
Um deserto de medo e terror.
Quando acordei era 06h50min e passava da hora de levantar, gritei tentando acordar minha filha.
_ Perdemos a hora!
Como já era tarde, teria que levá-la pro trabalho. Enquanto ela tomava banho, liguei a tv do quarto e fui escovar os dentes. Do banheiro ouvi a notícia de que um tiroteio entre traficantes na Rocinha havia matado seis pessoas. Cerca de 40 criminosos invadiram a favela por diferentes acessos. Tudo pelo controle da venda de drogas.
_ Que coisa tenebrosa!
Dentro do carro estávamos animadas, 07h25min, ela se maquiava e eu dirigia tentando contar sobre a festa que havia ido na noite anterior, no entanto, como ela estava começando num trabalho novo, também tinha suas novidades, pouco tempo para tantas palavras.
Embora o trabalho fosse bem perto de casa, um trajeto de quinze minutos, a rua, por ser pequena e de uma só mão, complica um pouco.
Ao me despedir dela, 07h40min, pensei em dar um giro pela redondeza e achar outras formas de chegar naquela ruazinha. Se eu entrar primeira à direita, contornar a nova estação do metrô, depois à esquerda... vale tentar. Não deu certo, saí uma rua antes e sem alternativa fui obrigada a subir um viaduto. Que droga! Detesto esse caminho. Como pode uma via tão importante passar dentro da maior favela da cidade? Dei a volta e fui parar em outro viaduto, este até o final, dá no escritório da minha filha. De novo o mesmo caminho? Melhor cair pra direita... não essa avenida vive com o transito parado, vou pela esquerda, assim tenho a chance de pegar aquela via expressa, pelo menos lá, o transito flui. O acesso era asfaltado, um pouco estreito, mas... nada de transito, tudo livre. Nem me dei conta quando a rua acabou em frente a uma construção, um desses prédios populares, na verdade o asfalto é que acabou. Pelas laterais as passagens se estreitavam em vielas tortuosas. Só então percebi que estava dentro da favela, quis voltar, porém um caminhão basculante fechou a passagem. Agora só para frente, ou esperar que todo o concreto fosse descarregado, foi então que me desesperei, não queria ficar ali. Em vão tentei duas ruas _ sem saída, em uma consegui manobrar, na outra, só de marcha-ré. Sem alternativa voltei ao ponto da construção. Uma mulher gari fingia varrer aquele lugar e foi a ela que pedi ajuda. Claro! De uniforme laranja e vassoura na mão, era a única pessoa que poderia confiar. Abri o vidro do carro:
_ Moça, por favor, eu preciso sair daqui e não consigo.
_ Para onde a senhora vai?
_ Qualquer lugar, só quero sair daqui.
Já percebendo o meu desespero, pois minha voz tremia, chegou pertinho da janela e disse baixinho:
_ Vou até a saída com a senhora, mas tem que ficar bem perto de mim.
Com o vidro aberto, engatei primeira e fui devagar junto daquele anjo vestido de gari. A chuva da madrugada fez da terra uma lama mole e grudenta, ouvia o barro batendo nos pára-lamas e nas botas de borracha que ela usava.
De corpo avantajado, com os cabelos presos debaixo de um boné encardido, tinha uma expressão tranqüila e me parecia ser feliz. Com firmeza, apoiada em seu cajado, caminhava a passos largos. Se fosse um homem eu diria que era Moisés conduzindo o seu povo para a terra prometida. Assim, depositei nela toda a minha confiança. Pelas alamedas estreitas haviam carros estacionados dos dois lados. Ela à frente e eu atrás, ela passava com folga, eu, beirando os retrovisores. Com o braço indicava o caminho e eu seguia o meu “Moisés”. Que medo! Nem a linha de construção era respeitada, dependo da necessidade ela avança ou recua, em alguns pontos pensei que não conseguiria passar, nem a curva ela respeita. Sempre imaginei que lá no meio só encontraria barracos, barracos de madeira, daqueles que a física não pode explicar como suportam o segundo andar. Paro o meu arrebatamento, as casas eram de alvenaria e sobradadas. Sobrados estreitos se empoleiravam entre as escadas externas e decoravam as ruas, no andar debaixo alguns possuíam portas de aço que escondiam pequenos comércios, bares já estavam abertos. Com uma manhã clara estranhei as janelas fechadas. Claro! Todos indo para o trabalho, muitas pessoas pelas ruas. Sob os olhares atentos daquele povo, eu sentia medo e não entendia como percebia tantos detalhes. Não era pra menos, meu carro tropeçava nos pés das casas e a cada tropeço pensava
_ Pronto! Só subir aqui!
