
“Trote” à francesa. Sempre gostei de bolsas, desde menina. Não me lembro da primeira, talvez tenha sido aquela pasta de lona preta onde acomodei meus primeiros cadernos. Se bem que aquilo passava longe do meu sonho de consumo. Na humilde elegância da minha mãe e irmã, via bolsas de ráfia. Depois, uma de couro branca e outra preta que elas usaram numa festa de casamento. Mesmo tendo várias, nunca havia me ligado em grifes, até que uma marca francesa roubou minha atenção. Nem tanto pela beleza, pois ela parece ser de plástico e tem sempre a mesma estampa; duas letras entrelaçadas e, ao lado, umas estrelinhas ou flores, não sei bem, para mim, meio sem estilo. Mas como é moda no mundo inteiro... algumas das minhas amigas, as viajadas e ou as ricas, possuem mais de uma. Foram elas que me ensinaram a reconhecer a procedência. Sim, porque o mercado paralelo há muito dá conta de falsificar. Tão simples distinguir; nas verdadeiras as costuras não atingem as estampas, quanto às “falsiês”... Só que uma outra amiga me disse que, se você for altiva e esnobe, ninguém vai duvidar que sua bolsa seja legítima. É, conselhos sobram, mas... se era para eu ter uma, que fosse original, nem ligaria se a mais barata. Não! mais barata não, afinal eu tenho estirpe. Na verdade pareço uma madame de bornal, nunca de bolsa importada, no entanto, sigo o conselho, vivo de nariz empinado. Assim, com dois endereços, resolvi visitar as lojas e fazer uma pesquisa, o que não significava comprar, pois sei que os preços são taxados em dólares e na minha classe social a gente só vê os “verdinhos” em travelers check, isso quando conseguimos financiar a sonhada viagem dos filhos para a Disney, caso contrário, muito raro. Uma delas fica no shopping mais elegante da cidade, a outra, entre as alamedas mais “caras”. Qual escolher? No shopping, ficaria babando diante da vitrine, se é que eles exibem as bonitonas. Duvido que coloquem plaquinhas indicando os preços! Por certo, na da rua eu poderia disfarçar, parar e olhar como quem não quer nada... talvez tropeçar ou fingir que fui assaltada, quem sabe alguém me socorreria e, depois de um copo d´água _claro que de cristal _e aproveitando que estou lá dentro, demonstraria interesse. Mas esse tipo de vendedora não laça o freguês na calçada. Ai como sou pobre! freguês... ali somos clientes ora!. Melhor, vou de carro, caso o trânsito ajude, estico os olhos de longe, se achar que dá para encarar faço de conta que meu carro quebrou e, elegantemente, peço para usar o telefone. Não “pega”, hoje em dia todo mundo tem celular! Mas posso dar uma de excêntrica e fingir que não tenho o aparelhinho ou mesmo dizer que a bateria acabou. Que nada, vou entrar e ponto! Quando cheguei à rua o trânsito fluía bem, ao me aproximar conferi a numeração e estacionei. Intimidada pelo luxo, relutei em entrar! No mesmo tom do requinte da decoração, um banco em madeira nobre e trabalhada repousava na entrada sob peças de ipê enceradas, pelas laterais pequenas árvores em vasos gigantes, dispostas e podadas milimetricamente, imitavam uma praçinha, só faltou o chafariz. Sobre duas vitrines discretas e dois biombos de treliça, os emblemas da marca imponente, jamais permitiriam expor valores. Aquilo tudo fez com que eu me sentisse uma caipira. Desisti! Quem sabe no “mercado livre” da internet eu poderia ter idéia de quanto custaria uma daquelas bolsas.
