

Negócio da China.
Logo que nasceu o meu segundo filho, entendi que a tarefa seria árdua. Depois de levantar cedo, deixava as crianças na escola/berçário e passava o resto do tempo trabalhando em um escritório, exercendo a minha suposta carreira de secretária. Quem sabe em dez anos, se tivesse sorte, fosse transferida pra diretoria? No final do dia ainda fazia as compras no supermercado, cuidava da lavanderia, tinturaria, por fim pegava os pequenos e, em casa, nem bem chegava e tinha que dar banho, fazer o jantar, arrumar as bagunças, brincar com os anjos e me sentir disposta para uma noite de amor, uma maratona! Mas o desgaste transformou a minha vida numa meia vida, melhor, numa vida “meia boca”, tudo ficava pela metade. Não durou um ano e resolvi parar de trabalhar fora, abrindo mão daquela trilha promissora e me transformando, em tempo integral, somente mãe e dona de casa. O que uma mulher poderia desejar além de ter uma casa confortável, um fusca, dois filhos lindos e um marido maravilhoso? tudo para ser feliz! No começo parecia que eu tinha nascido para ser a “senhora do lar”, só que minha dependência financeira começou a pesar e meu marido começou a ditar regras: eu tinha que explicar pra que, como e porque gastei cada centavo, além de quase me humilhar para conseguir descolar algum dinheiro para meu gasto pessoal, aquilo me incomodava.
Ah! Se eu arrumasse alguma coisa para fazer no horário da escola das crianças... um trabalho informal, desempenharia meu papel em casa e ao mesmo tempo teria o meu próprio dinheirinho, mas que trabalho? talvez eu pudesse vender perfumes e quinquilharias daqueles catálogos famosos; “Avon chama!” jamais, eu era fina demais para bater de porta
Assim, na busca de roupas, encontrei num shopping popular uma loja de sapatilhas, lindas, macias, de pelica e bem coloridas. Mudei de negócio na hora! Dos 20 pares que comprei, vendi treze e sete sobraram... que sorte! meu número! Não por acaso o lucro foi pro brejo. Valeu! tão confortáveis! foi ótimo ter comprado uma de cada cor. E se eu fosse uma manicure que atendesse em domicílio? o investimento seria pequeno. Até deu certo, minhas amigas adoraram a idéia, só que eu fazia as unhas, abaixo do preço de custo: da sogra, da irmã, das cunhadas, das primas, das amigas duras ... pobre de mim, nem os esmaltes consegui pagar, desisti! Mais uma vez fui obrigada a mudar de negócio. Sem falar no meu marido que vivia ameaçando cortar o crédito.
A coisa da boutique com roupas exclusivas ainda me atormentava, mas não por muito tempo; enlouquecida pela idéia, fui novamente às compras. Só que investi no meu tamanho e gosto, tudo muito caro. Ainda fiz umas comprinhas de roupas infantis, claro, que servissem para os meus filhos, caso não vendesse, nada estaria perdido. Nada perdido? só que nada vendido. Como era esperado, meu marido arrepiou, cortou o crédito e me proibiu de inventar qualquer outro negócio. Não era pra menos, ele estava “cheio” de empatar dinheiro e eu “cheia” de roupas e sapatilhas.
Quanto mais o tempo passava e minhas crianças cresciam eu mais sonhava em ganhar dinheiro. Só sonhando...
