Pra Goya _ ficaria desnuda.

Pra Goya _ ficaria desnuda.


Obra de arte.
Teve um tempo em que chorava não ter tido certos homens como namorado. Castro Alves, por exemplo. Ser a musa do poeta e inspirar naqueles olhos negros os versos dos “Anjos da meia-noite”. Mais ainda, ser o “último fantasma” e morrer com ele “num laço de fita”. Ah! Muito chato namorar um poeta. O cara ficaria só escrevendo, escrevendo... Não suportaria tanto mela-mela. Mudei pra Villa Lobos. Também de olhos negros e quarenta anos mais novo. Um músico! Meio modernista. Da mesma forma _ poeta, mas já pensou ser a “bachiana” número 1? E me tornar um lamento? Desisti, sou modernosa por inteiro. Esse negócio de século XIX não me agrada. Sempre gostei do atual e tento todos os dias me “abrir” pro novo.
Logo encontrei o que realmente queria – alguém pra mim. Embora nunca o tivesse visto, sabia que ele existia e sempre o desejei. Quer dizer, ainda somos amigos, talvez um dia sejamos mais do que isso...
Quando uma amiga em comum nos apresentou, fiz charme. Mas encontros ocasionais aqui e ali, com pequenas e grandes conversas fizeram com que eu mudasse de idéia. Assim fui percebendo que nos encaixávamos. Como eu, tem paixão pela “arte”. Tudo que sobra nele falta em mim. Um homem incrível! De responsabilidade, culto e inteligente, conheceu a dor e dando continuidade à vida, soube conviver com ela. Tanto é discreto como gentil. Sempre me cerca de delicadezas, delicadezas feitas de imagens e palavras. Além de tudo é alto. Tudo de bom! Homens altos não escapam dos meus olhos.
Ainda bem que sou paciente... É arrogante na medida certa. E reconheço, tem sede de conhecimento e humildade pra compartilhar. Aberto! Tenho muito que aprender com ele.
Sei que tem um amor guardado em sono profundo. Talvez cochilando... Perfeito! Sou silenciosa. Não sou besta de acordá-lo. E como leva jeito de homem cachorro... Exerce um fascínio sobre mim.
Porém, nada é perfeito _ gosta de seios pequenos. E os meus?...
Não dá pra perder esse cara! De que maneira me moldar? Como ensiná-lo a gostar dos fartos? E se eu falasse mais sobre Rubens? Amava mulheres opulentas. Não. Nada de século XVI!
No próximo encontro poderia usar um decote atrevido, untar levemente os seios com óleo. Brilho? Estou longe de ser uma globeleza. Além do que sou muito branca. Melhor um perfume sedutor.
Que tal um soutien dois números menores? Não. Pulariam pra fora. Seria pior.
E se apertá-los? Posso usar uma combinação com várias pregas. Será que existe ainda? Outro dia vi um saiote...
E se, como quem não quer nada, insinuar que seios fartos aquecem o “inverno” da vida? Assim como gosta dos cobertores macios e quentinhos!... Ah! Tudo vai depender do quanto será o nosso eterno enquanto dure.
Já me disse que mora num lugar quente e tem ar condicionado. Então deve ter “aquecedor”. Será que sabe o que perde não dormindo em “travesseiros” com fronhas rendadas?
Bobo! É tarado pela Maja desnuda de Goya. Que inveja! Espanhol besta, poderia ter pintado a moça com os seios grandes.
Não tem jeito. Como não perder este homem? Só se apelar pra plástica. Até valeria o investimento. Mas acho que tenho atrativos que substituem os seios. Será?
Bom, caso não consiga me transformar na Vênus de Botticelli, vou paquerar Botero e acabou.
13.03.2005


Meu domingo foi de flores...

Hoje estou meio silenciosa, pisando em folhas secas...
Van Gogh

O Poço
Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.
Pablo Neruda
Música _ En aranjues com tu amor - Carlos Santana
Noche de amor insomne
Noche arriba
los dos con luna llena,
yo me puse a llorar y tú reías.
Tu desdén era un dios, las penas mías
momentos y palomas en cadenas.
Noche abajo
los dos. Cristal de pena,
llorabas tú por hondas lejanías
sobre tu débil corazón de arena.
La aurora
nos unió sobre la cama,
las bocas puestas sobre el chorro helado
de una sangre sin fin que se derrama.
Y el sol
entró por el balcón cerrado
y el coral de la vida abrió su rama
sobre mi corazón amortajado.
Hoje me sinto tão surreal quanto Dalí. Talvez Gaudí.

