
Libertando meu lado masculino. Loucura assentada Pela porta eu podia ver tudo no lugar. As prateleiras bem divididas sustentavam meus livros e cds. No centro da bancada o monitor de tela fina fazia par com o teclado do meu computador. De um lado a televisão e do outro o fax. Meu escritório estava pronto. O projeto foi cumprido à risca. Agora o sol não mais me incomodaria, pois a persiana nova, de tom claro e com black out, fazia contraste com o marrom-tabaco dos móveis novos. Que achado este tapete azul e bege! por sorte é o mesmo tom da persiana. Só falta a cadeira para combinar com o azul. Mas não tinha achado uma à altura. Se bem que essa ainda agüentaria por um tempo. Mas cinza? Não combina. Vou comprar uma cadeira bem azul! Não sei de onde tirei a idéia. Só que azul é azul. Com pressa terminei a arrumação, tinha um horário no salão de cabeleireiro. Não poderia atrasar. Quando entrei no estacionamento, ainda pensava no escritório. Ficou bonito! Também, era ali que passava a maior parte do meu tempo, tinha que ser confortável mesmo... Que estacionamento cheio! Não sei por que inventei de cortar o cabelo no shopping. É que eles sabem aparar meu cavanhaque. Deixei o carro e desci entre as vitrines para alcançar o piso do salão. De longe vi, atrás de um vidro grosso; ela se mostrava alta e clássica. Em cima de um tablado de madeira nobre, talvez carvalho, girava. Pelo estilo era italiana. Diante da vitrine parei para observar. Que pena não ter trazido a digital, queria fotografá-la! Totalmente vestida de azul tinha as costas macias e o assento delicado. Dentro de uma harmonia perfeita, os braços se juntavam ao corpo alongando as pernas. Graciosamente deslizava sobre rodízios. A paixão foi imediata. Ali senti que nunca mais poderia me separar dela. Não encontraria outra igual. Com ela todo o aconchego que meu corpo sempre desejou. A verdadeira concepção de conforto. Máximo conforto! Não resisti e entrei na loja. Ela seria minha a qualquer custo. Além de realizar meu sonho de consumo, tinha sido feita pra mim. Achei “a cadeira”. Enquanto a vendedora especificava cada ítem, eu não tirava os olhos dela. Aquilo não tinha explicação, era amor mesmo. Quando me sentei nela, senti vontade de nunca mais levantar, queria “morrer” sentado. Em vinte dias estaria na minha casa. Já tirava o talão de cheques quando soube o preço: R$3.770,00 à vista ou R$3.977,00 no cartão. Como? Tudo isso? E era em couro sintético, nem me atrevi a perguntar o preço no legítimo. Não ouvi mais nada. Ao sair da loja, com o orçamento nas mãos... como não comprar? Melhor eu cortar os cabelos, muito caro. Na volta do cabeleireiro nem arrisquei olhar para ela. Só queria esquecer. Em casa sentado na velha cadeira cinza não sabia o que fazer. Tentando apagar aquela visão, joguei o orçamento no cesto do lixo. Mas ele teimava em olhar para mim. E se eu fizesse no cartão, poderia dividir em cinco vezes. Loucura! Cinco de R$ 795,40. Isso implicaria numa economia de guerra. Nem a bunda da Juliana Paes merece cadeira como aquela. Vou esquecer!
E o meu lado consumista gritava: Vai! Vai! Obedecer ou não? Não! Tinha que arrumar um jeito de me amarrarem No entanto... pensei em outra bonita e confortável... “multipliquei” por três. Não! não adianta! ela era duas vezes melhor que isso. Ai! Como é duro ser pobre... mais pobre vou ficar se comprar! Puxa! Tenho que achar uma boa e barata. Mas igual aquela nem pensar. Não existe! Não quero comprar! Não quero comprar! Não vou comprar! VOU COMPRAR! Impossível recuar. Também não mereço não, ninguém vale aquela cadeira! Na verdade, acho que nem no escritório do presidente da república existe uma mais confortável. Mas também pra quê? Tem quem escreva pra ele... Já sei! Só minha mãe pode ajudar. Ela nunca me falhou! Será que consigo contato numa sessão espírita? Não vou comprar, não vou comprar, não vou comprar, não vou... VOU SIM! Não! O escritório todo, com bancada e um monte de gavetas, foi mais barato. Desisto! Nem gaveta ela tem! Pelo menos por hoje, tenho que esquecer. Quem sabe eu acordo amanhã e nem me lembro que vi aquela cadeira? Minha mãe vai me fazer conseguir essa amnésia momentânea, melhor dormir. Se amanhecer e não chegar uma ambulância com dois homens tipo “armários” e camisa de força na mão, logo cedo assino meu atestado de maluco e... compro a cadeira! Ou não? 24.06.05
Hoje o blog é seu Milena.