Depois da proibição resolvi arrumar um emprego e fui ser vendedora em uma loja de massas e frios num sacolão pertinho de casa; trabalho duro, de quinta à domingo, das 6 às 13h, mas bem divertido, inventei degustação das massas e eu mesma preparava os molhos, o que tomava boa parte do meu período. Sucesso total! O povo comia e eu quase não vendia. Em dois meses perdi o emprego. Melhor mesmo, ali só ganhei peso e minha família não agüentava mais comer raviólis, canelones, inhoque, capeletes... Logo depois um dos fornecedores de embutidos me ofereceu trabalho, seria vendedora! No catálogo de ítens constavam lingüiças caseiras e... lingüiças caseiras, mas eram de boa qualidade. Agora era eu, meu fusca e as lingüiças por todos os lados, pois além de vender eu também fazia as entregas. Este foi o primeiro negócio que me deu dinheiro, em poucos meses fiz uma freguesia de mais de 40 açougues e vendia 700 quilos de “embutidos” por semana. Olha! se existe uma “raça” de gente boa e agradável, essa raça deveria se chamar “açougueiros”. Mas depois de formada a clientela... óbvio, fui “embutida” e colocada no olho da rua, para alegria do meu marido, pois ele tinha uma enorme vergonha daquela minha ocupação, tanto que escondia dos seus amigos. Como não podia empatar dinheiro em mais nada, amargava a falta de sucesso mas não desistia de ter a minha própria renda. Como é difícil ganhar dinheiro! Mais uns meses e inventei outra coisa, seria professora particular para crianças do ensino fundamental. Moleza! estava acostumada com a matéria dos meus filhos. Consegui 10 alunos, mas dois pagavam e 8, além de apresentarem dificuldade de aprender, eram pobres, tão pobres que eu nem cobrava. Em pouco tempo pus fim às atividades. Quem manda ter coração mole? Depois de tanto bater cabeça desisti de todas as profissões e me assumi como dona de casa, sem renda e dependente do marido. Mesmo com as orelhas doloridas pelas reclamações, a comichão de fazer alguma coisa ainda me angustiava. Com os filhos crescidos e com a certeza de que não tinha tino comercial pra ganhar dinheiro, resolvi trabalhar por diletantismo, como voluntária. Afinal poderia transferir o meu conhecimento, assim me tornei uma contadora de histórias. Durante dois anos suei entre crianças carentes e doentes, mais ainda, moradores de rua e adolescentes... até que fui cair num asilo. Sete mulheres! Ali eu não era bem uma contadora, aos poucos fui me transformando numa espécie de faz tudo, contava histórias, conversava, fazia massagens, até rezar eu rezava. Um dia uma das minhas velhinhas, se sentindo abandonada, cheia de manha, chorava e pedia o tempo todo que alguém a benzesse, na sua suposta dor e caduquice achava que seu mal era proveniente de uma macumba. Eu não tive dúvidas, já tinha sido tanta coisa, por que não benzedeira? Depois de colher no jardim um ramo de arruda que mergulhei num copo com água e sal, não sabia o que falar, mas sabia que tinha que rezar. Rezar o que? “Te benzo, te curo com bosta de burro”? De olhos fechados ela gemia, então pedi que rezasse um “pai nosso” e uma “ave maria”, eram as orações que eu sabia. Enquanto rezávamos, segurei uma de suas mãos e com a outra eu fazia o sinal da cruz, respigando um pouco de água em sua testa. Ela o fez com tanta fé que achou melhor uma oração a mais _ o “credo” _ rezou sozinha, eu não sabia... depois dormiu. Quando acordou benzi novamente e repetimos o mesmo ritual. Não é que dou pra coisa? antes de eu sair, ela já se sentia melhor e me pediu que a benzesse mais uma vez. Saí de lá feliz e aliviada não só por ela ter demonstrado melhoras, mas porque finalmente eu tinha achado uma profissão _ benzedeira! Se a cada benzida eu cobrasse R$ 5,00, atendendo 20 pessoas por dia e trabalhando 3 dias por semana... R$ 1.200,00 por mês , não parecia muito, mas... pagaria tranquilamente o material: um quilo de sal e um pé de arruda. Ih! esqueci do vaso, melhor aumentar pra R$ 6,00! Não, posso instituir que “bucho virado” custa R$5,00 e “quebranto”, que é um mal bem comum, R$6,00. Vou lavar a égua! Márcia Rodrigues
“Rosa ou azul?”
Um encontro... mesmo dia... mesma hora...em dois lugares e com dois homens totalmente diferentes. Sobre a cama, dois conjuntos:
- O rosa comportado e discreto.