Os anos da minha vida
Domingo, sete e vinte da manhã. Sem permissão o sol se derramava nos pés da cama. Um vento fresco beijava a pele das minhas pernas. Frio! Não queria acordar. Tudo tão claro. Pensei nas compras do dia anterior, muitas camisas. Que preguiça! Fechei a janela. Escuro!
Tanta coisa pra fazer: escovar os dentes, lavar o rosto, fazer café...
Não tinha vontade de me olhar no espelho, era domingo e de domingo gosto de estar bonita. E se não estivesse? Estava tão cansada que dormi de janela aberta. Talvez a noite tivesse maltratado a minha pele, enrugado os meus olhos, mas em dias quentes, meus olhos ficam claros. Vivos! A noite tinha sido quente. Com certeza os cabelos estavam amassados. Rebeldes! Nem sempre! Tem dias que acordam comportados. Como estariam hoje?
Não sei e tinha medo de saber, o espelho não tem piedade, quando está enfezado mostra até a cor da alma. Alma tem cor? A minha deve estar escura hoje.
Quem sabe uma música pudesse me animar, liguei a tv. Um som estranho e rouco saia da boca de um homem. De olho pintado e extremamente magro cantava com um bebê no colo. Mudei de canal. Agora um padre rezava uma ave Maria atrás da outra. Cruz credo! Desliguei!
Na cozinha o pote de café guardava o aroma da manhã. O coador em posição de sentido esperava o afago das minhas mãos. Levantei!
Ao entrar no banheiro baixei a cabeça. Não queria me ver. Tateando o armário achei a escova e a pasta. Agora meus dentes sorriam pra cerdas macias. Em formato de concha enchi as mãos de água e lavei o rosto. Gelada! Um novo sentido na minha pele. Renovação!
_ Vou fazer 47 anos. Estou ficando velha. Quase cinqüenta!
Agora o espelho poderia pensar o que quisesse. Não ouço nada de costas.
Depois de preparar o café, pensei em preencher o meu dia. O que fazer?
Tudo, menos olhar no espelho.
Quem sabe lavar as camisas... Mas eram tantas. Estavam tão bonitas embaladas e alfinetadas. Até poderia espalhá-las pelo chão da sala. Ficariam felizes em fazer parte da decoração. Afinal era domingo. A casa tinha que estar alegre. No entanto estava tão silenciosa!...
Quem sabe fazer o almoço. O arroz me esperava cru, trancado na lata. Envelhecia! O peixe duro e os camarões nadavam no frio do freezer. Conservados!
E se cozinhasse alguma coisa na panela de pressão? Encheria a casa de sons.
Pela varanda as folhagens dançavam, estavam com cara de domingo. Alegres! Aposto que não sabem o dia que nasceram. E eu?
_ 47 anos!
Por que fazer aniversário estava me assustando? Sempre gostei de festas e além do mais, a vida começa aos 40. Sete anos e nem percebi ainda? Penso que estou da metade pro fim. Estou com medo!
Mas desembalei cada camisa, cores pastéis. Espalhei pelo tapete e reuni o lixo. Reciclável!
Dentro da água as camisas reacendiam as cores. Reagi!
Com paciência convenci o arroz, o peixe e os camarões a se deitarem nas panelas. O fim de alguns significa a renovação de outros. Voltei ao banheiro!
Por que não enfrentar o espelho? Sou mais forte do que ele. E que não se atreva a me desafiar. Posso fazer dele um mosaico de aço partido.
Enquanto as comidas morriam entre os temperos e a água fervendo, um banho morno me trazia vida. Sem pressa envelheço um pouco por dia! Ao me enxugar percebi minha pele ainda macia. De frente, encarava o espelho. Agora sem medo! O sol bem que poderia ultrapassar os limites da cama e aquecer as minhas pernas, preciso ir até a cozinha terminar o almoço e pendurar as camisas.
13.03.2005
Amo - te
Amo-te tanto, meu amor...
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te enfim, de um calmo amor presente,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e cada instante
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
São demais os perigos desta vida!
São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua
Vinicius de Morais

Wu Li _ primeiro poeta chinês
À medida que envelhecemos, perguntamo-nos
Quem pode trazer de volta o tempo em que se era novo?
Trabalho arduamente, dia após dia, mas temo ser demasiado lento.
Penso na minha antiga prática desejando queimar o meu tinteiro
E então desistir da poesia!

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.
Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!
Vinicius de Morais


Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Ipiranga, Mulher, Arte e cultura, livros e música