Coisas de uma contadora de histórias


26/09/2005


Rebolo _ Futebol

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:07:39
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Primavera masculina

 

Alguns ensinamentos são para a vida toda. Desde menina ouvia minha mãe dizer que moça tem que ser delicada como uma flor; não pode falar alto nem fazer uso exagerado de bebidas alcoólicas e jamais pronunciar um palavrão, sequer imaginar. Em qualquer situação tem que manter a pose de mulher. Melhor seria  não fumar e não dirigir também. E o mais importante: se gostar de futebol, que não seja muito!

Só eu sei o quanto me esforço para seguir esses mandamentos. Tão impulsiva!

Bem que ela tentou fazer de mim uma versão melhorada mas... desobedeço grande parte desses ensinamentos. Pior mesmo é infringir o mais importante _ amo futebol sem medida. Mas disso ela não poderia reclamar, até porque foi com ela que aprendi a ser corintiana. E torcer para esse time me torna um ser todo particular, único. Quem é corintiano, nasce corintiano. É como uma doença congênita que não tem cura, pois oscila entre  sofrimento, esperança e otimismo.  Como sabe amar vence todos os obstáculos, porque vive sob a guarda de S. Jorge. Além de venerar a camisa, respeitar a bandeira, xingar o juiz, invadir o campo, pular alambrados, brigar  e exibir com orgulho o “timão” no peito. É um fanático por futebol. Quando empata, vale como aprendizado, quando ganha, não tem pra ninguém _Timão! Mas quando perde... somos capazes de tudo! De uns anos para cá, essa raça até aprendeu a gostar de tango. Não queremos “dançar”, mas o baile tem sido bom e precisamos ter fé, pois estamos entre os primeiros no “brasileirão”. Não tem como, com ou sem tango, somos fiéis ao “mosqueteiro”.

Já passava das seis da tarde e meus filhos me esperavam. Naquela noite iríamos juntos ao futebol. Quando entrei na Paulista, local do encontro, notei as floreiras vivas e a exposição de vacas coloridas pintadas por artistas. Estas de mentira e aquelas de verdade, mas ambas continham a graça feminina. Como num pasto improvisado, sem grama e cheio de flores, pareciam esperar pela estação.  Afinal em menos de uma hora entraríamos na primavera. Flores! Árvores! Cidade! Avenida! Mulheres! Vacas!  Substantivos femininos?  Minha mãe tinha razão, tenho que ser delicada como uma flor. Até a cidade se tornou mais mulher esperando pela primavera!...

No entanto o que me esperava era o Pacaembu. Quando entramos no estacionamento, mais um sinal da minha mãe. Pelos cantos jabuticabeiras repletas de flores minúsculas. Logo dariam frutos. Mas fruto é masculino, não era recado não. De ingresso na mão, passamos pela revista e, dentro do toalete, a química me manteve mulher pelos últimos instantes. Já saí de lá pronta para assumir as características masculinas de torcedor.

No campo o sub 13 jogava amistosamente com a chegada da estação das flores, 19h23min. Primavera e Buganvílias! Tudo feminino! Lá vem minha mãe de novo. Outro sinal? Mas buganvílias possuem tantos espinhos... que são masculinos .  E mais: Bougainville, que deu origem ao nome da “trepadeira”, é uma pequena cidade francesa, onde nasceu um famoso matemático que começou carreira militar no corpo dos “mosqueteiros negros”. Mosqueteiro! Esse era o sinal! Se bem que, quando se fez navegador, levava sempre uma mulher travestida de marinheiro. Isso a tornava meio masculina? acho que sim! De mais a mais, é tempo da florada dos ipês. Ipês são masculinos!

_ Mãe, mãe... o que você quer me dizer?

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:02:48
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A preliminar acabou empatada. Ao pisar na escada que me levaria às numeradas, ouvi a torcida gritando sem parar quando o time oficial entrou. Naquele momento deixei de ser mulher e a transformação se consagrou; agora eu era um “corintiano”! Do lado de fora deixei todas as questões e vi a bola rolar. A cada falta não marcada eu engrossava a voz e...  “FDP”! “FDP”! Quando a falta era contra _ “PQP”! Depois de um gol anulado... ahhh, o “caralho” foi inevitável! A trave era a culpada do “uuuuum” acrescido de palmas. Mas logo veio o estouro. Gol! Golaço! E terminamos o primeiro tempo ganhando.

