Coisas de uma contadora de histórias


27/04/2005


Picasso _ Mulher sentada

Mulher Sentada _ Picasso
Óleo sobre tela - 1923

 

Esta é uma das obras-primas da fase neoclássica de Picasso, que durou apenas um curto período no início da década de 1920. Como Retrato de Olga na Poltrona, estas imagens neoclássicas eram reconhecíveis - não havia sugestão de Cubismo - mas não registravam mais as aparências meticulosamente e não pertenciam a um tempo ou lugar definidos. As figuras que Picasso pintou neste estilo tinham estatura e proporções de gigantes, com torsos como toras de madeira e membros, pés e mãos pouco articulados. A aparente deselegância e a simplificação dos traços beiram a caricatura (como no Baile na Aldeia), mas outros exemplos alcançam as características monumentais e a sensação de tranquila grandiosidade que, durante muito tempo, representaram o ideal clássico. Mulher Sentada, na sua camisola simples, é um desses, ao mesmo tempo intemporal e, inconfundivelmente, produto da modernidade.

..................................................

A mulher sentada

Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.

(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).

Mulher sentada. Tranqüila
na sala, como se voasse.  

                                    João Cabral de Melo Neto

 

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:51:58
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25/04/2005


Ingres _ Fonte

Escrito por Márcia Rodrigues às 18:00:03
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Amor inconseqüente.

 

 

Toda vez que nos despedíamos me sentia torturada. Nos últimos degraus da  escadaria do prédio onde eu morava, os beijos eram sufocantes. Depois de me deixar atordoada,  beijava meus pés,  seguia pelas canelas até chegar perto das coxas. Que pena! Nunca passava dos joelhos.

Naquela época eu tinha 17 anos e ele 25. Uma menina irresponsável e inconseqüente. Queria muito mais do que simples beijos nas canelas. Mas era um moço criado pela avó, à moda antiga. Muito religioso, cheio de respeito e “boas intenções”.

Enquanto eu levava a vida estudando e brincando, ele viajava pelo mundo. Dono de uma agência de turismo, às vezes passava quase um mês fora. Sempre que voltava me enchia de presentes.

Não dava pra entender! Um homem tão citizen of the word (*)! Mas dizia a todos que nosso namoro era coisa séria, que eu era muito menina e que um dia se casaria comigo.

Assim tinha como seu dever me manter virgem e casta. E meus desejos?

Sempre que eu criava uma situação favorável, como passar a noite fora ou convidá-lo pra vir em casa na ausência dos meus pais, ele fugia. Desconhecia minha juventude e não fazia idéia do turbilhão de hormônios que chegava a me assustar. Muito jovem, eu não tinha pleno conhecimento da felicidade, as buscas eram vorazes. Dentro do proibido, tudo era adequado. Medo? Medo de que? Não temia nada. Sempre buscava o novo.

Talvez tivesse me apaixonado pelo contrário. Quem sabe buscasse nele o equilíbrio? Sempre  ponderado! Era o homem ideal!

Certa vez saímos de um casamento, a noite explodia de calor. Em um dos meus dedos, um presente dele, o anel de prata rendada, muito delicado e que firmava o nosso compromisso. Durante a festa tentei seduzi-lo. Enquanto dançávamos, falava ao seu ouvido o que os meus hormônios ditavam.  Atrás das roupas o contato dos nossos corpos imploravam a nudez. Louco! Agora ele caminhava  na linha divisória da razão e da loucura. Estava pronto pra ser meu. Meio às pressas, saímos. Nem no carro nossos desejos eram contidos.

Não me lembro de tirarmos as roupas. O quarto ficou pequeno pros nossos movimentos que, de tão soltos,  abriram as janelas. Naquela noite de muito escuro o mundo calado ouviu o silêncio daquele amor. Os ponteiros deram início ao contrário. Agora ele me amava de trás pra frente. O final era o começo. Nada terminava. No eterno “ata-me”, de novo, novamente e de novo, “ata-me”. Antes ressecados,  molhamo-nos às avessas. A única coisa que nos separava era o suor que teimávamos vencer. Unidos! Juntos!  Literalmente colados.

