

Diagnóstico
De olhos baixos eu folheava as páginas secas de uma revista, ao meu redor as pessoas não tiravam os olhos do painel, esperavam ser chamadas pelos números das senhas. Meu marido tinha a de número 256, o número 256 o levaria ao teste de labirinto.
No entra e sai da sala de espera todos tinham a mesma expressão de silêncio e preocupação. Estariam doentes? Claro! Estávamos num laboratório.
Toda vez que eu erguia os olhos podia ver, decorando os sofás da recepção, a troca constante dos rostos e de cada um deles tentava adivinhar a suposta doença. Em meio às adivinhações meu olhar se perdia na lanchonete que se emendava à recepção, um ponto saudável onde as pessoas famintas pareciam devorar as pequenas prateleiras com bolachas. A única coisa que me despertava e ao mesmo tempo me torturava, era o aroma forte do café. Que vontade de dar uns tragos, mas... quase todos chegam em jejum, não diferente de mim que jejuava o cigarro. No entanto havia me comprometido a acompanhar meu marido e fumar... nem pensar!
Numa das poltronas, bem na minha frente, um senhor com as pernas cruzadas dava a impressão de querer se esconder, de tão magro parecia ter os ossos empilhados debaixo das roupas. Seus olhos fechados (quem sabe sentisse dor? cansaço?), misturavam-se a grandes sardas que pintavam seu rosto estreito e envelhecido, sua pele fininha, fininha _ brilhava, no nariz torto e pontudo, faltava um pedaço, coitado! Ele tinha cara de ex-fumante, senti vontade de acariciá-lo. Besteira! Preciso mesmo é parar de fumar! Já faz um ano que Carlos largou e tem me cobrado tanto!
Entre o jardim (onde pedras brancas substituíam o gramado), e as escadarias, um menino de andar distorcido e de óculos com lentes muito grossas corria e tropeçava nas plantas, orgulhoso e cuidadoso seu pai o seguia como se fosse uma vitória vê-lo solto daquela maneira, tanto que sem saber nada sobre o pequeno, eu também me senti vitoriosa. Teria a mãe fumado durante a gravidez?
Quando subimos ao primeiro andar, onde meu marido faria os exames, encontrei novamente o senhor sem parte do nariz. Judiação! Já não bastava “aquela doença”, agora labirintite? Dessa vez procurei um lugar distante dele. Da série de testes que Carlos precisava fazer acompanhei-o em quase todos, no último fui dispensada _ meia hora de espera _ Graças a Deus! Não agüentava mais e desci para fumar. Ao passar pela recepção, dei falta daquele senhor. Ainda bem! O que os olhos não vêem... porém meu coração estava sentido.
Na porta de entrada um banco e um cinzeiro indicavam o “fumódromo”. Uma senhorinha simpática ocupava uma das pontas do banco. Não querendo perturbá-la me sentei perto do cinzeiro. Será que a incomodaria? Não, o movimento de carros era intenso e monóxido de carbono não faltava ali, não seria a minha “fumacinha” que... só eu mesmo pra querer fumar num lugar como aquele, tanta gente doente, mesmo assim, acendi o cigarro. No maço li: “O Ministério da Saúde adverte: fumar causa câncer de boca e perda dos dentes”. O que será que causa no nariz?
Na primeira tragada senti um cutucão na perna. Pronto! vou tomar uma bronca, que vício maldito, sobrou pra mim, todavia... a velhinha simpática sorria:
_ Bom dia!
Não sabia se soltava a fumaça, se respondia ou engolia, talvez se eu me engasgasse ela não faria a reclamação. Quem sabe ela só me daria um desses conselhos chatos? Respondi:
_ Bom dia!
_ Você poderia me dar um cigarro?
