Coisas de uma contadora de histórias


05/03/2007


Edvard Munch _ Morte no quarto

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:37:17
[ ] [ envie esta mensagem ]

Sororoca

 

Enquanto beija-flores se atropelam brigando pelo néctar doce das plantas, um passarinho de peito verde rouba os poucos brotos do pé de arruda e é nesse cenário que começa a minha jornada de trabalho. Naquele dia, “Seu” José, o jardineiro, capinava o pomar escasso. Perto da horta, como se fosse um espantalho, sentada e de braços cruzados, Anunciata mostrava seus dentes novinhos achando graça não sei do que. Talvez por ter sob sua guarda o jardim e a horta, estivesse feliz pelo ajudante que raramente aparece.  Do outro  lado Maria relembra as tristes histórias que ouviu no programa de rádio e sofre, mas não para, dia e noite, embainha todos os tipos de panos com seus pontos de crochê, além de rezar dois “terços” por dia. Já Cida, em sua loucura solitária, gasta o piso do corredor andando sem parar, o que lhe é comum, às vezes canta, outras vezes para e reclama com a roseira a falta das flores e fica nisso o dia todo. Desde que chegou ali lhe deram a responsabilidade de “por” a mesa. Ou lhe foi imposta? Tão bem treinada... nem sabe ver horas, talvez saiba e não queira me contar, mas guiada pelo ponteiro menor é pontual, pouco antes de cada refeição, estica a toalha milimetricamente  e “deita” os pratos e talheres. Diante da porta da capela, Celina gira as rodas de sua cadeira e tem o olhar perdido pela rua de pouco movimento. Sem se incomodar com nada, D. Maria Campos retira do varal a roupa ainda molhada e ignora os gritos da outra Maria que, por um instante, larga o bordado e como um sargento habilitado, critica a retirada dos pregadores. Totalmente alheia, Algonísia, remeda as companheiras e ri de tudo. Em meio a seus dedos escorre a cobertura de chocolate de um pedaço do bolo de cenoura que foi servido no café da manhã. Já passa das nove... e Seu Zé teima pelo jardim.

Assim a vida acontece no fundo do casarão. Indiferente a tudo o quarto da frente guardava a mais velha de todas, D. Lourdes, que, entre a vida e a morte, reclamava não ter ido ao enterro da mãe. Só depois de 50 anos é que se lembrou de chorar, deve estar caducando, também, 98 anos... Há alguns dias recebemos o aviso médico sobre a cessação completa e definitiva da vida dela. O que não acontecia, pois a velha lutava bravamente a favor da vida.

_ Márcia! Corre aqui!

Ao atravessar a casa, parecia não vencer os cômodos, o grito abafado da cozinheira parecia um pedido de socorro. Quando entrei no quarto vi a velha agonizando. Será que chegou a hora? Um frio estranho se misturava aos raios de sol que invadiam as frestas da janela e o anjo negro rondava a cama, em segundos um suspiro profundo calou a voz da pobre e sua camisola tremeu sobre o coração. Parou? Não, ela era tão forte, nenhuma doença lhe abatia, tal qual uma luz ela não se deixava apagar. Novo suspiro, e as flores que estampavam o tecido que cobria o seu corpo tentaram pular para fora, em vão, mais um suspiro, seus olhos entreabertos pararam. Pronto, acabou! No entanto, voltou a respirar. Enquanto Mara massageava o coração, corri para a sala, precisava alcançar o telefone, 192 _ resgate.

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:33:47
[ ] [ envie esta mensagem ]

Naquele instante, mesmo não sentindo os meus pés, tentava fincá-los no chão.  Como se quisesse demonstrar força, dava as informações e me sentia “toda razão”. Meu olhar se dividia, ora na porta do quarto, ora na do corredor do casarão. Com a morte ao meu lado pensava nas outras que estavam no fundo do quintal. Jamais deixaria que elas percebessem o meu medo. Mas a cada dado confirmado, a sombra da morte tentava me intimidar. Por quê? Ela não queria a mim. E se quisesse?  Besteira...

Não tenho como lutar. Sorrateira! chega forte e em silêncio age rapidamente.  Só que sou teimosa e desde o dia em que comecei ali, luto contra ela de todas as maneiras. A cada novo controle declaro guerra, seja no cardápio, no mapa da pressão arterial ou nas novas investidas contra os médicos acomodados do sistema de saúde.  De volta ao quarto pedi a Mara que ficasse com as outras. Antes de sair, num gesto de carinho, ela tentou fechar os olhos da quase defunta, mas, eles insistiam em ficar abertos. Sobre a cabeceira da cama o anjo escuro ria de mim e vigiava a respiração ofegante da moribunda.

_ Pensa que me assusta? Só por que veio no meu primeiro mês de trabalho acha que vai me abater? Não entrego os pontos assim, cuido de vidas, não tenho medo e vou te afrontar e te afastar daqui o mais que eu puder.

E o resgate não chegava. Nisso senti um calafrio nas minhas costas, era ela que, batendo suas asas, assombrava o quarto e espiava pela janela. Certamente estava preocupada, sabia que os para- médicos se aliariam a mim.  Cheia de coragem tinha que enfrentá-la e gritei em pensamento:

_ Agora me dá as costas? Ah! Está com medo! Acho pouco, nossa briga sempre será boa e mais, você que se prepare, vou te desafiar a cada dia.

Depois de uma hora chegaram alegando ter demorado por que a maca havia ficado presa num dos hospitais. Bah! Saúde pública!

Com frieza fizeram algumas perguntas, preencheram um formulário e verificaram a pressão sanguínea da morto-viva, já em retirada me informaram que iriam para o hospital mais próximo. Da janela da ambulância o anjo negro gargalhava me acenando.

_ Pode rir!

Como se fosse um até breve, respondi com um sorriso sarcástico.

Assim que passei o cadeado no portão, voltei ao fundo da casa e na maior naturalidade falei a todos que D. Lourdes tinha ido pro hospital.

Só às dez da noite ela foi vencida, quando fui informada ri e desabafei:

_ Viu como não foi fácil “dona morte”? Você que não volte aqui tão cedo, e quando voltar, posso até não te vencer, mas que vou te dar trabalho... Ah! vou!

Márcia Rodrigues

Escrito por Márcia Rodrigues às 21:32:42
[ ] [ envie esta mensagem ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Ipiranga, Mulher, Arte e cultura, livros e música