
Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.
Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.
Pablo Neruda
Perseguição definitiva Nunca suei tanto como nesses tempos. Odeio! Dias quentes assim mexem com meu humor e me fazem sentir a necessidade de ficar sozinha, de não falar com ninguém, muito menos estar com alguém. Uma coisa de maluco mesmo. Piração total! Nem minha sombra eu suporto. E com esse calor infernal, tudo parece piorar... bem, menos mal, acordei e todos já haviam saído pro trabalho. Com minha empregada de férias o silêncio da casa só era quebrado pelo som das patas da minha cadela deslizando pelo assoalho. Até parece que entendia. De longe me olhava e não arriscava nem levantar a cabeça. Cadela idiota! Aonde eu vou, ela vai atrás. Bom mesmo que fique na dela, não estou pra papo furado! Papo furado!... O que fazer com os telefones? Aposto que vão me torturar, antes disso, vou dar um basta neles. Ao desligar o celular senti vontade de jogá-lo na parede. Caixinha infernal! Ele me persegue nas horas mais difíceis. Sempre cisma de tocar quando estou no banho, dirigindo, comendo, sem falar... deixa pra lá. Algumas horas são sagradas. O fixo, basta tirar da tomada. Mas... e se meu pai telefonar? Depois que ele voltou _ sobrou pra mim; falamos pelo menos três vezes ao dia. Essa é a parte ruim de ser a única por perto. E meu irmão? Não nega as origens. Como meu pai de bobo só tem a cara e sabe que o filho não tem paciência para a ladainha diária de um velho, então... liga pra mim. Também tem meus filhos e marido. Que droga! Não posso desligar. Enquanto ajeitava a casa pensava como atender ao telefone. Atendo e não falo nada? Pelo alô vou reconhecer a voz, dependendo da necessidade... e se a pessoa ficar muda também? E se do outro lado tiver um ser mal humorado como eu? Nisso o telefone tocou, afinei a voz e atendi: _ Carrefour Anchieta, bom dia! _ Desculpe foi engano! Putz! Não reconheci a voz, não deve ser ninguém importante. Dane-se! Quinze segundos depois, toca novamente: _ Extra São Bernardo, bom dia! _ Ué? Não era Carrefour mãe? Só liguei pra saber se seu humor tinha melhorado. Do jeito que vai, é já que você atende: Petrobrás Cubatão, bom dia! Cuidado! Poluição piora o humor. Depois de gargalhar, desligou. Tonto! Era meu filho. Quem sabe se cuidando das plantas consigo ver beleza no dia? Com o regador na mão o sol amortecia a vontade de melhorar. 28 graus! E o calor cozinhava meus miolos, não nasci pra lugares quentes, nem nove horas e o piso estava abrasador. A claridade doía nos meus olhos. Será que tem mais alguma lagarta no fícus? Gulosa de uma figa! Comeu tantas folhas do verde, espero que o rajado não sofra o mesmo. _ Nossa, como estão bonitas, duas pequenas árvores (sorri). Enquanto eu regava, a água escorria pelo beiral. Uma chuva de mentira pra alegrar as folhinhas. E novamente fui interrompida pelo toque do telefone. Agora, engrossei a voz: _ HSBC Sacomã! _ Dona Márcia, não adianta disfarçar, a vizinha de baixo está reclamando da água que está jorrando pela sacada da sala.
Não falei nada e desliguei. Muito besta essa vizinha! Afastei os vasos e continuei me fazendo de São Pedro. Ao erguer o regador vi minha sombra na parede. Um perfil escuro que como mágica derrubava pequenas gotas que explodiam nos galhos. Tanto que eu queria ficar sozinha e nem me dei conta da minha companheira. Sempre ao meu lado. Ora, esquerda, direita, atrás e na frente. Mesmo pisando nela, nunca me abandona e obscura, agora me colocava medo. Lembrei-me de um conto de Oscar Wide: Um pescador queria perder a alma para poder namorar a sereia. Sereias não têm alma. Para isso era preciso recortar a sombra. E ele conseguiu. Ah! A receita eu sabia. Olhei pra piscina esperando ver um “sereio”. Nada, nada além de pequenos peixinhos que aproveitavam o calor da manhã. De mais a mais, não adiantaria recortar, eu tinha um rastro maternal, paternal, enfim, familiar _ assombração múltipla! Além da sombra eletrônica, telefônica, canina e a da vizinha. Como me livrar delas? Luz e sombra caminham juntas. Maldita polaridade! Pensando bem vou tomar uma dose de florais de Boréia. Será mesmo que essa essência tem o poder do equilíbrio? Não, não vou arriscar melhor ir para piscina e que aquelas crianças não se aproximem de mim, pois hoje, estou mais para Moréia do que para sereia. Márcia Rodrigues 23.01.2005 Hábitos da moréia : Geralmente solitária, passa o dia entocada, vigiando a redondeza de sua toca. Reage violentamente à aproximação de outros indivíduos que ousem chegar muito perto, abrindo a boca ameaçadoramente e atacando com fortes mordidas o intruso. Normalmente, só sai à noite para caçar, alimentando-se principalmente de peixes, polvos e crustáceos.
