Coisas de uma contadora de histórias


31/08/2005


Hopper

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:26:54
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Trilhos da memória

 

Há algum tempo pensava em andar de trem. Não nesses que andam pelo subúrbio. Na verdade sentia vontade de voltar aos meus anos de infância quando, junto com minha mãe, viajava de trem. Uma viagem longa de mais de sete horas, chacoalhando nos bancos duros da segunda classe da Sorocabana. Tudo pra visitar minha avó. O que era sacrifício para minha mãe, sempre foi diversão para mim. Mesmo quando alguma linha era interrompida e, por horas e horas, ficávamos na estrada. Naquele momento, eu rezava para um trem que transportasse animais parasse ao lado. Como era menina da cidade grande, gostava de ver os bichos, mesmo presos. Ainda gostava de sentir o cheiro forte do estrume, pois era o que, realmente, sinalizava que eu estava indo para o interior. De mais a mais, curtia a sensação de perigo quando me espremia no banheiro, sempre achava que a porta não iria abrir. Mas o bom mesmo era caminhar sobre os encaixes das pequenas plataformas que ligavam um vagão ao outro.

Nunca gostei da primeira classe, as janelas não abriam. Além disso, as paisagens verdes ficavam mais distantes dos meus olhos e eu não podia sentir o vento forte no rosto. Muito orgulhosa, ficava atenta aos movimentos do fiscal e fazia questão de entregar os bilhetes para que ele, com seu alicate furador, confirmasse a nossa presença. Na hora de comer, a comida era a de casa, estendíamos um pano de prato no banco e, de joelhos, eu sentia o gosto frio do frango na minha boca. A viagem só era melhor quando noturna. O som das rodas deslizando sobre os trilhos é que me conduzia ao sono. Agora, amanhecer junto com o dia no restaurante do trem... era o melhor de tudo. Mais uma das vantagens de viajar na segunda classe; a diferença da passagem era gasta no café da manhã. Nunca tomei um café igual, até hoje me lembro da pequena mesa. Incrível, ela não se movia e ainda sustentava um vaso com flores! Pela janela de vidro eu via o sol já arrebentando e espalhando amarelo. 

Depois de tantos anos precisava retomar essas lembranças e, junto com meu marido, resolvemos viajar. Não de trem, mas para um lugar de trens. Um lugar onde eu pudesse resgatar minhas memórias.

E foi numa manhã de inverno, com o sol esquentando a estrada, que traçamos caminhos por entre uma mata fria que refrescava os meus pensamentos. Um fio de água, fingindo ser um rio, nos acompanhava. Destino _ a antiga vila inglesa ferroviária no topo da Serra do Mar. Logo na entrada, uma locomotiva carcomida pela ferrugem escondia os pés de uma cópia mal feita do Big Ben e fazia a apresentação da vila. Paranapiacaba!

No morro, uma casa imponente que hoje chamam de castelo. Bonita! Mas nem tanto. Pertenceu ao engenheiro chefe da companhia. De lá ele avistava tudo.  Talvez tivesse olhos grandes e vivos. Podia, de cima, controlar todos os movimentos. Quase nada pra se ver.

Tudo ali era reaproveitado; os trilhos defeituosos viraram mourões que, ligados pelos cabos de aço, também foram considerados imperfeitos e se transformavam em cercas. Imperfeitos para os trens e perfeitos para ladear. Postes? Todos feitos com trilhos emendados. A tinta que cobria as tábuas lisas das casas, era a que sobrava dos vagões. Um tom de marrom escuro, meio ferrugem, quase vinho. Se houvesse escadas, dormentes faziam as vezes dos degraus.

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:26:18
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Com certeza dormentes que não suportaram o peso da malha ferroviária. Agora, retalhados, suportavam o das pessoas.

De longe, tudo parecia um grande trem partido em pedaços, encimado por telhas que, de tão antigas, estavam cobertas de limo. Este, por sua vez,  escorria pelas calhas apodrecidas onde brotavam pequenas samambaias.

