

O solar da marquesa.
O relógio marcava quinze para as dez! ainda faltava muito pro Palácio Boa Vista abrir e já estávamos na porta. Meus dias eram poucos naquele lugar, tinha que aproveitar ao máximo.
Não poderia deixar de ver o quadro da Tarsila do Amaral que mais gosto _ Os operários. Se bem que o Abaporu”...
Realmente um palácio, construído no ponto mais alto da cidade faz da vista um deslumbre. Um quase castelo que ainda é usado como residência de inverno do governo do estado. Uma construção que ficou parada por 25 anos, puro requinte, até lembra a residência de verão da presidência da república em Petrópolis, mas lá o palácio foi comprado de um falido barão do café. O de Campos do Jordão foi inaugurado já com essa finalidade pelo então governador, minha mãe dizia que ele era um político polêmico, se era polêmico era político, ou político que é polêmico? Ela me contava ainda que, quando governador, era sempre culpado por tudo de errado que acontecia e brincava nos discursos falando que se nascessem gêmeos a culpa era dele. Culpado, mas de bom gosto! Será que ele chegou a usar o palácio? Não sei não, logo depois foi exilado. Quem sabe tenha sido excluído por luxo?
As dez em ponto os portões de abriram e fomos recepcionados por uma senhorinha _ D.Clotilde (Clotilde significa quem é famosa por combater). Ela parece uma gringa, se bem que é loira tingida, assim como eu, deve só querer esconder os cabelos brancos. Dona de uma fala mansa e delicada é baixinha e magrinha, além de ter a elegância dos gestos e da mais nobre postura. Com seu tailler preto, parece uma marquesa.
Quando nos recebeu, fez questão de se apresentar como a monitora mais velha daquele solar. Logo depois se desculpou por não poder mostrar todas as obras de arte, pois estavam com visitas. Que tipo de visitas? Não demorou nada e vi, cortando um dos corredores, uma figura magra e estreita. Achei que era só residência de governadores, pelo jeito é de ex-vice-presidentes também. Óbvio! o preço da estadia na serra é bem salgado. Doce sorte poder se hospedar de graça e ainda num palácio.
Diante das peças, Clotilde, com serenidade, parecia recitar:
_ Essa arca é do século XVIII, Bahia, com molduras entalhadas. Não é uma peça magnífica? Ali duas ânforas francesas, não têm utilidade nenhuma, só decoração. Mas atentem para a pintura de cada uma delas, é uma das peças mais delicadas que temos aqui. Desse lado havia uma lareira, ainda há. Mas parece uma lareira? pareceria mais se o senhor doutor ex-governador não fizesse o favor de mandar reformá-la, portanto perdeu as características originais, sem falar na beleza. São várias pelo palácio, quase todas mutiladas.
Naquele instante lembrei-me novamente do palácio de Petrópolis, onde a monitora, descaradamente, afirmava que o primeiro proprietário perdeu tudo na crise de 29, mas politicamente correto, saldou todas as suas dívidas e com o que sobrou montou um café
Agora eu podia sentir que nada pertencia ao Palácio Boa Vista, a dona era “Madame Clotilde”, pois quando se colocava na frente dos quadros, esculturas ou móveis, falava com a voz embargada. Tinha carinho por tudo aquilo. Talvez ciúmes.
Finalmente chegamos à sala onde estava o quadro que eu tanto queria ver _ Os operários. Enquanto ela falava sobre a tela, seus olhos se entristeceram:
_ Essa tela é a que mais emprestamos, nós não, o senhor doutor ex-governador adorava emprestá-la, ela já correu o mundo.
E se eu falasse que o destino de toda obra de arte é ser exposta e não ficar escondida dentro de um palácio frio? Não, iria magoá-la, pra quê? Acho que não gostava dos “hóspedes”, já dos visitantes... na saída, mesmo apontando as falhas, ofereceu-me um catalogo que custava R$ 55,00, não deixaria de comprar o livro que continha o acervo. De quanto seria a comissão dela?
