Coisas de uma contadora de histórias


31/10/2005


Guignar _ Procissão Semana Santa (noturna)

Escrito por Márcia Rodrigues às 12:33:36
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30/10/2005


Os buracos e a fobia.

 

Antigamente os radares eram raros e móveis, só existiam nas estradas mais perigosas. Os guardas anotavam as multas, às vezes sem que o motorista percebesse. Se não fôssemos notificados, na hora do licenciamento a surpresa e decepção eram grandes, mas, mesmo assim eu amava dirigir.  Multas não tão caras como as atuais, quando elas já foram industrializadas. Agora existe um radar em cada esquina; de velocidade, de rodízio, manobras proibidas... tem computador pra tudo, até para verificar se pagamos o IPVA. Tudo que fizermos no trânsito pode ser fotografado e usado contra nós, pobres e indefesos motoristas. Na verdade, contra o nosso bolso, sem falar da abominável pontuação negativa no prontuário.

Depois de tantos anos de carteira e conhecendo bem São Paulo, já me acostumei com essas novidades, mas me assustei um pouco e fui me sentindo intimidada, a ponto de não ser mais tão apaixonada pela “direção”.  Têm também as obras públicas viárias que, teoricamente, agilizam o trânsito. De uns anos para cá, inventaram túneis e grandes complexos, ou melhor, um milhão de viadutos que se cruzam levando-nos para todos os lados da cidade.

Nunca gostei de pontes, odeio viadutos. Se estiver em cima, sempre acho que de carro é fácil despencar, quando embaixo, morro de medo de alguma coisa cair sobre mim. Já pensou um container? Não sobraria nem pó!

Hoje, depois de contar histórias na creche, o que faço habitualmente, resolvi mudar de rumo; o dia calorento estava muito bonito e estimulava um passeio. Por que ir pra casa? Afinal, tinha uma exposição de Guignard na Pinakotheke que eu estava louca pra ver. E almoçar no Shopping Morumbi seria ótimo. Então liguei para um amigo que mora lá perto e... tudo combinado. Mas eu estava na zona norte da cidade, teria que escolher o caminho mais prático. Bem, partindo aqui da Marginal Tietê, melhor cruzar a ponte, o “Buraco do Adhemar”, depois atravessar o Túnel Ayrton Senna e pronto. Ai meu Deus, mas eu detesto túneis! E a cidade agora está cheia deles, não bastassem todas essas pontes da marginal!... Mas impossível fazer outro caminho, é quase meio-dia e neste horário o trânsito aperta demais. Que o senhor me proteja, vou pelo túnel!

Sem perceber, fui diminuindo a marcha, pressa pra quê? Ainda bem que o Adhemar fez um buraco pequeno, que uma vez ficou alagado e as bombas não deram conta, mas com um dia tão ensolarado não havia o que temer, melhor aproveitar pra ver tudo bem claro. Sem perceber, passei por ele e, logo após, pelo Hospital da Beneficência, chegando então àquela escultura da Tomie. Nunca eu tinha percebido o quanto ela é bonita: moldada em concreto armado e com aqueles arcos gigantescos, que sempre achei que nada significavam. Hoje eu tinha vontade de parar e tocar suas curvas, sentindo a importância daquele monumento abandonado no meio da avenida. Qual terá sido o custo disso? Não creio que ela tenha feito graciosamente. Engraçado... esta cidade tem  coisas que nunca vou entender; se são ondas comemorativas dos 80 anos de imigração japonesa, por que não a colocaram dentro da Liberdade?

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:15:47
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Já perto do túnel, minhas pernas começaram a tremer, mais uma curva e... poderia esquecer tudo e dar uma de “acelera Ayrton” pisando fundo, mas... e os radares? Logo que entrei, vi as luzes amarelas protegidas por sancas de cimento. Antenas fazem funcionar rádios e celulares lá dentro, mas quem disse que consigo ouvir música ou atender telefone quando passo por ele? Minha tensão é tamanha que fico amaldiçoando Maluf. Filho da puta! Por que o túnel tinha que ser tão extenso e passar logo por baixo da fonte do Ibirapuera? E se um prefeito maluquinho como aquele que tem no Rio resolvesse implodi-la? Sem sustentação, o lago viria abaixo e inundaria o túnel, com certeza. Houve um tempo em que o Obelisco estava quase caindo, diziam que afundaria o túnel, mas felizmente já está restaurado. Será? E a marquise? Cortaram um pedaço dela... Ai minha Nossa Senhora, me proteja! Graças a Deus, vejo luz agora, está acabando. Putz... mais dois túneis ainda  para serem vencidos.

