Coisas de uma contadora de histórias


30/05/2005


Ganhei de presente.

Escrito por Márcia Rodrigues às 14:47:44
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Gauguin

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:11:08
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29/05/2005


Brueghel

Alegoria dos 4 Elementos - A paisagem é de Jan Brueghel, O Moço.
As figuras foram pintadas por Frans Francken 2

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:22:24
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28/05/2005


Edward Munch _ Puberty

Saudade de ser menina.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:31:19
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27/05/2005


Edward Hopper

Vejo o mesmo da minha janela: muitas casas e parte do céu.

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:01:41
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26/05/2005


Rebolo _ Paisagem com casas

Dia bom para passear...

Escrito por Márcia Rodrigues às 16:33:48
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25/05/2005


Burne _ Noite

As estrelas da noite...

Consigo vê-las, mesmo durante o dia.

Gosto muito delas!

Escrito por Márcia Rodrigues às 17:01:12
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Burne _ Grande estrela da tarde

Depois de tanta chuva...

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:29:33
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23/05/2005


Henri Matisse _ Janela aberta

Estou aberta para a vida... Feliz! Colorida! Feliz!

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:43:17
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22/05/2005


Tarsila _ Frutas

Dia cinza aqui!  Preciso de cores! Muitas cores...

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:28:42
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20/05/2005


Toulouse Lautrec _ Pensando?

Ando escrevendo... escrevendo muito... pensando... pensando...

Que bom! Que bom!

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:20:09
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Caravaggio _ Narciso

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:29:01
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19/05/2005


Coubert _ Mulher na rede

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:29:52
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Eupetomena macroura simone

 

Ele chega junto com as manhãs. Sequer pergunto o porquê. Apenas anseio. Depois de abrir a janela, sento-me no braço do sofá e começa a espera. Com olhar fixo observo o tempo. Confiro o dia. Tudo depende da cor do céu. Se frio ou calor, sol ou chuva, tanto faz, ele não falha. De longe vejo a serra. O mar? Sempre quieto e escondido.

No canto direito da varanda uma cadeira suspensa. Com trama de algodão forma desenhos geométricos. Do outro lado alguns vasos de flores. Flores que cultivo só para serem beijadas por Bonito. O meu beija-flor!

Logo acima das flores, pregada na parede, uma casinha de passarinho. “Doa-se a quem quiser morar”. Nunca teve morador, mesmo tendo porta, respiros, poleiros e um telhado de palha. Nem assim consegui. Pássaros são livres. Até para decidirem onde fazer seus ninhos.

Que demora! Nunca atrasa! Preocupada debruço sobre as grades da varanda e procuro por ele no jardim. Mas aqui é tão alto...  o que será que aconteceu? Já passa das 9. Melhor regar as plantas. Se vier com sede... jamais me contou por onde voa. Sempre acho que chega cansado.

Seria bom se não se espantasse com minha presença entre os vasos. No entanto está acostumado a me ver do lado de dentro. E se ficasse aqui fora? Talvez eu me misture aos desenhos geométricos.  Posso tentar...

Ao me sentar na cadeira vi o nó desfiando. O algodão se rompia bem perto do gancho. Nossa! Parece que cortaram. Já vi Bonito beijando esse nó. Deve ter confundido. Também tantos fios soltos...  melhor não correr o risco de ele fugir e esperar no lugar de sempre.

Quanto tempo vive um beija-flor? Há anos ele me visita. Talvez seja uma família toda e eu pensando que é só um. Contanto que venha, não faz diferença. Uma vez entrou na sala e quase morreu tentando ultrapassar o vidro. Foi quando tive a chance de tocá-lo. Leve! Minúsculo! Muito assustado voou deixando pra trás duas penas. Mas sempre volta. Claro que para me agradecer... ou, quem sabe quer recuperar o que perdeu.

Quase preto _ azul escuro, eu o vejo chegar. Brilha no claro da manhã. Meus olhos acompanham seus movimentos. Em suaves balanços corta o vento com sua cauda de tesoura. E começa a correria, pra lá e pra cá. Sem parar, dança no ar. Seu balé agitado parece tranqüilo. Será que quer falar alguma coisa? Acho que o de sempre. Toda manhã repete os recados. Passiva, ouço como novidades. Segredos!