Quase engasgando, agradeci. Mais cinqüenta metros e estaria salva. Pelo retrovisor interno via aquele anjo laranja acenando. Quando alcancei o asfalto, às 07h52min, não olhei mais para trás. Não devo ter ficado dez minutos lá dentro. Agora queria chegar em casa para poder deitar e ficar quietinha. Talvez se eu dormisse poderia achar que havia sonhado, ou melhor, que tudo não passava de um pesadelo, só que ao descer do carro, despertei, pois sujei a barra da minha calça na lama que se acumulava no friso da porta, eu podia jurar que era areia.
Márcia Rodrigues
20.02.2006

Agonia e êxtase.
Não sabia o que estava acontecendo, uma angustia tomava conta de mim, tão forte que me incomodava. Às vezes tinha vontade de sair e andar sem rumo por horas e horas, não suportava ficar dentro de casa e quando ficava, chorava, “morria” de tanto chorar, nada estava bom. Nem música, que sempre foi como um remédio resolvia. Depois de uma semana procurei ajuda médica.
Pouco falei, chorei, chorei e reclamei que ao apertar a tecla do “dane-se” eu me sentia totalmente desestabilizada. Nada grave, ele concluiu. Assim saí de lá com um calmantezinho faixa preta. Simples, deveria tomá-lo pela manhã e a partir do quinto comprimido eu apertaria toda e qualquer tecla e ficaria feliz. Na bula as indicações mostravam tratamento contra depressão, distúrbio obsessivo compulsivo, bulimia nervosa, incluindo tensão pré-menstrual. Mas o que me assustou foram as reações adversas: ansiedade, nervosismo, diarréia, sonolência, dor de cabeça, insônia e náusea. Caramba! Só reclamei que ando agoniada! Um remédio para piorar? Como sou pouco influenciável comecei a sentir uma tonteira. Pelo menos era uma reação diferente de tudo o que eu tinha lido.
No dia do quarto comprimido, acordei pior do que antes. O remédio não fazia efeito. Muito agoniada resolvi sair, fui de carro, nem precisava pretexto, tinha que retirar dinheiro para pagar algumas contas: o salário da empregada, sapateiro, tintureiro...
Nada como um banho morno, roupas bonitas, batom e rua, a rua me esperava. Por fim, eu me sentia muito melhor fora de casa.
Pelo caminho decidi não ir ao banco, optei por um caixa eletrônico dentro do supermercado. Assim poderia me distrair, além de tomar um café e dar uma olhada nas poucas lojinhas que ladeavam os caixas.
Diante da máquina fazia as contas _ R$ 280,00.
Depois de um café, as vitrines não me interessaram, comecei a me sentir mal, melhor ir para casa. Além da falta de ar súbita, que me sufocava o peito, sentia que estava zoada, tonta mesmo. Um medo aterrorizante tomou conta de mim, precisava sair dali. Talvez lá fora o ar voltasse aos meus pulmões. Quase cambaleando avistei a saída, as portas automáticas embaralharam, os frisos vermelhos que demarcavam os vidros se confundiam na minha visão. Mas era fácil, pensei: “É só pisar e a porta se abre, nada complicado”. Na tentativa de apertar o passo, segui em frente e só senti o forte impacto, de costas fui ao solo.
Por um momento pensei nas coisas de valor que levava na bolsa, mas uma leveza tomou conta do meu corpo e esqueci até do dinheiro. Agora eu me desprendia do chão, levitava entre nuvens macias e brancas. De longe eu ouvia: “acorda dona, a senhora está bem?”. É, mas as chamadas se misturavam a um barulho intermitente de asas, como se fossem beija-flores. Seriam anjos? Eu teria morrido? Tudo escureceu. Por que acordar? O medo tinha desaparecido e agora eu respirava livremente, voava de costas e sentia as estrelas me tocarem. A cada esbarrão, clarões densos, fortes e brilhantes. Aquilo era o céu e Deus me chamava, ouvia e obedecia. Um vento frio corria meu corpo e me libertava do calor. Seria o piso frio do supermercado ou as asas dos anjos? Não sei, sei que durou pouco. Pena! Logo um daqueles clarões bateu diretamente nos meus olhos... senti como se fosse um alerta.
