Trinta por três, menos oito.

 

 

A salsinha amargava o gosto do filé. Ao lado das batatas o arroz branquinho e grudento. Quando vou fazer soltinho? Na travessa de vidro a salada verde coloria os palmitos e poupava os tomates, respeitando o vermelho. Sem movimentos comíamos o domingo de sol em pratos de porcelana, o barulho das mandíbulas triturava a carne.

Em silêncio a tv assistia nosso almoço. Qual a velocidade de um coelho em fuga? E a da águia em busca de sua caça? Pra que servem estas informações? Vivo numa metrópole...

Agora tudo sobre o treinamento dos policiais norte-americanos. Nunca fui pros Estados Unidos. Quem sabe um dia...

Enquanto o almoço entupia meu esôfago eu pensava na proposta de me casar novamente. Como? Já era casada!...

Até que era interessante! Um casamento de dez dias por mês. Vinte dias de intervalo. De folga! Nem seria preciso me separar. Bigamia? Entregaria somente o melhor e em troca receberia o mesmo. Sem problemas, sem contas pra pagar, roupas pra lavar e nada de comida pra fazer. Daria pra viver só de amor? Que ousadia! Abusou da minha inteligência ao falar que homens feios devem ser atrevidos e corajosos, pois só assim conquistam mulheres bonitas. Cantada barata! Melhor esquecer. Arrumar encrenca a troco do que? Estou tão bem...

E o silêncio continuava. Super máquinas! Como foi construído o maior porta-aviões americano. 

Ao retirar os pratos, empilhei. Dentro das travessas _ os talheres e os copos. Depois de arrumar tudo liguei a máquina, não era uma super e nem fazia idéia de como tinha sido construída, porém lavava a louça enquanto eu limpava a mesa.

Quais as vantagens? Pelo menos nestes dias não teria tempo pra assistir nenhum canal por assinatura.

Mas como sair por dez dias? Que desculpa dar? Uma vez por mês _ dez dias. Se o mês tem trinta,  poderia ter dois amantes. A primeira dezena com um, a segunda em casa, cumprindo minhas obrigações e a terceira com o outro. Se dez já são difíceis... E se saísse três dias? Isso me daria a chance de ter um número maior de amantes. Pra que tantos? Com certeza não daria conta. 

E quanto a ele me garantir que será pleno e só meu? Cumprir desejos, coisa boa! Meu por dois dias! E o resto do mês? Pouco importava...

Na varanda a rede de algodão balançava os meus olhos. O sofá estava ocupado por um ser inerte que prestava atenção nas imagens.

Pelo jardim casais de namorados acompanhavam as pipas coloridas do verão. Uma vontade enorme de passear subia pelos meus pés. Mas o porta-aviões nem tinha saído do estaleiro ainda. Quanto tempo vai demorar? Logo o rebocador chegaria. Depois do batismo, deve acabar.

Vou propor dois por mês. Pelo menos vou viver de lembranças por dez dias e os outros dez reservo pra ansiedade do próximo encontro. Sobram oito. O que torna possível ficar casada este período. Um amante de dois dias e um casamento de oito. Isso parece muito bom!

Aos poucos a piscina era abandonada. Crianças pequenas insistiam. Pela sombra da varanda, percebia a noite chegando. Agora formigas africanas escorriam pela tv e invadiam a sala. E o porta-aviões? Foram elas que afundaram? Perderam a guerra pra quem? Ah! É propaganda...

Agora o ser reagia e até falava:

_ Estou com fome! O que tem pra comer?

Já chegou a hora do jantar? Nem percebi. Ao tirar o filé da geladeira separei a salsinha. Chega de amargura! Afinal dias de amor me esperam.

O que será que eles vão responder quando eu disser que aceitei um convite pra passar dois dias fora?

Ao me sentar no sofá, agora vazio, ouvi a próxima atração:

_ Provas forenses! O crime passional que chocou o mundo! _

Isso me interessa.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:48:09
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10/01/2005


Botero

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:03:36
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Drummond _ Vaginas entrelinhas

Meu olhar desnuda as passantes.

Às vezes um bico de seio

Vale mais que o melhor Baedeker.

Mas onde seio para minha sede?

 

O andar, a curva de um joelho,

Vinco de seda no quadril

(não sabias quanto eras pura),

faço a delícia do dessous.

 

Eu sei que o êxtase supremo,

O looping no céu espiritual

Pode enredar-se, malicioso,

No que as mulheres mais (?), escondem

No que meus olhos mais indagam.

