Coisas de uma contadora de histórias


23/08/2006


Gustave Courbet _ Vallee de la Loue

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:19:15
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Recuperando os trilhos da memória.

 

Ao ficar sabendo que meu marido havia reservado uns dias para passarmos em Campos do Jordão pensei logo naquele passeio de trem que eu tanto gosto. Dessa vez seria diferente, eu faria o passeio para, quem sabe, retomar os trilhos da minha memória.

Num sábado de sol e vento frio a cidade nos recebeu. Mal fizemos o chek-in no hotel, tratei com o recepcionista a reserva da passagem ferroviária para Santo Antonio do Pinhal. Só depois de tudo confirmado é que sosseguei.

Entre compras, comidinhas, vinhos e lareiras, ansiava pela viagem, curta (só 47 km), mas eu estaria dentro de um trem por duas horas. 

O dia chegou; um domingo teimoso que repetiu o clima do sábado. Até que a estação tinha vestígios de antiguidade, embora o trem brilhasse de tão novo. Nada de restaurante, nem poderia _ vagão único. Pelo menos não esqueceram do banheiro. Com os bilhetes nas mãos, encontramos o fiscal na plataforma de embarque. Incrível! o alicate furador, ainda  era o mesmo.

Uma angustia não entendida se instalou em mim... não importava, o que eu queria era sentir o chacoalhar da viagem e o vento no rosto, além de procurar minhas lembranças no som das rodas tocando o carril. Meu marido parecia entender, fotografava a paisagem e pouco falava. Alheia eu não desgrudava da janela. Por entre árvores secas o trem cortou a cidade.

Quando alcançamos a serra predominava a vegetação de capim gordura que, tal qual a de liquidâmbares, mudava de cor, reclamando do frio. Pelas encostas buquês de hortênsias queimadas enfeitavam a passagem estreita da ferrovia. Contrapondo à seca das flores _ o vale verde, infinitamente verde. As casas rareavam em meio aos barrancos. De janelas e portas fechadas, pareciam abandonadas, compondo o cenário proposital “para inglês ver”. A primeira  hora foi gasta descendo a serra e ouvindo a monitora falar sem parar, preferível o silêncio. Eu mal conseguia raciocinar, impossível desmembrar pensamentos em presença de tantas informações, talvez fosse melhor conhecer o banheiro. Não, não poderia perder nada da paisagem!

Assim que chegamos ao destino ouvi a última frase nos avisando onde encontrar souvenirs e ainda a recomendação de que nosso tempo de permanência seria de meia hora. Enquanto o trem entrava numa rotunda, pude ver da estação a vila dos ferroviários com suas casas restauradas (e sem graça), bem pintadas a ponto de conservarem um certo frescor contemporâneo. Seguindo os trilhos descemos para encontrar o mirante com a estátua de N.Sra. Auxiliadora. Diante da imensidão do vale e aos pés da santa, não entendia o porquê de tanta angustia, nem o aspecto sacro do lugar me acalmava. Em fotos pouco naturais e poses sorridentes marquei minha presença naquele lugar. Um lugar vazio, vazio de coisas e de lembranças. Nada comprei.

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:17:28
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De volta ao trem retomei o meu lugar e ouvi a mocinha falante dizendo que nos deixaria por conta da vista bonita. Enfim um pouco de silêncio, um silêncio que fez aquela angustia falar comigo chamando minha atenção, só que eu não compreendia.  Agora uma saudade incerta, acompanhando o balanço do vagão, “dançava” na minha mente. Sempre falei que esse sentimento, depois de um tempo, vira doce lembrança. Afinal eu sentia saudades de que?

Pela janela meus olhos encontravam o sol espalhando amarelo. Os raios cintilavam como flashs ao se esconderem de forma intermitente por entre os galhos das árvores. Absorta, percorri o tempo em que minha irmã e minha mãe ainda eram vivas. Uma vidinha medíocre onde nenhuma de nós tinha a noção exata da importância de estarmos juntas. Só então percebi que a angustia era decorrente da saudade delas. Isso porque me lembrei que era dia nove de julho, um dia que eu gostaria de não ter vivido. Numa tarde como aquela, de sol e vento frio, foi que senti o sopro de despedida da minha irmã, o que me fez quase “sair dos trilhos”! Indiferente, ela não se deu conta de que me deixaria sozinha. Ah! eu deveria saber, pois um “vento” idêntico, também definiu a partida da nossa mãe. Na verdade eu estava achando que o trem me levaria para mais perto da “velha”. Claro, era isso! foi com ela que viajei muitas vezes, não com minha irmã.  De quem eu sentia mais falta? Que vontade de brigar e reclamar, mas... brigar com quem? reclamar de que? da distância? da solidão? A saudade é possível driblar, mas o espaço que nos separa... Um som dolorido me cobrava respostas. E se eu gritasse? Seria em vão! Agora o vento frio que entrava pela janela  roubava mais uma coisa de mim, as lágrimas. Do outro lado do vagão via meu marido que, distraidamente, registrava toda a minha inquietação na lente da sua câmera.