Em casa e totalmente desanimada, liguei o computador e tão logo abri o site veio a surpresa: R$ 69,90 mais R$ 10,00 de frete, inacreditável! o mouse foi descendo, R$ 79,90, R$ 400,00, R$ 700,00, R$ 1.399, 00, R$.1200,00 ... a mais “salgada” custava R$ 1.600,00. Nada inatingível, sem dúvida a mais cara foi a que mais me atraiu. Caramba, ela não tinha graça! Mesmo sendo grande, só tinha as duas letrinhas em tamanho mixuruca em um dos cantos, uma ninharia da estampa famosa, já a de R$1.399,00... bonitinha, quase no formato de uma cesta, era bem estampada... além de pequena como eu gostava. Porém, não entendia o porquê da variação dos preços. Voltei a tela, em destaque um “original e em bom estado” acendia e apagava ao lado da foto da bolsa. Ah! Isso era demais, pagar esse absurdo num artigo usado? Com certeza as mais em conta eram falsas. Claro que sim, minhas amigas sabiam das coisas, bastou ampliar a imagem e vi que as costuras recortavam a estampa. Ainda tinha uma saída, e se conseguisse uma com cara de original no shopping a céu aberto da cidade? Mesmo não sendo chique fazer compras naquele lugar eu sabia que tinha de tudo. Agora, se eu der de cara com uma cangalha, desisto da bolsa e compro uma bruaca... porque, depois dessa romaria, minha estirpe vai pender mais para cavalgadura do que para madame. Márcia Rodrigues. 27/03/2006

Até que a arte nos separe Enquanto a terra seca e macabra empoeirava meus sapatos brancos, eu me divertia correndo e levantando poeira, tentava alcançar meus pais e meu tio. Já era a terceira ou quarta vez que passávamos naquela quadra. Cercas baixinhas demarcavam uma área retangular e uma cruz branca de madeira, corroída pelo tempo, anunciava o dono do espaço demarcado. Nada de epitáfios. Porém em alguns uma lata de óleo aberta na lateral fazia as vezes de um castiçal, nela, velas acesas brigavam com a obscuridade. Uma luta fácil! Claro! Estavam protegidas do vento. Em outros, a grama verde teimava em crescer, o pouco se misturava às flores de plástico. Na maioria deles só terra. Aqui jaz... mortos esquecidos e abandonados na “formosura” do campo santo. Não, não tínhamos esquecido da tia Maria, no entanto não achávamos sua cova. Além de ser muito grande aquele cemitério, todos os túmulos pareciam iguais. Democracia na pobreza, a miséria da municipalidade. Dentro dos olhos do meu tio uma tristeza profunda se instalava. Como ajudá-lo? Não fui ao enterro, minha mãe disse que era muito longe e que deveria ficar. Nas minhas lembranças eu tinha a simplicidade da cozinha que serviu de velório. Até que o azul da fórmica da mesa e do guarda-comida combinou com os babadinhos de plástico lilás do caixão. Ainda no mesmo tom, flores murchas se deitavam sobre o corpo vestido com uma mortalha de cor roxa escura e nesgas quase douradas, talvez fossem amarelas, não me lembro bem, só sei que o amarelo alegrava um pouco a cena. Em sua religião não permitiam velas. Menos mal, pois entre um café e outro que era coado na pia, um pouco da água respingava nos pés da morta. Água benta? Não fazia três anos que havíamos enterrado a coitada e ninguém sabia o local. Que povo esdrúxulo esse meu, nem pra cuidar dos nossos mortos. E o pior, perderam a sepultura. Também o que faríamos com os ossos? Jamais entendi. E vou morrer sem entender, nunca a localizamos. Desde menina eu me sinto meio gótica. Tudo bem que adoro cemitérios... mas será que esse mal é congênito? Minha avó dizia que quando meu avô emburrava por qualquer motivo sumia dos olhos dela. Só que era por pouco tempo, bastava ir ao cemitério da cidade e o velho estava lá, deitado sobre uma tumba de algum desconhecido. Não me livrei dessa herança mórbida. Com a desculpa de adorar esculturas vivo perambulando pelos campos santos da cidade. Com uma lista de obras de arte nas mãos, parei diante do portal poderoso que desponta na consolação da morte, sabia que era o primeiro cemitério da cidade e o maior museu a céu aberto. Uma alameda rodeada de árvores levava direto à capela. Capela ou velório? Pilares gregos protegiam o local, relevos de caveiras e ossos em x decoram a mesa mortuária e inclinada. Não pude reparar muito, tinha um povo choroso que esperava um morto importante. Sim por que ali só mora cara importante: escritores, presidentes, empresários, mecenas e a mais respeitável nobreza marítima. Lá os túmulos são verdadeiros latifúndios... na maioria majestosos e bem cuidados, mas há os que estão meio arrebentados. Gente rica também é esquecida! Diferentemente da formosura de outros campos, eu caminhava por alamedas asfaltadas, entrelaçadas por galhos de árvores e esculturas gigantes. A cada passo sentia o olhar frio dos mortos nos meus pés. Muitos eram os entalhes que eu gostaria de ver, em especial procurava pelo mausoléu da família Jafet, o conjunto de maior valor simbólico. Sem esquecer das obras do escultor Brecheret. _ Por que não marquei visita monitorada?