(O procurador do amor)

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:40:17
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09/01/2005


Antonio Parreira _ As flores do mal

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:07:35
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As Flores do Mal

(Renato Russo)

Eu quis você e me perdi
Você não viu, ou eu não senti
Não acredito, nem vou julgar
Você sorriu, ficou e quis me provocar
Quis dar uma volta em todo mundo
Mas não é bem assim que as coisas são
Seu interesse é só traição

Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais

Tua indecência não me serve mais
Tão decadente que tanto faz
Quais são as regras?
O que ficou?
O seu cinismo, essa sedução
Volta pro esgoto baby
Vê se alguém lhe quer
O que ficou é esse modelito da estação
passada Extorsão e drogas demais
Todos já sabem o que você faz
Teu perfume barato
Teus truques banais
Você acabou ficando pra trás

Porque... 

Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais

Volta pro esgoto baby
Vê se alguém lhe quer

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:05:45
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08/01/2005


Burne Jones _ O espelho de Vênus

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:59:33
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Sim! Não! Sim ou não?

 

O velho estojo de veludo preto brilhava sobre a penteadeira. Dentro dele o colar e o par de brincos abusavam da transformação. Debochados riam da natureza. Pérolas perfeitas!

Um vidro fino da janela velha me protegia do calor que não conseguia entrar. Diante do espelho coloquei os brincos e o colar teimou em não querer fechar. Meus dedos úmidos brigavam com o feche. De tão antigo, demorou, as pedras lisas dançavam no meu ombro. A quarta geração a usar aquelas jóias. Um símbolo que trazia às mulheres da nossa família: sorte no amor, felicidade plena e fertilidade. Fechou! Com cuidado guardei o estojo no fundo da gaveta.

O vestido armado ultrapassava os limites do reflexo e não mostrava os sapatos.  Estou pronta!

Só tinha uma palavra em mente: _ Sim!

Quando me sentei no banco do carro, sentia que tudo ficava pra trás. No quarto deixava meus antigos amores e parte da minha liberdade. Isso não dá pra carregar? Mesmo assim sabia que tinha algumas coisas esquecidas entre aqueles guardados. E foi isso que fiz questão de abandonar. Por que?  Pensei em voltar e abrir pequenas gavetas na barra do vestido e trazer o que não dava pra transportar. Mas... Não conseguiria arrastar tanto peso.

E tenho que dizer: _ Sim!

Os brinquedos, livros, discos, continuariam comigo, mas num lugar diferente. Isso levaria pra onde quisesse.

Que calor! O asfalto dilatava os pneus e abrandava os sons das ruas. Pelos meus olhos todas as imagens e as flores arrumadas entre fitas de cetim, transpiravam nas minhas mãos. Nas pernas o suor menstruava a minha pele. A marcha de Medellsohn me esperava e marcaria o novo da minha vida. O que me espera? Será que vou ser feliz? Por que isso agora? Deveria me preocupar com as flores, as músicas, os convidados...

Mulheres! As que usaram essas pérolas foram felizes? Talvez soubessem mentir.

Quando o carro parou, fui cercada por alguns homens, um com uma filmadora, insistia no registro dos meus gestos. Outro _ fotógrafo pedia poses de Cinderela. Os demais arrastavam fios e luzes que me cegavam. Que constrangedor...

Na decoração simples da capela, velhos vasos se espalhavam pela entrada. Neles, a terra seca teimava em manter os ramos verdes das folhagens, mas estavam maltratados e amarelados. Assim recepcionavam as pobres noivas. Um frontispício desgastado pelo tempo guardava a grande porta, ainda fechada.

Diante dela lembrei-me do vaso que ganhamos de presente. Não achava um lugar pra ele. Ficaria bom do lado direito da sala. Mas meu futuro marido achou melhor do lado contrário. O que causou grande confusão e uma briga acirrada pelo lugar na decoração da casa. Depois de ouvir que metade de tudo era dele, venci pelas lágrimas.

Sempre discordaria? Mesmo com coisas tão pequenas?...

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:58:01
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_ Márcia! Vamos!

De braço dado com meu Pai, vi a porta se abrir. Um espetáculo! Cores e sons explodiam na minha frente. Olhos curiosos percorriam o meu vestido, dentes feios e bonitos sorriam dentro das roupas novas. Na abóbada, a Sagrada Família, sentada sobre a cabeça do Padre, sorria pra mim. E quando viessem os filhos... Quantos? Sagrada Família! Quantos quilos? Vou engordar e perder as formas femininas. Não, não vou! Jamais ganharia as de dona de casa. Depois disso teria que parar de trabalhar? Abriria mão da minha carreira? Acho que sim, não teria coragem de deixar as crianças aos cuidados de outra pessoa. E ele também não permitira. Nos dias de folga da empregada me ajudaria a tirar a mesa?  Bom, poderemos comer fora.