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 17:58:12
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Nas paredes, o reboco tremeu e desmoronou, sujando o piso. Meu anel entortou e amarrotou meu vestido. Estava nua diante de todos. Feliz, mas o meu homem... triste.  Sentia-se culpado de me ter feito mulher. Calou-se. E com ele veio uma névoa naquele começo de dia.

Realmente estava cego. Não percebeu que de virgem e casta, eu não tinha nem os pensamentos. Aos poucos absorvi aquela culpa. Como contar a ele?

O que ele preservou tanto e achava que tinha me tirado, eu já havia perdido. E tão inconseqüentemente que não fui capaz de localizar no tempo.

Ele havia cumprido os meus desejos, tinha o dever de lhe contar a verdade.

Durante dias sumiu dos meus olhos. Nem mesmo assim me deu coragem pra procurá-lo. Quando voltou, aquela névoa havia se dissipado. Na escadaria,  pela primeira vez, passou dos joelhos. Qualquer lugar era o lugar.

Nos encontros sempre tinha uma frase pronta pra explicar, queria que ele soubesse que não tinha culpa de nada. Mas agora os ponteiros do relógio, não andavam ao contrário, paravam... e me calavam. O moço religioso e respeitador desapareceu dando lugar a outro homem. A cada dia apurávamos  mais os nossos laços, entrelaces. Aos poucos o nó ficou cego. Impossível desatar!

Com o tempo parou de falar em casamento mas, mesmo não pretendendo me casar com ele,  gostava de ouvir aquilo. Só que,     entre laços de fitas e um laço

na fita, fiquei com um nó na garganta.

24.04.2005

 

    (*) : cidadão do mundo

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 17:57:45
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Botero _ Mulher lendo

Bom comprar livros. Num sebo então... Tudo de bom...

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:25:48
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24/04/2005


Camille Pissarro

Bom demais voltar pra casa.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:06:49
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20/04/2005


Marília de Dirceu _ Guignard

Lira II

Pintam, Marília, os Poetas
A um menino vendado,
Com uma aljava de setas,
Arco empunhado na mão;
Ligeiras asas nos ombros,
O tenro corpo despido,
E de Amor, ou de Cupido
São os nomes, que lhe dão. Porém eu, Marília, nego,
Que assim seja Amor; pois ele
Nem é moço, nem é cego,
Nem setas, nem asas tem.
Ora pois, eu vou formar-lhe
Um retrato mais perfeito,
Que ele já feriu meu peito;
Por isso o conheço bem. Os seus compridos cabelos,
Que sobre as costas ondeiam,
São que os de Apolo mais belos;
Mas de loura cor não são.
Têm a cor da negra noite;
E com o branco do rosto
Fazem, Marília, um composto
Da mais formosa união. Tem redonda, e lisa testa,
Arqueadas sobrancelhas;
A voz meiga, a vista honesta,
E seus olhos são uns sóis.
Aqui vence Amor ao Céu,
Que no dia luminoso
O Céu tem um Sol formoso,
E o travesso Amor tem dois. Na sua face mimosa,
Marília, estão misturadas
Purpúreas folhas de rosa,
Brancas folhas de jasmim.
Dos rubins mais preciosos
Os seus beiços são formados;
Os seus dentes delicados
São pedaços de marfim. Mal vi seu rosto perfeito
Dei logo um suspiro, e ele
Conheceu haver-me feito
Estrago no coração.
Punha em mim os olhos, quando
Entendia eu não olhava:
Vendo o que via, baixava
A modesta vista ao chão. Chamei-lhe um dia formoso:
Ele, ouvindo os seus louvores,
Com um gesto desdenhoso
Se sorriu, e não falou.
Pintei-lhe outra vez o estado,
Em que estava esta alma posta;
Não me deu também resposta,
Constrangeu-se, e suspirou. Conheço os sinais, e logo
Animado de esperança,
Busco dar um desafogo
Ao cansado coração.
Pego em teus dedos nevados,
E querendo dar-lhe um beijo,
Cobriu-se todo de pejo,
E fugiu-me com a mão. Tu, Marília, agora vendo
De Amor o lindo retrato,
Contigo estarás dizendo,
Que é este o retrato teu.
Sim, Marília, a cópia é tua,
Que Cupido é Deus suposto:
Se há Cupido, é só teu rosto,
Que ele foi quem me venceu.