Não demora nada e lá vem o do Tribunal de Justiça. Que justiça? Maluf foi solto. Ainda bem que esse é curtinho, nem um quilômetro. Mas saio e já tropeço no do Jânio Quadros, que o desgraçado inventou de passar por baixo do Rio Pinheiros. O cheiro de podre toma minhas narinas. E se algum encardido resolver acionar a usina da traição? Não, só em dia de cheia. E os trabalhos de alargamento do Tietê estão quase prontos, se bem que costumam prorrogar os prazos de conclusão de obras desse gênero. Quase no final, queria fumar, mas e se os gases tóxicos emanarem do rio? Melhor me manter só no volante e à direita, deixando a esquerda para os apressadinhos. Já vejo luz  e, do nada, o bendito túnel se divide: Morumbi à esquerda e Cidade Universitária à direita. Por pouco não entro no lugar errado.

Ai acabou! Minhas pernas tremiam, passei mal. Ainda bem que o Hospital São Luiz fica aqui pertinho. Qualquer coisa daria para usar o convênio.

Depois de me acalmar diante de Guignard, encontro meu amigo e penso no caminho da volta. Deus é pai mesmo, para voltar é só pegar a Carlos Berrini, que tem nome de engenheiro, mas não tem nenhum túnel.

Márcia Rodrigues

26.10.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:15:20
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27/10/2005


Dalí _ Canibal

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:41:32
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Poema de Mulher

Que mulher nunca teve
Um sutiã meio furado,
Um primo meio tarado,
Ou um amigo meio viado?

Que mulher nunca tomou
Um fora de querer sumir,
Um porre de cair
Ou um lexotan para dormir?

Que mulher nunca sonhou
Com a sogra morta, estendida,
Em ser muito feliz na vida
Ou com uma lipo na barriga?

Que mulher nunca pensou
Em dar fim numa panela,
Jogar os filhos pela janela
Ou que a culpa era toda dela?

Que mulher nunca penou
Para ter a perna depilada,
Para aturar uma empregada
Ou para trabalhar menstruada?

Que mulher nunca comeu
Uma caixa de Bis, por ansiedade,
Uma alface, no almoço, por vaidade
Ou, um canalha por saudade?

Que mulher nunca apertou
O pé no sapato para caber,
a barriga para emagrecer
Ou um ursinho para não enlouquecer?

Que mulher nunca jurou
Que não estava ao telefone,
Que não pensa
em silicone
Ou
que "dele" não lembra nem o nome?

Só as mulheres para entenderem
o significado deste poema!

Estamos em uma época em que:

"Homem dando sopa, é apenas um homem distribuindo alimento aos
pobres"

"Pior do que nunca achar o homem certo é viver pra sempre com o
homem errado"

"Mais vale um cara feio com você do que dois lindos se
beijando"

"Se todo homem é igual, porque a gente escolhe tanto???"

"Príncipe encantado que nada... Bom mesmo é lobo-mau!!
Que te ouve melhor...
Que te vê melhor...
E ainda te come!!! "

 

Autor desconhecido

Escrito por Márcia Rodrigues às 11:40:42
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09/10/2005


Botero _ Pela manhã

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:58:38
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O peso dos dons

Minha mãe dizia que antes de a gente nascer, lá no céu ainda, passamos por uma porção de filas. São as filas para adquirirmos as características que carregaremos por toda vida. Tem a fila da beleza, a da inteligência, da paciência, um monte delas que nem lembro quantas, detesto filas.