Logo na primeira rua dei de cara com a sepultura da bem feitora marquesa de Santos, simples, sem grandes luxos e com um anjo no topo que mais tinha cara de safado do que de abençoado. Talvez eu o visse assim, tão sem vergonha, pela influência da história. Depois do enterro da minha tia ouvi, às escondidas, que ela teve um amante, um caixeiro viajante. Minha mãe sempre dizia: É... mulheres adoram homens livres! E eu sempre pensava: Outras odeiam as que se fazem livres! Agora um muro separava os católicos dos protestantes. Se Deus é um só, por que a divisão? Meus olhos admiravam as estatuárias de anjos, crianças, cachorros, frutas... coisa mais esquisita! Um homem grande, grande mesmo, talhado em pedra, tinha mais de três metros de altura e encostava-se a um jazigo vertical jogando a cabeça para trás e murchando a barriga, parecia faminto. Quem sabe faminto de vida? Seus pés estavam cravados numa pedra como garras. Minha tia morreu aos 48 anos. Que figura estranha! Estranho mesmo era o túmulo de um general que tinha sobre a lápide meninas brincando, brincando como eu naquele dia em que procurávamos a campa perdida. Quase comum era a estátua de uma mulher debruçada sobre alguns sepulcros, tinham várias espalhadas pelo cemitério, todas iguais e na mesma disposição. Mesmo depois de mortos os ricos continuam ricos e até invejosos. Sem parar fui circundando aquela ala e dei de cara com a última morada de Monteiro Lobato, um mármore preto e bem polido, nem de longe lembrava o “pica-pau amarelo”. Agora a ala maior me esperava, ainda faltavam os Penteados, Matarazzos e Jafets. Não demorou muito e achei o meu Brecheret preferido, no túmulo de Olívia Penteado um cristo morto e mulheres chorando _ Sepultamento. Também chorei quando a tia Maria morreu. Entre grandes anjos, vi a mais fúnebre delas, em mármore luxuoso, uma mulher chorando sobre um caixão, na mesma posição em que vi minha avó sobre o da minha tia. Horripilante! Agora assustador foi ver a catacumba do fundador da escola de artes mais cara da cidade. Assustador por que possuía o mesmo aspecto da sua casa. Tinha muro no quintal da minha tia? Nem cerca tinha... Perto dali um sepulcro em formato de catedral no estilo gótico, parecia ter um relógio. Horas mortais! Meu avô iria adorar, até por que tinha porta. Agora o dos Matarazzos, um exagero na altura, mania de grandeza mesmo após a morte, um amontoado de bronze e mármore guardados sobre os olhos baixos de uma “concordata” Pietá. E pensar que faliu. Deste meu avô não iria gostar, pois dizia ter perdido anos dentro de uma das fábricas desse cara. Bem verdade que ele nunca foi chegado ao trabalho. Após andar por quase duas horas, achei o que mais procurava _ o de Nami Jafet, não tão alto quanto os outros, mas impressionante pela postura. Um navio imaginário que flutua sobre uma base de granito, tudo muito admirável e Quando resolvi ir embora uma chuva forte de verão se anunciava, na pressa mal pude ver Orfeu em vão tocando sua lira, Eurídice nem se mexia. Nesse alagado de silêncio e lágrimas deixei para trás um rio seco de ostentação e fama, mas saí afogada de saudade dos meus mortos, principalmente dos perdidos. Márcia Rodrigues 06.03.2003

Peregrinando.