Enquanto um vulto bege me acomodava numa chapa quente, outro abria as minhas roupas e tirava os meus sapatos; um terceiro, vasculhava os meus pertences: _ Quatro anéis, aliança, um par de brincos, R$ 280,00, celular, cartão de crédito... É, eu estava morta, mas o que mais me assustava era não estar indo para o céu. Que medo! Creonte e seus ajudantes? Claro, eles vão ficar com tudo, até com as minhas roupas. Agora, bastava atravessar o rio do esquecimento. Sempre ouvi falar que duas moedas bastavam!... Por mais que eu quisesse ver, meus olhos não ajudavam, as imagens distantes eram distorcidas e interrompidas. Como se eu dormisse e acordasse, dormisse e acordasse. Aquilo era morrer? Depois me amarraram as pernas em dois pontos, os braços, a barriga, o peito e a cabeça. Pra quê? Como fugir? Não sei nadar. Ainda me cobriram com uma manta de alumínio e meu corpo mergulhou num calor profundo. Novamente voei uma distância curta, desta vez para dentro de um caixote. Era o inferno mesmo, nem percebi passar pelo rio, seria assada diante dos olhos de Hades. Muita gente ali comigo. Por que só eu estava deitada? Já que estava morta, por que mexiam tanto em mim? A caixa começou a deslizar, um grito cortante e insistente atravessava o ar num tom contínuo _ agudo. Quando parou achei que era o fim, uma fornalha me esperava. No entanto um cheiro de remédios e éter misturava-se nas minhas narinas. Ué! Não era enxofre? Que inferno era aquele? Com muito medo fui abrindo os olhos e dei de cara com um “diabo” loiro de olhos grandes e azuis que não parava de falar: _ Sabe seu nome? E o endereço? Tem idéia de onde está? Que coisa! Cadastro no inferno? _ Vamos dona, responda! A senhora está no Hospital Heliópolis! Já entramos em contato com sua família. Heliópolis? O hospital que fica praticamente dentro da maior favela da cidade? Graças a Deus eu não tinha morrido, mas, ainda que estivesse no inferno, não fui assada nem grelhada, só radiografada. Depois de algumas horas fui dispensada com um “galo” na testa e recebi de volta todos os meus pertences, inclusive o meu dinheiro. Quando me colocaram numa maca na enfermaria do pronto socorro, eu estava com as minhas roupas, nem percebi se tiraram, enquanto esperava pelo meu marido, calçava os sapatos e pensava no carro que havia deixado no estacionamento do supermercado. Novamente aquela angustia tomou conta de mim e junto com ela a vontade de desabar Márcia Rodrigues 05.02.2006
Upa lelê.
Depois de certa idade, deveríamos ser proibidos de cumprir alguns compromissos sociais. Assim como existe um estatuto para crianças e adolescentes, deveria existir um para os adultos com idade média. Este nos protegeria de alguns aborrecimentos. Dos idosos não esqueceram...
Durante a semana fui a uma festa de aniversário de um ano. Mesmo meus filhos não indo, sou obrigada a comparecer junto com meu marido. Ele não perde uma! De parentes, vá lá... Mas de gente quase estranha, ninguém merece! Sempre é a mesma situação:
_ Nasceu o filho do fulano, aquele que é cunhado do beltrano e trabalha no terceiro maior distribuidor de peças.
_ Quem?
_ Aquele que trabalhou comigo há dez anos e que hoje é diretor daquela multinacional. O que prometeu um bom cargo para o namorado da sua prima.
_ Lógico! Como esquecer? No jantar anual das fábricas é ele quem faz o discurso, sempre longo e chato.
Aliás, esse futuro primo só aparece aqui quando está desempregado e tem nos visitado muito ultimamente. Bem, melhor garantir o marketing familiar, pois, como diz meu marido: “o mundo é uma roda”, uns dias por baixo, outros por cima. No fundo, acho que isso é uma desculpa, no entanto... temos que ir.
Sorte que esses amigos são “bonzinhos”, só vem convite quando nasce um filho. Se bem que os mais políticos fazem questão da nossa presença no primeiro aniversário. Depois disso, caímos no esquecimento. Graças a Deus! E quando esses bebês crescerem e se casarem? Ah! Meu marido já estará aposentado.
