
Quero essa luta que me apraz.
Luta mortal no estreito abrigo.
Solto o cinto sideral.
E no teu céu me deito sem moral.
Manto sagrado, azul constelado.
Grudento e endiabrado.
Amo este olhar abusado.
Entrego-me sem temor.
Bebo na cama o teu amor.
Digo não a todo e qualquer pudor.
Nua, descoberta.
De longe sou tua.
Ofereço a ti tudo de perto.
Vem que nada quero coberto.
Levanto a saia da alma.
Deito na sombra que acalma.
Grinalda livre do abandono.
Receba-me mansamente em teu sono.
Descalça caminho sem receio.
Danço na febre sem rodeio.
E durmo neste doce enleio.
Anjo distante do fétido fel.
ESTE HOMEM VEM DO CÉU!
Espírito branco de longo véu.
Permito-te a avalanche do mel.
Carne dura e aflita.
Abençoada e sem regras, dita.
A entrada eternamente bendita.
Dou-te os meus ouros e mistérios.
Só assim faço parte do teu império.
Pele branca de “Senhora”.
A mão do escravo implora.
Marca a carne que é tua.
Senhor dos meus desejos.
Imploro-te que me possua.
Vestida de prazer.
Desmedida no que é ser.
A dama mostra as tetas.
E se delicia no braile das tuas letras.
Limpa de decência tento ser agora.
Livro-me das penitências da loucura que cora.
Abro-me jogando o linho branco fora.
E para aprender-te.
Eu me desnudo agora.
E só o que quero.
É ser tua mulher.
E ter você como homem na glória!
Márcia Rodrigues
04.08.2003
Noite de autógrafo.
Conversa de salão de cabeleireiro, sobretudo se fôr exclusivamente feminino, é sempre a mesma coisa; papos invariáveis sobre lipoaspiração, plástica, cabelos, rugas e celulites. Como meu horário era todas as terças-feiras, sempre encontrava as mesmas pessoas. Lá eu me sentia um pouco intimidada e não falava muito, até porque nunca fiz plástica, mesmo sabendo que uma lipo cairia bem, mas...
Naquele dia em que conheci Olga, eu tinha levado um livro de arte, mas não consegui ler, pois adorava prestar atenção na mulherada. Fiquei vendo as figuras, disfarçada de intelectual.
Logo que abri o livro, ela perguntou se eu gostava de pinturas. Então começamos a conversar e soube que fazia pós graduação em artes e que sua monografia seria sobre Rebolo. Nem precisei falar o quanto gostava dele, provavelmente meus olhos brilharam e não poderia ser diferente, pois o cara, além de artista, era paulistano e corintiano como eu. Toda semana Rebolo nos unia em longas conversas, discutíamos capítulo por capítulo, o que causava inveja nas outras mulheres que freqüentavam o salão. Dessa maneira, acompanhei cada ponto da monografia e tive a promessa de que ganharia uma cópia depois de apresentada. Uma delícia ler tudo aquilo, via de perto o quanto ela conseguia tornar temas áridos em palatáveis.
Quase no final do curso, Olga sumiu do salão e perdemos o contacto. Que pena! eu nem tinha o endereço dela, mas ela sabia o meu. Depois de dois anos sem notícias, recebi um convite:
“Pensa que esqueci de você? vou cumprir o que te prometi _ a minha monografia, mas em forma de livro. O lançamento será na Livraria Cultura, Conjunto Nacional, dia 02 às 20:00 h. Não falte, pois quero autografá-lo especialmente para você. Um forte abraço, Olga”.
Poxa! não é que a monografia se transformou em livro? quanta honra! não posso nem pensar em faltar, certamente meu nome consta da lista de agradecimentos. Será que ela me dedicou algum capítulo?
No dia marcado... da porta avistei Olga que correu ao meu encontro.
_ Márcia! Chegou bem na hora, vou começar a autografar. Fique à vontade, com licença.
Que lugar simpático, linda essa escada! Com uma taça de vinho na mão, caminhei naqueles corredores apreciando os diversos títulos e preços, inclusive o da Olga._ Virgem santíssima!... R$ 92,00? Putz! ainda bem que não precisarei comprar! pelo que escreveu de próprio punho no convite, vai cumprir a promessa e eu vou ganhar o livro.
Depois de alguns minutos, resolvi ficar na fila, estava ansiosa! quem sabe na minha vez ela falaria algumas palavras? uma homenagem!... afinal, ela sempre acatou meus palpites. Todo mundo de livro na mão, menos eu. Coitados! que sacanagem, tudo isso por uma taça miserável de vinho? nem vi canapés... mas o ambiente era muito requintado. Melhor parar de reclamar e aproveitar, ela é minha amiga! amiga? quanto eu gastaria no estacionamento? nem vi o preço, aqui na Paulista é sempre caro!
