
Ao chefe com carinho.
Um grande salão acomodava o departamento de planejamento daquela Fiação. Tonico, com mais de 30 anos de casa, era meu chefe. Anita, quase se aposentando, assistente direta dele. Treze meninas se dividiam no trabalho de auxiliar de escritório e eu, uma delas. Como era meu primeiro emprego, durante uns dias ficaria em treinamento com uma das auxiliares. Logo teria uma mesa com calculadora e telefone. Só minha!
Naquela época não tinha em casa aquele bicho preto, pesado e com um disco girando. Tudo novo e muito assustador pra mim, só tinha 18 anos. No entanto o maior problema era lidar com a calculadora. Com uma manivela faziam-se as operações: Pra frente _ soma, pra trás _ subtração. Divisão e multiplicação? Não me lembro. Tamanha foi a dificuldade que procurei apagar da memória. Um serviço muito simples; só abater do estoque os itens dos pedidos. Mas a calculadora...
A moça responsável pelo treinamento não tinha muita paciência. Durante aqueles dias só consegui aprender as operações mais fáceis. Depois disso já teria que ocupar o meu lugar. Pensei duas vezes antes de ir trabalhar. Ao entrar na sala vi Tonico sentado na minha mesa. Já que era o chefe pensei: “Estou na rua, vai me despedir”.
Ao contrário, disse que passaria o dia todo comigo até que eu aprendesse a lidar com aquela maldita manivela. Agora aprendia ou... mas os dias seguiram sossegados. Tonico, dono de uma paciência singular, sempre sorria e com muita gentileza repetia mil vezes o que me ensinava. Com 55 anos, solteiro por opção, tinha tudo de um homem comum; feioso e muito simpático.
Em poucos dias eu já atendia ao telefone com segurança e estava craque na manivela.
O almoço era dividido em dois turnos e eu fiquei no horário do chefe. Almoçávamos na mesma mesa. Em poucas semanas conheci todo mundo. Sempre acompanhava Tonico pela fábrica. Apaixonada por máquinas, ouvia atentamente as explicações sobre o funcionamento de cada uma. Agora eu o enxergava como um anjo da guarda, isso fazia com que me sentisse segura a seu lado. Tudo o que sabia devia a ele. Minha dedicação era total. Trabalhava com tanto entusiasmo que só pensava em estudar e melhorar no emprego.
Depois de dois anos, Anita se aposentou, e comigo ficou o cargo de assistente administrativo grau A. Meu salário foi dobrado. Nunca soube o que queria dizer grau A. Até me divertia pensando: “Seria A de Antônio?”. Mas estava feliz por trabalhar diretamente com Tonico. Sem que eu percebesse estávamos, a cada dia, mais próximos. Eu o admirava por tantos anos de casa e por ter o respeito de todos! Sempre queria copiá-lo, fazer carreira na empresa e depois de 35 anos me aposentar. Ainda menina não percebia a falta de perspectiva. Em pouco tempo eu já dominava todo o serviço e era muito elogiada por isso.
Num final de tarde, ele me pediu que ficasse. Era importante e não iria demorar. Continuei meu trabalho e Tonico se sentou sobre a mesa da frente e pediu pra que eu prestasse atenção. Em uma frase rápida confessou que, além de estar apaixonado por mim, estava disposto a tudo pra me conquistar. Nada respondi. Arrumei minhas coisas e saí. Naquela noite teria que ir pra faculdade, mas não fui.
O que fazer agora? Meu chefe apaixonado?... Logo agora que tinha sido promovida? Não sou competente? Talvez fosse minha juventude. Na minha visão ele era um velho. Como encará-lo no outro dia? O que as outras pessoas iriam pensar? Se aceitasse seria um escândalo. A empresa não admitia namoro entre funcionários. Nem eu queria aceitar. Só queria preservar meu emprego. Assédio? Denunciar? Mas... foi apenas uma declaração. E se ele, num momento de raiva, me mandasse embora? Aceitando ou não, seria despedida de qualquer maneira. Agora entendo por que me ajudou e foi tão diligente ao ensinar. Durante todo aquele tempo me fez pensar ser sua protegida... no entanto... ele entendeu tudo errado.
Não contei nada para os meus pais e passei a noite tentando achar uma saída. O que responder?
Na manhã seguinte, entrei direto na sala dele e fechei a porta. Com rodeios tentava explicar, quando ele me pediu que fosse direta... e fui:
_ Quase 40 anos nos separam!
Com a certeza de que ele tinha entendido, fingi que nada aconteceu e tentei levar as coisas com normalidade. Por mais que me dedicasse ao trabalho, começou a ficar difícil. Não passou um mês e Tonico pediu demissão. Faltava pouco para ele se aposentar. Agora eu me sentia culpada, mas livre daquela tortura.