                                         Tomas Antonio Gonzaga

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:04:08
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18/04/2005


Quem diria que eu me apaixonaria por Villa Lobos? Estou feliz por estar aqui. Muito feliz!

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:51:15
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G.E. Prof. Raul Cardoso de Almeida.

 

A luz da cozinha segurava o escuro do lado de fora. Minha irmã, sob os olhos atentos de nossa mãe, encapava, com papel de seda vermelho,  um caderno brochura novinho. Na beirada da mesa, pedacinhos de durex cortados do mesmo tamanho. Muito capricho! Meu primeiro caderno!  Até então todos meus rabiscos tinham sido feitos em folhas de papel de pão.

No dia seguinte começariam minhas aulas. Mal ela terminou e eu já estava querendo escrever. Mas só poderia olhar pra ele, nada de letrinhas, nem números. Era pra escola!  Bom, pelo menos era meu. Nele faria minhas lições. Bastava esperar aquela noite terminar.

De tão ansiosa acordei de madrugada e por mil vezes conferi o material.

A saia azul-marinho de tergal plissada arranhava meus joelhos, também o forro não alcançava a barra!... Como conjunto, camisa branca de algodão, de tão bem passada parecia engomada. Nos pés um par de sapatos pretos umedecia o branco das meias ¾.  Não eram de couro. Mas ninguém notou o plástico. Duas fitas brancas dividiam meus cabelos molhados em partes iguais. Tudo isso pra poder usar o caderno novo.

Sobre a mesa da cozinha, uma pasta de lona escura guardava: borracha, régua de madeira, dois lápis bem apontados, um apontador e claro, o caderno brochura. Como pude esquecer do ábaco? De ferro, pintado de branco, vermelho e feito por meu Pai. E a merenda? Agora o papel de pão tinha outra utilidade, embrulhar o lanche com manteiga e toddy.

Nunca tinha ido a escola antes, era o primeiro ano dos meus estudos. O pouco que sabia, minha irmã tinha ensinado: A, e, i, o, u. Meu nome completo. Números de 0 a 20 e algumas continhas de mais e de menos. Também ver horas no relógio de ponteiros.

De mãos dadas com minha mãe, fui pra escola. Naquela hora me senti o ser mais importante do mundo. Mas um ser assustado, pois ela me levaria até eu aprender o caminho. Depois iria sozinha. Tentava me consolar pensando que agora tinha um caderno só meu. Além de tudo que tinha dentro da mala. Mesmo assim parei duas vezes. Medo ou queria ter certeza que ele estava ali? Queria tanto escrever... Mas o que? Qualquer coisa, só queria escrever. Qual seria a lição? Como seria a professora? A ordem em casa era pra que eu me sentasse na primeira carteira e não falasse com ninguém.

De longe se via uma multidão bicolor, todos de azul-marinho e branco. Com dois andares, o prédio sustentava bandeiras enormes que tremulavam na porta da diretoria. Lá no alto, janelas com vidros imensos. Nunca tinha visto! No portão lateral ficava a entrada dos alunos. Pelos tijolos furados via-se o pátio sombrio cercado por árvores. Entramos.