Antes de ir embora, fomos visitar (anexo ao quase castelo), a capela de São Pedro, outra marca de um dos nossos governadores, aquele que incomodado mudou o perfil do nariz e do palácio também.
Todos os traços são retos e transparentes, assim a arquitetura moderna contrasta com a arquitetura inglesa do palácio e reflete, no teto da capela, a luz do espelho d´água. Uma rede de pescadores envolve suavemente a única imagem do senhor da igrejinha. Se “madame Clotilde” estivesse aqui, certamente crucificaria o tal governador narigudo de ponta cabeça.
Só no estacionamento é que passei os olhos no catálogo, realmente incompleto... quase nada de descrições. E de quem foi a idéia de fazer o livro? claro! da senhora doutora ex-primeira dama do estado.
Assim entendi que não era ciúme o que Clotilde sentia, ela era muito mais do que uma simples operária e jamais se sujeitaria a receber comissões, muito menos fazer política, pois o tempo que ela dedicou àquele lugar tinha lhe dado um título de posse e mais _ “Marquesa do solar”.
Márcia Rodrigues
Os caras da minha vida
Não sabia bem o porquê, mas naquele dia eu estava me sentindo nobre, mais solta, mais bonita e muito, muito vaidosa, talvez fosse a aproximação do meu cinqüentenário. Já que não dá para voltar no tempo o melhor é assumir.
Então me vesti toda de azul, dos brincos ao conjunto de calça e blusa, nas mãos anéis no tom rosa, delicadeza, já os pés vestiam os saltos mais altos, delicados também, no entanto, pouco confortáveis. Mas como ando com a minha altivez em alta... para completar o visual, um xale com estampas indianas, em tonalidades que variavam do quente vinho ao morno azul claro _ “estiloso”, ao invés de franjas, pompons nada discretos de pele sintética na cor cinza. Vinho e azul contrastam bem, além do que combinavam com o “cereja” do meu carro.
Eu tinha que caprichar no conjunto, pois era a minha última aula de literatura antes das férias de julho. Muita animação, ouvi crônicas afinadas, e o mestre discursou com habitual competência, aprendi bastante, depois o “até logo” com abraços calorosos.
Quando entrei no carro, joguei, sobre os ombros, o xale que me aquecia. Estranhamente eu me sentia ainda mais solta, uma sensação de liberdade total envolvia o meu corpo inteiro. Até o meu carro deslizava mais rápido pelo asfalto, parecia que o 1.0 havia multiplicado as válvulas. Nem ele tem resistido ao meu charme, talvez saiba o quanto gosto de dirigir. Além do mais a minha relação com carros sempre foi estreita.
Meu primeiro foi uma Brasília bege, que tinha a seu favor a vantagem de ser a primeira, nada sedutora, mas era calma e obedecia a todos os meus comandos, nunca usei saltos altos para dirigi-la, insegurança? Não! Respeito. Naquela época meus pés não tinham a habilidade de hoje. De mais a mais ela era “a Brasília”. Por outro lado, meu pai tinha um Dodge Dart, que eu vivia de olho. Potente e confortável, quando me sentava nele, sentia como se fosse um abraço, e o câmbio? Longo e grudado no volante, ele me dirigia e não percebendo atingia 150 na terceira. Moleza, motor redondo, não, dureza, a cada engatada esticava e pisava duro, mas era macio, macio.
Ainda solteira tive um corcel II, bonito e calmo, tanto quanto um moço bem comportado, mas sempre desejei motores atrevidos e troquei por um buggy. Que besteira! meio nervoso, durou um verão, pois quando chovia...mesmo usando a capota era uma inundação só, sem falar nas rodas de avião na traseira que impossibilitava estepe, vivia me deixando na mão, e o desconforto dos bancos duros e apertados? A bem da verdade eu havia trocado um rapaz rico e educado por um anão careca, pobre e feio. Finalmente ele me deu uma alegria, consegui vendê-lo. Aí veio o Chevette, que ronco... com um “baita” escapamento, a cada acelerada falava grosso ao meu ouvido, eu adorava. Mas logo tive que me livrar dele, era velho e começou a bater biela. Pouco sobrou, só deu pra comprar um TL caindo aos pedaços, era o que me restava, um TL. Logo as coisas melhoraram e comprei um fusca _ pau pra toda obra, macho, pequeno e competente, mesmo barrigudinho era ligeiro e tinha seu charme. Foram vários durante a minha vida de motorista e nunca sofri uma decepção.