Dias depois, fui chamada na Diretoria e comunicada de que a função dele seria minha. Como fui promovida, precisava de alguém para o cargo de assistente. Coloquei no Departamento Pessoal as especificações: “Jovem, entre 18 e 20 anos, cursando nível superior para assumir o cargo de : Assistente administrativo grau M”.
Mas seria M de Márcia ou de masculino?
28.04.2005

A filha do antes.
De uns tempos para cá ele andava apático, muito calado. Ano que vem vamos fazer bodas de prata. Com dois filhos e alguns bens acumulados nosso casamento parecia sólido. Nossa situação econômica estava estabilizada. Agora só nos restava envelhecer e esperar os netos.
Quando ele me convidou para passarmos uns dias em Campos do Jordão, disse que queria uma segunda lua-de-mel. Além do que precisávamos ficar sozinhos e longe dos problemas. Seriam dias só nossos. Quase entusiasmada, arrumei as malas. No caminho falávamos do meu carro novo e de futuras viagens. Tão estranho! Tive a impressão que ele estava tentando me agradar com alguma outra finalidade. Talvez fosse só impressão. Melhor era curtir os graus baixinhos daquele inverno.
Mal nos acomodamos e ele disse que tinha um assunto muito sério a tratar comigo e esperava que eu continuasse a mesma depois do que iria contar. Quando nos serviu uísque, dose dupla, começou a falar. Pelo tanto de bebida, a “paulada” seria das boas. Entre um gole e outro rodeava feito um cão carente. Sempre engasgando dizia que me amava e que tudo que construiu na vida foi pensando em mim e nas crianças. Que sempre viveu para a família. Ainda deixou claro que nunca quis nada, além de tornar a nossa vida, minha e dos filhos, melhor.
Minhas mãos tremiam, nem conseguia beber. No que resultaria aquela conversa? Será que ele faliu? Outra mulher não pode ser, pois ele não para de falar que me ama...
Depois de meia hora engasgando disse com a maior cara de pau:
_ Eu descobri que tenho uma filha de 28 anos. Já fiz o DNA e confirmei.
Num gole só sequei o copo e perguntei:
_ E agora?
Quando baixou a cabeça, vi que ele não sabia o que fazer, que estava completamente perdido, nadando no uísque e se afogando no DNA. Ainda tentou me convencer de que não queria assumir a paternidade. Que aquilo era resultado de uma transa sem conseqüência. Transa de uma vez só. Mas a garota estava disposta a reivindicar direitos, nome... essas coisas de filhos bastardos. Mas ele faria o que eu quisesse. Só me faltava essa, ter que decidir por ele.
Sem me mexer comecei a pensar. Como? Quem era a mãe? O que ela tinha significado na vida dele? E se fosse caso antigo? Talvez ele tivesse amado essa mulher intensamente. Teríamos que dividir tudo o que construímos? Claro, ela é herdeira. Ela viria morar comigo? Nem pensar. Teria que desfazer a sala de tv e mudar a decoração para um quarto feminino? Como meus filhos reagiriam? Uma irmã... e mais velha do que eles.
Meu marido chorava.
_ Há quanto tempo você sabe disso?
_ Uns meses.
_ Por que não me falou antes?
_ Não sabia como falar.
Agora eu entendia o porquê de ele andar me agradando tanto. Queria mesmo me dobrar. Mas que homem é esse? Se a mãe da menina não teve importância na vida dele, se ele nunca soube da existência da filha, se a moça nasceu há 28 anos, antes mesmo de nos conhecermos... por que não assumiu de cara? Que tipo de mulher ele acha que sou? Ali percebi que estava longe de ser o homem que imaginei que era. Como pude me casar com um cara tão frouxo? Por que nunca percebi o quanto ele era babaca?
Claro que não vou gostar de dividir nossos bens. Porém, ela é do tempo “SC” (sem camisinha) e filha dele, adquiriu direitos e contra isso não posso fazer nada. No entanto, como ele continua produzindo e com isso aumentando o patrimônio, mais tarde poderei levar uma fatia maior. Será que vale a pena? Se bem que seria instigante ver de perto essa relação de pai e filha tantos anos depois. Um desafio para os conceitos. Não deve ser fácil aceitar filhos do antes. Por isso o “banana” está com medo. Será que espera que eu tome a dianteira e seja “amiguinha” da menina? Por que não? Poderíamos viver harmoniosamente. Com a mãe dela ligando lá pra casa? É, mas se está esperando, vai morrer assim. Já pensou se ela também reivindicar a pensão de todos esses anos? Ele quebra! Antes que isso aconteça vou garantir a minha parte e a dos filhotes. Quero a separação!
Nenhum juiz vai negar os meus direitos, afinal minha reputação continuaria intacta, pois meus quase “filhos do antes” foram todos esquecidos com o fechamento daquelas “clínicas” que freqüentei.
26/06/2005


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