Duro mesmo é agüentar a ostentação desse tipo de recepção. Como a pobre criança ainda não tem coleguinhas, o pai orgulhoso convida os amigos pessoais, sem esquecer os comerciais. Assim, esbanja as economias no melhor buffet da cidade e garante a fartura nos comes e bebes.
Quando chegamos fomos recebidos pelo dono da festa _ o bebê.
_ Upa lelê!
Já fazia um ano que não o via e ele nem se interessou em matar a saudade. Meio assustado tentava se esconder no colo da mãe, por vezes, pular para o do pai. Que lindo! Na hora concordei com Jô Soares, que diz que a gente nasce com as orelhas no tamanho definitivo e crescemos em volta dela, mas eu acrescentaria a testa, que também já vem ao mundo definitivamente evoluída. Bebês são todos igualmente belos ao nascerem, mas depois... alguns até que continuam bonitinhos, geralmente quando são nossos próprios filhos ou sobrinhos.
A simpatia do espaço me surpreendeu. Um salão com três ambientes. Quase nada de cadeiras e mesas, mas muitos, muitos brinquedos. Além de uma penca de monitores que distribuíam cornetas barulhentas. Tudo muito “agradável” e decorado, das paredes ao bolo, com esses motivos infantis que a mídia nos faz engolir. De bandejas em punho, garçons transados com roupas em cores berrantes apresentavam comidas e bebidas extremamente requintadas. Metade das pessoas eu não conhecia, a outra parte era puramente comercial, assim me senti mais à vontade.
Entre os brinquedos, monitores barulhentos e a mesa do bolo, conversávamos com um casal. Que azar! Justo eles que têm uma filha pequena, bem que eu queria evitar; claro, a conversa toma sempre o mesmo rumo _ peripécias infantis. Caramba! Não tenho paciência para isso.
Enquanto o pai mandava a pobrezinha fazer gracinhas, eu pensava: “ Vai garota, obedece ou seus pais vão passar vergonha”. Até que ela fez algumas, boa menina!... Tal qual o pai, a mãe exibida me contou que compraram a roupa de um desses bonecos da moda, um tipo dinossauro, e quando aquela “belezinha” entra na fase da rebeldia, o pai veste a fantasia, brinca e canta imitando o bicho, e assim, ela acaba obedecendo. Com a certeza de que fazem tudo certo, estão felizes por saberem que a filha tem um brinquedo exclusivo. Coitada! Sei que a figura masculina é importante na vida de uma criança, mas o boneco, além de roxo e verde, leva o maior jeito de “alegrinho”.
Não demorou muito e fui salva pelo telão, vez das fotos. Nessas horas, detesto a modernidade! Se fosse um álbum, correria de mão em mão e eu teria escapado. Agora uma música infantil tocava alta e as imagens apontavam desde a gravidez da mãe, passando pelo parto e o primeiro ano de vida. Ao meu lado uma mulher desaguava
Na saída, cafezinho com bolachinhas e licores. Festa de criança? Claro que sim, tinha “lembrancinha”: um tecido rendado e um laço de fita azul envolviam um pequeno porta-retratos, onde, numa foto, o aniversariante sorria tímido. A embalagem era bem bonita!...
O que fazer com isso? Não sei. Talvez eu possa usar como prova forense na reivindicação do estatuto dos adultos com idade média. Melhor guardar.
Márcia Rodrigues
30.01.2006
“Bens” guardados.
Naquela noite meu marido chegou carregando duas caixas de papelão, além da pasta e do guarda-chuva.
Putz! Como eu gosto de novidades! Enquanto eu o ajudava a se livrar de tantas coisas, meus olhos esticados e curiosos esperavam que ele dissesse o que continha naquelas caixas. Em forma quadrada, muito colorida, a pintura recobria as laterais, quase uma obra de arte, sugeriam duas telas. De um lado cores claras e do outro, escuras. Não expressavam formas, mesmo dividindo a tampa ao meio, conviviam
_ Que caixas lindas!
_ Um brinde, adquirimos para presentear.
_ Clientes?
_ Sim, clientes, mas esses são teus! Acho que vai gostar, são iguaizinhas.