Enquanto meus olhos percorriam o palco gigante montado onde acontece a concentração das escolas de samba, um hambúrguer sujava os meus dentes. Tudo grandioso, da arquibancada montada ao estacionamento improvisado num terreno sujo por restos perdidos de fantasias. Estranho, ali não era lugar de rock, mesmo porque a arena tem nome de cerveja ... cerveja me parece tão brasileira...
Da outra vez que estive ali, para ver o carnaval, meus olhos não alcançaram aquela coxia. Com uma massa de pão girando na boca, eu tentava encontrar espaço para os carros alegóricos, a bateria e o povo dançante, mas a minha dita modernidade não permitia e me induziu a estar novamente ali, agora levada pelos acordes de uma guitarra. Na verdade, percorrer caminhos atrás de música barulhenta fazia com que eu me sentisse mais jovem, mas samba também tem barulho. Mesmo procurando, não achava juventude no rosto de ninguém, seria por isso que não via ginga nos pés daquele público? rock para coroas? No entanto, hoje até que era justificado, pois o cara que iria tocar é o responsável pela “latinização” do estilo.
Debaixo de um céu que raramente tem estrelas, a lua imperava majestosa, emprestando seu brilho e fazendo da noite de sexta o maior show. Ainda bem que copiei os caminhos do meu irmão... também, com a diferença de idade, tinha que optar entre ele e nossa irmã que, sempre comedida, lia foto-novela e ouvia música brasileira, numa época em que o romantismo de Jerry Adriani , Agnaldo Rayol , Cauby Peixoto e outros, caminhava em paralelo com o dos Beatles, porém, como mais velha, era certinha demais para me contaminar e preferi meu irmão que, aos 15 anos, já tinha carro e ouvia o som do rock numa vitrola barata. Modismo? desde pequena sou influenciável, se bem que eles
eram meio alienados; ela nunca quis queimar o soutien e ele se fazia de hippie.
Agora faltava menos de quinze minutos para o espetáculo começar, minhas pernas já balançavam esperando os acordes. A promessa era de um show movimentado. De câmera na mão esperava que o roqueiro famoso colocasse os pés no palco, só queria tirar todas as fotos possíveis e impossíveis... mais um álbum para que eu pudesse exibir, caramba! eu estava ali para curtir e dançar ou para fotografar? mas era preciso registrar o momento. Tudo programado, algumas fotos e a pouca memória que tenho na minha digital seria guardada para fazer o filme da música que eu mais gostava _ corazon espinado.
Assim que começou, não pude aplaudir, só disparei o flash na direção do palco. Da arquibancada eu via pouco, mas o telão... fotografei o telão. Sem parar eu pulava, cantava e dançava. Ao mesmo tempo pensava no privilégio de estar ali ao vivo, diante do meu ídolo, um cara de quase 60 anos. A cada música um grito, não era pra menos, o ritmo era alucinante e como conhecia bem e gostava de todas elas _ cantava, mesmo não falando inglês, muito menos espanhol, mas o som era bom, uma mistura de instrumentos de percussão com os de corda. Sem falar na bateria que era “animal”. Depois de uma hora de show veio o que eu não esperava, ele tocou uma música lenta e longa do blues man que mais admiro.
Perfeito! Só essa música valeu o ingresso. Não precisava ouvir mais nada, o cara sabia mesmo como agradar. Quando a música acabou, o palco ficou às escuras, hora do bambambã tomar água e descansar, em seu lugar entrou o baixista com a camisa da seleção brasileira, entre o verde e o amarelo, o público vibrou...
Lentamente seu baixo soava acordes mais que conhecidos e aos poucos fui percebendo, a música falava da “senhora de aparecida”, de ser caipira pirapora nossa e todo mundo cantou. Naquele momento os megas destinados ao “corazon espinado” foram esquecidos. Agora eu gravava o som que falava das minhas raízes e do lugar onde eu vivo. Realmente meu coração ficou atravessado.