Ao ficar grávida voltei a ter um carro feminino, uma prima alongada da Brasília _ Variant II, grande espaçosa e folgada. Não suportei o barulho do motor (do lado de dentro) e brigamos, agora eu entendia por que ela estava fora de linha, comprei outro fusca. Os fuscas da minha história sempre intercalaram os momentos difíceis. Longos anos “fuscavagueando” pela vida até que cheguei ao Fiat- Prêmio. Finalmente um porta-malas espaçoso. Amor a primeira vista, com ele eu deitava e rolava. A paixão foi fulminante, mas ele bebia demais. Assim mudei para uma versão mais nova e com ela passei a desfrutar do conforto de um vidro elétrico. Que delícia, bastava apertar um botão e ele descia e subia, subia e descia e ainda parava onde eu quisesse sem precisar fazer força. É, algumas alegrias duram pouco, chegou a vez de comprar um apartamento e o meu supermodelo virou dinheiro para dar de entrada na casa nova. Lá veio outro fusca.
Depois de dois anos _ a mudança, e não é que boa parte das coisas o fusca carregou? Até as cadeiras da sala de jantar, se bem que de duas em duas, claro, tirei o banco da frente. Porém, como fusca é passageiro na minha vida, ganhei um Uno mille completo. Lindo! Azul marinho perolizado, trava e direção hidráulica. Com os vidros elétricos eu já estava acostumada, mas o uso obrigatório do cinto e a limitação de velocidade provocada pelo ar condicionado fizeram com que minha liberdade fosse parcialmente tolhida, nunca fui tão calma para dirigir e cada vez que ligava o ar, a velocidade caía assustadoramente, isso se fosse no plano, na subida... não gosto nem de lembrar. Em compensação um grande amor veio para substituí-lo, um Santana. Ai! bastava pisar e ele levantava a frente, corria comigo cortando os ventos, grande, ele era grande mesmo. De novo as vacas magras voltaram, vacas? agora eu teria um carro de boi, barulhento, duro e lento _ um Fiesta. Que tristeza, três longos anos fazendo curvas aos trancos e quase nos barrancos, sem falar da força que eu fazia para abrir e fechar portas e vidros. Não, não vou reclamar, ele nunca me deixou na mão.
Finalmente as minhas dezesseis válvulas _ um Clio. Aquela nova sensação de liberdade me fez pensar numa Mercedes, uma Mercedes preta, um “Classe A” com o símbolo sobre o capô. O sonho de toda loira é ter um negrão e agora eu sonhava com um viril, belo, vigoroso, retinto da cor de ébano e imponente como um Rei Zulu, que venha logo esse meu “príncipe encantado”.
Márcia Rodrigues
Dançando ao som da Marselhesa
Já nasci vitoriosa, pois Deus me trouxe ao mundo no ano de 1958, quando o Brasil seria pela primeira vez campeão mundial de futebol. E foi assim que me acostumaram mal.
Em 1962 novamente campeões, depois uma folga, a seleção canarinho chegou ao ano de 1970 e só então conseguimos o caneco definitivamente, aquele que roubaram e derreteram. Fizeram outro e, parecia castigo, 24 anos de recesso até que o conquistamos pela primeira vez, era o tetra. Mais uma folga (agora uma folguinha) e em 2002 veio o título de pentacampeões. Já em 98 chegamos pertinho, quase colocamos a mão na taça, mas aconteceu uma “convulsão” misteriosa e perdemos. Fomos vice, assim como em 1950 na nossa própria casa. Mas este filme eu não vi. Por que recordar o Maracanã? Talvez seja por isso que me dói mais lembrar da copa da França, onde depositamos a nossa confiança no fenômeno. Há de se entender, mas perdoar jamais! Ninguém tinha o direito de ficar doente justamente no dia da decisão deixando-nos desarmados, ainda que eu corra o risco de estar sendo injusta ou desumana, mas qual torcedor não é?