Atrás de mim, vi chegar um pelotão de mulheres de uma só vez. Não acredito, as madames do salão também foram convidadas? quero só ver, vão ficar emputecidas quando souberem que não precisei comprar o livro!
_ Oi Márcia, já comprou o livro?
_ Não! para mim é presente!
Quando chegou minha vez, Olga se levantou, me abraçou e ainda beijou minhas mãos, que gesto lindo! meio gaguejando ela tentava falar, seria emoção? Pensei comigo_ é agora!_ mas ela falou:
_ Ainda não comprou o livro? vá lá que eu espero, você vai ganhar um autógrafo especial. Não esqueci quanto nós discutimos cada capítulo.
Ao invés de ser o alvo de distintas atenções, acabei me transformando no motivo das chacotas, percebia sorrisos escondidos no rosto de cada uma.
Ao chegar no balcão já tinha decidido; só compraria se visse, no livro, meu nome ou qualquer outra coisa que fizesse alusão às nossas conversas. Talvez quisesse me fazer uma surpresa, meu nome deveria estar lá. Com o dedo, percorri cada linha do agradecimento... aqui não estou! na segunda página: “Ofereço esse livro ao meu marido que pacientemente me ajudou e ainda...” na terceira, um agradecimento especial aos orientadores, quarta... quinta... nada!
FDP! não vou comprar, ela acha que sou uma tonta? não, uma besta mesmo! Quem ela pensa que é para me iludir dessa maneira? que mico!
Sem falar nada, saí. No outro dia mandaria uma desculpa qualquer, acompanhada de uma violeta de R$1,50. Eita vinho caro! ao pagar doze reais de estacionamento, dei graças a Deus por não ter visto mais “as madames”, como conseguiria encará-las? Agora eu precisava arrumar uma manicure que atendesse em domicílio ou fazer uma plástica mudando de cara, só assim poderia continuar freqüentando o salão.
Márcia Rodrigues
17.11.2005...

Pampulha _ Belo Horizonte _ MG
Toda vez que entro naquela loja, meus olhos se perdem no meio de tantas figuras. São anjos, santos, bonecos, duendes, bruxas... tudo para tornar sua vida “zen”. Mas desta vez eu só queria lembrancinhas para oferecer aos meus ouvintes, numa narração de histórias.
_ Por favor, quero a branca de neve e os sete anões em louça, quanto custa?
_ Vinte e um reais cada conjunto.
_ Vou levar dois. Poderia embulhar separado?
Enquanto a balconista embrulhava um por um, eu tentei me distrair. Talvez pudesse contar as lajotas do piso, mas a vitrine dos santos me atraía. Entre os de barro e madeira, um São Franciso imponente, feito de pano, não parava de “olhar para mim”. Muito artesanal, nunca tinha visto um tão bem feito. Com uns sessenta centímetros de altura e gordo, tinha os cabelos e a barba feitos de pequenos retalhos de tecido marrom, o mesmo marrom da sua túnica. Os pés, o rosto, a careca e as mãos, em tecido natural. Um cordão crú dividia o seu corpo, nele um terço de madeira. Sobre o ombro esquerdo um passarinho de pano, recoberto com penas cor-de-rosa. Na tentativa de esconder a barriga, tinha as mãos cruzadas segurando outro passarinho, este com as penas meio avermelhadas. As tiras de couro das sandálias apertavam dedos bem feitos, seu rosto... que expressão harmoniosa, realmente de um santo! sua boca vermelha sorria no meio da barba, uma paz transparecia dos seus olhos baixos, mesmo assim sentia que ele me fitava.
Quanto será que custa? não, não vou comprar! nem tenho lugar pra ele no meu altar, muito grande. Além disso sou agnóstica, nem rezar eu sei. Ai, por que diabos gosto tanto de santos?
_ Gostou do S. Francisco?
_ Adorei, mas não vou levar.
_ É único, a senhora vai perder. Leve, faço em seis vezes!
_ Não, hoje não. Quanto custa?
_ Oitenta reais!
Nem precisava pensar muito , a compra toda ficaria por apenas vinte reais e pouco por mês.
_ Pode embrulhar!
Dentro do estacionamento, acomodei as sacolas com as brancas de neve e os anões no chão do banco de trás do carro. O S.Francisco, já desembrulhado, foi em pé no banco do carona, protegido pelo cinto de segurança. Nem o rádio eu liguei, dirigia e admirava aquele santo tão bonito.