Ao pegar senti o peso. Jamais poderia imaginar o que ela guardava. Que vontade de abri-la, no entanto a beleza das cores aprisionava meus olhos. Realmente eram duas pinturas. Depois de alguns minutos observando, levantei a tampa com cuidado e fiquei deslumbrada _ uma coleção de xícaras. Meia dúzia das de café em cada uma. Bem que estava precisando. Adoro café! De fundo branco, combinava com o pires e possuía um filete na mesma estampa da caixa. Em três delas, as cores escuras e nas outras três, as claras. Lindas! Um folder dizia que a decoração da porcelana tinha sido feita com fragmentos de duas telas. Ambas de novos talentos reconhecidos por uma escola de artes plásticas. Muito interessante!
Mal terminei de colocar a comida e ansiava por retirar, queria tocá-las, além de lavá-las e enxugá-las. Longos minutos, quase uma hora até que eu pudesse estar com elas. Durante o jantar perdi a vontade de comer e cravei os olhos na cristaleira procurando um lugar de destaque. Que tal acomodá-las naquela bandeja de sisal?
Após tirar a mesa e enfiar tudo na lava-louça, depositei dentro da pia as doze xícaras. Eram delicadas demais para serem lavadas tão impessoalmente por uma máquina. De mais a mais, poderia arranhar a pintura. Da gaveta, tirei o mais branquinho dos panos de prato, esticado ao lado da cuba, ele esperava por elas.
Um fio de água constante escorria da torneira e molhava as porcelanas, respingando nos pires. Enquanto elas se refrescavam fui preparar um café. Ademais, a boa qualidade do pó pode ser mais bem apreciada numa xícara bonita. Que besteira! Um bom café, não deixa de ser bom pelo pote em que é servido. Mas elas não eram simples xícaras, e sim verdadeiras taças com alças. Logo que liguei a cafeteira elétrica senti falta de um coador de pano. O café ficaria mais saboroso. Na verdade combinaria uma cafeteira italiana, daquelas que vão para o fogo com pó e tudo. Como não tenho nenhum dos dois... ah! e aquela expresso italiana? Está lá no alto do armário, amanhã eu pego.
Ao passo que o aroma do café passeava pela casa, eu acariciava as xícaras.
Na esponja macia, cheia de espuma, um brilho intenso descortinava, muito mais realçado quando as enxaguava. De bruços, umedeciam o branco do pano.
Agora, a bandeja. Nossa! Como está empoeirada! Não dava pra lavar, poderia estragar e... melhor forrá-la com uma bela toalha. Vou usar aquela que meu marido trouxe da Bélgica. Os bordados belgas são dos mais bonitos do mundo. Onde eu as escondi? No fundo da gaveta! Bem guardadas e amareladas. Também? Nunca usei. Amanhã dou um jeito nisso. Quem sabe posso engomar?
Quando comecei a enxugar, percebi a forma perfeita, sua espessura era dupla e a alça era meio achatada, dando estabilidade ao segurá-la. Delicadíssimas! Não vou colocá-las na “dança”, não mesmo. Ah! Mas sou tão cuidadosa e gostei demais delas, vou usar pelo menos uma vez. Assim servi o café e me sentei para saborear. Ele ou a xícara? Mesmo sem o pires ela era maravilhosa. Tinha as bordas robustas que se encaixavam perfeitamente aos meus lábios. Um sonho! Tanto que fechei os olhos para poder sentir o apuro do aroma, porém ao levá-la novamente à minha boca ela escapou e foi ao chão, partindo-se
Em frente a cristaleira fui surpreendida por minha filha:
_ Mãe, larga de ser tonta! As toalhas já estão manchadas, a cafeteira expresso, você nem sabe onde está de tão bem guardada. Sem falar do trançado de sisal que é só poeira. Tudo por falta de uso. Por que poupar os objetos?
Com a bandeja na mão e ainda chorando respondi:
_ Na China antiga tinha “consertador” de porcelana, ele ia de casa em casa.
_ Mas não vivemos na China mãe.
_ Está certo, vou guardar no armário da cozinha, entre as coisas de uso diário.
Antes de jogar o pires no lixo e aproveitando que estava na área de serviço, escovei a bandeja debaixo d’água e coloquei as toalhas belgas de molho. Depois, fui procurar a cafeteira expresso. Afinal eu posso beber um bom café na melhor xícara e sobre a toalha mais bonita. Eu mereço!
Márcia Rodrigues
31.01.2006


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