Finalmente entendi que as lembranças perdidas eram da época em que vivíamos unidas. À medida que a viagem ia chegando ao fim, discerni que nenhum trem no mundo encurtaria aquela distância e nem faria com que eu recuperasse os trilhos da minha memória. O certo é que nem os tinha perdido,  uma vez que estavam dentro de mim.

Com a convicção de que aquelas memórias deveriam ficar por ali mesmo, saí me perguntando como carregar a minha saudade.

Márcia Rodrigues

Escrito por Márcia Rodrigues às 23:16:58
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21/08/2006


Van gogh _ Avignon

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:32:16
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Trilhos da memória.

 

Há algum tempo pensava em andar de trem. Não nesses que andam pelo subúrbio. Na verdade sentia vontade de voltar aos meus anos de infância quando, junto com minha mãe, viajava de trem. Uma viagem longa de mais de sete horas, chacoalhando nos bancos duros da segunda classe da Sorocabana. Tudo pra visitar minha avó. O que era sacrifício para minha mãe, sempre foi diversão para mim. Mesmo quando alguma linha era interrompida e, por horas e horas, ficávamos na estrada. Naquele momento, eu rezava para que um trem que transportasse animais parasse ao lado. Como era menina da cidade grande, gostava de ver os bichos, mesmo presos. Ainda gostava de sentir o cheiro forte do estrume, pois era o que, realmente, sinalizava que eu estava indo para o interior. De mais a mais, curtia a sensação de perigo quando me espremia no banheiro, sempre achava que a porta não iria abrir. Mas o bom mesmo era caminhar sobre os encaixes das pequenas plataformas que ligavam um vagão ao outro.

Nunca gostei da primeira classe, as janelas não abriam. Além disso, as paisagens verdes ficavam mais distantes dos meus olhos e eu não podia sentir o vento forte no rosto. Muito orgulhosa, ficava atenta aos movimentos do fiscal e fazia questão de entregar os bilhetes para que ele, com seu alicate furador, confirmasse a nossa presença. Na hora de comer, a comida era a de casa, estendíamos um pano de prato no banco e, de joelhos, eu sentia o gosto frio do frango na minha boca. A viagem só era melhor quando noturna. O som das rodas deslizando sobre os trilhos é que me conduzia ao sono. Agora, amanhecer junto com o dia no restaurante do trem... era o melhor de tudo. Mais uma das vantagens de viajar na segunda classe; a diferença da passagem era gasta no café da manhã. Nunca tomei um café igual, até hoje me lembro da pequena mesa. Incrível, ela não se movia e ainda sustentava um vaso com flores! Pela janela de vidro eu via o sol já arrebentando e espalhando amarelo. 

Depois de tantos anos precisava retomar essas lembranças e, junto com meu marido, resolvemos viajar. Não de trem, mas para um lugar de trens. Um lugar onde eu pudesse resgatar minhas memórias.

E foi numa manhã de inverno, com o sol esquentando a estrada, que traçamos caminhos por entre uma mata fria que refrescava os meus pensamentos. Um fio de água, fingindo ser um rio, nos acompanhava. Destino _ a antiga vila inglesa ferroviária no topo da Serra do Mar. Logo na entrada, uma locomotiva carcomida pela ferrugem escondia os pés de uma cópia mal feita do Big Ben e fazia a apresentação da vila. Paranapiacaba!

No morro, uma casa imponente que hoje chamam de castelo. Bonita! Mas nem tanto. Pertenceu ao engenheiro chefe da companhia. De lá ele avistava tudo.  Talvez tivesse olhos grandes e vivos. Podia, de cima, controlar todos os movimentos. Quase nada pra se ver.