Logo que entrei em casa, Mel, minha cadela, fez a festa de sempre, ao olhar o santo ela cheirou... cheirou e abanou o rabinho com timidez. Sinal de respeito? bem, pelo que entendi já tinha a aprovação de alguém da casa.
Mesmo sem determinar um lugar para ele, fiz questão de colocá-lo sobre a mesa da sala de jantar, assim cada um que chegasse poderia vê-lo. No dia seguinte é que me preocuparia em arrumar um espaço onde ficaria definitivamente.
Quando meu filho chegou, ficou admirado pela beleza do boneco, que boneco? era São Francisco! com ansiedade esperei por minha filha que também achou que era um simples boneco. Agora faltava o meu marido, assim que ele entrou já foi falando:
_ Olha aqui Márcia, adorei o boneco, até lembra S. Francisco, mas você pode me dizer onde vai colocá-lo? qualquer dia teremos que sair da casa para dar lugar às suas tralhas.
Nem respondi, não sabia o que responder. E não era um boneco, que coisa! só eu enxergava o santo?
Durante o jantar ele ficou sobre o aparador, de certa forma abençoava a nossa refeição. No vai-vem dos pratos e travessas, todos, acho que inclusive o santo, se faziam a mesma pergunta: Onde colocá-lo? virei o santo de cara para a parede, menos um me pressionando.
Depois de tirar a mesa do jantar, andei pela casa procurando um lugar para ele. No altar nem pensar, quem sabe no quarto da Laís?
_ Pode tirar essa coisa daqui. Não quero Mãe.
_ Marcel!... não ficaria lindo sobre a sua bancada?
Mesmo sorrindo, ele me empurrou pra fora com o santo e tudo.
Quando passei pela sala, outra reação:
_ Pode sumir com esse negócio daqui.
E no meu quarto? quem sabe ao lado da tv? já sei, em cima do dvd... não, muito grande, não se encaixa em canto nenhum, e agora?
Bem, já que ninguém me ajudava...o jeito foi apelar para a Mel e guardar na casinha dela, que foi tolerante e aceitou sem nem latir. Afinal, São Francisco é mesmo o protetor dos animais. Agora, todos os dias, ao colocar ração, dou uma olhadinha pra ele, que retribui. Ué...mas eu não sou agnóstica?
Márcia Rodrigues
07.11.2005...

Herança de família.
Seus olhos, ao mesmo tempo que se espremiam entre as rugas do rosto e atrás dos óculos, cuidadosamente examinavam as peças sobre a velha toalha da mesa de jantar. Com os cabelos trançados e clareados pelo tempo, ela tombava a cabeça para enxergar melhor. Uma blusa de seda branca acompanhava a curva do corpo envelhecido. Por baixo, uma combinação de alças finas apertava os seios murchos. Quase no meio das canelas, coberta por meias cor da pele, a saia preta dava a impressão de que seus quadris ainda eram largos. Os sapatos eram de feltro e antigos, mas pareciam novos de tão bem guardados. Era a melhor roupa da minha avó que só a usava em ocasiões muito especiais; resolveu que todos os bens do meu avô ficariam com meu pai, por ser ele o único filho homem que, por sua vez, transferiu esse direito para nós, seus três filhos, por isso estávamos todos ali. De um lado da mesa minha avó. Eu, com meu irmão e minha irmã, do outro. Dois relógios suíços de bolso, um aparelho de socar alho, o chapéu de feltro e uma espingarda feita por ele próprio, constituíam a herança. O socador, de um bronze pesado e machucado pelos alhos que espremeu, ainda brilhava. Por que estava ali? Ora, porque mesmo sendo um objeto de uso da minha avó, antes tinha pertencido à bisavó paterna. O chapéu? Sua marca registrada. Quanto aos relógios... sempre foram motivo de orgulho para ele, claro, eram de ouro! A espingarda tinha o cano opaco e meio torto, com o cabo rusticamente esculpido, feita a partir de uma barra de direção de um carro antigo. Meu pai dizia que nunca passaria uma bala por ali, impossível mesmo, nem munição tinha. Uma quase espingarda ou uma espingarda “cenográfica”?
Caramba! 82 anos para deixar só essas tralhas? O que ele fez a vida inteira? Talvez nada, nunca o vi trabalhando. Se bem que era quase marceneiro, quase ferramenteiro, quase pedreiro. Não sabia fazer nada por inteiro. Sempre ouvi falar que minha avó era uma mulher do quase, pois quando ela fazia um bolo, ao invés de três ovos, colocava um. Casal perfeito, que família é essa? Quero só ver quando as minhas tias souberem que não herdarão nada.