Erva daninha. Devo ser alguém muito especial. Afinal por que as pessoas reagiram daquela maneira? Só tive o apoio dos meus filhos. Se bem que são meu sangue e mãe é coisa meio sagrada. Será? Quando resolvi fazer a segunda tatuagem, uma flor no pé direito _ peônia, não sabia que se tratava de uma planta vivaz, natural das margens do Rio Amarelo no norte da China, muito menos que era cultivada pelo seu perfume e beleza. Ali as terras são férteis, constituem belos e bons pastos e jazidas minerais. Pastos! Teria sido eu marcada como gado? Um acaso a escolha, depois de tatuada é que fui saber seu significado: símbolo de uma dinastia chinesa, onde era muito mais importante do que o hino e a bandeira nacional. Livre da política, a flor representa riqueza, em razão do seu porte e cores: vermelha, rosa ou branca. Também é definida como sinceridade, prosperidade, elegância e boa sorte. Que sou uma pessoa de sorte, sou mesmo; privilegiada eu diria, pois a prosperidade, durante a vida toda, rondou os meus caminhos. Sem dúvida, faltou liberalidade em seu simbolismo. E quanto a ser elegante? Sempre me disseram que sim, só que nunca coloquei fé nisso. Agora acredito! Sobre a sinceridade... trabalho ininterruptamente para ser uma pessoa melhor a cada dia. Ainda é a flor que rege o signo de aquário e o maior valor de ser regido por ela é a honra. Ao mesmo tempo são pessoas valorizadas por seus feitos e que transmitem extrema confiança. Tanto que estão associadas à imortalidade e por onde passam deixam saudades. Deixarei saudade? Sou imortal? Mas ela também estimula sonhos proféticos. Um texto num livro me torna imortal? Meio imortal! Na verdade não sei ao certo, sei que não sou chinesa e não confio Jamais pensei que daria tanto o que falar e nem faz vinte e quatro horas que fiz. Quase ninguém sabe. Há anos as pessoas tatuadas eram insígnias de rebeldia. Uma forma de protesto! Claro, marcavam seus corpos com desenhos horripilantes. Comumente, presidiários e marinheiros. Nunca cometi nenhum crime, minha ficha é limpa, além do que, enjôo ao navegar. E pensar que na antiguidade a flor era usada no tratamento de pesadelos, males do estomago e problemas respiratórios. Chá de peônias! Alucinógeno? Melhor deixar de sonhar e respirar fundo! Até que hoje a coisa é diferente, os desenhos costumam ser suaves e como “retruca” meu professor de literatura, é a forma mais primitiva de se enfeitar. Que sou perua não nego. Não nego mesmo! Além do mais, uma tatoo não faz de mim uma pessoa melhor ou pior, muito menos tem a capacidade de mudar meu comportamento. Não vou deixar de passar, lavar e cozinhar (que pena!), nem perder o carinho por ninguém. Quiçá! Deixar de amar os meus. Por certo, continuarei contando minhas histórias, escrevendo meus textos e estudando arte, com a sorte de estar um pouco mais “colorida”. Talvez eu tenha pecado no tamanho da tatoo, reconheço, abusei na dimensão das folhas e flor. E daí? Ora, sou maior que ela. Impossível diminuir, agora, Inês é morta! E isso me faz muito feliz, mas... posso tentar voltar no tempo, fazer de mim uma chinesa ou alterar a concepção da flor: “Peônias significam amar em exagero a vida e a todos, ainda simbolizam a satisfação de não possuir preconceitos”. Márcia Rodrigues 20. 01.2006


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