Como sombras, mulheres de olhares compridos, que acompanharam os maridos ferroviários, decoravam  portas e janelas. Estranhamente, tinham os sorrisos no mesmo tom das tábuas; tristes! O clube restaurado, fechado e silencioso, não se mostrava divertido. Na escola trancada e destruída, as palavras se escondiam das letras. Tudo muito sério! Não vi as cachoeiras. Poucos carros e muitas motos davam um tom calado de alegria às ruas e aos bares. No “pau da missa”, nenhum aviso. Só a beleza da velha árvore retorcida que os cupins se divertiam comendo nos buracos dos pregos.

Além do pouco artesanato e comida de fogão à lenha, só restava mesmo visitar o museu  de armazéns falidos que recobriam os velhos trens.

Depois de um almoço frio e demorado, atravessamos a passarela que levava ao pátio ferroviário. Ao lado dela a subida da única igreja. Tão íngreme que deixei a visita para o próximo inverno. Precisava ver os trens! Quem sabe viajar de trem? Sem entender direito o que estava fazendo ali, sentia que alguma coisa me guiava em direção aos antigos vagões. De mãos dadas com meu marido, percorria os  trilhos quebrados pela falta de uso.

No caminho, um vagão de animais, abandonado e corroído. Senti o cheiro forte do estrume e, na minha boca, veio o gosto frio do frango. Enjoei! Minha ansiedade agora era chegar aos armazéns que guardavam as locomotivas, mas... o museu estava fechado. Chegamos atrasados. Na volta, só a pose indiferente para uma foto pouco nítida e meio sem cor. As estações, ainda bonitas, não foram  bastantes para fazerem eu gostar da viagem.  Assim, sem poder andar de trem, as lembranças continuam vagando pelos longínquos trilhos da minha  memória.

Márcia Rodrigues

28.08.2005...

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:25:59
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26/08/2005


Botero _ Uma cópia

Escrito por Márcia Rodrigues às 19:49:19
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Problemas? Estamos tentando acertar.

Paciência, paciência!

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:34:16
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:33:33
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:33:14
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:33:05
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:32:36
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:32:28
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:32:18
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:31:54
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:31:45
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:31:36
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Escrito por Márcia Rodrigues às 07:30:59
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23/08/2005


Van gogh _ Casa Branca

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:19:23
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Que falta ele me faz!

 

Muitas eram as paredes da casa, mesmo assim elas não nos dividiam. Sempre juntos, quase que o dia todo. Pacientemente, ouvia as minhas tagarelices. Tão bom ter com quem conversar!

Até o dia em que ele resolveu fazer umas reformas. Pouca coisa, só a troca do piso do quintal e do banheiro térreo.

Em retiro no escritório, riscava papéis e mais papéis arquitetando os reparos. Depois entrava e saía de casa sem parar, intercalando nossa convivência entre as compras dos ladrilhos e a contratação dos serviços. Claro que achei bom. Um pouco de sossego não faz mal a ninguém. Nestes dias em que ele estivesse apertado de trabalho, resolvi que colocaria as minhas coisas em ordem, meus escritos e leituras. Quem sabe retomar a pintura? Impossível! O barulho da marreta e o falatório dos pedreiros ecoavam pela casa, espantavam toda e qualquer letrinha. Nada de ler e muito menos escrever. Além do que, a sujeira contaminava o meu falatório. Quase não conversávamos e quando trocávamos algumas palavras, durava dez minutos. Com certeza só precisava de dez minutos de Márcia. E eu? Queria muito mais do que isso: horas, dias, meses, anos. Quem sabe a eternidade?

_ Que falta ele me faz!

Até pensei em reclamar, mas não podia, ele parecia animado com aquela bagunça. Tanto que resolveu estender a reforma para os outros banheiros. Isso implicaria em mais uma semana de obras. Duas não bastavam? E já estava tão distante de mim. Mesmo o dia todo nos esbarrando eu morria de saudade. Nem nos meus olhos ele olhava mais. Como uma tonta, eu ficava esperando que descesse nele um espírito de pedreiro e, literalmente, ele colocasse a mão na “massa”. Que nada!... estava envolvido demais e pouco prestava atenção em mim.