Deus nos oferece as qualidades como sementes, cabe a nós cultivarmos cada uma delas durante a vida. Caso você não consiga, elas se transformam em defeitos. Com certeza não passei pela fila da timidez nem na de papas na língua. Na da inteligência, acho que esbarrei. Por certo devo ter ficado horas na da teimosia... tenho vestígios de espertinha. Mas como sou uma serva do senhor, obedeci;  ao longo da vida, quanto mais eu rego as sementinhas mais elas brotam e mais os defeitos aparecem. Mesmo tentando controlar esses dons, alguns ficaram mais evidentes. A pior conseqüência é a de não ter encarado a fila da magreza. Até tentei o recurso das cintas, mas a falta de ar... bem, eu tinha que arriscar, pois o sonho de toda gorducha é usar calça jeans agarradinha. E o meu não era diferente. Ah! mas sentar é simplesmente insuportável! Você aperta embaixo salta em cima, aperta em cima salta embaixo. Devo aderir à calça saint tropez? Não! Não tem jeito. Melhor mesmo são as de elástico. E os soutiens? depois que inventaram a meia taça, me apaixonei por essas peças, no entanto, a metade pula fora, só mesmo com “taça inteira”. Uma vez ouvi uma especialista em sexo falando sobre o tamanho da calcinha; uma peça importantíssima no jogo da sedução e que, em quaisquer circunstâncias, a mulher deveria usar a menor possível, mesmo  não sendo magra. Como? Comprei quase uma dezena delas, era tanto sobra daqui, sobra dali, que me revoltei. Não basta ser uma gorda bem distribuída e sim saber protestar. Assim, dei o meu grito de independência, fiz uma fogueira e aboli o uso das malditas.

No entanto, tenho sorte com os homens e alguns nunca deixaram de me olhar, mesmo com silhueta de musa de Botero. Pensando bem, já fui magra um dia. Não! Estive magra, sempre fui gorda. Já tentei a dieta da lua, do abacaxi, da sopa e ainda; vigilantes, fórmulas, spas, tudo! Eu já fiz de tudo e...nada! Vivo esperando pelo efeito clarinete ou flauta doce, mas sobressai sempre o “efeito sanfona”.  Assim, como nasci com esse dote natural, cumpro fielmente a sina que Deus me deu.

Na verdade sempre esperei por um milagre da ciência, acabei desistindo. Que inferno! Nenhum cientista maluco conseguiu inventar nada que não fosse comer menos? Nem uma injeçãozinha? Sequer um comprimidinho mágico...

Ainda bem... como seria viver sem picanha e cerveja? E aquela pururuca? O que seria das lojas de roupas de tamanho grande? Se Deus me fez assim, assim vou morrer? Não!

Outro dia, numa loja de sapatos, fui confundida com uma cantora corpulenta. Pior, pareço mesmo com ela. Não bastava já terem perguntado se eu era prima do Faustão? Já ouvi também que tenho a mesma forma de uma obesa apresentadora de tv, só que uma versão “aloirada”. Pelo menos ela trabalha na “Cultura”, melhorou um pouco. Talvez, se eu fosse uma mulher famosa,  seria excêntrica, mas como faço parte de um mundo de reles mortais... sou comilona mesmo. 

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:56:33
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Poxa! Ando cansada de tanto ouvir que sou bonita e inteligente, mas que estou envelhecendo, que tenho que me cuidar e que fechar a boca... cacete! Chega! Agora estava disposta a dar um basta nisso tudo. Então decidi por uma academia;  malhar, malhar e malhar! Quem sabe hidroginástica para completar?  Poderia até não emagrecer, mas seria uma gorda saudável e até um pouco mais ágil. Porém, a dificuldade começou pelas roupas; Tudo tão colado! Não tinha jeito, a onda seria calça de moletom e camiseta XL. O segundo passo seria enfrentar os olhares curiosos, pois o povo me via como um ET que faz ginástica, anda, pensa e fala. Por que será que me olhavam como se eu fosse de outro mundo? O que eu estava fazendo ali? Ao invés de exercitar meus músculos numa esteira, deveria estar em casa exercitando os neurônios atrás da escrivaninha? Bem, se já me viam assim de moletom e camiseta... já pensou de maiô? Desisti! Emagreceria sem ginástica.

Então, inconformada, resolvi apelar para os santos milagreiros. Talvez algum deles se apiedasse de mim, eu precisava atingir minha meta de peso.  Depois de prometer mundos e fundos, pedi uma anorexia, quem sabe uma bulimia ou até uma diarréia bem forte. Pedi também para não ficar magra de idéias. Gordos são sempre tão interessantes. Mas... eles não me deram ouvidos. Com certeza sabem que não cumpro nem as promessas que faço a mim mesma... muito menos a eles. 

Assim, altiva e opulenta, sigo a vida pensando se valeria mesmo a pena destruir esta “obra de Botero”...

Márcia Rodrigues.

25.08.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:56:09
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03/10/2005


Camille Pissarro

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:08:16
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Pânico no Metrô.

