Coisas de uma contadora de histórias


27/06/2006


Salvador Dalí _ Canibal

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:55:24
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Cartão vermelho.

 

Nunca o sofá da sala de tv foi tão espaçoso, sem falar nos controles remotos... todos ao meu alcance, a minha única companheira  não sabe falar, quando muito, late. De calça azul e camiseta verde e amarela, eu esperava a estréia do Brasil contra a Croácia.

Pela casa vazia as bandeiras do nosso país não tremulavam, totalmente estáticas só agitavam a minha solidão. Meu filho, como trabalha numa rede de televisão, dava plantão, por outro lado minha filha, dispensada horas antes do jogo, correu para um telão com direito a pagode, certamente se divertiria mais do que eu. E meu marido? em Berlim, vendo a partida ao vivo.

Nas duas semanas que antecederam o grande mundial, estava tudo certo que ele não iria. Só que renovou o passaporte em vinte e quatro horas. Coisa de urgência? Ele acha que sou idiota. Não sou não! ou sou? Que fique na dúvida!

Aos poucos escalamos os times e começamos o nosso embate, um duelo de táticas que durou quinze dias, ele dizendo que ficaria e eu apostando que não. Mesmo sem a confirmação do embarque, jogávamos, ele na retranca e eu no ataque. Mais uma vez pressenti que, como na copa da França, ficaria sozinha.

Então tentei me infiltrar, no entanto, como ando fora de forma, cedi as facilidades para o contra ataque, rápido ele atestava que um dos clientes fazia questão da sua presença nessa viagem. Ah! mas eu não desistia. Não teria coragem de me deixar aqui, de mais a mais eu tinha uma cirurgia bem no dia doze de junho, se bem que era um implante de dois dentes, mas uma cirurgia, precisava de amparo, quando ele fez a dele eu fiquei o tempo todo ao seu lado. Jamais faria isso comigo. Faria?  além do mais era dia dos namorados. Nem a esperança me aliviava, agora eu me sentia o Ronaldo, um fenômeno parado e sem ação, resfriada pela indiferença e cheia de bolhas de inveja, ou seria o Kovac? O croata que mesmo com dor nas costelas jogava bravamente ignorando as desculpas e alegações de que no fundo seria uma viagem de negócios. Negócios? Realmente sou uma imbecil! Numa bobeada minha, não suportando a dor, saí e abri o meio de campo _ a confirmação chegou como a bomba que Kaka soltou contra o adversário, 1x0 pra ele e fiquei caída na grande aérea. Assim encerramos o primeiro tempo. Mal tomei fôlego e vi que em  menos de uma semana ele precisava encher uma super mala e fazer grandes negociatas na Alemanha, claro, durante a copa.  

Mesmo assim não me dei por vencida, no segundo tempo deixei claro que não seria esse golzinho que me faria tremer, fui pra cima, chorei, esperneei, de nada adiantou, fiz dele o Dida, o grande herói do jogo. Quanto mais eu atacava, mais ele se defendia e as passagens chegaram. Porém, a cada escanteio eu achava que marcaria o meu gol, tudo era motivo de briga, ele iria, mas com remorso e puto da vida comigo. Já que não tinha outro jeito, comecei a abusar nas faltas, essa seria a minha vingança. Durante os telefonemas eu dava os carrinhos e entrava forte por trás, no jantar, só cotoveladas e na cama  agarrava a camisa. Desgranhento! escapava de todas e  pela lateral me dava as costas. Que não se atreva a ficar numa barreira, pois estou pronta pra bater forte.

Com as passagens nas mãos, ele parecia vencedor, porém nada dos ingressos, bem feito, ele vai mas ficará do lado de fora, Deus é pai e anjo da guarda existe. O certo é que ele armava melhor as jogadas e a mala ficou pronta e o pior, burra, eu ajudei a fazer. De certa forma me sentia vingada, ele viajou sem os ingressos! Vingada? só que chegou em Colônia junto com as entradas para os jogos e mais, me avisou que como tem vários dias de folga, entre um jogo e outro, vai aproveitar pra rever Paris e dar um pulinho na Holanda e quem sabe visitar a Áustria. Negócios...  Escapou em Berlim, será que Auschwitz ainda existe? Droga! é na Polônia.

Fosse o que fosse, eu tinha que me conformar, como me vingar a essa distância? talvez no próximo jogo eu possa me fazer de canguru e dar com os dois pés no peito.  e ser expulsa? Não! E se eu treinar karate? Não, quero golpes mortais. Vou me filiar ao Yakuza. De que adiantaria? Nem o quarteto mágico daria um jeito nisso.  Se eu que sou eu, não consegui jogar em dupla entre as paredes do meu quarto, bem que eu insisti na marcação corpo a corpo, mas... nada é mágico diante de uma partida de futebol.

Quem sabe posso tentar uma vaga no Politheama do Chico, time de poeta, vinte e cinco anos invicto. Pelo menos lá tem cara de “pelada” e num quadro mais fraco eu teria espaço garantido. No entanto sinto que minhas pernas estão mais pra Garrincha do pra Ronaldinho gaúcho.

Se nada der certo, nos próximos jogos mando tudo para a linha de fundo, esqueço os tiros de meta e parto  pro mata-mata cometendo “córners” dos quais ele nunca mais vai se livrar.