Quando percebi a distância pensei em aproveitar as noites. Que noites? De tão cansado só pensava em dormir. Logo que anoitecia, caía em sono profundo. Então me lembrei das madrugadas; sempre que ele acordava no meio da noite, de uma forma ou de outra, chegava perto de mim. Era a única chance que me restava. Porém... como o dia era intenso de afazeres, ele resolveu passar de “suposto” arquiteto para  “real” ajudante de pedreiro e dormia a noite in-tei-ri-nha. Assim, desisti e fui buscar, dentro do meu eu, o silêncio e a paciência que sempre acreditei ter.

Todo dia ouvia:

_ Logo logo a obra termina!

Só que ele continuava tendo surtos de “arquitetez”, e chegou a vez dos tetos. Com o trabalho do gesseiro, baixou uma névoa fina entre nós. Nem o via mais.

_Quase terminando...

E veio a vez dos boxes blindex... aí as coisas começaram a transparecer. Lentamente retomamos as conversas. Agora parecia verdade, seria o último dia. Só faltava a retirada dos entulhos, mas...

_ Acho que a parte externa precisa uma pintura.

Mais três dias. Apenas três dias úteis. Arre! Setenta e duas horas de agonia. E ele prometeu o fim da obra e o recomeço de nós dois. Tanto que me convidou para ver uma mostra de fotos antigas. Talvez durante a exposição eu tenha um surto de “arquitetez” e descubra como levá-lo até uma “reconstrução” onde a argamassa seria eu e ele os ladrilhos. Até parece!... Hoje ele reclamou dos vazamentos da garagem. Por certo está pensando numa impermeabilização.

Márcia Rodrigues

10.08.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:11:08
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16/08/2005


Camille Claudel _ Abandono

Tarifa extra

 

Ao sair do banco eu pensava em como foi bom resolver tudo tão rápido. E ainda só pagaria a primeira hora do estacionamento. Os preços na Paulista são bem puxados! Sem falar nos adicionais por hora. E aquele era um dos maiores e mais caros. Nem sei por que faço questão de parar ali, mas creio que o muro é o culpado. Era uma casa linda, na verdade uma mansão, depois de demolida só sobrou o portão de entrada, algumas árvores e uma parte da casa dos empregados.  Gosto de estacionar lá embaixo, só para ver as colunas que sobreviveram.

Quando nos encontramos na porta do estacionamento, quase não o reconheci. Há muitos anos que não o via. Aquele olhar quente sobre a minha pele me remeteu às loucuras do passado.

De todos os meus namorados ele tinha sido o mais bem humorado. Logo depois que me pegava em casa, não hesitava; parava o carro e tirava a calça. E fazia questão que fosse na rua. Talvez se sentisse mais à vontade sem ela. Confesso que estar ao lado de um homem de cueca ao volante é bem instigante. Tanto que, normalmente, não resistíamos e o carro testemunhava calado. Ainda era sedutor, louco por minhas costas, dizia que, de tão lisa, poderia se perder no meu dorso por vinte anos. Jamais vi uma boca tão boa de beijar. Como nos víamos quase todos os dias, dos seis meses que namoramos, certamente passamos cinco de boca grudada. Antes de me beijar, ensaiava por muito tempo apertando os seus lábios nos meus. Depois é que vinha o beijo. E que beijo! Além de lamber e mordiscar, sabia sorrir dentro da minha boca. Nosso compromisso não era social, era cama, cama e cama. E agora ele estava ao meu lado e me olhando, nem me atrevi a erguer os olhos. Só queria entrar no carro e fugir, pois o tempo é implacável e produziu mudanças visíveis em mim. Com certeza eu passaria despercebida. Até tentei fingir que não o conhecia, mas... foi inevitável.

_ Márcia!

Sorri.

_ Como vai Betinho?

_ Não acredito que é você. Quanto tempo...

_ Verdade, muito tempo.

_ Seu carro está onde?...

_ Ali... perto das colunas.

_ Vamos tomar um café? Conversar um pouco...

_ Não posso, tenho horário no dentista e estou...

_ Que pena! Mas antes venha até o meu carro que está do outro lado. Vou te dar um cartão. Não quero perder você de vista.