Com excesso de confiança na vitória, meu time afrouxou e o adversário reagiu: aos quarenta do segundo tempo tomamos um gol. Ouviu-se um silêncio ensurdecedor! Só restou a briga contra o relógio, pois faltava apenas cinco minutos para acabar e todas as jogadas pareciam finalizar em gol, mas só pareciam. Depois...nada de prorrogação. São Jorge nem ouviu os longos 300 segundos de rezas e a partida foi encerrada.

_ Como empatar dentro de casa? Que vergonha!

Na saída do estádio eu me culpava; não entendi o recado da minha mãe? E se tivesse me comportado como uma mulher? Isso não conta! Besteira!

Quando entramos na Paulista, batedores fecharam o trânsito e os  torcedores adversários passaram debochando, dentro do ônibus e sem notarem a primavera, rumo ao seu estado de origem. Só então dei conta de que as jabuticabeiras são femininas e os ipês são “tabebuias”, lembrando ainda que a buganvília, mesmo com tantos espinhos, também tem o nome de “primavera”. Tudo feminino como a moça da navegação que, mesmo parecendo homem, nunca deixou de ser o que realmente era.

Entre flores e vacas, não invadi a pista e tentei voltar à delicadeza fazendo pose de mulher!

Márcia Rodrigues

22.09.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:02:26
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22/09/2005


Van Gogh _ Livros

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:27:58
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O enigma da página 81

 

 

Quando arrumei emprego naquele sebo, eu tinha apenas 17 anos e tudo parecia simples; livros, só livros. Mas um mundo de coisas novas surgiu para mim. Poucas eram as folgas, no entanto eu aproveitava cada uma lendo e “viajando” nas histórias. Além de trabalhar no caixa, teria que tomar conta da seção de pacotes e ainda ajudar a organizar as prateleiras. Que prateleiras? Para mim sobravam pilhas e mais pilhas de livros, onde poetas se misturavam aos gourmets. De capas duras e moles, ilustrados ou não. Uns em bom estado, outros quase velhos, ainda os muito velhos ou caindo aos pedaços e, claro, os raros. O dia era curto para separar tantos títulos. Estranhamente o aroma mofado dava um tom a cada livro, combinava com as biografias e destoava da beleza dos romances que faziam par com as poesias e por mais que quisesse não conseguia dar nenhuma graça aos livros técnicos. Um cheiro forte de sabedoria.

De avental cinza e mãos encardidas pela poeira, eu passava o dia entre os contos de Machado e as figuras alucinantes de Blake.

Outra coisa intrigante naquele lugar eram as pessoas que o freqüentavam. Cada uma delas parecia um livro. Algumas de caras duras outras de andar mole. Os magros com letras miúdas e os gordos, garrafais. Quando sérios, eram totalmente ilustrados nos riscos finos do nanquim. Não era por acaso que os mais velhos pareciam possuir muitas páginas e uma infinidade de histórias. Por que eu não via os jovens naqueles livros? Por serem encadernados com poucas páginas? Mas os elegantes...  aqueles se tornavam interessantes só por terem suas capas em couro e linho. Quanto aos raros... bem, eram raros.  Cada pessoa que entrava me fazia pensar: “Esse parece tal título!”... e evitava me distrair para não chamar ninguém pelo nome do autor. Mas eram pensamentos divertidos para quebrar aquele clima de intelectualidade e conhecimento.