Mas tinha que dizer: _ Sim?

Como manter a empregada? Ganharia pra isso? Mas tenho todas as máquinas... E se apertar e tiver que vender um dos carros? O meu ou o dele? O meu com certeza!

Nas viagens de negócios me levaria? Claro que não, atrapalharia!

Férias? Com certeza passaria o mês na praia sozinha, enquanto ele, trabalhando, trabalhando! A mim caberia a responsabilidade de cuidar das crianças. Sempre! Sempre! Sempre levar e buscar da escola, natação, inglês, balé... Adeus dançar. Cinema? Só matines. Teatro?... Adeus noitadas!

Alguns passos me separavam do altar. Do meu lado direito podia ver o terno preto que tantas vezes teria que escovar. Afinal, empregada nunca chega cedo!

O que tinha que dizer mesmo? _ Sim!

Agora meu Pai me entregava. O Padre distraído arrumava o altar. Esses homens cuidariam do meu destino... No entanto não sou uma peça que um entrega ao outro e o terceiro abençoa a barganha.

Não, Não vou permitir. Pois se ele foi capaz de brigar comigo por causa de um vaso, brigaria por tudo. Nunca seria feliz ao lado de um homem destes.

A cerimônia rolava... Jesus pulou do colo de Maria e brincava de bem me quer, mal me quer com meu buquê. José, com cara de “não sei de nada”, cuidava do manto e Maria singela, chorava. Por que? Pena de mim?...

Um diante do outro, mãos dadas e olho no olho.

_ Márcia, aceita Gustavo como seu legítimo esposo?

E chegou a hora do sim!

Como? O que tinha que dizer? NÃO! Vou dizer NÃO!

_ NÃO! Não e não! Coloque o vaso onde quiser.

Antes de dar as costas pro altar, arranquei o buquê do menino travesso. Chorão! Correu pro colo da mãe. Agora me sentia uma pérola barroca. Ao olhar pra todos, sorri, tirei as jóias e tive certeza que as mulheres da minha família eram grandes mentirosas.

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:57:38
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07/01/2005


Lautrec

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:16:09
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                    VAGINAS ENTRELINHAS

poesias pornográficas de Drummond de cabo a rabo

ou de quando rebentaram

 

 

 

 

                 O nojo do substantivo – foi há trint’anos –

ao sol de hoje se derrete. Nádegas aparecem

em anúncios, ruas, ônibus, tevês.

O corpo soltou-se. A luz do dia saúda-o,

nudez conquistada, proclamada.

Estuda-se nova geografia.

Canais implícitos, adianta nomeá-los? Esperam o beijo

do consumidor-amante, língua e membro exploradores.

E a língua vai osculando a castanha clitórida,

a penumbra retal.

A amada quer expressamente falar e gozar

gozar e falar

vocábulos antes proibidos

e a volúpia do vocábulo emoldura a sagrada volúpia.

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:07:09
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06/01/2005


Kandinsky _ Vieille

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:07:36
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O cântico da terra

 


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

                                               Cora Coralina

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:06:28
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05/01/2005


Aldemir Martins

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:21:40
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Olhos que minguam.

 

Uma noite feita sob encomenda, quente e esplendida. Sem perturbar a harmonia, uma névoa rala cobria a lua minguante. Entre suas falhas o brilho intenso roubado do sol iluminava tudo. Assim impunha sua majestade.

Não era preciso carta celeste. Num céu exuberante e generoso, estrelas em intensidade, ordenadas por brilho decrescente, desfilavam e esperavam os pedidos. Sírius comandava. Ventos fracos espantavam as poucas nuvens, nada poderia atrapalhar. Tudo pronto pra esperar o ano novo.

Sempre acho que aqueles poucos minutos vão mudar a vida rapidamente, tornando-a mais colorida e barulhenta, como a saudação que fazemos.

Nas janelas vultos vestidos de brancos esperavam. Mãos aqueciam o champanhe e todos olhavam pro alto. Talvez estivessem mais ansiosos que eu. Quem sabe poderíamos rasgar o manto escuro que nos cobria, falar com Deus e pedir a ele que realizasse nossos desejos. Já é tarde. Deve estar dormindo!

Uma lista enorme de pedidos rondava meus pensamentos. Se não posso cortar os cabelos na lua minguante... Como fazer pedidos? Com certeza minguariam diante dos meus olhos. Todos os meus desejos dissipados antes do amanhecer.