Tudo ali era reaproveitado; os trilhos defeituosos viraram mourões que, ligados pelos cabos de aço, também foram considerados imperfeitos e se transformavam em cercas. Imperfeitos para os trens e perfeitos para ladear. Postes? Todos feitos com trilhos emendados. A tinta que cobria as tábuas lisas das casas, era a que sobrava dos vagões. Um tom de marrom escuro, meio ferrugem, quase vinho. Se houvesse escadas, dormentes faziam as vezes dos degraus. Com certeza dormentes que não suportaram o peso da malha ferroviária. Agora, retalhados, suportavam o das pessoas.

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:31:05
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De longe, tudo parecia um grande trem partido em pedaços, encimado por telhas que, de tão antigas, estavam cobertas de limo. Este, por sua vez,  escorria pelas calhas apodrecidas onde brotavam pequenas samambaias.

Como sombras, mulheres de olhares compridos, que acompanharam os maridos ferroviários, decoravam  portas e janelas. Estranhamente, tinham os sorrisos no mesmo tom das tábuas; tristes! O clube restaurado, fechado e silencioso, não se mostrava divertido. Na escola trancada e destruída, as palavras se escondiam das letras. Tudo muito sério! Não vi as cachoeiras. Poucos carros e muitas motos davam um tom calado de alegria às ruas e aos bares. No “pau da missa”, nenhum aviso. Só a beleza da velha árvore retorcida que os cupins se divertiam comendo nos buracos dos pregos.

Além do pouco artesanato e comida de fogão à lenha, só restava mesmo visitar o museu de armazéns falidos que recobriam os velhos trens.

Depois de um almoço frio e demorado, atravessamos a passarela que levava ao pátio ferroviário. Ao lado dela a subida da única igreja. Tão íngreme que deixei a visita para o próximo inverno. Precisava ver os trens! Quem sabe viajar de trem? Sem entender direito o que estava fazendo ali, sentia que alguma coisa me guiava em direção aos antigos vagões. De mãos dadas com meu marido, percorria os  trilhos quebrados pela falta de uso.

No caminho, um vagão de animais, abandonado e corroído. Senti o cheiro forte do estrume e, na minha boca, veio o gosto frio do frango. Enjoei! Minha ansiedade agora era chegar aos armazéns que guardavam as locomotivas, mas... o museu estava fechado. Chegamos atrasados. Na volta, só a pose indiferente para uma foto pouco nítida e meio sem cor. As estações, ainda bonitas, não foram  bastantes para fazerem eu gostar da viagem.  Assim, sem poder andar de trem, as lembranças continuam vagando pelos longínquos trilhos da minha  memória.

Márcia Rodrigues

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:30:46
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08/08/2006


Van gogh _ plátanos

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:42:03
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Florada na serra

 

Na metade da viagem já sentia o vento frio queimando os meus lábios, sem falar no ar puro da serra que enchia meus pulmões de expectativas, ansiava pela chegada.  Pela primeira vez eu iria assistir ao festival de inverno de Campos do Jordão. Como raramente procuramos fugir  do cotidiano, decidimos por um lugar com boa comida, música e aconchego. Naquele final de semana seria a abertura do festival e a apresentação seria na praça, não teria que pagar nada, bastava me acomodar em algum banco e sentir a sinfonia. Mozart, eu ouviria Mozart.

Diante do portal eu via que aquele lugar era mesmo a suíça brasileira, não conheço a Suíça, mas se falaram que é, deve ser. Meu marido disse que lembrava mesmo a Europa. Pelo menos os telhados são ponteagudos... até os das casinhas mais simples nas encostas seguem a arquitetura da cidade. Não sei não, nunca ouvi falar em neve por aqui. No entanto as telhas limpinhas parecem inquietas pela chegada dela, tanto que treinam todos os dias deslizando a umidade do ar e das chuvas.  Quem sabe um dia a tão esperada neve...

Uma avenida larga corta a pequena cidade. Na ilha que separa as vias, plátanos agressivamente podados lembram mãos com dedos desfigurados que apontam para o céu. A imagem não é das mais bonitas, mas o equilíbrio vem com as araucárias verdinhas e lotadas de pinhões que, com dedos aveludados, também assinalam para o firmamento. Agora uma outra espécie me chama a atenção, uma árvore altiva e com folhas em formato de estrelas, estrelas que, avermelhadas repudiam a friagem daquelas ruas.

Logo na entrada um comércio humilde de malhas e sapatos.

_ Ué” Ouvi falar que aqui é tudo tão caro, tão chique, que só dá gente rica... cadê todo mundo?