Na tarde em que ele chegou notei que era uma figura diferente. De olhos pequenos e penetrantes, parecia interessado em todos os autores. Com os cabelos bagunçados, de camisa verde e calça larga, ainda tinha os sapatos por engraxar, despojadamente vestido. De longe eu o seguia com os olhos, ansioso por letras percorria todas as pilhas e prateleiras. Às vezes sumia por longos minutos e quando reaparecia tinha ar de sorriso, como se absorvesse o conteúdo através das retinas. Um quê de intelectual jovem, sabido, discreto e fascinante, totalmente distinto de tudo que costumava passar por ali. Uma palavra sem significado ou um alfabeto ao contrário? Acho que um alfabeto misturado a números... um alfanumérico, uma equação? Ah não! Era um livro e dos bons. Um best-seller? Que tipo era aquele? Claro que uma espécie rara e de poucas páginas. Um menino! Talvez ele fosse complexo como os textos de Lispector ou simples como um poema de Drummond, já que transparecia uma enxurrada de emoções. Não sei, tão instigante! Só mesmo lendo é que eu saberia. Como descobrir? Quem sabe consigo uma dica pelo que vai comprar? Meio indeciso!... E se ele não achar nada que agrade? Se bem que eu poderia oferecer ajuda. Não! Quebraria o encanto de ver seus dedos finos repousando sobre os títulos

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:27:04
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Por mais de uma hora folheei cada página dele, mas estava em outro idioma, não conseguia ler nada. Como podia me interessar por um livro praticamente em branco? Nem ilustrações ele tinha. Jamais poderia grifar as palavras mais interessantes. O perfume sim era revelador, ele cheirava às canções do Chico. Seria um músico? Não! Suas mãos levavam o mesmo jeito das de um escritor; firmes com o lápis, poderosas com as letras e dominadoras com as palavras. Quem seria ele?

Depois de muito tempo finalmente decidiu por “Grande sertão veredas”. Que coisa! Esse foi editado em 72, só tem 4 anos! Todavia... pensei que estivesse procurando alguma coisa mais antiga! Até acho que é a primeira vez que esse livro chega aqui. Às vezes eles vão e voltam com muita freqüência, entrando e saindo por essa porta, cada vez nas mãos de um. Será que esse volta? E se voltar, será pelas mesmas mãos? Ele não parece do tipo que vende seus livros.

No caixa, privou-me do brilho dos seus olhos, nem os levantou. Ao fazer o troco lhe ofereci um cadastro, onde colocaria os tipos de leitura que mais poderiam interessar, além do seu nome e endereço. Ah! Queria tanto encará-lo! Gostaria que ele olhasse pra mim como olhava para aquele registro, na verdade queria sentir seus olhos me percorrerem, mas ele pegou o troco e não se interessou em preencher a ficha. Minha última chance seria na hora de fazer o pacote.

Atrás do balcão abri na página 81, pedi perdão a Guimarães Rosa e com a caneta escrevi: “BETE”, atravessei a página toda. Um Bete forte, indelével e azul. Com certeza isso chamaria a sua atenção e talvez voltasse para reclamar. Depois de embrulhar, entreguei e agradeci. Nem “até logo”, sequer uma palavra. Só um sorriso magro e estreito, como um livro de bolso.

Quando ele saiu da loja fui até a porta para segui-lo mais uma vez. Não durou muito, ele virou a primeira esquina.

Agora era esperar que ele desvendasse o enigma. Quantos dias ele vai levar para chegar à página 81? Talvez ele nunca a leia. E se comprou para presentear alguém? Conto com seus olhos ávidos, pois se é mesmo apaixonado pelas letras, vai descobrir. Tão simples! Cada letra corresponde a um número: “B” é a segunda letra do alfabeto; “E” a quinta; “T” a vigésima e “E”, novamente a quinta _ BETE!

Como todas as linhas telefônicas possuem sete dígitos, vai deduzir que os que faltam é o número da página. Se fôr perspicaz vai saber que é o meu telefone. Com certeza vai pensar que meu nome é Bete, mas quando ele ligar vou poder lhe dizer que me chamo Márcia.

Não sei não, acho que ando “viajando” demais. Estaria sendo influenciada por tantas histórias? Em qual delas eu teria embarcado? Melhor eu voltar ao trabalho.

Márcia Rodrigues

14.09.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:26:45
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09/09/2005


Brincando de boneca.