Pelo caminho, sorríamos calados. Também... eu não saberia o que falar!

Mal chegamos senti um frio na barriga, lembrei-me das coisas que fazíamos no aperto dos bancos.

_ Entre um minuto. Quero trocar duas palavrinhas com você.

Sem graça, dei a volta e obedeci. Não queria fazer aquilo, mas como resistir? Quando ele entrou, fechou os vidros protegidos por insulfilm e ligou o ar condicionado. Sem pronunciar uma só palavra, veio direto aos seios. Os gestos eram os mesmos. Que saudade senti naquele instante! Saudade de uma coisa que estava acontecendo. Talvez eu devesse reagir. Por quê? Ah! Eu merecia estar ali, eu merecia resgatar o “tempo perdido”. Quase em cima de mim se comportava feito um menino, ora na boca, ora nos seios, sugava um pouco da minha alma. Lentamente foi inclinando o banco, tirou minha blusa e deitou sobre o meu corpo. Sem descolar nossos lábios, tirei o que vestia as minhas pernas. Uma sinfonia de movimentos e sons articulados com línguas e dedos. Agora nossos corpos envelhecidos se mostravam latentes. Como uma marola ele insistia dentro de mim, explorando cada curva do meu avesso. Nem os anos de nossas vidas conseguiram nos separar. Em silêncio permanecemos guardados nas lembranças. E ali nos revelávamos. Um dentro do outro, suando e pedindo mais, mais e mais. Sempre foi assim; nenhuma palavra! Aquele homem falava comigo com seu vigor, e eu respondia com meu consentimento e carinho. Num cio evolutivo, me comportava tal qual uma fêmea aliciada. Tudo calmo, bem pensado e posicionado.  Embora, minha pele já não fosse tão lisa, ele não esqueceu. Quando dei as costas, com os seios espremidos entre o banco e suas mãos, nem precisei convidar.  Mais de vinte anos e ele, novamente, “se perdia” por trás de mim. Assim, na posição que sempre preferimos, matamos a nossa saudade. 

Com delicadeza me ajudou a vestir a roupa, depois beijou minha boca e ofereceu o cartão, dizendo:

_ Não suma dos meus olhos... nunca mais!

Na saída do estacionamento, paguei a tarifa extra da segunda hora.

15.08.2005

Márcia Rodrigues

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:09:43
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12/08/2005


Van gogh _ mar

Aroma ortográfico

Entre o azul das palavras e um sentimento invisível, fundimos alguma coisa melhor que a felicidade e maior que a paz. Lá fora, um mundo sem palavras. Do céu caíam letras e na terra tudo desapareceu. Hoje quero exclamações e poucos travessões. Talvez suas vírgulas se casem com meus dois pontos. Não quero ponto final e sim reticências: eu, ele e este sentimento que inventamos ontem.

11.08.2005

Márcia Rodrigues

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:42:30
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10/08/2005


Michelangelo Buonaroti _ Baco

"Sonho com o mais forte de mim, porque ainda não me apresentei... Aquela couraça que tenho repúdio. Que falta me faz um choro em meio a pombos e crianças. Minha beleza se cansa com toda esta singularidade."

(de um desconhecido)

 

    Embriagai-vos!

É necessário estar sempre bêbedo. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas - de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

                                                           Charles Baudelaire

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:49:47
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09/08/2005


Marc Chagall _ E da Okada

Vivendo e aprendendo.

 

Quem pode imaginar o significado do chá de cozinha na vida de uma noiva? Uma noiva não é ninguém sem ele. Mesmo não tendo a mínima importância, quem não puder comparecer que arrume uma boa desculpa e não deixe de enviar o presente ou correrá o risco de ter seu nome retirado da lista de convidados, tamanha é a seriedade desse evento pré-nupcial.

Não consigo imaginar uma mulher dentro de casa sem aqueles pequenos objetos de desejos. O que seria da vida de alguém sem um descascador de alho ou espremedor de batatas? Bom, batata engorda e alho...

