
Ponto com, ponto br
Desde que nos conhecemos a correspondência tem sido contínua. Nos adaptamos bem aos e-mails. Se bem que prefiro cartas. Mas...
Quando ele apareceu, do nada, foi uma boa surpresa. Depois de deixar um recado no blog onde publico meus textos estabelecemos uma relação escritor/leitor. Qual o maior desejo de alguém que escreve? Claro que é ter um leitor fiel.
Nossas conversas são longas, bem humoradas, cheias de informações. Ainda discutimos cada vírgula dos textos. Eis no que ele se tornou: um revisor abelhudo e palpiteiro. Muito competente.
Em alguns meses de contato firmamos um laço forte, a cada oi, sentia uma vontade imensa de conhecê-lo. Mas como? Com muito jeito consegui saber: idade, teimoso, 1.86, queimado de sol. Do tipo que nunca desiste. E eu queria mais. No entanto... Tentei, e tento, me fazer discreta, tudo pra impressioná-lo.
Até que, no começo do ano surgiu uma chance. Não poderia perdê-la. O museu onde estudo literatura, finalmente, terminou o livro. Tudo patrocinado por uma verba do governo. Coisa simples e objetiva _ textos dos alunos.
Vi nisso a minha oportunidade. Meu primeiro trabalho. Na verdade, só um texto meu no livro. O que foi o suficiente pra me sentir a própria Clarice Lispector. A jogada seria simples. Bastava escrever contando sobre o livro, dizer que havia separado um pra ele e faria questão de entregar pessoalmente. Depois ficar esperando, pois ele estava viajando e em dois dias teria a resposta. E foi o que fiz, escrevi!
Enquanto a resposta não vinha, planejei tudo _ Uma roupa nova, sóbria. Algo que me tornasse elegante aos olhos dele. Tinha que parecer uma escritora. Será que gosta de mulher maquiada? Esmalte de que cor? Como descobrir? Não posso esquecer dos cabelos. Quem sabe mudar a cor. Que tal vermelho? Um corte extravagante...Sapatos? Bem altos. Devo dar um presente? Além do livro, poderia presenteá-lo com um marcador de páginas. Ah! Sou o máximo! Não poderia ter tido melhor idéia.
O que escrever na dedicatória? Será que num livro de um só texto cabe escrever alguma coisa? Não importa, vou dedicar. Escrevo já ou na hora? Poderia ser na hora. Assim ficaria louco presenciando a minha facilidade em escrever. Vou pensar alguma coisa e decorar.
Como serão nossas conversas? Acho que teremos assunto pra horas e horas. Poderia convidá-lo pra um bar. Ou seria melhor um restaurante? E se deixar pra ele escolher? Isso, isso... Preciso ir ao dentista, uma profilaxia. Já passou da hora.
Bem que poderia rolar um clima. É um homem tão interessante... Nada de insinuações e... Vou me comportar. Caramba! Odeio ser assim. Ele que tome a dianteira da coisa. A traseira...
A partir de hoje só como saladas e grelhados, estou de dieta. Nada de refrigerantes. Água, muita água, faz bem pra pele. As caminhadas serão mais cedo e mais longas. Tenho que estar em forma! Quando ele vem? Mais um dia e a resposta chega. Não vejo a hora. Quantos dias aqui comigo? Será que vem de carro? Espero que não. Assim posso andar com ele pra baixo e pra cima. Levá-lo até o hotel. Buscá-lo... Esperar na recepção... Quem sabe ele me convida pra subir? Um hotel é ideal pra estreitar laços.
No outro dia liguei o computador e fiquei com o e-mail aberto, esperando, esperando... Depois de duas horas... Chegou! Chegou! Ueba! Ueba!
Assunto: Endereço
“Agradeço imensamente e me sinto honrado, abaixo o endereço pra onde deverá enviar o livro. E olha lá heim? Quero uma dedicatória. Um beijo”.
O que? Ele não viria? Todos os meus sonhos cancelados? Ah! Mas Deus fecha uma porta e abre uma janela. Não vem né? Ele me paga! E como me ensinou, não desisto nunca. Mandei o livro _ com dedicatória, o marcador de página e junto uma carta, bem perfumada. O endereço do remetente? Bem claro e com letras de forma. Afinal eu faria aniversário na próxima semana. Seria justa a gentileza de um presente. Outra jogada? Não custa tentar. Agora era só esperar.
Depois de alguns dias, veio a resposta.
Ah! Que fofo. O meu presente chegou e pelo correio. Um livro lindo e ilustrado, de um arquiteto espanhol. Na contra capa uma dedicatória simples e pequena.
Tímido! Aprendi mais uma sobre ele, era tímido.
Então... No próximo e-mail mando o telefone. Ou seria melhor pedir o dele?
04.04.2005