Sem ação ri e abri a bolsa, enquanto ela disparava:
_ Tenho asma, problema no coração e agora estou com labirintite. Pode uma coisa dessas? Meu marido, que tem saúde de ferro, proibiu-me de fumar, mas estou maluca para dar uns tragos. Vou guardar viu? Assim que ele me deixar em casa e sair pra trabalhar, ele trabalha muito, é motorista, aí aproveito, faço um café bem forte e...
Quando estiquei a mão com o cigarro:
_ Esconde, esconde, meu marido vem vindo.
Olhei a nossa volta e não vi ninguém, só um táxi se aproximava. Num gesto ligeiro ela jogou sobre o cigarro a blusa que carregava nas costas e o laçou.
Assim que o táxi parou diante de nós notei ao volante o homem de rosto estreito e sem parte do nariz, era o marido dela. Depois de me agradecer e me desejar boa sorte ela entrou no carro, tão rapidamente que nem deu tempo para eu perguntar sobre a deficiência do seu companheiro, então, tragada após tragada pensei e sorri:
“o homem de rosto fino e pele brilhante é de natureza magra e deve ter perdido parte do nariz num acidente de automóvel”.
Márcia Rodrigues
Só por milagre Todo mundo sabe que eu tenho fixação por santos, embora não seja uma mulher religiosa, na verdade sou maluca por esculturas. Já que não posso ter um “aleijadinho”, contento-me com cópias bem ou mal feitas. No meu altar tem de tudo um pouco, do São Francisco de pano à Pietá de barro, sem falar nos anjos de gesso e plástico que tocam liras, trombetas e violinos. Mas as nossas senhoras, em tamanhos variados e materiais diferentes, são as que mais gosto. Desde a semana passada uma delas tem roubado a minha atenção _ Nossa Senhora de Nazaré. Um amigo do meu marido, que mora em Belém do Pará, fez questão de me presentear com uma imagem que fez parte das comemorações do círio, ou seja, mais que abençoada, dormiu na igreja. Além de ter comprado um manto avulso que foi bordado por mulheres devotas, lindo, todo de lantejoulas. E mais, preocupado, talvez com a minha falta de fé, enviou-me também um livreto com as orações da santíssima. Hoje ela é a santa mais bonita do meu altar. Na quarta-feira que antecedia o feriado de N.Sra. Aparecida, meu marido chegou em casa mais cedo e de cara amarrada, ele não anda muito bem, sem saber o que o afligia perguntei: _ Tudo bem amor? _ Nada bem, a senhora novamente estourou a conta do banco e dessa vez não vou cobrir. Nem respondi, melhor ficar quieta, tinha estourado mesmo e só ia contar depois de paparicá-lo muito, merda, não deu certo, ele tirou extrato antes... O que fazer para dobrá-lo? Eu havia jogado na mega-sena. Será que ganhei? Nem precisava ser o premio total, a quina estaria de bom tamanho, pois daria pra cobrir o prejuízo. Que prejuízo? É, mas como o final de semana seria prolongado, eu tinha que dar um jeito naquela situação, agüentar cara feia?... Bem, o dia seguinte seria consagrado à uma santa e milagres acontecem! Por que não juntar todas e pedir por uma graça? Será que se eu rezar com fé elas conseguiriam mudar o humor do meu marido? Não custa tentar, vou aproveitar e acender uma vela. Com a proteção do Cristo amarelo de Gauguin, que tenho na parede, enfileirei as santas. Um cristo importado, tudo para agradá-las. Mesmo sendo véspera do dia da padroeira, resolvi colocar em destaque, bem no centro, a senhora do norte, tão bonitona com seu manto brilhante! Do altar fui retirando um a um, um a um dos santos homens: o das causas imediatas, o das impossíveis, o que abençoa a minha empregada, o casamenteiro, o das causas desesperadas... até meu queridinho protetor futebolístico. Todos abaixo do altar mor. Se elas falharem... Só faltava escolher a vela, entre as de rosas, alecrins e violetas, duas menores: “Vela surpresa _ quando queima aparece uma imagem de um anjo ou santo”. Ah! Não precisava mais nada, agora era só rezar. Depois de optar por uma das orações do livreto... :