Quando me casei não fiz o dito chá, que de chá não tem nada. Só batidinhas e salgadinhos. Talvez por isso a minha vida seja tão difícil. Se soubesse teria feito e ainda me sujeitaria ser castigada por não adivinhar quais eram os presentes. Adivinhar nessa fase é muito importante. Aquilo é como um treino, a experiência é para o resto da vida.

Tudo começa com os erros. Para cada um deles existe um castigo. Se bem que nem sempre pagamos com nudez. Agora no chá... Já pensou se a cada besteira feita fossemos perdendo uma peça de roupa? Eu estaria nua desde que aprendi a andar. No entanto podemos contar com as amigas generosas, que castigam cobrindo sua nudez com o toque suave daquele papel higiênico cor-de-rosa. Reze para não estar menstruada. Nem tampax resolveria o problema. Como esconder aquele fiozinho?

Pior é dar de cara com um lava-arroz azul, sendo que você tem certeza de que pediu branco. Chore! Desespere-se! Nada na sua cozinha vai combinar. E se aquele conjunto tão desejado de conchas e escumadeiras não for de inox e sim de plástico; esconda-os na gaveta. Afinal pretendemos ser excelentes cozinheiras.

Depois do lava-arroz uma das peças mais importantes é o joguinho para esponja, detergente líquido e lixeirinha. Minha vida não seria a mesma sem essas três peças.  Importantíssimas! Mas... o que seria de mim sem um abridor de latas? Estaria condenada a viver sem doces e molhos.

Tantas coisas vitais num chá de cozinha. Como tomar café da manhã sem um pegador de mel? E servir a mesa sem suportes de panelas?... Nada de tirar travessa do forno quente sem luvas de amianto. Muito perigoso! Mas se não ganhar, anime-se! Pois amianto é material condenável. Então use um pano de prato, desde que esteja seco tem o mesmo efeito. E a tampa de microondas?É vital! Nunca esquentar nada sem ela, resultaria no uso excessivo de limpadores multiuso. Sem falar nos gastos que seriam estrondosos. Aprenda! Uma das virtudes de boa dona de casa é ser econômica.

Mas pense nos pregadores de roupas. Sua área de serviço não teria alegria sem eles. Aqueles que para combinar com o rejunte dos azulejos você contava que fossem de plástico azul-marinho do modelo “E-2” da marca “Das.pregador.lu”, e que por descuido ou esquecimento compraram de madeira. Esqueça! Pode pintar o rejunte, existem boas tintas no mercado. E com preço acessível! Se a cestinha de pregadores for azul, você estará salva, mas se não for... ainda existe a opção de tentar desenvolver um sistema para estender roupas onde os pregadores fiquem invisíveis aos olhos das visitas inoportunas nesta parte da casa. Procure um engenheiro que não saiba que tese defender e seu problema estará definitivamente resolvido.

De todas as lições, a melhor é ser “colorida” com a variedade de batons existentes dentro de cada bolsa das convidadas. Nesta etapa nos remetemos ao artista de circo que existe dentro de nós. Humildade é fundamental!  Pois a pintura do nariz é imprescindível. Às vezes na vida você precisa ter nariz carmim.

No entanto o que pesa mesmo é o último dos castigos. Muito sábio, acontece no ponto alto do evento, tornando-se o mais importante. E é justamente dele que sinto falta.

Num prato enorme cheio de farinha de trigo é colocada a sua aliança, hoje de noivado, mas que em poucos dias marcará o grande passo da sua vida. Veja a importância desta peça.  Em meio aquele pó branco escondem esse símbolo do amor e você com as mãos para trás cai de boca em busca dele. Mantenha a calma! Todo cuidado é pouco. Além do que é o maior dos aprendizados que um chá pode te oferecer. Aproveite cada instante. Assim vai exercitar como ficar com cara de paisagem em certas situações da vida. Se engolir um pouco da farinha, não se assuste isso serve para nos ensinar que engasgamos várias vezes diante dos outros. Na verdade a atenção tem que estar voltada para não engolir a aliança. Agora, se engolir...  tudo bem, em poucas horas ela estará de volta. Além do que é um bom treino de como engolir a seco e de como é colocar as mãos “in loco”.

