Coisas de uma contadora de histórias


26/12/2005


O meu São Francisco de Assis

Escrito por Márcia Rodrigues às 15:05:05
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Escrito por Márcia Rodrigues às 15:04:06
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Escrito por Márcia Rodrigues às 15:03:22
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14/12/2005


Picasso _ Saltimbancos

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:39:29
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Peixe à Ferreira Gullar, ao molho Cecília Meireles.

Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Naquela manhã o dia amanheceu meio nublado, meio ensolarado, um pouco frio, um pouco calor. Nada se firmava, nem o dia.  Há algum tempo que eu vinha me sentindo daquela maneira; ora uma coisa, ora outra, tal qual um escrito ao contrário, confusa! diante do espelho, vi meus cabelos espetados e... sempre que ficam assim, vem chuva. Mas não estava de todo armado, talvez só uns pingos! o convite para almoçarmos em Embu foi perfeito, aquela cidade é meio uma coisa e meio outra. Na verdade é a mistura de novíssimas velharias com antiqüíssimas atualidades, ali tudo se engana e se confunde.

Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Enquanto o carro, guiado pelo meu marido, corria na estrada, eu tentava colocar as idéias no lugar, não conseguia.  Todo tipo de arte me esperava, pensava nos caminhos sinuosos, no ofegar ao subir as ladeiras que misturavam desenhos com comidas. Uma fome dolorida rondava o meu estomago, antes de tudo, queria almoçar.

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Do estacionamento, avistei a praça e seus artistas anônimos; quadros e esculturas de todos os tamanhos, cinzéis e pincéis se fundiam. Como o feriado prolongaria aquele final de semana-, havia muita gente na rua. Meus olhos filtravam a claridade, desprotegidos e sem óculos escuros. Agora o sol me ardia o rosto.

Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Ao atravessarmos as ruas, meu marido caminhava na frente arrastando-me pela mão, não poderia perdê-lo de vista e, quando não sentia o contato, percebia que a multidão espremida tentava nos separar, então uma sensação de abandono tomava conta de mim, o restaurante parecia muito distante. Passo a passo, ganhamos a praça e aquela gente barulhenta ficou para trás.

Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Tutu com leitão à pururuca _mas eu sentia o dia quente e pesado, precisava de comida leve. Que lugar escuro! Muitas mesas, tão próximas uma das outras que recortavam aquele ambiente pequeno em corredores estreitos. Sem muita opção decidimos por uma bem no centro e nos sentamos de costas para a entrada.  No rádio mal sintonizado tocava uma música onde dava pra perceber Gilberto Gil pedindo para o Super-Homem nos restituir a glória. Nada combinava! Tantas quinquilharias pelas paredes... a impressão que dava era de um pub londrino. Moças de avental amarelo se esbarravam, pareciam garçonetes novatas, mal sabiam conduzir as bandejas. No cardápio, em meio a grande variedade de pratos com leitões de tudo que é jeito, vi também um “pintado na brasa”, foi essa a minha opção. Agora eu me sentia como uma obra antiga feita nos dias de hoje. Comer peixe num lugar onde praticamente só serviam carne de porco? mas a salada que antecedeu o prato era farta e colorida, na leveza dos componentes apimentei e salguei excessivamente cada um deles, tudo parecia difícil de engolir. Só a limonada ajudava. Claro, açucarada por demais! tanto que mandei às favas minha dieta, bebia e pensava nos pecados da gula. Pouco falava.

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:38:13
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Uma parte de mim é só vertigem: outra parte; linguagem. Quando o peixe chegou, nadando num molho de camarão, à primeira garfada ouvi uma voz grossa e bem colocada:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta
.

Ah! Cecília Meireles? De pronto, virei e dei de cara com uma figura que desfilava gestos delicados. Muito alta e de pose imponente, tanto quanto a voz. Era o que faltava: um homem rasgado de coragem e travestido de “bobo da corte”, atrevido?  nem sei, meio poeta, meio corisco, escondia-se atrás de uma maquiagem branca. Pequenos guizos denunciavam seus passos.  Logo atrás, miúdo e quase sem graça, um “bobo” menor, mais baixo até no tom de voz.  Entre o estreito das mesas, os dois andavam intercalando os versos.  Com sorrisos largos, olhavam para mim, traduzindo o poema. Meio zonza não entendia. Talvez a culpa fosse do perfume enjoativo daquelas roupas medievais que combinava com o gosto, também enjoativo, do peixe mal passado.

O mais alto dizia:

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

O outro:

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
- Não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

E juntos terminaram:

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:37:42
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Depois da gorjeta farta, despediram-se fazendo reverências. Agora o peixe sem espinhas enroscava na minha garganta. Não consegui terminar, pedi licença ao meu marido e fui pra rua. Uma feira de artesanato rodeava a praça, de longe seguia os saltimbancos. A cada barganha eu ouvia um verso diferente, calada esperava que digerissem o que me confundia.  Até que, numa das barracas, um Dom Quixote e seu fiel escudeiro, esculpidos em lata, roubaram minha atenção. Tudo era antigo e medieval ou muito moderno! Sem perceber que os tinha perdido de vista, os versos se repetiam em pensamentos. Dulcinéia apaixonada?

Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte -
será arte?
Do outro lado da praça, avistei o meu cavaleiro de carne e osso. Desta vez não comprei nada, fugi da chuva que se anunciava em pingos grossos e, juntos, voltamos para o mundo moderno. Pelo caminho, divagando, entendi que “a arte é de mentira, mas nos faz compreender a verdade”.

Márcia Rodrigues

14.11.2005

Traduzir-me, poema de Ferreira Gullar.