Naquela quinta-feira, aceitando convite de Lila e Bel, saí para almoçar. Como meu carro se submeteria ao rodízio, peguei carona do marido, pois ele iria viajar e a estrada de saída ficava perto do local de encontro. Sem carro, sem exageros; vesti uma roupa simples com uma bolsa básica. O mau humor do meu marido por tê-lo feito sair do caminho?...tirei “de letra”! Tudo por um dia com as amigas.

Quando cheguei elas já me esperavam. Enquanto o almoço não ficava pronto jogamos conversa fora. Falamos de livros de arte e bebemos vinho. Sempre é bom poder dividir assuntos que gostamos com pessoas que gostamos. Nem me preocupei com o relógio e o dia correu sem que notássemos. Um dia de inverno com sol, vinho e muitas palavras, uma terapia!

Na saída Lila me levou até a estação mais próxima. Quase não ando de metrô, pois  vento e barulho no subsolo me incomodam. Quatorze estações e ainda um ônibus, seria mais de hora para chegar em casa. Havia uma fila pequena na compra de bilhetes. No caixa abri a bolsa e... minha carteira não estava lá! Por que carrego tanta bugiganga? deve estar do outro lado... nada. Logo peguei o celular e liguei para a Lila, ela poderia ainda estar por perto ._ "Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita a cobrança após o sinal". Não acredito. E agora? Por alguns minutos tentei me acalmar. Liguei novamente... desligado! E meu marido? Não adiantaria, estava fora da cidade. De longe vi o preço: R$ 2.70. Algumas moedas soltas na bolsa resolveriam o problema, mas meus filhos adoram minhas moedas. Que coisa!

Outra vez liguei para a Lila _ainda fora de área. Como perdi minha carteira? tenho certeza de que transferi tudo para ela. Será que roubaram? O fecho não é mesmo confiável, como vou fazer? Não posso incomodar a Bel, seria ruim fazer ela sair de casa na hora de organizar o jantar. Devo recorrer a um desconhecido?

Aquele moço parece bonzinho, mas e se ele fôr do meu tipo, que não dá nada pra ninguém? Que burra, tal qual um cachorro magro atrás de migalhas! E se pedir para uma mulher? mulheres são mais compreensivas.  Não sei não, acho que ninguém vai me dar crédito. E um idoso? Certamente um senhor se compadeceria de mim.

Andando de um lado para o outro sem saber o que fazer, fui abordada por dois guardas do metrô. Eu os acompanhei, quem sabe me ajudariam? Mas me levaram para a cabine dos seguranças e começaram a me fazer perguntas:  se eu esperava por alguém, se tinha sido assaltada, como eu me chamava, endereço... tantas perguntas que eu não sabia o que responder.

_ Se a senhora não colaborar vamos ter que chamar a polícia.

Colaborar como? Eu não tinha feito nada.

_ Estou sem dinheiro, esqueci minha carteira.

_ Essa conversa é velha, melhor falar a verdade, por que a senhora ficou vagando pela entrada e se aproximando das outras pessoas sem falar nada?

E fiquei retida na cabine por quase uma hora. Fui dispensada, com a condição de que saísse do metrô. Saí envergonhada, não acreditaram em mim.  Melhor seria pegar um táxi, mas se não achasse a carteira em casa? Pedir aos vizinhos?  melhor não arriscar. Bem feito pra mim que fecho o vidro cada vez que um mendigo se aproxima do meu carro, bem feito! Humilhada, fiquei chorando num banco do terminal. Um pedinte sentou-se ao meu lado e me perguntou o que estava acontecendo. Sem erguer os olhos respondi que tinha esquecido ou perdido a minha carteira em algum lugar e sem dinheiro não conseguia voltar para casa. Logo depois ouvi o barulho de moedas.

_ Isso dá?_O gesto me tocou tanto que... levantei e abracei o pedinte. Não tinha como agradecer, agora eu poderia voltar para casa. Realmente as pessoas são surpreendentes, aquele homem nunca me viu antes e acreditou. Ao me dirigir à bilheteria, fez questão de me acompanhar. Um cavalheiro!

Então fui embora agradecida, olhei para trás e ia dar “tchau”, quando percebi que ele esbarrou numa mulher, furtando-lhe a carteira sem que ela sentisse. Logo sumiu na multidão. Só então entendi que de anjo da guarda ele não tinha nada. A mulher? ainda bem que estava saindo do metrô...

Márcia Rodrigues

26/06/2005

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:07:27
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