Este ano seria o ano. Que seleção do mundo tinha um “quadrado mágico”? Qual delas se dava ao luxo de ter craques sentadinhos no banco? Nenhuma! E chegamos como favoritos, ou melhor, um dos favoritos.
Do armário tirei todas as bandeiras, comprei uma camisa com seis estrelas, peruca, buzinas e apitos. Um grande aparato, tudo para esperar o hexa. Brasileiro sempre quer mais, nunca está satisfeito. Caramba! Com uma seleção dessas as coisas pareciam fáceis mas... primeiro passamos apertado pela Croácia, depois aos trancos e barrancos pela Austrália, até que, finalmente o 4 x 1 no Japão nos resgatou a confiança. Uma grande exibição, que venha as oitavas e todo o continente africano! sei não, eles vão sediar a próxima copa, não seria melhor respeitar? Não, ganhamos novamente mesmo voltando a jogar mal e, por isso, alguns times começavam a me assustar, principalmente os azuis. E se “los hermanos” chegassem às finais? Não seria nada comparado aos franceses. Até que contra eles seria bom, seria a forra. Vingança é um prato que se come frio, mas galo é um bicho que se come bem cozido. Ah! quero mais é sambar em cima deles.
A Alemanha nos trouxe a paz e despachou nossos vizinhos. E não é que a Espanha nos deu a chance? Assim chegamos as quartas de final contra o temido “galo”. Temido coisa nenhuma, vamos acabar com os “bonjurs” da vida, que vão fazer biquinho em outra freguesia, aqui não tem pra ninguém.
Na panela um galo recheado de vingança e sobre a mesa um vinho argentino, queria mesmo era devorar a carne dura dos carijós, degustando e saboreando o “sangue” de “los hermanos”, já que não seria desta vez que dançaríamos tango.
Porém eu não contava com o carrasco, o maldito já tinha enfiado duas cabeçadas na gente, sobretudo o " fenômeno" não deixaria barato, se bem que ele não é bom de marcar com a cabeça mas, por outro lado, já era o recordista de gols nas Copas do Mundo.
Diante da tv meus olhos acompanhavam cada jogada, que jogada? Só os franceses arriscavam. Um time vestido de verde e amarelo, totalmente apático nem dava sinal de chutes a gol. Bando de molengas... agora todos pareciam amedrontados. Não era pra menos, o verdugo estava infernal e fazia com que o galo apavorasse o canarinho, a cada corrida abocanhava as nossas penas.
De nada adiantou a reclusão no vestiário, nem os quinze minutos aliviaram, voltamos e... o pior acontece... (treze letras), e aos treze tomamos o gol. Zidane, que durante todo o tempo jogou como se fizesse um recital com direito a distribuição de chapéus (até nosso fenômeno ganhou um) bateu uma falta com precisão, cinco jogadores do Brasil ficaram parados e a bola chegou ao Henry que, flutuando no ar e ignorando o goleiro, mandou para o gol. Uma jogada admirável, não tinha mais jeito, era como comparar um “concerto” de orquestra sinfônica com um grupo de pagodeiros desafinados. Sem falar no nosso lateral esquerdo que alheio arrumava a meia, depois ficou alguns segundos parado, ainda que estático mas de meia no lugar. Dessa vez nem o treze do Zagalo ajudou, aquele mesmo do “eu ganhei, nós empatamos e vocês perderam”, aliás, PARREIRA BURRO também tem treze letras.
Bem, assim como na história em que o francês Napoleão fez a família real fugir para o Brasil, Zidane nos mandou de volta pra casa e acabou se transformando no nosso algoz contemporâneo. Só me restava engolir o sapo porque o galo, mais uma vez, ficaria outros quatro anos atravessado na minha garganta. O jeito é esperar com ansiedade uma nova “batalha de waterloo”, quem sabe na África do Sul, em 2010? Por enquanto... Portugal que nos vingue!
Márcia Rodrigues
02.07.2006


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