Quando fizemos a fila e me despedi, um vazio andou dentro de mim, um medo incontrolável. Tremia! Senti vontade de chorar. Mas era preciso ter coragem. O que poderia me acontecer? Nada. A mulher que conduzia a fila parecia ser a

professora. Que cara de brava! Tomara que não seja ela! Mancava de uma perna. Um birote mostrava os grampos que prendia os cabelos negros e vestia a mesma roupa que eu, só que meias de nylon.

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:48:55
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Na escadaria branquinha o barrado de tinta verde nos guiava até a classe do primeiro andar. Com a mão direita sobre o ombro do da frente, olhava pra trás como se pedisse socorro. Porém minha mãe acenou e foi embora.

Quando paramos na porta, a mulher se apresentou:

_ Meu nome é Dona Violeta e eu sou a professora de vocês!

Saí em disparada, precisava obedecer e pegar o primeiro lugar. Estranho! O banco era conjugado. Um buraco redondo dividia a mesa. Pra que serve isso? Com cuidado abri a mala e coloquei tudo sobre a carteira. Não sabia o que fazer. Por que ninguém entrava? A professora continuava do lado de fora e me olhando. 

_ Quem mandou entrar? Quem mandou sentar? Agora vai aprender obedecer. De castigo!

E assim passei a aula toda, em pé e de costas pra classe. Nem mesmo no recreio ela me deixou sair. Ainda bem que só ensinou a letra A: voltinha sobe, voltinha, desce, voltinha, sobe, desce, voltinha! Isso eu já sabia.

Na saída chamou minha mãe e contou o que eu tinha feito. Até que a humilhação de ficar de castigo no primeiro dia de aula não era nada. Pior não ter escrito no meu caderno novo. Pelo caminho só ouvi broncas. Foi o que ganhei por ser obediente.

Em casa tirei o uniforme e fui guardar a mala. Escondida atrás da porta desencapei a parte da frente do caderno. Se eu escrevesse bem no cantinho, ninguém iria ver, peguei o lápis e escrevi: a, e, i, o, u, Márcia Rodrigues. Não cabia mais nada. Com cuidado fechei e grudei o durex.

Pronto! Já que não pude escrever na primeira página, escrevi na contracapa.  Nem Dona Violeta, nem ninguém me tiraria o prazer de usar o caderno no primeiro dia de aula.

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:48:25
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16/04/2005


A Pietá

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:18:14
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Versos profanos

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:17:08
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Escrito por Márcia Rodrigues às 21:16:27
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A luxúria?

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:05:12
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O responsável por Carmina _ Carl Orff

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:52:15
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15/04/2005


Carmina Burana _ A roda da fortuna

O Fortuna

1. 1.
O Fortuna, Oh, Fortuna,
velut luna variável
statu variabilis, como a lua,
semper crescis sempre cresces
aut decrescis; ou minguas;
vita detestabilis vida detestável
nunc obdurat ora frustra
et tunc curat ora satisfaz
ludo mentis aciem, com zombaria os desejos da mente,
egestatem, à pobreza
potestatem e ao poder
dissolvit ut glaciem. dissolve como se fossem gelo.
2. 2.
Sors immanis Sorte monstruosa
et inanis, e vã,
rota tu volubilis, tu, roda a girar,
status malus, a aflição
vana salus e o vão bem-estar
semper dissolubilis, sempre se dissolvem
obumbrata tenebrosa
et velata e velada
michi quoque niteris, atacas-me também;
nunc per ludum agora por teu capricho
dorsum nudum costas nuas
fero tui sceleris. trago sob teu ataque.
3. 3.
Sors salutis Sorte, senhora do bem-estar
et virtutis e da virtude,
michi nunc contraria, estás agora contra mim;
est affectus ?
et defectus ?
semper in angaria; ?
hac in hora nesta hora
sine mora sem demora
corde pulsum tangite, tocai as cordas;
quod per sortem pois que a sorte
sternit fortem esmaga o forte
mecum omnes plangite. chorai todos comigo.

