
Aqui se faz... aqui se...
Há uns meses surgiu, entre os dedos do pé da minha filha, uma verruga plantar. No meu tempo aquilo se chamava olho de peixe. A gente cutucava até conseguir arrancar, mas depois de algum tempo, voltava. É, mas aquele era grande, grande mesmo, tanto que ela já sentia dificuldades para andar. Como hoje em dia tudo é rápido e moderno, uma pequena cirurgia daria fim naquele sofrimento.
Indicado por amiga, marquei consulta com famoso dermatologista de uma cidadezinha com jeito de subúrbio, ao lado da capital.
Quando chegamos, não achava um lugar para parar. Coisa difícil, zona azul lotada e nada de estacionamentos por perto, até que achei um que parecia mais jardim do que parqueamento, cercado por muros branquinhos, além de muitas árvores e o piso todo gramado. À direita um escritório com paredes não acabadas e tijolos expostos que combinavam com as madeiras quase sem pintura das duas janelas e da única porta. Do lado esquerdo, debaixo de uma tenda de lona, a mangueira jorrava água e um homem mal encarado, muito feio e muito alto, lavava um carro. Naquela tarde o sol ardia sem piedade e o tal homem, entendendo a minha dúvida, indicou-me a sombra da maior árvore.
Assim que desci do carro fiquei esperando alguns minutos pelo ticket e o “grandão” continuava seu trabalho sem me dar a mínima importância, que diabos!
_ Moço, boa tarde! Estou esperando pelo ticket.
_ Não precisa, pode levar a chave.
_ Como não precisa? Este estacionamento é coberto por seguro?
_ Dona, o carro que estou lavando é do Juiz Fagundes.
_ E daí? Ele é o “ famoso” quem?
Talvez ele estivesse pensando que eu era da cidade e que conhecia o “excelentíssimo” e, quase fazendo pouco caso, continuava falando:
_ Pode ir sossegada, seu carro vai estar aqui quando voltar.
_ Olha aqui moço, não saio sem o ticket.
Num gesto impaciente ele fechou a torneira e entrou no pequeno escritório. Depois trouxe um papel onde só marcava a placa.
_ Isso é o que o senhor chama de ticket?
Não obtive resposta, meio desapontada pensei em tirar o carro dali, pois tinha certeza de que ia dar merda, mas onde estacionar? até que ouvi minha filha, tentando me acalmar:
_ Mãe, vamos!
Durante a consulta, só pensava no carro que havia abandonado debaixo daquela árvore. Nem o preço perguntei. Provavelmente era uma arapuca e aquele cara deveria ser um ladrão.
Mal começou a cirurgia senti vontade de voltar e conferir se o carro ainda estava lá. Como? Deixar a menina ali? Jamais. Se bem que, com dezenove anos, ela já é uma mulher, pode muito bem se virar sozinha. Melhor ficar e esperar, não deve demorar.
E se eu chegasse com a pobrezinha mancando e meu carro tivesse desaparecido? Como explicar ao meu marido? por mil vezes ele me disse que a seguradora não se responsabiliza por autos roubados
Bem, se um juiz guarda o carro num lugar como aquele é por que deve ter seguro! Seguro? Seguro morreu de velho...
Inesperadamente peguei minha agenda de telefone e marquei no cantinho da letra L (de ladrão) _ Juiz Fagundes. Com esse nome eu poderia fazer um grande barulho. Poderia até não ter meu carro de volta, mas difamaria um homem importante da cidade e graças a mim, jamais chegaria a desembargador. E como colocar o feioso na cadeia? ficaria livre, não tenho como provar que deixei o carro lá. Ai, ai, ai, ai, ai!
Ao longo dos intermináveis minutos entre consulta e microcirurgia quem sofria era eu, suava frio. Finalmente saímos.
O medo invadia meu corpo e um tremor tornava difícil até caminhar, mancava também. Tentei me concentrar e ajudar a Laís que mal sentia o pé. Da porta do estacionamento vi meu carro. Agora o homem feio enxugava mais um automóvel. Seria de outro juiz? Ao invés de alívio, senti um ódio inexplicável. Deveria dar graças a Deus? Deus deve ter outras coisas com que se preocupar, isso eu mesma resolvo. Ah! na verdade queria me vingar pelos minutos de aflição que eu havia passado. Depois de acomodar minha filha...
_ Quanto eu devo?
Sem me olhar, ele respondeu de forma irônica:
_ Se a senhora me der o ticket, dou e preço!
Como se eu fosse tirar uma arma da bolsa, saquei o papel que ele chamava de ticket.
_ Oito reais!
Numa nova tentativa de concretizar a vingança, dei como pagamento uma nota de cinqüenta pensando que ele não teria troco, agora seria a vez de ele sacar a arma. Sem demonstrar nenhuma emoção, tirou do bolso um maço de notas e me deu o troco _ maldito!
Então me afastei, amaldiçoado o cara. Ao me aproximar do carro, senti um jato quente no meu ombro, jato pastoso e tão intenso que espirrou na minha orelha, escorreu pelo pescoço e invadiu o decote da blusa. Por um instante pensei que fosse raiva se expandindo mas... e não é que deu merda? Num lugar com tantas árvores, pombos, pombos e pombos...
Castigo! Era castigo! A descarga foi tão poderosa que eu não tinha como me limpar, sentia vontade de chorar. Tal qual minha filha, o homem feio também ria de mim, no entanto, ele correu ao meu encontro e já chegou me limpando com os panos encardidos e úmidos do seu trabalho. Confesso! O mal encarado tinha a delicadeza instalada em suas mãos e senti a mesma suavidade com que ele lavava e enxugava os carros. Talvez estivesse errada, ele não poderia ser ladrão. Mesmo feio e mal encarado parecia um cavalheiro, não foi indiferente ao meu incomodo, uma vez que, em segundos, deu um jeito na minha blusa. Sem graça, eu não sabia se agradecia ou repudiava a gentileza. Afinal ele poderia estar tirando proveito da situação. Nada falei, com um sorriso desbotado saí pensando que “aqui se faz, aqui se caga”, porém, pensei também no dia em que voltaria para fazer o curativo. Por certo eu acharia um meio de retribuir o sofrimento pelo qual havia passado. Quando cheguei em casa peguei minha agenda riscando o nome do juiz da letra “L” de ladrão e transferindo-o para a letra”T” de tarado.
Aquele homem feio nunca mais abusaria de mim. Ele que se cuide, pois achei uma maneira de colocá-lo na cadeia.
Márcia Rodrigues


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