_ Ó Virgem piedosíssima / Senhora De Nazaré / a Vós recorro eu pobre pecadora /nesta hora de tribulação e de angústia/ pedindo confiadamente amparo e proteção... _ Márciaaaaaaaaa! Não tem jantar nessa casa? Ai! Demorou. Quatro dias assim... não vou suportar. _ Vede a minha necessidade, ó Maria! _ Já estou indoooooooo! _ Anda logo, estou morrendo de fome. “Não tem jeito, tenho que parar de rezar minha santa, mas vou ficar esperta para ver qual imagem aparecerá na fumaça e apelar a ela”. Pra dominar esse mau humor, só se for um anjão bem forte (Lúcifer foi anjo, ai, ai, ai!). Ente as reclamações do meu marido e uma refogada, eu corria para apagar a vela, em vão tentava decifrar qual era o bendito do santo, anjo, santa, sei lá. Nada!... Nada!... Nada!... A maldita da fumaça se perdia no ar. Depois de quatro ou cinco tentativas, desisti, nem com reza brava eu amansaria a fera. Melhor servir o jantar. Minha última esperança era saber o resultado da loteria. Que nada! Pro meu azar acumulou. Com raiva fui me deitar e nem apaguei a vela. No feriado ignorei o altar e seus ocupantes. O dia foi em casa, longo e lotado de mau humor conjugal. É , mas na sexta-feira... achei por bem recolocar cada um em seu lugar. Enquanto subia os santos homens blasfemava: _ Bando de inconseqüentes, sabe o que vou fazer com vocês? Vão ficar todos olhando pra parede. E você Cristo? Cristo amarelo... sei. Nem conseguiu agradar as santas. Vou te pintar de cor-de-rosa, vai ver! De castigo virei um a um, até as nossas senhoras. Quando a virgem de Nazaré me deu as costas pensei: _ Nem adianta vir com essa carinha de boazinha, toda metida com esse mantinho “purpurinado”, nem me ajudou, de costas também, anda! _ E você vela? não me serviu de nada, vai pro lixo! Vela surpresa, fumacinha, santinho... tudo enganação. Pensa que sou trouxa? Mas ao removê-la do castiçal, vi mergulhada na parafina derretida uma pequena imagem de ferro _ Nossa Senhora Aparecida. Não é que falava a verdade mesmo? A surpresa era uma imagem de fato. Quem manda ser besta? Com cuidado retirei a santinha, esse era o sinal, por isso ela não me ajudou. Será que nossa senhora ficou zangada por eu ter oferecido minhas rezas e meus pensamentos pra sua rival do norte? Ou não teria gostado do Cristo Amarelo? Não... se bem que ela é 100% nacional. Prontamente virei todos os santos de frente _ Ah! Minha santa Maria mãe de Deus _ dobrei os joelhos e perdi perdão: _ Seu dia já passou, mas como a mega-sena acumulou e ainda faltam três dias pro meu marido voltar a trabalhar e me dar sossego, rendo todas as minhas orações para a senhora e prometo que, amanhã na primeira hora, vou procurar um Cristo nacional, claro, só depois de ter feito uma “fezinha” na lotérica. Amém! Márcia Rodrigues

Ali “babaca” e um ladrão
Cobrir o rodízio dos carros dos meus filhos já virou rotina na minha vida, assim como encher o tanques, toda vez estão a zero de gasolina. A culpa é minha? Claro, sempre permiti que eles fizessem comigo o que bem entendessem; coisa de mãe. Estranho! Não deveria, pois são adultos e independentes e eu continuo a cobri-los de paparicos.
Como é época de eleições, ando ligada, em total alerta, e foi assim que comecei a prestar mais atenção no modo das pessoas nos ludibriarem.