Que você esteja sempre cercada de paz e felicidade!
Rembrandt _ Casamento

Carta escrita por Herbert de Souza (o Betinho) para sua mulher Maria e lida, um ano após sua morte, pelo ator Jonas Bloch, durante a cerimônia no CCBB:
"Este texto é para Maria ler depois da minha morte que, segundo meus cálculos, não deve demorar muito. É uma declaração de amor.
Não tenho pressa em morrer, assim como não tenho pressa em terminar esta carta. Vou voltar a ela quantas vezes puder e trabalhar com carinho e cuidado cada palavra. Uma carta para Maria tem que ter todos os cuidados. Não quero triste, quero fazer dela também um pedaço de vida pela via de lembrança que é a nossa eternidade. Nos conhecemos nas reuniões de AP (Ação Popular), em 1970,
Antes de me aventurar andei fazendo umas sondagens e os sinais eram
animadores, apesar de misteriosos. Mas tínhamos que começar o namoro de alguma forma. Foi no ônibus da Vila das Belezas,
Saímo
A barreira da distância estava rompida para dar começo a uma relação que já completou 26 anos!
O Maoísmo estava na China, nosso amor na São João. Era muito mais forte que qualquer ideologia. Era a vida em nós, tão sacrificada na
clandestinidade sem sentido e sem futuro. Fomos viver em um quarto e cozinha, minúsculos, nos fundos de uma casa pobre, perto da Igreja da Penha. No lugar cabia nossa cama, uma mesinha, coisas de cozinha e nada mais. Mas como fizemos amor naquele tempo!
Foi incrível e seguramente nunca tivemos tanto prazer.
Tempos de chumbo, de medo, de susto e insegurança. Medo de dia, amor de noite. Assim vivemos por quase um ano. Até que tudo começou "cair". Prisões, torturas, polícia por toda a parte, o inferno na nossa frente. Fomos para o Chile. E ali, chamado por Garcez para
elaborar textos, acabei no agrado de Allende, que os usou em seus discursos oficiais. Foi a primeira vez que eu vi amor virar discurso
politico... Depois passamos por muita coisa até voltar. Até que a anistia chegou e nos surpreendeu. E agora, o que fazer com o Brasil?
Foi um turbilhão de emoções: o sonho virou realidade! Era verdade, o Brasil era nosso de novo. A primeira coisa foi comer tudo que não
havíamos comido no exílio: angu! com galinha ao molho pardo, quiabo com carne moída, chuchu com maxixe, abóbora, cozido, feijoada. Um festival de saudades culinárias, um reencontro com o Brasil pela boca.
Uma das maiores emoções da minha vida foi ver o Henrique surgindo de dentro de você. Emoção sem fim e sem limite que me fez reencontrar a infância.
Depois do exílio, nossas vidas pareciam bem normais. Trabalhávamos;
viajávamos nas férias, visitávamos os amigos, o Ibase funcionava, até a hemofilia parecia que havia dado uma trégua. Henrique crescia,
Daniel aos poucos se reaproximava de mim, já como filho e amigo.
Mas como uma tragédia que vem às cegas e entra pelas nossas vidas, estávamos diante do que nunca esperei. A Aids. Em 1985, surge a notícia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemofílicos. O pânico foi geral. Eu, é claro, havia entrado nessa. Não bastava ter nascido mineiro, católico, hemofílico, maoísta e meio deficiente físico.