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:28:30
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14/04/2005


Henry Moore

Escrito por Márcia Rodrigues às 22:02:11
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12/04/2005


Hoje o blog é teu Alma. 

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:25:14
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Almeida Junior _ Saudade

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Fernando Pessoa, 29-3-1931

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:15:34
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11/04/2005


Sir John Everett Millais_ Ophelia

Lição sobre a água

Este líquido é água.

Quando pura

é inodora, insípida e incolor.

Reduzida a vapor,

sob tensão e alta temperatura,

move os êmbolos das máquínas que, por isso,

se denominam máquinas a vapor.

É um bom dissolvente.

Embora com excepções mas de um modo geral,

dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.

Congela a zero graus centesimais

e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,

sob um luar gomoso e branco de camélia,

apareceu a boiar o cadáver de Ofélia

com um nenúfar na mão.

                                                         Antonio Gedeão

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 06:37:14
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09/04/2005


Samuel Luke Fildes

Vaidade
 
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
 
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
 
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
 
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...
 
                                Florbela Espanca

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:01:35
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08/04/2005


Edward Hopper _ Onze da manhã

Ponto com, ponto br

 

 

Desde que nos conhecemos a correspondência tem sido contínua. Nos adaptamos bem aos e-mails. Se bem que prefiro cartas. Mas...

Quando ele apareceu, do nada, foi uma boa surpresa. Depois de deixar um recado no blog onde publico meus textos estabelecemos uma relação escritor/leitor. Qual o maior desejo de alguém que escreve? Claro que é ter um leitor fiel.

Nossas conversas são longas, bem humoradas, cheias de informações. Ainda discutimos cada vírgula dos textos. Eis no que ele se tornou: um revisor abelhudo e palpiteiro. Muito competente.

Em alguns meses de contato firmamos um laço forte, a cada oi, sentia uma vontade imensa de conhecê-lo. Mas como? Com muito jeito consegui saber: idade, teimoso, 1.86, queimado de sol. Do tipo que nunca desiste. E eu queria mais. No entanto... Tentei, e tento, me fazer discreta, tudo pra impressioná-lo.

Até que, no começo do ano surgiu uma chance. Não poderia perdê-la. O museu onde estudo literatura, finalmente, terminou o livro. Tudo patrocinado por uma verba do governo. Coisa simples e objetiva _ textos dos alunos.

Vi nisso a minha oportunidade. Meu primeiro trabalho. Na verdade, só um texto meu no livro. O que foi o suficiente pra me sentir a própria Clarice Lispector. A jogada seria simples. Bastava escrever contando sobre o livro, dizer que havia separado um pra ele e faria questão de entregar pessoalmente. Depois ficar esperando, pois ele estava viajando e em dois dias teria a resposta. E foi o que fiz, escrevi!

Enquanto a resposta não vinha, planejei tudo _  Uma roupa nova, sóbria. Algo que me tornasse elegante aos olhos dele. Tinha que parecer uma escritora. Será que gosta de mulher maquiada? Esmalte de que cor? Como descobrir?  Não posso esquecer dos cabelos. Quem sabe mudar a cor. Que tal vermelho? Um corte extravagante...Sapatos? Bem altos. Devo dar um presente? Além do livro, poderia presenteá-lo com um marcador de páginas. Ah! Sou o máximo! Não poderia ter tido melhor idéia.

O que escrever na dedicatória? Será que num livro de um só texto cabe escrever alguma coisa? Não importa, vou dedicar. Escrevo já ou na hora? Poderia ser na hora. Assim ficaria louco presenciando a minha facilidade em escrever. Vou pensar alguma coisa e decorar.

Como serão nossas conversas? Acho que teremos assunto pra horas e horas. Poderia convidá-lo pra um bar. Ou seria melhor um restaurante? E se deixar pra ele escolher? Isso, isso... Preciso ir ao dentista, uma profilaxia. Já passou da hora.