Não demorou para que as grandes lojas surgissem, montadas somente na temporada de inverno, tinha de tudo, de sapatos finos a super carrões. E os hotéis e pousadas? Um ao lado do outro, um mais bonito que o outro. Todos estilizados, coloridos, com janelinhas lotadas de floreiras e sempre uma chaminé denunciando lareiras, algumas mais aparentes e feitas de pedras, outras absorvidas pelas construções. Mesmo com o frio eu me sentia aquecida.

Quando estacionamos na porta do hotel pude ver a praça principal e percebi que estávamos bem no centro nervoso. Que maravilha! Nada de carro, faríamos tudo a pé. Só foi o tempo de deixarmos as malas, partimos pra rua. Capivari, esse é o nome do lugar badalado da cidade. Naquele fim de tarde fomos às compras, que teimosa consegui esticar até o começo da noite. Entre toucas, luvas e imãs de geladeira, achei um par de botas forradas com pele de carneiro e um pelerine. Pelerine! Eu tive um quando era criança, minha mãe quem costurou _ coisa mais antiga, uma manta de pura lá com aberturas laterais, tipicamente gaúcha, mas, se achei numa daquelas lojas “chiquésimas”, é porque era moda, e mais, comprar uma roupa em Campos era tudo de bom e mais um pouco. Já que os termômetros marcavam quatro graus, eu estrearia meu casaco novo naquela noite, sem esquecer das botas.

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:40:49
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Depois de um jantar, num restaurante dos mais alinhados, regado a vinho e ao lado de uma lareira, o comércio do centro, ainda estava aberto, muita badalação. As maiores redes de televisão e rádio registravam a primeira noite daquele festival. Totalmente alheia eu entrava de loja em loja: bolsas, sapatos, bijous, todo tipo de cachecóis e casacos, tudo tão caro que voltei frustrada para o hotel. Claro! As coisas mais caras são sempre mais bonitas. São? Na verdade nem deveria estar daquela maneira, afinal eu tinha comprado as botas, “o pelerine” e a lareira do meu quarto me esperava, uma lareira só minha, pelo menos naquela noite. Além do mais eu ouviria Mozart no outro dia, um minueto, não podia e nem deveria reclamar de nada.

Na manhã seguinte o sol aquecia as ruas subindo a temperatura, pena! Queria tanto usar novamente a minha roupa e os meus sapatos novos.  Após um café farto e rico, ali tudo é rico, andamos pela cidade vendo obras de arte e conferindo mais uma vez algumas comprinhas.  Finalmente meio dia e meia, hora do concerto. Um povo requintado e bem vestido desfilava pelas ladeiras do Capivari, entre eles o meu olhar se perdia. A impressão que eu tinha é de que estava dentro de um shopping, e dos mais sofisticados. Como na praça não havia mais lugar, optamos por um café, sentamo-nos na varanda do primeiro andar, de lá eu avistava o palco com os músicos e a multidão elegante, via também as marcas das roupas que usavam, tudo grifado nas costas, nas laterais dos tênis ou ainda nas etiquetas exageradas dos jeans.

O certo é que eu não estava ali para ver as roupas e sim para ouvir música. Quando o maestro surgiu falava entre os aplausos que haviam mudado o programa, como o festival estava voltado para os músicos russos, naquela manhã ouviríamos todos os “kovs” possíveis. Meu austríaco ficou de lado. E mais uma surpresa, contariam a história de Pedro e o lobo, ao som de Korsakov. Isso era demais, disneylandia na serra? pura “fantasia”, eu queria Mozart, por que então não mudaram para Villa Lobos ou Carlos Gomes, ora essa! Enfim, estragaram a história e a música. Pelo menos encerraram com Tchaikovsky. Em três tempos chorei o meu minueto, mas pensei em voltar, voltar? Nunca mais no inverno, só voltaria se fosse na primavera, pelo menos eu poderia ver as cerejeiras em flor e participar da festa japonesa. Nessa época do ano a suíça brasileira deve se transformar em japão e certamente muitas lojas especializadas em quimonos estarão espalhadas pela cidade. Antes de ir embora vou dar uma conferida.

Márcia Rodrigues

Escrito por Márcia Rodrigues às 08:40:19
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07/08/2006


Alfredo Volpi _ com bandeirinhas

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:22:07
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Pit-stop de urubu.

 

Esta cidade é cheia de privilégios. Dia desses recebi convite para conhecer a exposição de Volpi (o pintor das bandeirinhas). Inicialmente uma palestra, em seguida aula sobre como fazer tintas com produtos caseiros e logo após a visita monitorada, jantaríamos no restaurante do museu encerrando a noite. Sem dúvida “o acontecimento”!  até pelo local; MAM no Parque do Ibirapuera.