Agora? Calmaria! Apenas o som das asas, paira diante das flores e beija cada uma delas. Hora de ir embora. Que pena! Dura pouco. Raramente retorna no mesmo dia. Seus vôos rasantes rompem o ar e demonstram liberdade.

_ Até amanhã!

No silêncio da casa minhas chinelas deslizam. Não posso esquecer que é dia de feira, de limpar a geladeira...  mas começo abrindo as outras janelas.

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:26:58
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Ah! Dia de tirar os lençóis também. Um canto baixinho quebra a concentração e me acompanha. Bonito voltou? Ele canta? Beija-flores cantam? Lentamente sigo pelo corredor até a sala. Meus sentidos se voltam para a sacada. Nada! Mesmo assim espero. Não demora e vejo um pequeno pássaro amarelo que, diferente de Bonito, bica o nó da cadeira. “Que malandro. Então é você”?... Tão pequeno e causador de estrago tão grande!

Com delicadeza puxa o algodão. Depois de muita luta carrega no bico um pequeno fio como se fosse um tesouro. Depressa pousa na grade, olha pra mim e voa para a casinha.

Ah! Ele está fazendo um ninho! Ou seria ela? Demora... Vez ou outra espia pela porta como se estivesse me vigiando. E canta pra mim. Pelo tamanho do desfiado...  muitos filhotes.

E se Bonito ficar enciumado e não vir mais? Por isso ele atrasou hoje? Poderia guardar a cadeira... e interromper a construção do ninho? Não! Não posso. Tanto que queria alugar a casinha. Além do que, Bonito recusou morar aqui. Agora que consegui... Não seria eu a expulsar o Amarelinho. Como manter os dois no mesmo espaço? Devo escolher entre azul e amarelo? Bonito terá que entender e dividir a sacada com o novo morador. Amanhã converso com ele. Com jeitinho vou convencê-lo. Afinal logo nascerão os filhotes e o outono já começou. Ele vai compreender.

No outro dia esperei, esperei e esperei! Não veio! Alguns dias correram e nada de ele aparecer.

Como resolver essa situação? Bonito está errado, sequer me deixou explicar!... Simplesmente me abandonou.

Assim comecei a pensar numa solução. Tinha que trazê-lo de volta. Como separar o espaço? A sacada é pequena. E se eu colocar a cadeira ao lado da casinha e levar os vasos para o outro lado? Assim o Amarelinho fica com sua jóia de algodão e Bonito com as flores. E foi o que fiz.

Logo cedo me sentei na sala, estava resolvida a dar plantão. Não demorou e Bonito chegou. Meio ressabiado, voava de um lado para o outro e não beijava as flores.

_ Você tem que entender. Amar é multiplicar, não dividir. Não serei menos pra você. Ele precisa de nós! E mais... quantas vezes tenho que repetir que te amo? Nunca percebeu que beijando as flores que cultivo é uma forma de me beijar também?

Aos poucos foi se aproximando e pousou num vaso. Naquele dia não me contou segredos e não quis dançar, mas desceu beijando as flores.

É, acho que entendeu que não sei viver sem ele.

16.05.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 10:26:12
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18/05/2005


Paul Cezzane _ As três banhistas

Hoje está um dia lindo, de sol...

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:24:37
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17/05/2005


Rembrandt _ Saskia doente

Ela foi amada por Rembrandt

Hoje estou em branco e preto. Sinto falta das cores!

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:19:46
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15/05/2005


Van Gogh _ Canteiros de flores

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:04:09
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14/05/2005


Renoir _ Gabrielle . Ou seria Márcia? Quem sabe...

Hoje o blog é meu...

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:27:31
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Campo de flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

                                Carlos Drummond de Andrade

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:24:47
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Alexandre Cabanel _ Vênus

Hoje o blog é de Lygia Fagundes Telles

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:24:19
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Amor é um fogo que arde sem se ver, 
é ferida que dói, e não se sente; 
é um contentamento descontente, 
é dor que desatina sem doer. 