Era necessário entrar na onda mundial, na praga do século, mortal, definitiva, sem cura, sem futuro e fatal. E foi aí que você, mais do
que nunca, revelou que é capaz de superar a tragédia, sofrendo, mas enfrentando tudo e com um grande carinho e cuidado. A Aids selou um amor mais forte e mais definitivo porque desafia tudo, o medo, tentação do desespero, o desânimo diante do futuro. Continuar tudo apesar de tudo, o beijo, o carinho e a sensualidade.
Assumi publicamente minha condição de soropositivo e você me acompanhou. Nunca pôs um "senão" ou um comentário sobre cuidados necessários. Deu a mão e seguiu junto como se fosse metade de mim,
inseparável. E foi. Desde os tempos do cólera, da não esperança, da morte do Henfil e Chico, passando pelas crises que beiravam a morte até o coquetel que reabria as esperanças. Tempo curto para descrever, mas uma eternidade para se viver.
Um dos maiores problemas da Aids é o sexo. Ter relações com todos os cuidados ou não ter? Todos os cuidados são suficientes ou não se deve correr riscos com a pessoa amada? Passamos por todas as fases, desde o sexo com uma ou duas camisinhas até sexo nenhum, só carinho. Preferi a segurança total ao mínimo risco.
Parei, paramos e sem dramas, com carências, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher, vivendo a sensualidade da música, da boa comida, da literatura, da invenção, dos pequenos prazeres e da paz. Viver é muito mais que fazer sexo. Mas para se viver isso, é necessário que Maria também sinta assim e seja capaz dessa metamorfose como foi.
Para se falar de uma pessoa com total liberdade é necessário que uma esteja morta e eu sei que este será o meu caso. Irei ao meu enterro sem grandes penas e principalmente sem trabalho, carregado. Não tenho curiosidade para saber quando, mas sei que não demora muito.
Quero morrer em paz, na cama, sem dor, com Maria do meu lado e sem muitos amigos, porque a morte não é ocasião para se chorar, mas para celebrar um fim, uma história. Tenho muita pena das pessoas que morrem sozinhas ou mal acompanhadas, é morrer muitas vezes em uma só. Morrer sem o outro é partir sozinho. O olhar do outro é que te faz viver descansar
Te amo para sempre,
Betinho,
Itatiaia, janeiro de 1997"
Naquela manhã de inverno, ela chegou trazendo um presente. Nada de papel bonito! Mesmo assim vibrei!
Jô sabe como me agradar, trabalha lá em casa há quase dez anos e conhece bem o meu gosto. Sou consumista compulsiva de antiguidades. Claro que de pequenos objetos, pois são mais baratos.
Enquanto abria o pacote, explicava que tinha ganhado dos ex-patrões ingleses. Como não sabia o que fazer com aquela tralha, resolveu me presentear. Sinceridade extrema! Totalmente desembrulhada, vi a porcelana. Uma sopeira branca estampada com flores e pássaros minúsculos. Já foi colorida, agora meio desgastada, no entanto, uma antiguidade. Seus filetes dourados aparentavam ser de ouro. Talvez fossem mesmo. Linda! Além da sopeira uma travessa enorme, também estampada, também desbotada e em formato oval, o que dava maior requinte a peça. Depois de lavá-la, pensei num lugar de destaque no armário da sala. Quem sabe na frente da minha coleção de copos quase antigos e ao lado do porta-talheres quase novo? Boa idéia!
De todas as minhas velharias era a maior e mais bonita. Um dia poderia esnobar num jantar formal. Claro que de entrada caldo de mariscos, depois um peixe assado com arroz, algas, molho de ostras... Assim usaria as duas peças. E completaria a guarnição com a louça usual. Não vejo problema misturar o velho com o novo. Mas a quem convidar? Preciso pensar na amiga mais invejosa e que goste de antiguidades. No entanto não conhecia ninguém com este perfil, mas... minha sogra! Toda vez que vem para comer, chega antes do horário marcado. Adora bisbilhotar. Que venha! Com certeza vai morrer de inveja... Não pela louça, mas sim pensando em quanto o filhinho dela gastou, não só no jantar como na porcelana. Bastaria não contar que havia sido presente. Isso seria fácil, pois Jô vai embora ao final da tarde.