Como o evento coincidiu com uma feira industrial, impossível achar lugar para estacionar, o jeito foi deixar o carro do lado de fora e atravessar o parque à pé.

Ao passar pelo prédio da Bienal pensei em como seria bom caminhar pelas margens do lago, entretanto ele fica no lado oposto. Naquele finalzinho de tarde, onde o sol de escondia orgulhoso, ver os cisnes se recolhendo seria perfeito, mas com aqueles saltos altos, nem pensar. Eu soube que roubaram alguns deles e muitos ovos, mas sobraram oitenta e quatro, todos negros. Meses antes sumiu o macho do único casal de cisnes brancos, pobre fêmea só lhe restou uma transferência. Até hoje não deram solução para os casos, aliás, nem pro do Zoológico, onde os bichos foram assassinados em massa.  Bicho nesta cidade está se tornando um “problema”.

Entre os eventuais atletas vespertinos, eu tentava cortar caminho pelos gramados. Ah! deveria ter vindo de tênis e agasalho!

Estranho, os esportistas me ultrapassavam e não me viam. Claro! as copas fechadas das árvores escureciam as minhas trilhas, mesmo assim eu sentia olhares quentes. Estaria sendo perseguida por alguém? talvez por urubus. Os freqüentadores do parque andam reclamando que fizeram daqui seu dormitório. Judiação! para algum lugar eles têm que fugir e descansar em galhos macios... merecem!. Afinal, são nossos garis voadores. Nada mais justo do que dormir num “quarto” nobre e elegante. Dizem que são atraídos pela fartura de água e comida. Só faltava secarem o lago. Não, não arriscariam uma invasão em massa nas piscinas vizinhas. Dos cachorros “grã-finos” não há reclamação. Também desfilam pelas mãos de madames e play boys que, mesmo carregando a “sacolinha”, não recolhem a “sujeira” que eles deixam pelo caminho. Ainda recriminam os “fedorentos” que sujam as beiradas do lago quando tomam o sol da manhã ao lado dos cisnes.  É, urubu de estimação ninguém quer. Na verdade eles estão é no lugar certo! Aposto que o povo nem sabe o significado da palavra “Ibirapuera” ( pau podre ou madeira apodrecida, por ter sido um terreno alagadiço).  Se bem que tem os que acham que urubu é um bicho de mau agouro, e os gatos pretos? Outros acreditam que eles conseguem comer alimentos estragados porque, após comerem, voam até a camada de ozônio da atmosfera e lá abrem seus bicos, permitindo que o gás em questão destrua as bactérias que infestam os alimentos. Tem urubu que voa e gente que “viaja”.

Mas como explicar as famílias de capivaras que vivem no rio Tiête? Sem falar em alguns jacarés que aparecem vez ou outra, estes acabam no zoológico. Já para as “gordinhas”  deram uma boa solução; com a limpeza do rio, elas estão de mudança para o parque ecológico.

 

 

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:17:26
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Diante da praça das esculturas, eu pensava no roubo dos cisnes. Quem teria roubado os coitadinhos? Migrar, eles não migram, nascem e morrem no mesmo lugar. Será que se rebelaram e pegaram carona da cia. de dança Cisne Negro? Talvez fascinados pela apresentação do quebra-nozes foram

conduzidos a  entrar para o mundo da fantasia, se lá bonecos ganham vida, o que ganhariam eles? Que besteira! agora quem está “viajando” sou eu. Acho que não, deveriam estar cansados dessa vida monótona de nadar, comer e dormir. Quem sabe a fonte, bonita e colorida, esconde duendes? duendes? “embarquei” de vez. Mas ... pensando bem, e se as “assombraçõezinhas”, em alerta e revoltadas com a poluição do lago,  transformaram os cisnes em urubus? Com tantos peixes mortos, só urubu mesmo pra comer.

Diante da porta do MAM, fui recebida pela promotora do evento, antes de entrar dei uma olhada geral para o parque, tão bonito. Pau podre... se não fosse por um maluco que, apaixonado por plantas,  acreditou que o plantio de eucaliptos australianos drenaria o solo eliminando o excesso de umidade, não teríamos tal beleza bem no meio da cidade.

Melhor eu ver a exposição. Do jeito que vai, na saída é bem capaz de eu ter que dar a bandeirada final para uma corrida de cangurus.

Márcia Rodrigues

 

Escrito por Márcia Rodrigues às 09:16:25
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