É um não querer mais que bem querer; 
é um andar solitário entre a gente; 
é nunca contentar-se de contente; 
é um cuidar que ganha em se perder. 

É querer estar preso por vontade; 
é servir a quem vence, o vencedor; 
é ter com quem nos mata, lealdade.  

Mas como causar pode seu favor 
nos corações humanos amizade, 
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

                                                                    Luiz Vaz de Camões 

                                              

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:15:58
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13/05/2005


Michelangelo _ Leda

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:17:11
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Leda e o Cisne

 
Um sopro súbito: as grandes asas batendo ainda 
Sobre a jovem cambaleante, as coxas acariciadas 
Pelas membranas escuras, a nuca presa no seu bico, 
Ele sustenta o peito desamparado sobre o próprio peito. 
 
Como poderiam aqueles dedos vagos e aterrorizados afastar 
A glória emplumada das coxas que se abandonavam? 
E o que poderia o corpo, caído naquele branco ímpeto, 
Senão sentir o estranho coração batendo onde se aloja? 
 
Um tremor nos quadris engendra ali 
O muro quebrado, o telhado e a torre queimando 
E Agamêmnon morto. 
                                Sendo assim pega, 
Tão dominada pelo sangue bruto do ar, 
Teria recebido dele o conhecimento junto com o poder 
Antes que o bico indiferente a deixasse cair? 

                                                                        William Butler Yeats

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:13:36
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12/05/2005


Rubens _ Adão e Eva

Hoje acordei pronta para o pecado.

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:32:13
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10/05/2005


Bazzile

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:10:45
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Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desalento...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

                                                         Manuel Bandeira

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:09:45
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07/05/2005


Van gogh _ A casa amarela

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:03:49
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Que saudade da minha mãe, ela gostava de cantar...

Ouvi essa música muitas vezes:

 

Mandei caiar meu sobrado,
Mandei, mandei, mandei,
Mandei caiar de amarelo,
Caiei, caiei, caiei...

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:02:49
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01/05/2005


Renoir _ Estudo para banho

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:34:19
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Enigma roubado.

 

Quando saí do cinema passava da meia-noite. Se não corresse perderia o último trem do metrô.  Ao enfiar o bilhete, o som da roleta destravando _ alívio. Meia-noite e dezenove. Agora tinha três minutos. A estação estava vazia. Só o vento costumeiro como companhia.  Com passos largos alcancei as escadas. Quando cheguei na plataforma vi os faróis brilhando. Estava salva!

No vagão, somente um homem que cochilava tranqüilamente. Sentei-me na frente dele. Assim ficaria de olho. Um arrepio sentou junto comigo. A essa hora!?... Sozinha!?...  Pra disfarçar o medo olhei pela janela. A única vista era o concreto correndo. Melhor procurar uma câmera e ficar à mostra. E aquele homem? Estaria dormindo mesmo? 

Meus olhos passeavam por tudo, tinha que estar esperta. Quem sabe consigo decorar a ordem das estações! Paraíso, Ana Rosa, Vila Mariana... ao baixar os olhos vi, no banco ao lado, uma frasqueira de metal. Abandonada! Santa Cruz, Praça da... Quem teria esquecido?  Bonita! Saúde, São Judas... Não conseguia parar de olhar pra ela. Brilhava! Conceição, Jabaquara! Procurei a câmera, nada! Poderia pegá-la?  Não! Não poderia. Melhor decorar os nomes. Mas meu desejo era maior. Sem tirar os olhos do homem troquei de banco e me sentei ao lado da frasqueira. De relance, percebi pequenos amassados. Pelo jeito a dona era vaidosa e pouco se separava dela. Com alça desgastada... A mulher deveria suar muito. Sempre é difícil abrir mão dos objetos que nos dão prazer. Que vontade de tocá-la! Como achado não é roubado... trouxe-a pra perto de mim.

_ Estação Saúde!