Muito ansiosa, resolvi o cardápio e fiz as compras. Pronto! Só falta formalizar o convite. Apesar de aceitar, tive a impressão que ela se deu ao luxo de... porém vem. Dane-se!
Durante o dia deixei tudo no jeito: Arroz descansando em banho-maria, peixe assando, molhos...
Para surpreendê-la levaria a porcelana para a cozinha e só na hora de servir mostraria. Um pouco antes de ela chegar, percebi que tinha esquecido do molho de ostras. Que coisa! A única saída era pedir que Jô esperasse por ela, enquanto eu fosse ao supermercado.
Tão logo voltei, o porteiro correu para me avisar que a sogra havia chegado; e Jô ido embora. Não é possível! Sozinha na minha casa! Paciência...
Enquanto conversava, terminei o jantar e fui recebendo os que foram chegando: meu amado marido, meus filhos queridos, o sogro, o cunhado e a sua “nariz em pé” , digo, esposa, as cunhadas solteironas e... o noivo de uma delas, que come feito um desesperado. Só faltava a namorada do meu filho. Muito educada, não deve atrasar! Comecei a arrumar a mesa.
Não foi à toa que se deu ao luxo de aceitar o convite de última hora. Onde ela arrumou a cola? Com certeza trouxe na bolsa. Invejosa mesmo! E mais, deve ter descoberto que foi Jô quem me deu. Nunca mais a convido para comer aqui. Que coma muito, pois vai ser a última vez. Bem que podia ter uma indigestão, ela e a narizinho. Sempre gostou mais da outra nora. Tenho certeza que foi ela.
E se foi a Jô? Não... Jamais! Ela me contaria. É... fidelíssima? Todavia... Isso seria uma traição. Pode ser! Pode ser! Pior, lembro-me da cara dela quando neguei o último aumento... mas pago seu salário, férias... tudo certinho. Até os 30%. Ainda tem a cesta básica e a condução. Por certo não gostou do bilhete único. Poxa! Semana passada me levantei às cinco horas da manhã para levá-la ao INSS. Bem feito! Tomara que ainda não tenha atingido seu tempo de aposentadoria. Por que ela me deu? Já ganhei quebrada e nem percebi? Tantos anos aqui comigo. Viu meus filhos crescerem. Se bem que muitas vezes apareciam chorando sem um motivo aparente. Será? Deve ter sido sem querer. Com medo colou. Não, não foi a Jô. E agora onde servir?
Entre o desespero e a raiva ouvi a campainha. Melhor atender, preciso relaxar. Com um pacote enorme na mão, era a minha norinha.
_ Pra você!
_ Pra mim? Presente?
_Sábado quebrei sua peça de porcelana quando fui guardar os talheres. Então resolvi comprar, pra me desculpar, este aparelho de chá, além de uma sopeira para substituir a outra. Espero que goste.
Que bom! Essa é muito mais bonita, em tons terra formava lindas paisagens, quase um jogo completo. Os filetes não eram de ouro, no entanto o cobalto combinaria com minha toalha de mesa. Como eu tinha onde servir o caldo, resolvi substituir a sobremesa, café com creme. Assim usaria as xícaras também.
E não é que não foi uma nem outra? Como prova do meu arrependimento vou poupar a Jô de arrumar a cozinha do jantar. Eu mesma farei isso. Agora... minha sogra? Acho que vou presenteá-la com muito creme no café, do jeito que ela gosta. Mas no lugar do açúcar, sal. Afinal ela merece o melhor... ou não?
03.06.2005
Todo amor é eterno.
Com a lista na mão percorria o supermercado. Uma forma de segurar o meu lado consumista. Pronto! Agora os salgados: costelinha, bacon, lingüiça... uma feijoada para comemorar os 37 anos do meu marido. Só estava comemorando isso? Ao meu lado uma mulher extravagante, bem apanhada e com um perfume que aguçou os meus sentidos e trouxe algumas lembranças. O perfume era o mesmo que, por quase dois anos, impregnou a minha casa e a minha vida. Ninguém nunca sentiu. Mas eu...