Então institui que não mais emprestaria meu carro se os deles não tivessem pelo menos com um quarto de combustível.
Ontem era o rodízio do carro da minha filha e acordei com ela:
_ Mãe, mãe, a chave do meu carro está na sala e tem lá R$40,00 para você colocar de gasolina.
E não é que deu certo?
_ Pode deixar filha!
Ainda bem que ela me chamou, precisava mesmo levantar cedo, tanta coisa pra fazer...
Quando cheguei à garagem “torci o nariz”, de preto o carro estava marrom de tão sujo, se não é uma coisa é outra. Mas, fazer o que? Não vou mandar lavar. Pelo menos ela deixou dinheiro pra colocar combustível, aposto que deve estar no talo. E estava, menos de um quarto. Um dia eles vão aprender. Antes de qualquer coisa vou passar no posto.
Diante da bomba entreguei ao frentista o dinheiro, a chave e falei:
_ Por favor, R$ 40,00 de gasolina comum. Você pode ver o nível do óleo e da água? Ah! Também gostaria que calibrasse os pneus.
Quanto tempo para uma lavagem rápida? Eu não aprendo, além do que detesto postos de gasolina.
Enquanto abastecia, fiz as contas: 40 por 2,39, quase
_ Pronto, a senhora pode descer um pouco? se chegar alguém a bomba estará livre.
Ao ligar o carro destravei o capô e olhei o marcador. Nem meio tanque? Esquisito! Senti vontade de descer e olhar a bomba, não, pra quê? devo ter feito a conta errada. Quando ele puxou o capô abriu uma fresta entre o motor e o painel, agora de dentro do carro podia ver o serviço sendo feito. Porém... ao invés de medir o óleo e a água, vi as mãos do frentista esticando o dinheiro que eu havia dado, só que uma das notas, a de 10, ele enrolou como se fosse enfiar num cofrinho. Por isso mandou descer o carro um pouco mais, não queria que eu visse o valor cobrado? Certamente pensou que eu, como mulher, não sairia do carro, claro a tonta aqui até pagou adiantado.
Num pulo saltei do carro e corri na bomba _ R$30,00. A “espertona” havia sido enganada. Burra, idiota! Tudo bem, tudo bem... paguei antes, mas... sei berrar depois e como sei: _ Parado! Não se mexa ou chamo a polícia. O frentista assustado olhava pra mim com o dinheiro nas mãos. _ Chama o gerente, chama o gerente! Agora eu tremia, além de gritar e correr da bomba pro carro e do carro pra bomba. Não poderia deixar ninguém mexer, era a única prova que eu tinha contra aquele larápio. Com a maior cara de pau ele me falou: _ Calma dona, se a senhora quiser eu coloco os 10. _ Se você não colocar... boto você na cadeia! Nisso o gerente se posicionou na minha frente e também me pedia calma, mas eu não parava de gritar. _ Ele me roubou, ele me roubou! O senhor não vai fazer nada? _ Por favor, acalme-se, já estou colocando os R$10,00. Naquele momento eu gostaria de ser homem e dar uns “sopapos” naquele malandro. No entanto mantive a classe e entrei no carro, agora chorando. Não tinha muito o que fazer, talvez o gerente estivesse no rolo. Como eu havia sido ressarcida do meu prejuízo, só me restava ir embora. E murcha, nem calibrei os pneus. Entre lágrimas e ódio, pensava no frentista que, seguramente, perderia o emprego. O que foi que eu fiz por causa de R$10,00? Tantos me roubam muito mais do que isso e eu dou a eles emprego, o meu voto de confiança e ainda ratifico com a tecla “confirma”. No final deste mês vou ter que escolher qual será o ladrão da vez, mas antes disso passo no posto e se ele, o frentista, não tiver sofrido o “impeachment”, ladrão por ladrão, voto nele. Márcia Rodrigues


Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Ipiranga, Mulher, Arte e cultura, livros e música