Ninguém se importava, a festa era maior. Um perfume de pólvora seca subia do chão e distanciava as estrelas de mim.

O ano novo? Na esquina do céu!  Agora podia vê-lo. Dois minutos. Vou fazer os pedidos pra Próxima Centauri, só 15 anos-luz nos separam. Daria tempo? Posso tentar e até esperar!

Meia-noite!  Ele chegou! Baixa o céu silencioso. Neste momento, a lua e as estrelas se agitam. Ganham sua magnitude, absolutas. Cadentes ao contrário correm pro céu, abrindo um leque de pequenos filhotes coloridos. Miúdas, coalham a noite de verde, vermelho e amarelo e se misturam aos rojões.  Num facho ríspido de luz, tiros zunem na subida e estouram em gritos ocos. Uma fumaça pálida se diluiu no escuro.  Talvez esse tiroteio derrubasse a lua, espalhando-a pela terra. Só assim o dono do mundo acordaria. Com certeza juntaria os pedaços, recolocando-a no céu. Tudo deveria permanecer igual.

Copos se esbarram em brindes e a alegria contamina os homens. Agora é possível. Neste momento tudo vai se realizar, o inesperado _ acontecer. Na ansiedade de encurtar a distância entre os sonhos e a realidade, festejo.

Meus olhos se perdiam no imenso céu tingido pelos fogos de artifícios. Com a força do pensamento empurrei meus pedidos pro alto, rápido, só tinha o tempo da queima dos fogos. Gritos de felicidade ao tropeçarem nas chuvas de pratas e nas cascatas borbulhantes, retardavam os meus desejos. De carona num rojão me arrisquei, era preciso atingir qualquer estrela.

E a dona do céu? Cada vez mais alta. Reina poderosa. Nada pode reproduzi-la. Agora as nuvens abriam caminho pro fulgor maior. Rouba a cena. Singular! Ofusca as luzes da festa. Brilha! E seu poder seduz a todos.

Aos poucos o silêncio toma a noite. Um estouro aqui, outro ali, Deus volta a dormir e tudo vai se acomodando.

A lua se aquieta, as estrelas retomam suas posições. E assim meus sonhos e desejos se acalmam com a certeza de que serão realizados.

Acabou! Feliz ano novo!

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:42:31
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04/01/2005


Richard Dienbenkorn _ Café

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:07:23
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Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(....)

                                                                 Manuel Bandeira

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:53:20
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03/01/2005


Van Gogh _ Descanso

Escrito por Márcia Rodrigues às 00:02:21
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02/01/2005


Vai trabalhar, vagabundo

Vai trabalhar, vagabundo
Vai trabalhar, criatura
Deus permite a todo mundo
Um loucura
Passa o domingo em família
Segunda-feira beleza
Embarca com alegria
Na correnteza
Prepara o teu documento
Carimba o teu coração
Não perde nem um momento
Perde a razão
Pode esquecer a mulata
Pode esquecer o bilhar
Pode apertar a gravata
Vai te enforcar
Vai te entregar
Vai te estragar
Vai trabalhar
Vê se não dorme no ponto
Reúne as economias
Perde os três contos no conto
Da loteria
Passa o domingo no mangue
Segunda-feira vazia
Ganha no banco de sangue
Pra mais um dia
Cuidado com o viaduto
Cuidado com o avião
Não perde mais um minuto
Perde a questão
Tenta pensar no futuro
No escuro tenta pensar
Vai renovar teu seguro
Vai caducar
Vai te entregar
Vai te estragar
Vai trabalhar
Passa o domingo sozinho
Segunda-feira a desgraça
Sem pai nem mãe, sem vizinho
Em plena praça
Vai terminar moribundo
Com um pouco de paciência
No fim da fila do fundo
Da previdência
Parte tranquilo, ó irmão
Descansa na paz de Deus
Deixaste casa e pensão
Só para os teus
A criançada chorando
Tua mulher vai suar
Pra botar outro malandro
No teu lugar
Vai te entregar
Vai te estragar
Vai te enforcar
Vai caducar
Vai trabalhar
Vai trabalhar
Vai trabalhar
Vagabundo

Chico Buarque

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:45:22
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Gauguin _ A cadeira

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:54:49
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Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

                                 Fernando Pessoa

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:36:46
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01/01/2005


Música

Carlos Gomes _ Quem sabe

Escrito por Márcia Rodrigues às 00:41:45
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Joan Miró

Escrito por Márcia Rodrigues às 00:26:08
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Drummond _ Poemas Dezembro

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Escrito por Márcia Rodrigues às 00:11:01
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