Naquela época com as crianças pequenas fui mãe dedicada e dona de casa exemplar. Enquanto tomava banho, retocava a faxina do banheiro com velhas escovas de dentes. Como tinha parado de trabalhar fora, achava que deveria me transformar na melhor cozinheira, passadeira, faxineira e... ia esquecendo do lado mulher. O dia era curto para tantos afazeres. Pudera! Meu sentido de felicidade estava nas crianças limpas e alimentadas, comida no fogão, roupa no varal e casa brilhando. Sempre fazia as unhas na sexta e no sábado já estavam destruídas. Ler? Muito pouco. Até dava tempo para ver um telejornal... por outro lado tinha como dever ajudar o marido na carreira que ele queria construir.
_ Carne seca, lombo...
E a dona extravagante continuava por perto me aterrorizando. Meio zonza entre o perfume dela e a feijoada, já não lembrava mais nem dos ingredientes.
Quando ele chegava mesmo tarde, estava tudo pronto. Fosse a hora que fosse: 9, 10 , 11... Mesa posta e cardápio variado. Não sei como eu suportava servir o jantar duas vezes na mesma noite. Mas o pior era aquele costume maldito de ele chegar e ir correndo para o banho.
Num dia de faxina achei atrás do armário da garagem um quadro. Em pose sensual, uma mulher nua, com cabelos negros e um borrão do lugar do rosto. Que estranho! Pensei em falar com ele, pedir uma explicação... pra quê? Já tinha notado algumas mudanças. Como a camisa que sempre aparecia manchada e ele mesmo, marido exemplar, colocava de molho. Porém nunca havia sequer tirado um copo do lugar... por que isso agora? Alguma coisa estava errada. Um perfume feminino exalava dos ternos, até dos sapatos. O mesmo que a dona ali no supermercado usava. Seria ela? Bonita, morena! Os cabelos pareciam iguais aos do quadro. Pelo tanto de maquiagem... combinava com aquele borrão.
_ Em que corredor está o feijão preto?
_ Depois do corredor dos temperos, o segundo...
Que bom, tinha esquecido do azeite virgem para refogar a couve...
Com o quadro “de molho” na minha cabeça fui sentindo que, a cada dia, meu marido mais se distanciava. Ainda que tentasse disfarçar, a presença daquele perfume implícito e ilícito era constante. Ao entrar em casa ele murchava, perdia a vida, vivia pelos cantos rabiscando pequenos papéis. Poemas? Seu olhar se perdia pela janela, estivesse aberta ou fechada. Tão forte aquela mulher! Quem era ela que reinava silenciosamente dentro da minha casa? Exercia tanto fascínio sobre ele que... não hesitava em mentir; inventava viagens, passava dias e dias fora. Muito difícil brigar com alguém invisível e poderoso. Sem nenhum pudor ele jogava fora a segurança e o amor que a nossa casa lhe proporcionava; com tanta tranqüilidade que me assustava.
Talvez se eu brigasse... Não. Parecia paixão. E toda paixão depois de explodir, acalma e acaba. Não era amor. Questão de tempo. Totalmente em silêncio e munida de paciência toquei a vida, esperando que ele voltasse para mim.
_ Dois quilos de feijão... Agora o azeite. Num vidro? Que coisa antiga! Ah! Mas é o virgem...
Sem perceber esbarrei na dona:
_ Desculpe-me!
_ Estou vendo que você está distraída. Antes de pegar o feijão, pesou duas vezes o lombo.
Agora tinha vontade era de pesar a minha mão no lombo dela. Melhor manter a pose de mulher educada. Por que guardei tanta raiva de quem nunca conheci? Não poderia ser ela!
_ Realmente, estou distraída. Que perfume você está usando?
Nada respondeu, fingiu não me ouvir. Quem sabe me conhecesse?... Será que o sacana ainda mostrou foto da nossa família? Não, provavelmente mentiu. Patife! Deve ter dito que era solteiro. Com certeza foi até a casa dela e pediu-a em namoro ao pai. Como teve coragem?