Bem que poderia rolar um clima.  É um homem tão interessante... Nada de insinuações e... Vou me comportar. Caramba! Odeio ser assim. Ele que tome a dianteira da coisa. A traseira...

A partir de hoje só como saladas e grelhados, estou de dieta. Nada de refrigerantes. Água, muita água, faz bem pra pele. As caminhadas serão mais cedo e mais longas. Tenho que estar em forma!  Quando ele vem?  Mais um dia e a resposta chega. Não vejo a hora. Quantos dias aqui comigo? Será que vem de carro? Espero que não. Assim posso andar com ele pra baixo e pra cima. Levá-lo até o hotel. Buscá-lo... Esperar na recepção... Quem sabe ele me convida pra subir? Um hotel é ideal pra estreitar laços.

No outro dia liguei o computador e fiquei com o e-mail aberto, esperando, esperando...  Depois de duas horas... Chegou! Chegou! Ueba! Ueba!

Assunto: Endereço

“Agradeço imensamente e me sinto honrado, abaixo o endereço pra onde deverá enviar o livro. E olha lá heim? Quero uma dedicatória. Um beijo”.

O que? Ele não viria? Todos os meus sonhos cancelados? Ah! Mas Deus fecha uma porta e abre uma janela.  Não vem né? Ele me paga! E como me ensinou, não desisto nunca. Mandei o livro _ com dedicatória, o marcador de página e junto uma carta, bem perfumada. O endereço do remetente? Bem claro e com letras de forma. Afinal eu faria aniversário na próxima semana. Seria justa a gentileza de um presente. Outra jogada? Não custa tentar. Agora era só esperar.

Depois de alguns dias, veio a resposta.

Ah! Que fofo. O meu presente chegou e pelo correio. Um livro lindo e ilustrado, de um arquiteto espanhol. Na contra capa uma dedicatória simples e pequena.

Tímido! Aprendi mais uma sobre ele, era tímido.

Então... No próximo e-mail mando o telefone. Ou seria melhor pedir o dele?

04.04.2005

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:05:09
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07/04/2005


Brueghel _ Batalha entre o carnaval e a quaresma

De autoria de Pieter Brueghel, a obra A Luta entre Carnaval e Quaresma (1559). O Carnaval, uma grande festa profana na Holanda do século XV, era mal visto pela Igreja Católica. Brueghel, um católico romano, mostrou nessa tela as desavenças entre luteranos e católicos.
Carnaval (o profano), gordo em razão do pecado da gula, montado num barril de bebida, tendo sobre a cabeça uma torta salgada e na mão um espeto de churrasco, ataca o magro Quarta-Feira de Cinzas (o religioso). Este, sentado em um kart, se defende com uma pá de fazer pão em forno de padaria a lenha.
Um grupo de aleijados e leprosos brinca o Carnaval. As caudas de raposa visivelmente penduradas no casaco de um dos aleijados mostra ser ele um leproso. Observe que na tela Os Aleijados quatro dos cinco portadores de necessidades especiais também usam caudas de raposa fixadas nos seus coletes. Estas serviam de advertência aos transeuntes para que se mantivessem a uma prudente distancia do hanseniano.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:25:35
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05/04/2005


Bosch _ Julgamento

Universo perdido.

 

Quando acordei me senti estranha. Com olhos inchados, cabelos espetados... Procurei alguma coisa. Mas o que? Não sei. De fato não identificava o lugar.

Na parede do corredor a moldura lisa apoiava o cristo sisudo e amarelo que rodeado por anjos, santos e Marias, tinha os braços abertos, no entanto não abraçava ninguém. Quem sabe uma moldura entalhada com flores pudesse agradá-lo. Como o pensador cuidava de todos em silêncio, permitindo a eles entrada pro inferno. Que santos eram aqueles? Nem sei rezar. Por que estavam ali? Nunca botei fé em nenhum!... Mas o altar ostentava as esculturas sagradas. Um pavio pálido queimava a vela colorida. 

