
Uma cadela de família. Sempre alegando que as crianças me davam muito trabalho, consegui resistir a idéia de termos um cachorro em casa, mas com os filhos criados... foi inevitável. Depois de uma reunião familiar, quando decidimos a compra do tal bichinho, deixei claro que só teríamos um se todos aceitassem minhas condições, afinal eu sabia que os cuidados ficariam por minha conta: - o cachorro seria meu, só meu. - na verdade não seria um cachorro e sim uma cadela, por ser bem mais fácil de educar, pois não é deselegante a ponto de erguer a perna na hora do xixi, além do que, sendo do sexo feminino, a meu ver seria muito mais doce. - deveria ser de raça pequena, mas não muito pequena porque, “delicada” como sou, esmagaria a pobre no primeiro dia , mas só decidiríamos depois de fazermos uma pesquisa sobre o tamanho dos cocos. - a ração seria a melhor (dessas que fazem o cachorro não ter cheiro de cachorro e ainda melhoram o odor das “necessidades”) - o banho seria no pet shop, uma vez por semana (toda vida achei chique aquelas madames preocupadas com a higiene dos bichinhos) - os passeios matinais seriam por conta das crianças, um dia de cada um e mais, a “porcaria” deveria ser recolhida por eles também. - e o mais importante, quando entrasse no cio, nada de “cruzar”, ela nunca seria mãe. Um bando de filhotes sem poder tomar banho por três meses andando pela casa e sujando tudo? nem pensar... Depois de todas as condições aceitas, fomos ao canil. Logo de cara eu me apaixonei por uma cadela da “marca” poodle, branquinha e nanica. Mesmo o canil me garantido de que não cresceria, só o tempo confirmaria isso. Agora era contar com a sorte, pois conheço vários poodles que mais parecem pôneis. Com aquele pequeno ser, peludo e indefeso, no meu colo, pensei no dia em que saí da maternidade e na minha missão de mãe. Igualmente como fiz com os meus filhos, primeira coisa era batizá-la, tinha que criá-la como uma cachorra de família, educada e comportada. E o enxoval? Fomos direto ao pet shop. Como meu marido também era fascinado pela novidade, nem reclamou do valor das compras. Tão logo chegamos em casa, improvisei numa bacia a pia batismal e na presença de todos e de São Francisco de Assis, ela recebeu o nome de Mel. Com um jornal dobrado e a voz firme, logo comecei os primeiros ensinamentos, o xixi, sempre no mesmo local e sobre um jornal. Os anos correram e Mel, a minha cadela, nos seus Até que suportei bastante, foram sete anos e Mel não cruzou nenhuma vez, a não ser com as pernas das visitas, cobertorzinho ou onde conseguisse encostar. E mais uma vez, minha família conseguiu me convencer argumentando que ela era uma “mulher” e, no auge da sua beleza canina, estava nos últimos cios recomendados para emprenhar, tinha que cruzar. Dizem que a idade de um cachorro deve ser multiplicada por três, 3x7, 21, já era hora mesmo. Meu filho fez o papel de cúpido (ou alcoviteiro), arrumando o macho. Seria na casa dele, do futuro namorado, que ela passaria os dias mais “calientes” do seu cio. Peter era o nome do pretendente, pelo menos me pareceu educado, assim que o “acordo nupcial” foi estabelecido e, pensando em cortejar a minha menina, mandou de presente uma bolinha. Astuto! Mas não deixava de ser cachorro, sabe que uma mulher faz tudo por um mimo. Mas eu não me conformava. Que situação desagradável! A minha menina perderia a virgindade sob os olhos de uma pessoa desconhecida e ainda voltaria prenha. Pelo telefone falei com a provável “sogra”. Assim como o “filho”, ela me inspirou confiança e disse que eu poderia ligar todos os dias para saber da minha garotinha e que não me preocupasse, seriam alguns dias somente. Antes de entregá-la resolvi dar-lhe alguns conselhos, pedi que não se esquecesse dos meus ensinamentos, uma mulher que se preza tem que se dar o valor, nunca cacareje e nem muja, honre sua “cadelisse”, nada de ser fácil: dê minha filha, dê mesmo... com classe, mas não esqueça, nunca permita que seu ato seja testemunhado por terceiros, entre quatro paredes você pode tudo. Mais uma coisa, obedeça a dona da casa e seja educada. Com o coração aos pedaços, nem quis vê-la partindo. Não sei por que eu estava tão chocada, pensei nas vantagens, jamais teria que ensiná-la como usar um preservativo, além de economizar em pílulas e ginecologista. A cada ligação eu ficava mais feliz, Mel rosnava e não permitia que Peter se aproximasse dela, até dormiam juntos, mas... nada, nada de nada. Na manhã do quarto dia a quase sogra me ligou pedindo para que fossemos buscar a nossa mocinha, mocinha mesmo, pois na noite anterior, numa tentativa extrema, ela deixou os dois presos na lavanderia e ficou espiando. Mel não consentiu que o ato fosse consumado e fez do Peter um ser apavorado. Será que ela reclamou da bolinha e reivindicou outros presentes? Garota esperta essa. Quando a vi nos braços do meu filho, mais virgem do que nunca, senti que minha missão de mãe estava cumprida. Mel, além de seguir meus conselhos, provou a todos que era realmente uma cachorra de família. Mas... para me garantir, antes que aparecesse outro pretendente, mandei castrar a minha menina. Márcia Rodrigues 02.09.2007


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