_Onde tem couve manteiga? Só falta isso.
Durante dois anos guerreamos calados. Eu, ela e ele. Depus as armas. Depois de abandonar as velhas escovas de dentes, arrumei uma empregada e voltei a estudar. Aos poucos percebi que quanto mais eu saía, mais cedo ele voltava para casa e sem as camisas manchadas. Assim, sem que percebesse, comecei a controlar seus horários, ligando constantemente para o escritório. Definitivamente teria que voltar para o meu lado. Agora precisava dar fim ao quadro da garagem. Quem teria pintado? Quem era ela? Não conseguiu se fixar? Nem nele e nem na nossa vida? Com certeza a musa difusa estava saindo de cena. Não! Nada de destruir a tela. Afinal era uma “obra de arte”. Melhor ficar com o quadro e mostrar que sabia de tudo. Só que com algumas mudanças, vou mandar pintar o meu rosto no lugar do borrão e clarear os cabelos. E assim... Dias depois estava pronto. Naquela noite ele chegou e o quadro estava na parede, bem na entrada. Engraçado... meu rosto, no quadro, parecia estampar um sorriso meio debochado. Atônito, entendeu que chegou a sua vez de calar.
Na fila do caixa a moça posuda estava atrás de mim. Meu estômago embrulhava, o perfume até era bom, mas para mim... insuportável! Quando comecei a tirar as coisas do carrinho, pensei em como me livrar daquele cheiro e “sem querer”, derrubei o azeite, quebrando justamente no pé dela.
_ Desculpe-me, desculpe-me.
Novamente fingiu não me ouvir, saiu “derrapando” sem as compras e sem me desculpar.
Aos pagar a minha despesa, o cheiro forte do azeite tomou conta do caixa e comemorei. Venci! Pois o perfume dela deu lugar ao meu. "Todo amor é eterno. E se acaba, não era amor".
Maio de 2005

Minha namorada _ Carlos Lyra


Se aquele fusca falasse
O grande sonho do meu pai era ter um fusca zero. Mas só conseguiu bem depois que nasci, por isso passamos juntos pela adolescência, eu e o fusca. Nunca permitiu que ninguém o dirigisse. Ao tornar real seu grande sonho, jurou que nunca iria vendê-lo.
E foi assim que acompanhamos um o passo do outro. Como irmãos! Com ele fui pra escola, pra natação... e até pro meu primeiro baile. Um companheirão! Na verdade ele ainda é um dos mais importantes membros da nossa família. Tem o carinho e respeito de todos.
Só saía da garagem nos fins-de-semana. Meu pai se orgulhava de nunca ter cometido uma infração no trânsito. Durante a semana ia para o trabalho de ônibus. Poupava o amigo de qualquer esforço.
Muito meticuloso, nunca fez seguro. Preferiu a boa e velha trava de direção com cadeado. Antes de usá-la levou num tapeceiro e mandou forrar. Já pensou se a tranca riscasse o volante? Cada vez que precisava de uma peça ou acessório, era uma verdadeira odisséia. Já ficou horas na porta de uma fábrica só para conseguir os frisos do pára-brisa. Isso porque uma pedrinha amassou o cantinho. Tudo tinha que ser original, quase... pois o velho não resistiu à modernidade do toca-fitas de gaveta, assim poderia manter o rádio original da fábrica. Ao instalar contou que sofreu vendo a furadeira rasgar a lataria. Mesmo que ninguém conseguisse ver, sabia que quatro parafusos tirariam parte da sua originalidade.
Minha casa poderia precisar de reforma, no entanto... a prioridade era da garagem. Estreita e comprida, toda dele, do fusca... claro. Sempre pensei que meu pai guardasse segredos ali, tanto xodó com aquelas paredes... mas acho que era pelo carro. Sempre mantida limpa e pintada. Sem falar da capa de courvin que mandou fazer sob medida. Tudo pelo fusca!