Será que a “vó” já definiu o que cada um vai levar? Cinco objetos para três herdeiros. Na verdade eu queria os relógios. O que faria com eles? Não importa, são de “ouro”. Se bem que a espingarda é bem bonita, ficaria linda na parede. Mas que parede? Ah! O socador de alho combinaria com minhas velharias, tão pesado! Será que vale mais que os relógios? E o chapéu?... Bem, poderia guardar como uma lembrança. Lembrança de quê? Ele sempre foi seco e distante.
Não posso esquecer que sou a caçula, esse povo antigo tem mania de dar mais prestígio aos filhos mais velhos.
Nada quebrava aquele silêncio. Os relógios tiquetaqueavam juntinhos. Quem teria dado corda? Ou seriam automáticos? Meus pais, encostados na porta, nos observavam.
Agora a impaciência tomava conta de todos, no entanto, minha avó continuava examinando as peças. Talvez estivesse se despedindo delas ou arrependida de se desfazer das mesmas. Mais de meia hora e nada, chorava. Entre lágrimas ela acabou dizendo:
_ Os relógios e o chapéu para o Reinaldo, o socador de alho para a Dora e a espingarda para você, Márcia .
Sem mais, serviu a mesa para o café (velha filha da puta!).
Ao lado dos objetos, ela colocou um bolo e o velho bule de porcelana, que combinava com as xícaras até nas beiradas lascadas, tudo ali era velho. Agora o “tic-tac” dos relógios marcava o compasso da mastigação de cada um. O “quase” bolo era duro, muito duro. Enquanto eu comia, tentava não demonstrar minha insatisfação. O que vou fazer com essa espingarda? Meu irmão engolia e sorria para os relógios, não desgrudava os olhos deles. Dora, sempre boazinha, entre um gole de café e outro chorava e mexia no pilão do socador, parecia feliz.
Quando me despedia, tive intenção de não abraçar minha avó e rejeitar aquela “quase” herança, mas fiz de conta que tinha gostado e abracei; “Socar alho”... minha vontade mesmo era socar todo mundo!
Com um relógio em cada bolso da calça jeans, meu irmão colocou o chapéu e saiu primeiro. Numa sacola de plástico, minha avó embrulhou o socador e entregou à minha irmã ao se despedir. Divisão de bens sempre dá em briga, mas nessa aceitamos calados e, pelo menos aparentemente, tranquilos. Meus pais saíram por último.
Após a morte da minha mãe, Pai pediu os relógios que foram dados ao meu irmão e, com a desculpa de ter que ajudar no sustento da minha avó, acabou vendendo os dois. Antes de morrer, Dora deu o socador para uma de nossas tias, a mais nova.
Ainda bem que meu avô não quis fazer a bala, senão eu correria o risco de perder a herança. Uma quase espingarda ou uma espingarda “cenográfica”? Sorte meu pai não ter descoberto, só assim fiquei, até hoje, com o que sobrou da minguada partilha.
Márcia Rodrigues
06.11.2005...
Para minha mãe.
Novamente chegou o “Dia de Finados” e novamente eu não quis ir ao cemitério. Sei que poderia aproveitar e ver minha irmã também, afinal vocês estão juntas. Há vinte e um anos penso em visitar teu túmulo. Na verdade fui uma vez, quando deixei minha irmã com você, mas o momento não era oportuno para conversarmos. Naquele dia eu não estava bem, acho que acabaríamos brigando.
Hoje resolvi deitar no papel todas as palavras que guardei, expressando a falta que você me faz, talvez assim eu consiga diluir esta saudade.
Confesso que, quando você me deixou, pensei que nunca mais eu seria feliz. No entanto, você estava certa _ morrer é quase cair no esquecimento.
Bem, nada de reclamações. Quero mesmo te contar as coisas boas da minha vida, as ruins foram poucas e nem vale a pena falar. Nunca dei muita importância para elas. Nossa relação foi interrompida no começo do meu casamento, então... tive bons filhos. Mãe, a menina se parece muito comigo, além de loira é doce e ao mesmo tempo ardida. Quanto ao menino, ruivo e manso. Tão manso que chega a me irritar, não sei de onde puxou tanta calma. Os dois são bons de coração, nisso diferem de mim. Cresceram fortes, nunca me deram trabalho na escola. Agora estão fazendo faculdade e trabalhando.