Realmente...  imperdoável eu não ter passado por essa experiência de vida. Ainda em tempo de corrigir, pois ano que vem faço “bodas de prata”, uma nova aliança me espera e quem sabe até lá entre na moda um chá de cozinha sênior.

10.06.2005

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:55:11
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04/08/2005


Toulouse Lautrec _ Beijo

Paixão e dor.

 

Mesmo estando a caminho do hospital, não parava de arquitetar. Sempre fez loucuras. E hoje não seria diferente.

Quando Lúcia conheceu Edson, ele era um homem de quase cinqüenta anos, casado, estabilizado, com filhos e dizia a todos que era um pai de família. Mas dona de grandes olhos azuis, conseguia com sua beleza e juventude tirar qualquer um dos eixos. E Edson não resistiu.  Depois de contratá-la como secretária tudo desandou ou entrou nos trilhos. Em poucos meses aquela mulher bonita fez dele o que bem quis. Parecia enfeitiçado. Tanto envolvimento que ele abandonou tudo. Tudo? A única coisa que conservou do passado foi a grande paixão por Afrodite, a sua égua. Da égua ele não abriu mão.

Entre o divórcio e o poder do azul daqueles olhos, traçavam planos. Longe do marasmo daquele casamento de quase 30 anos, pensavam numa outra vida. Lúcia trouxe o novo. Totalmente aberta para o mundo era sempre uma surpresa. Uma noite convidou vários amigos e se vestiu com roupas masculinas. Durante o tempo todo fingiu ser ele e não parou de falar que desejava ter dois Edsons. Um ao seu lado e outro dentro dela.  Como não enlouquecer perto daquela mulher? Nunca trocaram juras. Talvez não soubessem o que significava. Na verdade era um sentimento além amor, puro tesão, acima das virtudes e dos padrões; lotado de insensatez. Com suas artimanhas Lúcia espalhava bilhetinhos pela casa, mandava flores pro escritório, passava o dia fazendo um jantar, tudo por um só motivo: agradecer a boa transa da noite anterior.

Quando ficou sabendo que Edson sofreu um acidente no haras e teve fratura na tíbia, sentiu ciúmes de Afrodite. Quem sabe raiva? Não se perdoava por não estar ao lado dele. Agora dentro do táxi e indo ao encontro do seu homem, pensava em como reparar o erro.

Ao abrir a porta do quarto sentiu que ele esperava por ela, mesmo estando com a perna imobilizada. Uma enfermeira ajeitava o soro dizendo que em menos de uma hora estaria melhor. De olhos baixos Lúcia se aproximou. Num canto do quarto, abraçando uma poltrona, as roupas de Edson, rasgadas e sujas, descansavam. Depois de acariciá-las com os olhos, conferiu a perna e sorriu. Ali estava o corpo que ela sempre desejava. Limpo de roupas. Nu!

Sem falar uma palavra esperou a enfermeira sair e se despiu. Sabia como recompensá-lo.

Quando chegou perto fugiu do beijo e com seus dentes fortes mordeu os lábios de Edson até sangrar.  Precisava feri-lo. Ainda mais, mostrar a ele que também poderia ser cavalgada. Sem controle, Lúcia subiu na cama, contorceu seu dorso e ofereceu os seios como rédeas. Impossível dominar aquela égua. Depois encostou seus pelos como se fosse uma sela e num tranco sentiu as esporas arderem em sua pele. Numa mistura de sentimentos, Edson tentou recusar. Em desespero tentava frear aquele bicho puxando-a pelos cabelos. Que poderes eram aqueles? Seria ela uma bruxa? Não! Uma deusa! E como fazer frente a esses encantos? Impossível! Cedeu! Agora os gemidos, ora de dor, ora de prazer infinito, tomaram conta do quarto.  Como um vento, passava por ele deixando a maior das sensações. Não tinha como segurar as rédeas. Aos poucos ela foi se acalmando e com gestos brandos recebeu o suor do cavaleiro. Insaciável desceu da cama e lambeu o senhor dos seus caminhos. Um poderoso silêncio tomou conta dos dois e fez Lúcia se vestir. Com certeza voltaria no outro dia para saber como ele passou a noite. 

01.08.2005

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:59:41
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