Quando fiz 18 anos ganhei um carro de presente. Agora na garagem outros carros, todos do meu pai. Até permitia que usássemos qualquer um deles, mas o fusca... era proibido. Com muita saúde e inteirinho, sempre ficava no fundo, assim podíamos entrar e sair sem incomodar o “respeitável senhor”.
Num desses dias que acordei atrasada, cheguei na garagem e o fusca era o primeiro. Não sei como meu carro foi parar lá atrás. Deve ser coisa do meu irmão. Todos já haviam saído. Não vi problema, só iria fazer a matrícula e poderia ser com ele. Em uma hora estaria de volta e ninguém perceberia. Afinal eu também queria dirigi-lo. Quando fechei a porta me senti uma motorista completa, quase como meu pai. Seria minha primeira vez. Todo cuidado era pouco, se acontecesse alguma coisa, pagaria com a vida. Em frente à faculdade procurei o melhor lugar para estacioná-lo. Uma vaga enorme. Toda aquela folga só pra ele. Tirei o toca-fitas e coloquei a trava. Cobrir seria demais. Pra quê? O tempo estava bom.
E se eu falasse que tinha uma Brasília ano 81, vermelhinha, linda linda e que ele teimou em estacionar atrás dela? Não vai colar, sempre foi um carro sério. Nunca "beijou" ninguém... casto! O que fazer agora? Não me restava outra coisa a não ser ir pra casa. Pelo caminho pensei em alegar que a placa de “proibido estacionar” estava escondida atrás de uma árvore e que não vi. Ainda bem que o fusca não fala.
Bom, era apenas uma notificação. Não adiantaria rasgar, a multa viria pelo correio. Como evitar que meu pai visse a multa? Precisava da ajuda da minha mãe e meus irmãos.
Antes que ele chegasse do trabalho nos reunimos. Era preciso montar uma “operação de guerra”. Então, resolvemos que, em revezamento, daríamos plantão diante da caixa do correio. Todos os dias no horário da passagem do carteiro. Sem tréguas! Tínhamos que evitar esse desgosto pro papai. Depois era pagar e aí sim, poderíamos rasgar as provas.
Como a caixa do correio ficava bem ao lado do portão, meu pai começou a estranhar que, todas as tardes, um de nós o esperava. Não era bem ele e sim...
No meu "plantão", o dia começou nublado. Ficar ali em pé e com guarda-chuva?... Mas valia tudo pra fazer da operação um sucesso. Quando me aproximei do muro, vi que de um lado da rua vinha meu pai. Do outro lado, o carteiro. E agora? E se ele estivesse trazendo a multa? Toda a operação iria por chuva abaixo. A cada passo deles eu tremia. Mesmo assim gritei por minha mãe. Agora nós duas ali e não sabíamos o que fazer... E se eu descesse a rua e encontrasse o carteiro? Não. Melhor ir ao encontro do meu pai. Mas e se ele visse o carteiro colocando a correspondência na caixa ou entregando à minha mãe? O dois se aproximando... ficamos paralisadas.
Quando meu pai passava pela casa ao lado senti que tudo estava perdido, mas ele viu o portão aberto e achou que o cachorro do vizinho poderia escapar. Parou para fechar. Alívio. Quando o carteiro chegou, era mesmo a multa. Recebi e chorei. Meu pai quis saber o que estava acontecendo. Mas expliquei que havia levado o fora de um paquera e... pior, pelo correio.
Entramos e meu pai me consolava... a multa escondida dentro do guarda-chuva, quase diluindo. Só faltava essa! Ter que montar outra operação para conseguir pegar a segunda via no Detran. No entanto eu estava ali, sã e salva, podendo viver mais alguns anos. Eu e o fusca.

Eu era assim aos 7 anos...
Diálogo mudo
Nossa! Há quanto tempo não andava de ônibus? Mas ir ao centro de carro... Depois de pagar a passagem, sentei-me ao lado de um moço e perto da janelinha. Único lugar vago! Sempre gostei de observar a cidade. No meu colo a página aberta _ Alvorada do amor _ Bilac teimava em me convidar para o pecado. Só que minha atenção estava para o lado de fora. Pudera! A cidade cresceu! Assim pensei em fechar o livro, mas os olhos do vizinho aceitaram o convite do poeta. Pecavam!