Eu? Estudo literatura num museu aqui de São Paulo, depois que voltei a estudar me transformei numa contadora de histórias. Ah Mãe, eu escrevo! Até que escrevo bem, meu professor bate forte, mas como sou mula teimosa... enfim, estou indo bem. Mais uma coisa, nestes anos, voltei meu olhar para as artes, vivo perambulando pelos museus e exposições da cidade.
O Carlos é um bom homem, não me deixa faltar nada. Vivemos bem. Lembra quando você falou que eu precisava de alguém que me colocasse rédeas fortes? Ele tentou Mãe, mas desistiu. Certamente sacou que se me prender eu fujo. Ainda sou meio rebelde.
Antes de levar a Dora até você, cuidei um pouco dela. Na verdade não o bastante, mas fiz o que pude, não vou contar detalhes. Fazer você sofrer pra quê? Mas ela sempre foi sossegada, morreu na boa. O Fernando, meu sobrinho, casou e depois ficou viúvo. Agnes era o nome dela. Não fique triste, eles já estavam separados quando ela morreu. Tiveram um filho, Felipe tem olhos azuis e é uma graça de praguento. E pensa que Fernando foi o único filho da Dora? Nem sabe, depois de quinze anos ela teve o Fabinho! Ele é tão gatinho! Valdemar continua sozinho. Nunca tinha percebido, mas ele era apaixonado mesmo pela Dora. Fernando se casou novamente. Agora tem quem cuide daquele bando de homens, estão bem. Meu irmão? Reinaldo está legal Mãe, sempre bonitão. A Inês continua mãezona. Os filhos deles você conheceu bem, Milena e Júnior. Cresceram e já estão casados. Júnior vai ser pai de duas meninas, gêmeas. A mulher dele _ Elaine_ é bem bonita, você ia gostar dela, tem bom olhar. Milena casou com um rapaz bonzinho, durão Mãe, ela vai cortar um doze, mas ele também tem cara boa. Mãe, lembra da Bete né? A irmã da Inês, pois então... continua solteira, está tão bonita! Deixou de morar com a Inês e tem um apartamento lindo.
Alguns dos seus irmãos morreram. Já encontrou com eles por aí? O seu irmão preferido _ Lazinho _ continua firme e forte, assumiu a “filha bastarda”, já é avô. As três meninas dele também estão casadas. Fernanda mora aqui perto, tem uma filha linda que se chama Sofia. Mãe, acho que transferi todo aquele amor que tinha pela Fer pra ela, sou apaixonada por Sofia.
Ficou sabendo que o Pai casou com aquela mulher? Pois acredite, casou e ainda teve duas filhas. E o pior, a mais velha é a minha cara Mãe. Ficou afastado quase vinte anos. Naquele período devo ter falado com ele umas cinco ou seis vezes, se tanto. Não curtia a cara daquela mulher. Nunca me agradou saber que meu pai tinha uma amante, você sabe, eu o tinha como ídolo.
Mas em outubro fez dois anos que ela meteu o pé nele, coitado, ficou muito mal. Apareceu aqui, pra você ter idéia, só com uma mala na mão. Tirei metade das roupas e, junto com a mala, coloquei no lixo. Depois de fechar os olhos para o passado, faço o que você sempre quis, cuido dele. Já está aposentado e velho, mora sozinho. Tem saúde boa e continua meio mulherengo, mas sou brava e ele me obedece; faço as compras da casa, pago as contas, administro o seu dinheirinho. Ele se veste como no seu tempo, alinhado. Sou caprichosa com a comida e as roupas. Eu que lavo Mãe, Reinaldo faz as compras e ainda paga o telefone.
Vamos vivendo e, como você pode ver, até que sou feliz. Fiz boas amigas, tenho saído e me divertido. Uma vida meio solitária, mas...
no fundo no fundo você me faz uma tremenda falta. Tem um lado de mim que pega; ainda tenho vontade de almoçar com você aos domingos e de poder ligar para contar as novidades, de ter pra onde ir quando o “bicho pegar”, tenho saudade das nossas conversas, muita saudade. Gostaria de sentar e chorar a sua falta, porém, devo me manter forte e levar a vida até também chegar meu dia.
Neste momento, ao escrever esta carta, acabo de mudar de opinião _morrer não é cair no esquecimento não mãe, jamais vou te esquecer!
E agora? Pra onde endereçar a carta? Se um dia eu tiver coragem, deixarei junto com flores quando fôr te visitar, por enquanto ela ficará comigo.
Márcia Rodrigues
03.11.2005


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