Logo que a música terminou, resolvi que descansaria no fim de semana. Afinal na segunda precisava estar restabelecida de tanta emoção, pois junto da esquina mais famosa da cidade, queria beber a cerveja mais gelada e ouvir a nossa música, ainda me rasgar em tietagem e me render ao show do Cauby Peixoto. Não posso esquecer de descarregar as fotos. Quantos megas de memória seriam necessários para gravar “Conceição”?
Márcia Rodrigues
19.03.2006
Wave Enquanto a comida borbulhava nas panelas fui até a sacada e, tentando me enganar, olhava para a piscina quando fui interrompida pelo toque do telefone, era meu marido: _ Oi, quer sair para comer? _ Seria bom, mas estou terminando o jantar. _ Desliga tudo, vamos, em dez minutos eu chegarei. O que você acha de comermos camarões naquele restaurante que toca música ao vivo? _ Camarão, música? Eba! Estou descendo. Que bom, ele anda tão mal humorado ultimamente. O que será que aconteceu? Com a noite tão bonita, quem sabe um jantarzinho ajudaria? Mais do que depressa reforcei o perfume e desliguei o fogo de todas as panelas. Quando entrei no carro ele sorriu elogiando meu conjunto salmão. Até a cor da roupa acentuava a saudade do mar. Mal viramos a esquina e ele perguntou sobre o IPVA do meu carro. Como sabia que ia sobrar pra mim, respondi olhando pela janela: _ Está em casa! Bastou! Agora o assunto da noite acabava de ser eleito. Quase transtornado, revirava os olhos e dizia não entender como documentos importantes ficavam na gaveta e não na minha bolsa. Caramba! Mas falta pagar a terceira parcela, depois colocaria na carteira. E se eu fingir que não é comigo? posso dar uma de morta. Mesmo assim ele martelava: IPVA, IPVA, IPVA... Da mesa eu via a parede azul do estacionamento, na verdade um paredão com uma praia pintada nele, barcos, pessoas se bronzeando, bebericando, outras mergulhando ou surfando em ondas gigantes, todos pareciam se divertir sob a luz de um sol que refletia o brilho verdadeiro da lua quase escondida por uma nuvem rala. Do lado de dentro, pregado à volta do salão, um mar ilusório com: pequenas conchinhas, peixes, cavalos marinhos, estrelas do mar e ainda um monte de nós de marinheiros acomodados em quadros, tudo ali lembrava praia. Depois de fazermos o pedido, ele amargava uma cerveja e eu adoçava um suco, ou seria o contrário? Ao lado uma família grande e barulhenta jantava feliz, na ponta da mesa um homem, que parecia o patriarca, ria e mexia na barriga, na outra um menino magro e moreno salgava as batatas toda vez que se servia de uma. Bem, estávamos na “praia” ... tanto sal... sal? nunca vi uma salina, mas acho que agora eu saberia como era uma, pois a noite, além de longa, prometia ser salgada. Pelo menos se começassem a tocar, desde que chegamos só ouço o ardido do IPVA e dos instrumentos sendo afinados pelos músicos.