Márcia Rodrigues

Escrito por Márcia Rodrigues às 07:20:43
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07/06/2006


Di Cavalcanti _ Duas mulheres

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:24:25
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Abre alas que eu quero passar!

 

Toda terça tenho aula de literatura, a maioria do grupo é composta por uma mulherada animada e conversadeira, a começar por mim, mas no meio delas existe uma moça de uns trinta e poucos anos que destoa, do rosto às roupas, sempre séria e “na dela”. Desde o início se mostrou aplicada, mas é de pouca conversa, não dá trela pra ninguém, nunca arrisquei me aproximar. No entanto, na última aula ela me surpreendeu; como sempre, chegou e sentou-se meio distante de todos, ao passar por ela senti o toque de sua mão e ouvi a pergunta:

_ Quer sair comigo numa escola de samba?

_ Escola de samba?

_ Sim, Imperador do Ipiranga, você não mora lá? Eu vivi muitos anos ali e queria muito desfilar, o problema é só o preço da fantasia, topa?

Não sabia o que responder, agora ela abria uma porta que eu não queria fechar, era a chance de quebrar aquele gelo, mas gelei ao lembrar da única vez que estive no sambódromo para assistir ao desfile. Naquela noite, mesmo com todas as plumas murchando e todos os brilhos escorrendo, o espetáculo era dos maiores da terra. Uma chuva fina e constante  castigava a avenida e me abriguei debaixo da uma pequena marquise. Espremida entre o povo, mal conseguia mexer os pés, mas nem o aperto me conteve, só queria fotografar. Cada escola que entrava, ainda que fossem as do grupo de acesso, eu parecia estar diante das grandes e vibrava com os destaques, corpos esculturais exibiam pouca fantasia. Nem precisava muito pano, o encanto estava nas curvas perigosas das mulatas, não só mulatas...mulatos também. Uma comissão de frente formada por homens altos e fortes, vestidos de macacão colado ao corpo, quase me fez sambar, quase! a meu lado duas morenas, tão bonitas quanto as da passarela, requebravam “as cadeiras” o tempo todo. Quando entrou a “Imperador do Ipiranga”, que eu tanto esperava, as duas começaram a se despir e ficaram de biquíni. Logo vi que a minha escola preferida também era a delas, agora nem fotografar eu conseguia, que dirá sambar. Estranho, morávamos no mesmo lugar e... talvez ser branquelo  fosse uma característica somente de poucos moradores do nosso bairro, seria? É, eu havia nascido com a cor errada... escola de samba? só da arquibancada.

Mas se fiquei tão constrangida assistindo, como me sentiria desfilando? Bem, mesmo assim aceitei o convite:

_ Claro! Vamos combinar.

Ainda bem que, durante a aula, o professor não me chamou para fazer comentário sobre as crônicas, pois não tinha conseguido  prestar atenção em nada, só pensava na escola, no desfile e no porquê do convite, com certeza ela estava... me tirando? nem me conhecia... mas eu já havia aceitado!  Como falou do preço, provavelmente escolheria uma ala com tudo de fora, uma que tivesse menos pano, como eu iria? não poderia fazer parte de outra ala? qual seria o enredo? Este ano subimos para o grupo das especiais, e se escolhessem homenagear Carmem Miranda? já pensou eu com todos aqueles balangandãs na cabeça e barriga de fora? Sem falar do salto “plataforma”. Ai meu Deus! seria demais, não deveria ter aceitado. Além do que, todo ano chove, a fantasia vai grudar no meu corpo, mas quem sabe, até começarem os ensaios, eu possa convencê-la fazer parte de uma ala bem tranqüila? talvez me vestindo de árvore! se for mesmo sobre a pequena notável  seria um coqueiro fino e comprido, ai, vou ter que radicalizar na minha dieta!  de porta-bandeira é que não vai ser, mesmo porque não levo o menor  jeito para evoluir com o mestre-sala, mas a roupa cobriria tudo, seria excelente! Se bem que passaremos despercebidas, pois não seríamos convidadas para sermos madrinhas da bateria... se fossemos eles dariam preferência para os meus cabelos loiros, nem olhariam para ela... e o tapa-sexo? eu teria que usar um tapa-corpo! Besteira, até o ano que vem eu poderia estar branca ainda, mas com um corpo escultural, nada que um bronzeamento artificial não resolvesse. No final ela vai se arrepender por ter me convidado, tenho tudo para ofuscar o brilho de qualquer mulata... será? mas eu poderia ser um destaque num dos carros alegóricos, com aquelas fantasias pesadas, seria um sucesso, sucesso? que fosse num tripé baixinho e reforçado, caso contrário não teria coragem de encarar um guindaste. Melhor ser uma passista sambando no chão. Chiii... enfrentar um pandeiro e uma câmera de tv? sei não.

A aula chegou ao fim e eu não consegui descobrir se o convite tinha sido uma boa, de tudo posso convencê-la a fazer parte da ala das baianas. Bem, o importante é que está decidido e vou encarar esse desafio:

_ Eu topo Cristina, definitivamente... eu topo!

Márcia Rodrigues

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:12:54
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