
Sufoco
Assim que entramos no boteco percebi a simplicidade do lugar. Com mesas rústicas e quase limpas não havia muito o que pedir, só que... cerveja, desde que gelada, é sempre a mesma, seja o ambiente simples ou sofisticado. Da cadeira eu via o grande freezer de porta transparente esnobando garrafas e latas suadas. Era o suficiente.
Ainda estávamos com a língua travada quando chegaram as primeiras garrafas. Ao redor da mesa, amigos de trabalho. Logo logo as línguas destravariam e todos os assuntos passariam a existir: futebol, mulher, homem, cinema, filosofia e até receitas. Sem falar naqueles que, inspirados por uma dose a mais, sempre relembram e até cantam velhos sambas.
Depois de namorar o colarinho branquinho e cremoso massageando o copo, vem o primeiro gole... A cada outro sinto, na garganta, o carinho do líquido fermentado. Ah!é como estar no deserto e encontrar um oásis. Um gole, dois, três, o copo mal seca e o garçom, sem trégua, renova a pedida. Mais uma, outra e mais uma e mais outra.
No rústico da mesa, várias garrafas amontoavam-se. Das cheias, a transpiração escorria pelo quase limpo. As vazias contrastavam com os copos que suavam gotas geladas.
Após o quinto copo não havia mais papo desinteressante, porém, a bexiga apertada guardava o líquido que não demorou a ser transformado. Meu olhar passeava pelo boteco e não achava indicação nenhuma de banheiro. Agora o trago no cigarro, sempre tão prazeroso entre um gole e outro, provocava enjôos. Tudo por um toalete, aquele xixi de alívio, de paz.
Com o bar cada vez mais lotado, nem sinal do garçom e nenhum de nós sabia onde era o banheiro. Já achando que não mais suportaria, levantei-me e deduzi que só poderia ficar no fim do balcão. Ai, que delícia, achei! Só de pensar que ficaria livre daquele aperto eu me sentia feliz, quase aliviada. Mas, ao entrar no corredor estreito... cinco mulheres e um só box. Se cada uma demorasse 5 minutos, seriam 25 no total, eu não dispunha de tanto tempo. Fora o que ainda gastaria retirando a calcinha e me agachando sem encostar em nada naquele ambiente de total desconforto. Pensava nisso quando vislumbrei, ao lado, a possível solução: o banheiro dos homens, sem fila, porta entreaberta, vazio. Não havia espaço para a timidez. Assim, seguindo meu impulso, entrei determinada.
Enquanto desabotoava a calça ouvia os risos das outras mulheres, elas que me perdoassem, mas não havia outra alternativa. O lugar era tão pequeno que eu não conseguia agachar sem bater a cabeça na porta. Sentar nem pensar, muito sujo. Nem tão sujo, respingado demais eu diria. Homens!
Num esforço extra-racional coloquei os pés quase no limite do vão que separava a porta do chão e fui descendo o corpo devagar. Sem perceber senti o alívio da bexiga esvaziando. A paz já reinava em mim quando uma batida forte na porta estancou o meu alívio.
_ E aí meu irmão, vai demorar muito?
Só faltava essa, um apressadinho. E ele insistia.
_ Como é “meu”?
Naquele instante eu tinha vontade de mandá-lo calar a boca, mas eu estava no lugar errado, embora na hora certa. Quanto mais ele falava, mais piorava a situação. Pensei em engrossar a voz, mas falar o quê? Melhor seria ficar calada e me concentrar. Aos poucos a calma voltou e terminei minha “tarefa”. Graças a Deus! Mas foi quase uma odisséia.
Novamente a batida na porta:
_ Ô meu! Como é que é?
Os risos não eram só femininos, percebi que mais homens esperavam para entrar. E agora? Que situação! Não sabia se segurava a calça, se me enxugava ou chorava.
E pra sair dali? Não tinha outro jeito, eu tinha que sair. Depois de me recompor, ajeitei os cabelos e com um sorriso largo abri a porta e saí imponente, resoluta, vitoriosa.
Um aplauso caloroso e um ÔOOOOOOO, era o que me esperava. Senti que um rubro fosco tomou conta do meu rosto, mas depois do primeiro passo ganhei um abraço e os parabéns de um deles, que num olhar rápido notei ser o mais velho de todos. Agradeci, desta vez com um sorriso meio amarelo e voltei para a mesa, onde mais um copo cheio me aguardava.
Márcia Rodrigues
23.01.2008




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