Motivo, poema de Cecília Meireles.

Escrito por Márcia Rodrigues às 13:37:01
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06/12/2005


Corinthians

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:10:43
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Três pontos e três minutos.

 

Naquela tarde de domingo, eu não teria que torcer só pelo meu time, também pelo meu maior adversário. Por mais que tentasse, não conseguia! Se bem que minha camisa branca já está meio azulada, ficar verde de lama não seria nada. Com 78 pontos contra 75 do segundo, meu time estava em primeiro lugar no campeonato brasileiro, tínhamos que ganhar para faturar mais três pontos e ainda torcer para o segundo colocado perder. Só assim seríamos campeões.

Quando marcamos o terceiro gol, a partida estava mais do que definida para o “Timão”, 3x1 e o segundo colocado estava empatado, éramos campeões, mas... ser corintiano é ser sofredor, o título ficou em nossas mãos por três minutos,  pois aos quarenta e dois do tempo final do jogo adversário, o segundo colocado se livrou do porco e marcou o gol do desempate. De nada adiantou eu tentar chafurdar. Agora teríamos que esperar para colocar definitivamente a mão na taça.

Uma agonia me acompanhou a semana toda, novamente dois jogos, meu time com 81 pontos tentaria matar o verdão do centro oeste e o segundo colocado, com 78, teria que perder pra um time que já estava caído para a segunda divisão, quase impossível. Mesmo perdendo ou empatando, estaríamos igualados em pontos na classificação geral do campeonato. Mais um jogo? Nada disso. E o saldo de gols? Que saldo? estávamos cinco na frente. De qualquer jeito a taça seria nossa.  

Como todo bom corintiano, acreditei que nada conseguiria nos roubar o tetra campeonato.

Arre que chegou o domingo... se não fosse a decisão da justiça gaúcha cancelar a anulação das onze partidas apitadas pelo juiz ladrão, eu estaria tranqüila. Deus do céu! Esse time só me dá alegria?  Caso confirmem, o Corinthians perderá os quatro pontos que conquistou na reedição das partidas e ficará um ponto atrás do segundo colocado. Nem pensar! Eles vão perder! Ah! Se vão! Afinal ser corintiano é viver entre o sofrimento e otimismo.  Sem esquecer de passar pela esperança. Além do mais, a ação foi movida por um torcedor na Justiça Comum e não na Desportiva. Mais uma vez temos que contar com a sorte. Quem sabe um milagre?

Nem três e meia e os meus olhos já estavam parados diante da televisão. Os jogos começariam no mesmo horário só que o nosso atrasou cinco minutos. Então aproveitei para pedir a São Jorge que desse plantão no Couto Pereira e que só saísse de lá, depois de ver a derrota do nosso rival. Neste ínterim, via as imagens do jogo adversário e de cara o time, que caía pelas beiradas da segunda divisão, sofreu pênalti, bateu e fez!

_ Gol... gol...gol... gol... São Jorge é porreta! 1x0.

Como sabíamos que o segundo colocado perdia, entramos em campo arrasando. Isso nós dava mais confiança, agora poderíamos perder ou empatar. Mas os jogadores conheciam a decisão da justiça gaúcha, e só a vitória interessava. Claro, passaríamos três pontos na frente, o que nos daria até a regalia de perder quatro pontos e ainda ficaríamos com 80 no geral, contra 78 do adversário. Nada e nem ninguém nos tiraria o título.

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:08:41
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Em menos de quinze minutos... três excelentes oportunidades, mesmo assim o “Coringão” não conseguia manter o ritmo e nem  concluía com qualidade, o que tornou o jogo equilibrado. Cacete!... aos 46, sofremos o primeiro gol. Quem não faz toma! No entanto o segundo colocado continuava perdendo. Tal qual o outro time, voltamos para a etapa final. Desanimados? Não... mal começou e o nosso camisa dez estava infernal, em cinco minutos nos levou ao empate. Gol! Golaço! 1x1. Mais sete minutos e Coelho encheu a rede, Gol! Gol! Gol! 1x2

_ “É campeão”! “É campeão”! Não tinha pra ninguém! Estávamos salvos.

Novamente o excesso de confiança abriu a guarda e aos vinte e cinco minutos, o empate. Murchei! 2x2.

_São Jorge, São Jorge, interfira com sua espada!

Que o que?  Estava no sul e para me quebrar de vez, aos quarenta minutos ele me abandonou...  3x2. Perdemos!

Mesmo fora de casa a torcida ignorou a decisão dos tribunais gaúchos, festejou e gritou o nome do elenco. Pior! O mesmo comportamento teve os jogadores, deram a volta olímpica sem taça e comemoraram a conquista nacional.

Timidamente celebrei e não esqueci de agradecer ao meu querido protetor, rezei:

“Meu santo guerreiro, antes de voltar, faça com que o Inter sinta a força da sua poderosa espada e mostre que, caso ganhem a ação, correm o risco de não participarem da Libertadores. Talvez fiquem assustados e retirem a solicitação de cancelamento. Mais uma coisinha, aproveite bem viagem e não esqueça de dar uma boa cutucada no torcedor que deu entrada no pedido. Amém! Não, amém não... ainda não terminei. Poderia me dizer quanto demora o julgamento desse tipo de ação? Três dias? Três semanas? Três meses? Não sabe? Como não sabe? Tenho certeza que é mais do que três minutos, tempo suficiente para sentirmos o gostinho do tetracampeonato. Ah! Já ia me esquecendo, valeu pelo título, amém”.

Márcia Rodrigues

05.12.2005

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:08:24
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