

Tintim!
Completar bodas de prata hoje em dia é para um grupo de poucos. E eu faço parte desse seleto clube. Em dezembro fiz 25 anos de casada. Mas o que significa casamento? Ora essa, para mim é viver um grande amor, além de ter filhos com seu amado (esse era o meu maior sonho) e ser feliz para sempre. Quando me formei contadora de histórias aprendi que ao terminarmos um conto dizendo: “ e foram felizes para sempre...” , estamos dando ao ouvinte um fio de esperança. Ou uma corda para se enforcar?
Bem, celebrar o fato de estarmos juntos e dividindo nossas vidas por todo esse tempo... é o que interessava no momento. Desde o começo do ano tentei planejar, mas meu digníssimo companheiro, prático e econômico, dizia ser besteira qualquer tipo de comemoração. Mesmo assim pensei numa missa. Logo após receberia os convidados com bolo e champanhe. Simples e barato mas... me foi negado, porque isso implicaria em fazer vestido (adoro vestido de noivas, casaria uma vez por ano só pelo “modelito”), ainda alugar salão, decorar igreja, fazer convites... sem esquecer das benditas alianças com o fio de prata. Por falta de incentivo e grana, desisti. Muito brega esse negócio de aliancinha, vestidinho comportado, benção...
Depois decidi por um churrasco, roupas comuns num ambiente descontraído, só o custo da comida. No fundo eu fazia questão das alianças, entretanto... Churrasco? Ta maluca comemorar bodas de prata com churrasco? Foi o que ouvi. Uma droga mesmo! Tanto que me dediquei, pari, cozinhei, lavei, passei, agüentei todas as “buchas”, que não foram poucas. Só que carne em abundância não combina com bodas, acho que engordei demais. Caramba! se inventasse uma bacalhoada, aí que o bicho iria pegar mesmo.
Já no meio do ano comecei a entender que só eu fazia questão de comemorar esse malfadado casamento.
Mas eu não desistia da comemoração. Em grupo, nem pensar, quem sabe viajar? Uma coisinha de nada, algum lugar pelo interior, sossego, silêncio e muita transa. Transa? Talvez um hotel fazenda “pesque e pague”, a gente passaria a noite na beira do rio, claro que com a vara nas mãos. Até seria um tipo de comemoração, poderíamos competir quem pescaria mais. É, novamente riram de mim. O que eles queriam? Um final de semana em Poços de Caldas? Jamais! entre uma cidade senil e um pesqueiro, fico com os peixes, pois além de comemorarmos, traríamos comida pra casa. A ordem não era economizar? quer melhor do que isso? Haja freezer, abandonei a idéia.
Então planejei “a noitada”: jantar dançante, com troca de alianças e quem sabe uma esticadinha num motel? mas sobreveio nova objeção:
_ E os nossos filhos não vão participar? Não era você que queria tanto ter filhos?
Isso eu tive que ouvir, que coisa, tinha escolhido tudo “meia boca” e ele me vem com quatro bocas? não tinha jeito. Mesmo contrariada, continuei a buscar novas opções;
_ O que você acha de um final de semana na praia pra comemorarmos? Afinal passamos nossa lua de mel à beira mar...
_ Nem pensar! Perto do dia de Iemanjá, muita gente descendo a serra, trânsito, praia cheia e suja, esquece isso.
Desta vez até a santa me atrapalhou. Então dei por encerradas todas as minhas projeções para qualquer tipo de comemoração.
Mas dezembro chegou e com ele a notícia de que ganhamos um jantar no restaurante que mais gosto, Terraço Itália _ nada como ser amigo do dono! mesa para oito pessoas. E eu que queria um jantar a dois... melhor, nada de gastos, daria até para comprar a mais grossa das alianças.
Mais uma vez fui convencida (pra quê alianças grossas? não poderia usar meus anéis?). Quem manda ter como defeito maior gostar de penduricalhos?
Com São Paulo aos meus pés, a música brega dos anos 70 rolava solta e não combinava com o cardápio fino. Bom vinho, boa mesa e excelente vista. Diante dos nossos filhos e um casal de primos que ele também convidou, ergueu o brinde:
_ Um viva a mulher que sempre me acompanhou, que sempre me deu força... que... que... que... que...
Tantos “quês” que eu perdi a conta, depois do brinde/discurso, minha filha colocou a aliança nele. E agora? Caberia a mim um discurso também, sou péssima pra falar
_ E eu brindo às duas melhores trepadas da minha vida que resultaram em vocês meus filhos, tintim!
O espanto foi geral, não foi ele que fez questão da presença de todos? Aos primos é que eu não iria brindar. Além disso, detestei que nossas alianças tivessem sido entregues pelos filhos. Agora é esperar pacientemente pelas bodas de ouro, haja paciência!
Márcia Rodrigues


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