Tanto tempo que não via o mar, esses dias abafados e calorentos apertam ainda mais a minha saudade. Se bem que não sou muito de praia, mas sou maluca pelo cheiro da maresia e o poder da grandeza que mistura o azul da imensidão das águas com o do firmamento, tudo isso me trazia a vontade de correr ao encontro dele. Já era tarde, passava das seis e enfrentar
Quando chegou o prato (camarões com legumes e arroz colorido), a música tocou _ Wave. Vou te contar /Os olhos já não podem ver /Coisas que só o coração pode entender /Fundamental é mesmo o amor /É impossivel ser feliz sozinho. _ Preciso ir ao dentista, acho que o implante não deu certo. _ Estou falando do nosso filho. _ Nossos filhos só ligam pra você! Enquanto eu saboreava a carne generosa dos camarões, ouvia a música e as reclamações. Assim fui perdendo a graça da noite e o charme do mar, impossível manter o humor numa situação, mesmo com comida boa, mas também com dentes, filhos e IPVA. Naquele momento meu marido parecia chateado e fazia questão de me lembrar que na noite anterior tinha trazido flores e bombons pelo “Dia Internacional da Mulher”. Senti que os “nós” estavam estampados no meu rosto, nós cegos! e não era pra menos, ele não entendia que eu precisava de outras coisas, das pequenas coisas... só então pude compreender o porquê do convite. Ainda se estivéssemos deitados na areia sentindo a força do vento, quem sabe comendo um espetinho de camarões magros e miúdos ou mesmo namorando entre beijos e mordidas, deixando escapar uma conversa boba... ah! seria muito melhor, com certeza eu suportaria até falar também de IPTU. O resto é mar /É tudo que não sei contar /São coisas lindas /Que eu tenho pra te dar /Vem de mansinho a brisa e me diz /É impossivel ser feliz sozinho. O jantar se “arrastava” moroso demais, mesmo assim eu tentava me animar com a música que ouvia. _ E não é que bossa nova combina com camarões? Nada de resposta, ainda bem que não fomos para a praia, já pensou se na estrada um guarda nos parasse e pedisse os documentos do carro? se bem que pedir os documentos não seria nada, o duro seria explicar porque o IPVA estava em casa e não na minha bolsa. Depois de pagarmos a conta, levantei e saí cantando, talvez no estacionamento eu conseguisse matar a saudade do mar, molhando os pés nas ondas da parede. Da primeira vez era a cidade /Da segunda o cais e a eternidade /Agora eu já sei /Da onda que se ergueu no mar /E das estrelas que esquecemos de contar /O amor se deixa surpreender /Enquanto a noite vem nos envolver. Márcia Rodrigues 10.03.2006
Então tentei quebrar o silêncio; falei que nosso filho havia ligado e que passaria o final de semana com meu irmão numa trilha de jeep.
Crédito e cobrança.
Que exagero! Tudo bem que era o terceiro mês que eu estourava o limite de crédito do cartão. Mas cancelar? não precisava tanto. E ainda teve o “topete” de falar que só me devolveria se eu pedisse e se provasse que saberia usar com responsabilidade. Vai morrer esperando. Nem morta!
Talvez se tivesse diminuído o limite... pois eu só gastava com a nossa casa e filhos. Além dos oito jogos de lençóis e três edredons, comprei aqueles cinco pares de sapatos, tudo na liquidação. A diferença? gastei no cabeleireiro. Não sei do que ele reclamava tanto. Ainda fui boazinha, deixei os tênis das crianças pro outro mês... não entende nada de casa e vem dar palpite.
É, mas o castigo foi longo, dez anos. Sabe lá o que é uma mulher sem cartão de crédito por dez longos anos? eu sei...
E com isso dei inicio a era das grandes manobras. Não bastavam as datas teoricamente comerciais, era preciso inovar e fortalecer cada uma delas.
Então comecei a fazer um planejamento minucioso dos bens de consumo. Um para cada data especial. Confesso, não eram suficientes: Aniversário, dia das mães, aniversário de casamento e natal. Ainda bem que eu já era mãe e o melhor, como eu tinha dois filhos, era certo ganhar dois presentes. No aniversário de casamento até era bom, no começo era, uma jóia, um jantar e depois umas esticadas num motel, esticadas mesmo, das três horas, duas e meias eram de sono. Homens vivem cansados. Porém com o tempo isso acabou, ficou só a jóia e o jantar. Jóia era obrigação, e pra mim pouco, pois cuidar dos filhos, administrar a casa, além de lavar, passar, cozinhar e engraxar sapatos, merecia pelo menos uma jóia por mês. Quanto as horas de motéis... nem me esforcei
Nem gostava de pensar na falta que me fazia comprar bijus, maquiagem e sapatos. Que mal tinha em querer todas as cores de batom? Poxa, e ter um sapato para cada roupa? claro que combinando com a bolsa. Isso é pecado, privar uma mulher dessas “pequenas” coisas é pecado mortal, deveria fazer parte da lista dos dez mandamentos, nem precisaria aumentar só alterar:
“Não oprimir a sua mulher, só assim não desejarás a do próximo, por que se a sua se transformar numa bruxa, certamente cobiçarás outra”.