Hoje as pessoas nascem e morrem sem sair do mesmo bairro. Mas vivi o mercadão e os cinemas luxuosos. As roupas prontas? Claro que as da Praça Ramos e na 25; as novidades em tecidos e armarinhos. Sem falar das pastelarias que fechavam as compras antes de voltarmos pra casa. Nesta época quase tudo se buscava no centro da cidade. Como morávamos numa vila afastada, dependíamos de baldeação. Uma aventura para mim. Mais de uma hora dentro do ônibus. Ainda não pagava passagem. Mesmo sobrando assentos, viajava no colo da minha mãe, questão de princípios. Melhor, assim via tudo e podia conferir:
- O museu do Ipiranga, com suas árvores eternamente redondinhas.
- Av. D. Pedro e seus castelinhos, morar em um deles era meu sonho.
-A grande obra da região,futura via elevada da Avenida dos Estados.
Quando avistava o relógio na torre de tijolinhos, já sabia que estava perto.
Minhas lembranças se voltaram para aquela manhã; eu e minha mãe no ônibus, prontas para as compras. Um vestido vermelho, gola de padre e botões forrados, realçava meus cabelos claros. Meus pés, pouco confortáveis, levavam sapatos de saltinhos, os primeiros da minha vida. Um chanel dourado. Todos me olhavam. Aos sete anos eu me sentia uma mocinha. No meio do caminho um homem alto, de terno e gravata, se sentou ao nosso lado e com um sorriso elogiou a cor dos meus cabelos. Gravata!... Novidade pra mim. Só no casamento do Tio Lazinho tinha visto tantas.
De vez em quando eu olhava para ele. Toda vez sorria desviando o olhar. É, mas será que ele achou minha mãe mais bonita do que eu? Talvez! Não parava de olhar pra ela. Senti vontade de contar que era a única loira da família e que dela, só tinha herdado a pele branquinha e quase os olhos claros. O nariz e os cabelos, do meu pai. Porém me calei. Agora as mãos da minha mãe suavam e tremiam. Por quê? Seu rosto vermelho escondia alguma coisa. Quem sabe estivesse com calor?... Dois pontos antes do final o senhor se levantou. Num gesto meio automático tirou do bolso um cartão, eu nem sabia o que era aquilo, dobrou a pontinha e colocou na trava do banco da frente. Com serenidade passou a mão na minha cabeça e olhando para ela acenou um “até logo”. De onde eles se conheciam? Por que ela guardou aquele papelzinho? Mas era hora de levantar. Chegamos!
Depois das compras, que não demoraram como o de costume, a promessa do pastel foi cumprida. Mas ela estava quieta naquele dia.
Na volta pra casa, quebrou o silêncio. Com cuidado me explicou o significado da palavra “segredo” e disse que gostaria muito de dividir um comigo. Fiquei toda entusiasmada. Uma coisa só nossa! E qual seria o segredo? Ah! Não poderia contar pra ninguém sobre o papelzinho e o homem elegante. Com o tempo a minha meninice apagou o que guardávamos. Nunca mais tocamos no assunto. Esquecemos!
Tantos anos passados e os ônibus percorrem os mesmos caminhos. Agora as obras tinham sido terminadas, meio decadentes mas ainda usuais. O museu não mudou
Assim, aproveitando o tempo, olhava para o moço do lado. Embora não estivesse de gravata eu via o homem do passado. Estranho! Não se comportavam da mesma maneira! Este, como nunca viu minha mãe, teimava em ficar de olhos baixos. E se eu virar a página? Melhor aceitar o convite do poeta e pecar. Com quem? Talvez deixe um papelzinho. Não! Acho que gostou dos versos. E se eu descer primeiro?
Ninguém me viu, passei despercebida, pois ao contrário do homem elegante, ele simplesmente deu o sinal e desceu... sem ao menos olhar pra mim.
Agora tenho certeza; realmente minha mãe era mais bonita do que eu.
23.05.2005


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