- O azul transparente e decotado.
Total indecisão! Não sabia com qual dos dois iria e, inquieta, andava pelo quarto preocupada também com a seleção do perfume, dos sapatos, da bolsa... tudo por escolher.
Com o rosa, cor de mocinha, se fosse pra encontrar com o rapaz de 21 anos, assim demonstraria ingenuidade, me sentiria menina e ele, dono da situação. De azul, seria para o coroa, beirando os 55 ou mais, como ele tem mania de azul... fácil agradá-lo! homens mais velhos preferem mulheres inteligentes, pois odeiam ensinar, obviamente permitiria que eu dominasse a situação.
No entanto, não sou mais uma menina e, aos 46 anos, deveria saber bem o que quero. Talvez por pensar que não chamava mais a atenção dos jovens como antes, pendia para o lado do coroa. Essa sabedoria só vem com o tempo! Como já sabia que eles caçam sempre a “gostosa”, o que não é o meu caso, procuraria então usar o cérebro e impressionar pela minha cultura ao invés da bunda, mas será que é preciso mesmo ler Balzac ou Dostoievski pra se deitar com alguém? mesmo assim... não conseguia decidir com qual sair... e suava!
Hoje é comum mulheres mais velhas terem um “affair” com homens mais novos. Uma amiga viúva, recentemente, passou por essa experiência, mas ao me descrever o episódio disse que foi um espetáculo vê-lo se despir e um fiasco dividir a cama com ele, pior, reclamou da “finalização”, que diabos ela quis dizer com isso? Qual escolher? O que cada um poderia me oferecer? Como serão os bolsos? o do menino certamente raso e o coroa já deve estar economicamente tranquilo... bolsos fundos, muitos fundos! estabilidade financeira, isso me atraía.
Pelo valor que dou ao olhar, o importante é “finalizar” olhando... seria perfeito! Com certeza o do moço deve ver longe mas, ansioso, na hora do “bem-bom” ... fecha os olhos! Já o do coroa deve ver de perto, bem de perto, encosta pra ver, tranqüilo e decidido, olhos permanentemente abertos! Evidente que sabe finalizar!... ponto pra ele.
Não posso esquecer que o jovem, no vigor da idade, deve ser do tipo que não dá sossego, afoito e latejante. Além da beleza e dos músculos, um tanque no lugar da barriga, toras ao invés de pernas e cabelos vastos... plástica perfeita, um show! Antes da alcova seria ótimo mas... e durante? e depois? sem dúvida falaria das baladas, do equipamento de som, do carrão esportivo. Só espero que não fale das gatinhas...
E o coroa? quase careca, o que sobrou dos cabelos _ grisalhos, uma gangorra no lugar do tanque, rugas, pernas já não tão rígidas... plástica? um dia deve ter sido quase perfeita... Ah!... mas o ato... seria longo, bem delineado, isso é próprio da idade, sem falar no colorido dos carinhos. É... seria só uma vez, todavia, seguiria os versos de Bilac e com certeza teria não só lido Balzac ou Dostoievski, como deveria gostar também de arte, o final poderia se prever uma bela obra, enquanto que, com o menino, talvez só um rascunho, sei lá!
Ai que dúvida! rosa ou azul? motel ou flat? cerveja ou champanhe? e a música? rock ou romântica?
_ Azul! flat e champanhe! Decidido! Mais provável me encaixar com o coroa, não teria coragem de encarar um rapaz de 21 anos, mas queria ouvir rock durante e depois... se eu der sorte o coroa pode até ser roqueiro! não, deve ser romântico, detesto! detesto?Nem tanto, mesmo negando, sou clássica. Quem sabe consigo ouvir sinos? Bem, tenho que lembrar de levar o comprimido azul... além de ajudá-lo, vai combinar com minha roupa, tornando mais fácil o encaixe e a finalização.
Márcia Rodrigues
22.09.2004


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