Coisas de uma contadora de histórias


21/05/2008


Renoir _ O baile

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:47:33
[ ] [ envie esta mensagem ]

Janelas abertas

Da minha janela vejo muitas janelas, mas com aquele quê de monotonia... Idênticas! E meu olhar escolheu a mais distante. Talvez pensando nos sons, que nunca ouvi, do sino de vento que por ela transparecia. Diferente de todos os que já tinha visto, o sino possuía só um pêndulo. Na ponta, o que empurrava o som era um leque em formato de folha... quem sabe coração? Atrás do vidro, parecia não ter pés. Flutuava! No entanto estava preso por alguma coisa que meus olhos não alcançavam. Mesmo com o vidro abaixado podia vê-lo entre a cortina e a janela. Se bem que parado, estagnado pela falta de ar.

Na mesma direção, outras janelas. Não queria outras, só aquela. Quem se esconderia atrás dela? Que tipo de alma?Nenhuma. A cortina é a alma da janela?  Alma feita de organza?  Tão fina e delicada!...  Quando um pequeno vão se abre ela escapa, enroscada no pêndulo, acena!  Longe, muito longe de mim. Só conseguia sentir nos olhos a sua maciez. Impossível tocar. Não sei dizer se gosto mais da janela ou do sino protegido pela alma de pano.

Assim que o dia amanhecia “seu som” me chamava, mesmo distante. Cada um em sua janela...  conversávamos. Às vezes o vidro parecia sujo. Escondia o que realmente existia por detrás dele. Eu estava cheia de verdades... Ele?...  Aos poucos fomos nos conhecendo e  nossos desejos e segredos afloraram. E os sonhos... ainda que sonhos, com um fio de realidade. No começo tudo ia devagar, era preciso estabelecer confiança. E nunca exigimos nada um do outro, contamos com a naturalidade. Cobranças? Ali não cabiam.

Agora o meu dia não era mais o mesmo. Juntos cumpríamos a tarefa de viver, cada um na sua realidade, cada um na sua janela.  Tal qual pintores desenhávamos, nos vidros, palavras em branco e preto e depois acrescentávamos as cores que mais gostávamos. Sempre somando! Sempre sonhando!  A “conversa” começava com tons pastéis e às vezes eu exagerava nas matizes. Culpa da minha ansiedade. Louca! Queria contar tudo, atropelava as palavras. Pacientemente, ele ouvia e eu percebia seus sorrisos. Assim, entre cores e formas harmoniosas, ele me conduzia a um grande mosaico.

Em alguns dias as pinceladas eram impressionistas, curtas e feitas à luz. Em outros, nevoeiros quase românticos. Também gostava das barrocas, cheias de significados. Mas as expressionistas eram as mais freqüentes. Juntos, montamos galerias.   Embora as molduras fossem frias, cada obra tinha um pouco das cores quentes de nós dois.

Por vezes esquecíamos dos pincéis, o relógio parava e entrávamos noite adentro ouvindo músicas antigas. Com isso fui aceitando o que não conhecia, sofri pequenas modificações e me moldei aos sons.

No entanto a distância era inevitável. Haveria um modo de encurtá-la? Provável...  Com medo de “quem sabe um dia”... sequer arrisquei perguntar.

Nas manhãs em que a janela teimava em ficar fechada, uma saudade dolorida encostava-se às minhas cortinas. Então, passava o dia refazendo as conversas acontecidas. Analisando cada cor. Talvez estivéssemos na fase azul, eu queria cor-de-rosa. Sabia que cada uma delas significava alguma coisa. Não só para mim, para ele também, pois toda vez que voltava, chegava “retocando” palavras já escritas.

E se resolvessem tirá-lo? Jogariam fora ou deixariam na porta para que alguém o levasse? Será que nunca pensou em fugir? Improvável!...

Ah! Se tivesse a sorte de encontrá-lo...  Com certeza ele vai me reconhecer e concordar que eu o traga para minha janela.  Mas está tão acostumado lá, pode sentir saudade da suavidade das cortinas de organza... as minhas  são rústicas.  Porém ele conhece cada fio dos meus desenhos, mesmo quando são abstratos. Será que vai se dar bem com as minhas ventanias? E se ao tentarmos nos misturar o mosaico ficar disforme? Pior se eu for só mais um desses esboços banais esquecidos em uma parede qualquer.  Tantas janelas por aí...

Nada disso vai acontecer. Melhor aproveitar. Com sorte nossa obra poderá ser concluída em algum lugar do mundo.

Bom mesmo seria se um dia eu pudesse tocar no leque que arrasta os meus ventos.

Márcia Rodrigues

15.06.05

Escrito por Márcia Rodrigues às 20:43:44
[ ] [ envie esta mensagem ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Ipiranga, Mulher, Arte e cultura, livros e música