Agora a cabeça do homem despencava em sono profundo e eu precisava descer. Melhor entregar na seção de achados e perdidos. Não! O que faço com minha curiosidade? Mas era meu dever devolver. Devolver pra que? Talvez nunca a procurassem. E se eu abrir? Poderia ter o endereço da dona. E se a câmera tivesse flagrado? Não roubei. Estava largada no banco, pra quem quisesse pegar. Peguei!... Como me levantar com ela na mão? E se fosse do homem?  Só devolveria se ele me pedisse. Como? Nem me viu entrar!? Tão feminina, não era dele. Bem devagar, fui em direção à porta. Não podia fazer ruído. Afinal alguém dormia. O que estou fazendo? Simples! Estou roubando uma frasqueira!

Quando desci nem olhei pra trás, novamente passos largos. Agora faltava pouco para descobrir de quem era. Para tanto me sentei próximo da porta da estação. Ao colocá-la no meu colo senti que exalava um perfume suave. Meus olhos exploravam cada centímetro, como se procurassem o nome da dona. Abro ou não? Claro que sim. O que teria lá dentro? Nada além de perfumes e cremes.  Essas coisas de mulher. De um lado escapava a ponta de um tecido vermelho. Seda? O fecho estava ali para ser aberto. Pronto pra me contar tudo. Devo ? Por que não? Ninguém estava vendo! Nem sabiam que estava comigo!  Além do que , não tinham o meu nome nem o meu endereço. Por que o medo? Com cuidado levantei o fecho. Agora sentia o perfume mais próximo. Um aroma desconhecido. Extremamente feminino.

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:55:44
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O lenço vermelho era mesmo de seda, embrulhava um envelope com uma foto e uma folha de papel. Do lado de fora do envelope, em fina escrita, o nome _ Adamastor. Antes de ler a carta, queria descobrir a mulher: Um frasco, com perfume, no formato de corpo feminino _ cheio. Que estranho! Sem uso? Na escova fios de cabelos claros. Loiros?  Grisalhos? Não podia ver direito. Anti-rugas _ mulheres acima dos 50 anos. Pela idade, certamente grisalhos. Ou loiro tingido? Sampoo para cabelos secos _ longos e crespos, fazendo par com o condicionador. Será que usava o lenço como presilha? Sem rótulo o esmalte no mesmo tom do batom _ bege. Recatada!  Do lado de fora do compacto _ pó para peles claras. Blush _ pêssego. Timidez? Com a tampa quebrada, as sombras de vários tons terra esfarelavam. Dois hidratantes _ corpo e mãos _ Vitamina E _ Hidratação intensa. Também sofro com a pele seca. Bloqueador solar _ proteção 30. Cuidadosa! Um sabonete de rosas, quase no fim. E só a caixinha dos óculos. Isso ela levou, não deveria enxergar de longe. Ou de perto?

O que aquela mulher teria escrito? Nada de endereço. Na carta poucas palavras; “Querido, bem que tentei, mas não tenho coragem. Perdoe-me”.  Ana Clara. Por que foi tão concisa? Não teve coragem do que? Pra onde iriam? Estariam fugindo?

Ah! Ana Clara, algumas chances na vida são únicas. Por que não foi?  Você me parece tão mulher, tão delicada... Consegui sentir suavidade em tuas coisas.

Quem sabe a foto revelasse o motivo do abandono?... Em formato padrão ela sorria ao lado dele. Realmente muito bonita. Ele? Aquele rosto... Era o homem que dormia no vagão do metrô. O que fiz? Não era pra mim a frasqueira e sim pra ele. E eu roubei! Agora entendo o porquê de abandonar todos aqueles objetos de uso tão pessoal. Teria ficado com medo de arriscar na maturidade? Ali estava cada rastro daquela mulher ressecada e marcada. Nem os cremes apagariam. Aquele perfume, mesmo suave, parecia ser de alguém atrevido. No entanto...

Enquanto guardava as coisas, que procurei colocar no mesmo lugar, pensava em como pedir desculpas, pois talvez tivesse roubado a única chance de os dois se explicarem e se entenderem . Não poderia ficar com seus pertences. Se não foi, deveria ter seus motivos. Depois de abaixar o fecho e travar, levantei deixando a frasqueira no primeiro degrau da escadaria. Talvez o próximo passageiro tivesse coragem de entregar na seção de achados e perdidos.

20.04.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:55:08
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