O banheiro parecia muito claro. Por que esse espelho? O que mostra? Uma imagem que não era minha refletia no aço. Tão frio!

Talvez eu pudesse reconhecer outras partes da casa. Porém...

Uma cama grande estendia um tecido todo embolado _ amassado. Ao lado armários mudos. Tantos livros, todos lotados de palavras, prateleiras impregnadas de letras. Mesmo lendo os títulos... Desconhecia. Outros com páginas, absolutamente, em branco. Histórias a serem contadas. Não poderiam ser meus.

Quem colocou aquele bule no armário da sala? Nem me lembro dele. A prata envelhecida transparecia o antigo.  Não gosto de coisas velhas! E esses copos de cristal? Muito sem graça e além de tudo, frágeis.  Destoavam da porcelana dura, pintada a fogo. Tudo pesado! Quem teria comprado aquilo? Com certeza não fui eu.

Que sofá espaçoso! Sempre gostei dos pequenos e aconchegantes. Mal colocado, impedia a passagem.

Procurei o jardim. Que jardim? Um quintal metrado em miniatura de cimento e tijolos. Terra? Um pouco distribuída entre pequenos vasos. Quase nada de flores. Lembro-me que gostava de olhar pela janela e ver a grama verde reverenciando as árvores. No teto uma cadeira mole de barbante, no lugar de bancos duros de madeira. Aquilo não parecia nada com um jardim.

Quem sabe a cozinha?... Não. Branca, de tão branca parecia limpa. Tudo muito prático, cada qual em seu lugar, disposição perfeita demais. Eu sou tudo, menos adequada. Era feia!

Emendando a feiúra _ bolhas de sabão tentavam dar suavidade pras máquinas que lavam, secam e passam. Mas janelas com vidros grossos impediam.

Meu universo tinha fugido. Pensei na medalhinha da santinha que sempre me protegeu. Somente ela poderia me trazer de volta, preciso achá-la. Onde? Um amuleto deve ficar num lugar seguro. Nunca fui dada a símbolos. Só aos fálicos. Devo ter guardado naquele porta-jóias antigo de bronze. Todo forrado de veludo vermelho. Mas eu não gosto de nada antigo. Não confiaria a minha protetora a ele. Quem sabe entre os livros? Nas páginas de escrituras abençoadas. Não, prefiro os textos apócrifos!

Talvez na transparência dos cristais. Impossível! Ninguém poderia imaginar a sua existência. Ela era só minha. Só a mim protegia.

Devo ter escondido dentro da sopeira, afinal estamos no fim do verão. Claro que não fiz isso, seria um desrespeito. Será que caiu num vão do sofá?

E se num momento de raiva, desacreditando na sua santidade eu a enterrei num destes vasinhos? Não! Sempre me pareceu viva.

Novamente no claro do banheiro as imagens às avessas. O direito que é o esquerdo. Tudo ao contrário.

Agora achei a medalhinha, estava entre a moldura e o espelho. Era o melhor lugar pra escondê-la. Ali ela me protegeu de mim mesma. Refletiu só o que eu queria ver. Mas mesmo podendo vê-la queria que continuasse perdida. De santa ela não tinha nada. Sem piedade trazia os fios da realidade.

Aos poucos reconheci a casa. Um pouco de mim em cada canto. De volta, absorvi meu universo.

03.04.2005

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:35:59
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04/04/2005


Van Gogh _ Sapatos

Andando, andando...

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:41:23
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03/04/2005


Anita Malfatti _ Flores

O mundo precisa de flores!

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:23:51
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01/04/2005


Salvador Dalí

Escrito por Márcia Rodrigues às 22:33:54
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Guignard _ Vaso de flores

Hoje me sinto flores! No inverno do meu tempo, as rosas continuam caladas!

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:01:32
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