Nosso casamento estava em risco e ele nem desconfiava. Ao me apresentar a um amigo, esnobava sobre o que eu lia e fazia. E mais, estar elegantemente vestida era uma obrigação. Ler? E os meus livros? Certo que gosto dos mais caros, mas estudar arte e contar histórias é assim. Por certo se orgulha em dizer que sou isso e aquilo. Quando ele vai entender que para poder ser tudo isso, preciso de tudo aquilo?
Minha vida se tornou um inferno. Bem que eu tentei instituir como dia especial a páscoa, o dia dos namorados e o internacional da mulher... qual o quê; namorada ele deixou claro que eu não era. Chocolates? deu a entender que eu estava além do peso, depois disso passei a odiar o “coelhinho”. Quanto ao dia da mulher... deve ter esquecido que eu fazia parte do sexo frágil.
Sem perceber, virei escrava de mim mesma. Nunca mais mandei roupas para o tintureiro, eu mesma lavava os ternos, tapetes e edredons, único modo de descolar uns trocos. Duro mesmo era não ter a nota para apresentar, um dia eu alegava que perdi, no outro que o cachorro comeu ou que voou pela janela, essas mentiras sociais que eles conhecem e fingem acreditar, homem é bicho superior. Legal mesmo era fazer compras na farmácia, eu vivia precisando de um antibiótico, dava até pra livrar um perfumezinho importado, foi numa época de grandes infecções e minha mente vivia “inflamada” por idéias consumistas.
O tempo foi se arrastando e o meu orgulho não permitia pedir o cartão de volta. Que falta me fazia! como provar que eu tinha amadurecido? quase dez anos sem o maldito não era o bastante? nada fácil ludibriar um homem.
Depois de pensar, pensar e pensar, encontrei uma solução. Se ele me desse um cartão com limite pequeno e pré-estabelecido, bastaria eu usar menos que o proposto e com certeza logo compartilharia o crédito total que nos é oferecido. Quanto? cem, duzentos, trezentos? R$500,00, era o mínimo para uma mulher do meu porte e ele que se dê por feliz, sou baixinha.
Após uma noite de amor que fui complacente com todos os desejos dele, fiz o pedido; além de jurar não gastar muito, prometi responsabilidade. Não sabia que seria tão fácil, uma semana depois recebi o meu cartãozinho. É, cartãozinho mesmo, “quinhentinhos” não dava nem pra começar, queria mesmo era fazer um estrago e justificar os dez anos de seca.
Como o cartão chegou numa sexta-feira à tardinha e meu marido já estava em casa, não pude fazer nada. Mas... mais do que depressa liguei para duas amigas e, resolvida a me vingar, marquei um almoço para o sábado num bairro badalado. O lugar era ideal: caro, de bom gosto e de gente bonita, combinamos às 12 no “Ora Pois” ! Melhor seria no “Galinheiro Grill”, um pouco de paquera apimentaria ainda mais a minha vingança, tudo estava de bom tamanho. Assim, no outro dia, saí cedo de casa e uma passada na livraria antes do almoço só serviria para abrir o meu apetite, quem sabe comprar também algumas coisinhas básicas? bela invenção essa coisa de dinheiro plástico.
O almoço não poderia ter sido melhor: bacalhau ao murro e um bom vinho. Só de esmurrar aquela batata... mesmo assim precisava mais, comprei livros de arte _ R$ 220,00, um perfume _ R$ 128,00 e o almoço com as amigas _ R$ 150,00. Caramba, eu havia prometido não chegar perto do limite! só que “ter com o que pagar e ainda ver aquele bando de homens bonitos, não tem preço”.
Márcia Rodrigues
08.03.2006
Dia Internacional da Mulher
DIA 8 DE MARÇO
Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma no mundo todo.
O QUE SE PRETENDE COM A CELEBRAÇÃO DESTE DIA
Pretende-se chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher e levar a uma tomada de consciência do valor da pessoa, perceber o seu papel na sociedade, contestar e rever preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à mulher.


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