 

Enquanto Sofia andava descalça pela grama molhada da chuva, meus olhos paralisavam os momentos, fotografando as cenas. Entre as árvores ela dançava e fazia graça. A graça natural da sua idade, quase três anos. Uma peça “de porcelana” que, de tão delicada, parecia envolta por uma névoa cheia de fitas cor-de-rosa. Seus grandes olhos verdes se misturavam aos cachos dourados dos cabelos.  Às vezes parava, seduzida pelo canto de um pássaro. Ria! Corria! Ora na minha direção, ora na direção da mãe. Com a intenção de roubar a beleza das flores, pegou uma delas e colocou nos cabelos. Diante dos troncos desafiava a intimidade e, com carinho, escalava os galhos que pareciam abraçá-la. Tranquilamente sentada, lá no alto ria sentindo os beijos das folhas.

Sofia é filha da Fernanda. Fernanda e eu somos primas, talvez mais do que primas, pois ela nasceu no dia do meu aniversário de sete anos e foi para mim como um presente; uma boneca de olhos escuros e cabelos negros que falava e andava. Tão diferente de mim, mas um pouco minha. Desde o dia em que coloquei os olhos nela, nunca mais nos separamos. Mesmo sendo mais nova do que eu, vivíamos grudadas e crescemos juntas. Nunca brigamos! Nem os namorados que tivemos conseguiram nos separar. Na minha meninice, Fernanda foi um daqueles brinquedos de plástico duro. Muito resistente! Não poderia ser diferente, ela nasceu sabendo que eu a esperava. Então se moldou aos meus modos, o que me permitiu acompanhar seu desenvolvimento. Uma menina tomando conta de outra menina. Nossa relação foi construída com um pouco de tudo, na verdade uma variação de confidente à mãe.

Quando me casei, achei que ela se afastaria.  Eu vivia uma nova fase, queria ser mãe, porém, ela continuou fiel à nossa amizade. E vieram meus dois filhos. Agora eu é que lhe oferecia novos brinquedos, e a ela caberia construir mais uma relação. Isso consolidou a nossa união.

Hoje ela também está casada e moramos no mesmo condomínio.

Quando Sofia nasceu, mesmo não sendo no dia do meu aniversário, sabia que era outro presente. Eu e Fernanda vivemos nos presenteando. Aos 44 anos ganhei mais uma boneca. Só que essa era diferente. Ainda fragilizada por um parto antes da hora, Fernanda entregou a mim aquele pequeno ser e eu fiquei com a responsabilidade de cuidar das duas. Como é cuidar de um bebê? Será que sei ainda? Um medo tomou conta de mim. Todo cuidado seria pouco, ela era a boneca da minha boneca. Mas não poderia fraquejar aos olhos das duas. Agora era a minha vez de construir uma nova relação.

E foi na banheira o nosso primeiro contato. Com aquela coisinha minúscula nas mãos e sob os olhos atentos da mãe, eu me entreguei ao mais doce deleite _ banhar Sofia. Com delicadeza fui mergulhando seu pequeno corpo na água, ela chorou. Minhas mãos tentavam acalmá-la e foi ali que conversamos pela primeira vez. Tudo era tão novo para ela quanto para mim. Aos poucos foi se aquietando. Acho que me ouvia, pois respondia com resmungos. Não sabia bem o que falar, diante dela tropeçava nas palavras e só conseguia sentir amor. Também chorei! Que poder ela exercia sobre mim?  De uma forma ou de outra eu precisava demonstrar o quanto a queria bem. Com a espuma fina do sabonete, acariciei cada pedacinho dela, do rosto aos pés. Tentei dizer, com meus gestos, o que ela significava pra mim. Será que entendeu?  Ainda tive a chance de reforçar, enxugando-a e trocando-a. Só depois passei para as mãos da mãe onde, no peito, acalmou-se de vez e dormiu.

Um silêncio entendido tomou conta da cena, três mulheres distanciadas pela idade e aproximadas pelo amor. Não tinham o que falar. As fitas rosas, que sempre envolveram Sofia, enlaçavam nossos olhares.

Assim, quase que diariamente, nos misturamos nesses encontros, quando ela chega, esqueço do mundo. Entre o nevoeiro de risos, palavras e flores, vamos afinando nossa relação.  

Márcia Rodrigues

05.09.2005...

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:13:30
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